O presente capítulo ocupa-se da análise e discussão dos dados. Recordamos que metodologicamente optámos por uma análise de conteúdo por temas, decisão que nos balizou a extracção de informação sobre língua materna, tradução e plurilinguismo.
Quando encerrámos o tratamento do corpus, apercebemo-nos de que a riqueza dos dados possibilitaria inúmeras hipóteses de trabalho, facto que nos obrigou a delimitar a nossa leitura. Decidimos então orientar-nos para uma macro-análise, que entendemos ser a análise global das ideias presentes nas categorias, metodologia que excluirá a apreciação de cada manual, excepto para exemplificar e/ou fundamentar um ou outro ponto da nossa exposição. Com efeito, interessa-nos apreciar de que forma são perspectivados e se exprimem os nossos temas no conjunto dos programas e dos manuais.
Lembramos ainda que já explorámos os conceitos de língua materna, tradução e plurilinguismo, em momentos precedentes. Numa primeira leitura, caracterizámos plurilinguismo como competência e como valor; no momento seguinte, apreciámos, percorrendo as teorias de ensino das LEs, hipóteses de recurso a outras línguas, pela via da língua materna e do exercício de tradução. Agora, retomaremos os tópicos enunciados para analisarmos como efectivamente se manifestam e interagem estas ideias nos programas e manuais de FLE II e FLE III.
Assim, organizámos este capítulo em dois blocos que correspondem às dimensões que definimos:
- Plano das ideologias, onde nos propomos analisar como se exprimem as categorias Repertório, Transferência, Atitudes em relação às línguas e culturas e Uso das línguas nos programas e manuais;
- Plano da operacionalização, onde apreciaremos como se descrevem e
operacionalizam as categorias Língua Materna, Tradução e Plurilinguismo nos manuais.
Em termos processuais, analisaremos sucessivamente as categorias incluídas nos respectivos planos. Procedemos primeiro por agrupamento de informação, depois por redução sucessiva do conteúdo comum a cada categoria e respectivas subcategorias para inferirmos e individualizarmos ideias.
Para nós, cada ideia individualizada corresponde a uma ocorrência. Por exemplo, no Plano das ideologias, na categoria Repertório, uma ocorrência corresponde à ideia explícita ou implícita que inferimos, ideia que reenvia para o que definimos ser Repertório. No Plano da operacionalização, uma ocorrência poderá corresponder a um exercício, uma actividade ou uma tarefa, presentes no manual ou no livro do professor. Portanto, as ocorrências materializam-se no processo de categorização.
Ao longo da análise, daremos conta dos processos, ou seja, se registámos apenas a presença de determinada categoria ou se contabilizámos também a sua ocorrência. Mais adiante, no final do capítulo, articularemos transversalmente as subcategorias do Plano da operacionalização, na tentativa de descobrir conexões, que nos permitam encontrar e circunscrever espaços de encontro.
No seguimento do que acabámos de expor, pensamos ser possível confrontar o conteúdo dos Planos para inferir que motivações implícitas ou explícitas regem o discurso regulador do ensino do FLE, tendo em conta o contributo de outras línguas. No decurso da nossa exposição, especificaremos, nos momentos introdutórios à análise de cada categoria, os critérios que adoptámos para quantificar os dados.
Antes de avançarmos, julgamos ser conveniente clarificar alguns termos que vamos utilizar:
Manual escolar
Segundo Gérard e Roegiers, trata-se de « um instrumento impresso, intencionalmente estruturado para se inscrever num processo de aprendizagem, com o fim de lhe melhorar a eficácia » (1998: 47). Usaremos a designação manual, quando nos referimos simultaneamente ao compêndio e ao material complementar, incluído no próprio manual ou em separado, ao qual professor e aluno têm acesso. Actualmente, muitos manuais de FLE fazem-se acompanhar de outros suportes: livro do aluno, caderno de exercícios ou de actividades, fichas de auto-avaliação, gramáticas, material audiovisual, etc. Os materiais complementares, bem como a respectiva designação, diferem de manual para manual. Alguns manuais nem apresentam material complementar. Analisaremos o que o manual apresenta para o aluno, portanto, o compêndio de aprendizagem e respectivo material complementar, excepto material audiovisual.
