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By Bruce Eckel

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A família tradicional prevaleceu ao longo de séculos, apesar da existência de outros tipos de núcleo familiar. As críticas quanto à sua natureza são um facto e as ameaças à sua continuidade consideradas uma probabilidade plausível. Para os que defendem o regresso ao passado, a família conjugal constitui um perigo pois consideram necessário voltar a fortalecer e a conservar os traços da família tradicional sob perda de desestruturação social. Para os que abraçam a ideia de transformação na família, o tipo da família predominante, conjugal, pode ser fator limitador deste processo de mudança.

Outras opiniões, que nos parece de salientar, em sentido diverso, fazem valer os seus argumentos defendendo que a estrutura familiar não capitula precisamente porque a família, apesar de fragmentada, reduzida e alterada continua a conseguir exercer os mecanismos de controlo necessários, continuando a ter um papel determinante no controlo social, apesar da alteração de diversos papéis e relações fundamentais, principalmente no que respeita à figura parental. O pai da pequena família conjugal continua a ter grande poder e a ter influência no processo socializador dos outros membros. Todavia, a ausência frequente do lar retira-lhe, em parte, o seu papel orientador o que se reflete, a posteriori, nos filhos e na própria sociedade pois despaternaliza a figura paterna e favorece a evidência da figura materna. Uma tendência orientadora e reguladora da família prefigura-se, cada vez mais, em personalidades monorientadas, o que constitui uma carência enorme ao nível da identificação sexual e é causa de desequilíbrios e de crises. Os ‘desvios’ à norma continuam a ser objeto de ostracismo e preconceito, como a questão da homossexualidade, difícil de aceitar, apesar de mais tolerada, o que coloca outros desafios que decorrem da ausência de apoio a estas situações consideradas ‘desviantes’ por vários setores da sociedade, sobretudo se dominados pelo pensamento conservador.

160 A questão que se coloca relativamente à necessidade de autoritarismo e regras rígidas no seio da família conjugal, monoparental ou outra, continua por resolver pois se a família constitui o pilar da sociedade (Proudhon) e os seus equilíbrios são periclitantes, vai afetar toda a sua estrutura ou estruturas adjacentes, passando pela igreja, pela escola, pela entidade patronal, chegando ao Estado. O declínio da imagem do pai defendido por Lacan, consequência do progresso social, pressupõe a ausência de mecanismos reguladores de controlo individual que se podem repercutir na conduta grupal e social. Neste contexto pode prefigurar-se menor submissão e obediência das crianças que, segundo a opinião de Ana Maria Portugal, “(…) são, (…) ruidosas, agitadas, querem e demandam sem parar o que é incessantemente oferecido nos meios de comunicação.” (Portugal, 2003:84)

A ausência da figura paterna pode, nesta ótica, influenciar a formação da personalidade das crianças e conduzir a práticas sociais pouco ortodoxas. A perda do sentido dos limites causada pela ausência do papel regulador do pai pode conduzir a comportamentos sociais desregulados, como acontece em alguns dos filmes que vamos analisar.

O mundo atual exige novos procedimentos e tentativas de organização social a que a família tem procurado corresponder, muito embora se reconheçam dificuldades e constrangimentos neste sentido. A concessão de iguais direitos e oportunidades às mulheres, a partilha das tarefas domésticas tem sido uma dura batalha e uma conquista lenta que ainda se prefigura. A segregação de sexos constitui, mesmo na atualidade, uma realidade quando se profissionalizam as tarefas domésticas, pertença do património herdado e adquirido do género feminino, por duas razões: porque os profissionais desta área continuam a ser, sobretudo mulheres e porque se delegam tarefas domésticas a particulares ou empresas em vez de serem partilhadas pelos membros da família.

O ano de 1994 foi designado pelas Nações Unidas como o Ano Internacional da Família, que elegeu o dia 15 de maio como o Dia da Família e definiu família como uma pequena democracia no seio da sociedade.

Segundo os princípios do “Plano de Acção da CAIF (Comissão para o Ano Internacional da Família 1992 - 1994)”, à família compete a educação dos filhos e a concertação dos afetos; à educação a transmissão, com sucesso, de saberes e competências com vista a uma melhor integração no mercado de trabalho; à sociedade auxiliar na minimização de conflitos geracionais. Esta Comissão sustenta que a família constitui uma unidade básica da sociedade, digna de uma atenção particular, com direitos, entre os quais, o

161 de habitação condigna. As liberdades e direitos fundamentais da instituição familiar devem ser pensados em função do todo que a constitui e de cada um dos seus membros de forma individual. Num passo dianteiro, esta comissão promove o direito à igualdade de género no seio da família.

