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A investigação acerca de aspetos da infância foi, durante várias décadas tendo como modelo e recorrendo à voz do adulto, sobretudo pais e professores/as, para a obtenção de informação relacionada com as experiências diárias da criança. Em termos de investigação, a criança parecia assim, ter sido colocada fora do seu próprio mundo do adulto e da possibilidade de participar do seu estudo, devido às constantes dúvidas e preocupações respeitantes às suas capacidades cognitivas e sociais para processar e responder a questões acerca de comportamentos, perceções, opiniões e crenças (Oliveira-Formosinho, 2008).

A evolução das perspetivas acerca do tipo de envolvimento e participação da criança em investigações deverá ser compreendida a partir das transformações em relação às conceções acerca da mesma e do seu desenvolvimento.

Christensen e Pront (2002) reconheceram quatro perspetivas acerca da visibilidade da criança na investigação. As perspetivas confinam na diferença entre ver as crianças como objetos, como sujeitos, como atores sociais e, finalmente, como participantes. As duas primeiras descuram a imagem da criança como ator social, evidenciando a dependência e a incompetência da criança, sendo a sua vida analisada a partir do olhar do adulto. As duas últimas perspetivas olham as crianças como atores sociais com voz e ação, integradas nos processos de investigação onde participam e colaboram os adultos.

Dahlberg, Moss e Pence (1999) consideram a criança como participante ativa co construtora de conhecimento, identidade e cultura. “A criança é, assim possuidora de uma voz própria, que deverá ser seriamente tida em conta, envolvendo-a num diálogo democrático e na tomada de decisão” (Oliveira-Formosinho, 2008, p.16).

Partindo deste princípio a abordagem de mosaico de Clark e Moss (2001) tem como influencia a pedagogia de participação em que o objetivo é promover o envolvimento da criança na experiência e na construção de aprendizagens.

Esta metodologia de investigação consiste em escutar crianças pequenas, conciliando informações recolhidas através de ferramentas verbais e visuais, que permitem compreender as perspetivas das crianças em relação a determinados assuntos.

Clark e Moss (2005) estabelecem cinco caraterísticas desta abordagem a saber: - Multimétodo: combina diferentes métodos que, de certa forma, nos ajudam a reconhecer as diferentes linguagens e vozes das crianças. Combina o verbal com o visual, valorizando as brincadeiras, as ações e reações e as formas simbólicas, tais como desenhos e fotografias, permitindo, portanto, que se escute a criança de diferentes formas;

- Participativa: as crianças são encaradas como agentes sociais ativos na sua própria vida. Reconhece as competências das crianças, ouvindo-as, ou seja, privilegia o escutar as crianças;

- Reflexiva: permite que adultos e crianças pensem sobre um conjunto de significados, dado que, o que por vezes um adulto acha significado para uma determinada criança na realidade não o é. Incide em quatro etapas elementares – ouvir, observar, documentar e interpretar – incluindo as crianças, pais e educadores/as. É integrada na prática, uma vez que deseja que as opiniões das crianças sirvam de base para o trabalho dos/das educadores/as;

- Adaptável: é uma metodologia de investigação bastante flexível permitindo

que os profissionais adaptem ao seu grupo de crianças e ao contexto onde estão inseridas.

- Incorporada na prática: este tipo de investigação não tem de ser efetuada numa dimensão paralela ao quotidiano do grupo de crianças, muito pelo contrário, pode ser integrada na sua prática educativa, ou seja, pretende que as opiniões das crianças sirvam de base para o trabalho dos/das educadores/as.

Considerando a abordagem de mosaico um multi-método, importa referir a existência de oito métodos que se podem aplicar na prática.

- Utilização de máquinas fotográficas/ câmaras – As fotografias são uma ferramenta importante, usada para dar oportunidade à criança de documentar as suas experiências ou algo que considere importante tendo em conta a sua intenção.

- Circuitos/ Passeios – consistem na exploração da instituição através de um circuito guiado pelas próprias crianças e onde efetuam diversos registos (fotografias, desenhos, etc,);

- Mapas – servem para efetuar registos de informações fornecidas pelas crianças nos passeios. São uma representação dos circuitos onde poderá estar incluído todo o tipo de registos desde desenhos, comentários escritos e fotografias. Esta é uma etapa onde as crianças e adultos são confrontados com os primeiros dados recolhidos.

- Conferências/ Reuniões – consiste numa conversa realizada em grande grupo, em que as crianças partilham as suas opiniões e o adulto escuta-as. Interessa ouvir a criança e não em procurar, seguidamente, respostas para as suas questões de investigação;

- Dramatizações – é utilizada particularmente em crianças de idade inferior a dois anos e apoia-se na representação com um conjunto de elementos de figuras de jogo e outros equipamentos, que permitam às crianças uma outra forma de expressão;

- Observação e Documentação – dizem respeito aos registos das conceções das crianças e à observação qualitativa dos acontecimentos

- Entrevistas/ Conversas – são realizadas não só com as crianças, mas também com os pais/encarregados de educação e alguns elementos da comunidade educativa (educadores e auxiliares), onde se pretende conhecer as perspetivas das crianças;

- Manta Mágica/ Tapete Mágico – é o momento de observação e reflexão sobre os momentos mais marcantes recolhidos durante esta investigação.

Segundo Oliveira-Formosinho (2011), esta pedagogia centra-se em quatro eixos pedagógicos importantes. Em primeiro lugar, o ser/estar, que remete para uma pedagogia onde surgem aprendizagens das semelhanças e diferenças desde o nascimento. O segundo eixo é a pertença/participação, que leva a uma pedagogia de laços em que o reconhecimento da pertença à família á alargado, progressivamente, à comunidade local e à sua cultura. O terceiro é o eixo das linguagens/comunicação, que invoca uma pedagogia cuja intencionalidade é a do fazer, ou seja, centra-se na experimentação, em constante interação, reflexão e comunicação. Por fim, o eixo da narrativa das jornadas de aprendizagem permite conhecer, compreender e refletir sobre o que é feito.

É notório que na pedagogia de participação o/a educador/a tem um marcante papel de encorajar, favorecer desafios e conferir autonomia às crianças. A pedagogia de participação enfatiza a ideia de que as crianças devem ser vistas, mas também ouvidas.