Em relação aos manuais escolares, em vez de citar os seus autores, preferimos citar o nome do manual, bem como indicar o ano de escolaridade ao qual se refere (por exemplo: En Avant 7, Club des Mots 9, Anti-Sèche 10, etc.), uma vez que, no nosso entender, este procedimento simplifica a identificação dos manuais.
Livro do professor
O guião ou livro do professor, ao qual o aluno não tem acesso, é outro instrumento complementar do manual. Costuma apresentar-se sob a forma de caderno separado ou integrado no manual. Para evitar ambiguidades, optamos pela designação livro (nas referências bibliográficas) ou livro do professor (na explanação) quando nos referirmos a ele. Nem todos os manuais possuem livro do professor, ou possuindo-o, não apresentam necessariamente informação pertinente para o nosso trabalho.
Reportando-nos mais uma vez a Gérard e Roegiers, estes autores reconhecem ao livro do professor quatro funções: função de informação científica e geral, função de formação pedagógica, função de ajuda nas aprendizagens e na gestão das aulas, função de ajuda na avaliação das aquisições (1998: 89-91). As duas primeiras funções exprimem-se no Plano das ideologias. No Plano da operacionalização, salientamos as funções de ajuda nas aprendizagens e na gestão da aula, através das quais os livros veiculam orientações destinadas ao professor, que este poderá concretizar na aula.
Unidade didáctica
Os manuais propõem unidades didácticas ou etapas de aprendizagem que, em princípio, correspondem a um domínio de referência, materializado num tema (alimentação, por exemplo), à volta do qual se agrupam outros conteúdos (culturais, morfossintácticos, etc.). Os autores organizam os manuais atendendo aos domínios de referência programáticos, embora de modo próprio, de acordo com as suas opções.
Programas de Francês
Os programas devem exprimir o discurso oficial do Estado Português sobre o ensino do FLE, sendo a materialização das suas opções políticas nesta área.
No Ensino Secundário, consoante os Cursos, o estudo do FLE figura na Formação Geral (FG) ou na Formação Específica (FE). Assim, na FG, o programa de Francês privilegia as competências de recepção; na FE (Curso Geral de Línguas e Literaturas), o estudo do Francês ocupa maior carga horária e, sendo este um programa de aprofundamento, as competências de interacção e produção específicas surgem acrescidas às competências de recepção (Programa de Francês, 2001: v). Referimos, neste ponto, que alguns autores de manuais para o Ensino Secundário distinguem actividades para a FG e para a FE, enquanto que outros não o fazem. Respeitaremos a opção dos autores, indicando de que formação se trata na bibliografia.
1. Plano das ideologias
No Plano das ideologias, centramos a nossa análise de conteúdo nos programas e nos manuais. Aplicando o critério temático língua materna, tradução e plurilinguismo, demos início à transcrição das respectivas unidades, percorrendo, na íntegra, os textos dos programas. No entanto, nos manuais, tivemos que circunscrever parcialmente o nosso exame. No intuito de identificarmos as intenções dos autores, procurámos informação:
- nos textos introdutórios que apresentam o manual ao aluno e/ou ao professor; - nos textos que se destinam ao professor em outros locais do manual ou no livro
do professor;
- nas gramáticas para identificar definições, por exemplo, de tradução.
Numa fase subsequente, agrupámos a informação segundo as quatro categorias que relembramos: Repertório, Transferência, Atitudes em relação às línguas e culturas e Uso das línguas.
O processo de redução de ideias facultou-nos informação (Quadro 4), mediante a qual foi possível apurar a distribuição das categorias pelos programas e pelos manuais e, por conseguinte, avaliar da sua importância.
Quadro 4: Categorias de análise presentes nos programas e manuais
Categorias
Documentos Repertório Transferência
Atitudes em relação às línguas
e culturas Uso das línguas
Manuais ocorrências 21 ocorrências 33 ocorrências 42 ocorrências 2
Programas ocorrências 21 ocorrências 25 ocorrências 24 ocorrências 32
Tendo em conta a informação acima facultada, podemos considerar as ocorrências (as vezes que uma ideia se exprime) relativamente homogéneas nas categorias Repertório e Transferência. Contudo, nas categorias Atitudes em relação às línguas e culturas e Uso das línguas, registamos uma oscilação significativa de ocorrências, principalmente na categoria Uso das línguas, entre os manuais e os programas.