A partir de 1994, têm-se criado novos mecanismos de proteção à família, bem como estruturas, orientações e estratégias destinadas à sua sustentabilidade, procurando-se traçar caminhos para a sua sobrevivência e fortalecimento. Uma das obras que preconizam um caminho a trilhar como seguro, no redimensionamento da família intitula-se Eu, o Casal e a Família, de autoria de François de Singly, de que falaremos mais adiante.

A globalização e a política neoliberalista, o mercado livre, sem fronteiras, a busca da riqueza sem instrumentos reguladores, ultrapassando os direitos dos cidadãos têm contribuído para o desmoronamento dos princípios e valores que suportam a civilização ocidental que, embora pertença ao ser humano, são desvirtuados ou ultrapassados por uma numerologia humana esvaziada de princípios e valores, suportada no interesse mesquinho do poder económico instalado. Torna-se urgente conter a investida do individualismo levado ao extremo que favorece uma distribuição da riqueza desigual e segregadora. As disfunções, desagregações e desconstruções que têm vindo a devastar a estrutura social contemporânea têm encontrado eco, na família, mormente na família nuclear, gerando insegurança e perplexidade no ser humano que nelas interage. Os outros núcleos familiares, cada vez mais numerosos enfrentam similares constrangimentos.

Hoje, a família é confrontada com inúmeras exigências desde a busca de uma comunicação mais alargada, organização mais flexível, menor satisfação individual, melhor interação, maior aptidão na definição das suas próprias regras que, de acordo com o pensamento de Hinojal,

Quase todas as posições críticas (…) coincidem com uma série de exigências acerca da família e do matrimónio, (…); busca-se: uma organização mais ampla (…), mais rica em interação, redução do constrangimento pessoal e capacidade para definir suas próprias normas nas novas situações. (Hinojal, 1979:98)

A par destas necessidades e exigências que salientam as características de uma organização grupal em crise, embora imbuída de uma certa autonomia e independência,

162 porque composta por adultos livres e emancipados, à família assiste uma preponderância que a coloca num lugar privilegiado da relação comunicacional, o que a elege, pela própria natureza como “um dos mais eficazes mecanismos de controlo social, desempenhando principalmente esta função a nível interno.” (op.cit.,101), fundamentalmente no que respeita à propriedade e a atividade sexual, mas também enquanto reguladora de comportamentos. A família influencia a formação da personalidade desde a infância e tem uma quota-parte de responsabilidade na sua orientação em sociedade. A família dos dias de hoje confronta-se com uma realidade assente na dualidade controlo/liberdade, cabendo ao(s) progenitor(es) uma tarefa gigantesca, uma vez que a religião, outro mecanismo interno de controlo, deixou de exercer uma influência decisiva na orientação e controlo dos costumes e na disseminação de princípios.

A liberdade sexual dos jovens e a libertação da mulher, cada vez mais uma realidade, são consideradas, por muitos, como desreguladoras da família e da sociedade, causando graves danos e colocando em risco a própria estrutura social. Por consequência, torna-se uma prioridade o controlo do comportamento dos cidadãos, quer em termos individuais, quer coletivos, receosos das consequências das metamorfoses vertiginosas que atravessam o tecido social, uma vez que as normas de comportamento tendem a enfraquecer ou, pelo menos, a ser mais flexíveis. Os agentes de controlo são pouco eficazes e a tendência para comportamentos ‘desviantes’ aumenta.

Um outro aspeto a referir prende-se com a orientação para a produção com destino ao consumo em função de uma sociedade despesista e superficial em tudo oposta à realização pessoal e à renovação cultural e ao equilíbrio familiar, na medida em que esta orientação relega para segundo plano a relação afetiva, colocando como prioridade uma necessidade consumista desprovida de carga afetiva. Em oposição, surge a urgência de difundir e incrementar valores que reponham o primado da relação humana em oposição à frieza dos bens de consumo e da relação insensibilizadora homem/máquina ou da sua ligação desestruturante da comunicação afetiva e da comunicabilidade relacional.

As situações enunciadas colocam a família numa situação de vulnerabilidade que pode afetar o coletivo e o indivíduo, pelo que a instituição familiar, na atualidade, necessita, com urgência, de uma readaptação consubstanciada em formas de organização social assentes numa maior flexibilidade, comunicação e inter-relação e menor constrangimento entre os indivíduos que se devem munir de melhores capacidades com vista a definir normas de

163 conduta, valores e comportamentos no sentido de repor equilíbrios perdidos ou pauperizados. Essa restituição passa pelo estreitamento nas relações informais e espontâneas dentro e fora do circuito familiar facilitador de um redimensionamento da família assente em relações abertas, democráticas e partilhadas em que a consciência de identidade individual contribui para o desempenho da sua função primordial: garantir a sustentabilidade e sobrevivência da família suportada na realização pessoal e no respeito pela realização do ‘Outro’.

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