2.5 Nouvelle solution pour HLS OLT
2.5.2 Compilation et ordonnancement
Nesta última visita encontrei uma tríada com uma comunicação e uma troca emocional harmoniosa e forte. O bebé ia fazer quatro meses e estava fora de perigo. Durante a observação e a entrevista os momentos de sintonia foram impressionantes. Foi um encontro verdadeiro, havia um lugar diferenciado que todos ocupavam com satisfação. Eis um exemplo de como a intersubjetividade entre todos é reveladora de emoção, atenção e intenção partilhadas.
Sara confidenciava: Agora eu já começo a conseguir imaginar qualquer coisa. Não quer dormir à primeira, não quer dormir à noite… já começo a perceber… A partir desta altura começa-se a interiorizar que este bebé vai crescer e que vai… pronto, vai ter vontade própria, não é… ele já tem vontade própria, já não bebe o leite, e já faz birra, mas pronto, agora já começa a ser mais fácil perspetivar os próximos anos. Eu imagino-o… a pessoa mais linda do mundo porque é o meu filho (ri).
Eu e os pais também rimos e a mãe diz, ainda a rir: ele já percebe muito bem o que nós dizemos…
(Abraão toma a palavra) Eu imagino-o comigo. Anseio muito por ir com ele ter com os meus amigos para haver assim uma interação mais sólida. Adoro esta fase, acho que o crescimento é muito bom, mas também vou querer muito levá-lo a dar uns pontapés na bola e andar de bicicleta… é daquelas coisas que eu vou querer muito fazer com ele…
A mãe já podia ter o bebé dentro dela, porque já o imaginava fora dela no futuro e o mesmo acontecia com o pai. Pelo riso, o bebé também estava envolto neste percurso. Sara encontrara o bebé e a sua função materna e dava-nos, a todos, os sinais do que são os processos de transformação. Depois da relação privilegiada que o pai concede à mãe, que a mãe concede ao filho e que espera do marido, Sara estava disposta a envolver Abraão, que acolhia o filho. Isaac estava em concordância.
Mais adiante Sara partilhava: Passado os três meses nós depois começamos a voltar à… à nossa rotina… passamos a incluir o bebé na nossa rotina… se tiver que sair levo-o também…O tempo vai passando, já estamos mais seguros do que ele sente, porque já o percebemos melhor… ele também dá muito mais sinais… pelo facto de estar muito mais expressivo connosco, não é, descansa-nos saber quando… que ele está bem, ele sorri… ele mexe-se muito, é sinal que está bem disposto, não chora muito, portanto, é um bebé bem disposto… Cada vez parece que uma pessoa fica mais apaixonada por ele!… Não há outro amor como este, não há nada igual. Ele de manhã acorda… eu posso estar de rastos por ter dormido muito mal, por ter acordado três vezes… ter acordado duas vezes, o ter dormido muito mal… mas ele de manhã acorda eu olho para ele e ele ri-se e pronto, passou, acabou… Nesta fala é bem notória a disponibilidade da mãe para as comunicações inconscientes através de identificações projetivas com o bebé, no sentido comunicante de Bion (1962/1991a).
Abraão encontrou o lugar de pai.
Dizia: Todas as preocupações de… de ter sido um bebé prematuro vão desaparecendo e começam a entrar as preocupações de dias normais de pai… a comida, o dormir, porque é que ele está a chorar… ou seja, já não há tanta associação dele estar chorar por qualquer… maleita que ele possa ter…
O bebé tinha um lugar no discurso, na vivência, na vida e no sonho destes pais à justa medida de ambos: Não sobreposto. Já conhecia os pais, interagia muito, brincava, dava importância ao mundo.
A investigadora – reconhecia a singularidade de cada um e a da tríada. A função de reconhecimento e de continência de Sara tinha forçado a entrada dos seus aspetos positivos na minha mente, aspetos estes que esperavam ser reconhecidos.
Do ponto de vista intersubjetivo, tinha sido criado um círculo de cuidados de todos por todos, através do qual o prazer de ser e estar era partilhado. Daí as últimas palavras da mãe e do pai relativamente à participação no estudo.
Sara: Ainda há bocado estava a dizer isto noutro contexto, mas é verdade… É bom também que se faça o devido agradecimento a isto… porque eu na altura… não… não sabia muito bem como é que iria ser, como é que seria o estudo e como é que as questões se iam desenvolver… a… a gente já está a falar de uma coisa que começou em novembro… fins de outubro ou início de novembro e…o que eu posso dizer é que na fase mais difícil pela qual eu passei lá no hospital sobretudo o primeiro mês que foi muito complicado… eu senti que eu não estava a ajudar eu estava a ser ajudada senti muito isso… Foi muito importante ir falando… porque falar ajuda-nos a … a… digerir as coisas e a digerir as situações e digerir os sentimentos e a dar a volta às coisas… e foi isso que me ajudou…
… Analisar o tornar-se pais numa gravidez de risco é uma viagem muito grande ao interior dos outros… acho que nesta área há muito pouca informação, muito pouca disponibilidade até muitas vezes dos profissionais para perceberem que cada caso é um caso… Estou muito grata pela união que foi criada, isso fez toda a diferença…
Abraão acrescentou: Se calhar na minha hora de visita com a Sara eu preferia falar dos gatos e de como é que estão a correr as pinturas cá em casa… e a sua visita fez com que pudéssemos também alargar essa conversa, exorcizar algumas coisas, não sei… mandar tudo cá para fora… depois tem mais dois pontos importantes eu via que à Sara estava a fazer bem estas conversas… e o terceiro ponto é… é muito interessante, agora podermos estar aqui no sofá a ter esta conversa porque de alguma maneira… cria-se aqui uma ponte para… esta mesma situação, nós os três sentados a conversar mas no hospital, cria-se uma ponte temporal interessante que faz-nos ver o passado com menos mágoa, porque estávamos ali e o ambiente no hospital era triste e agora estamos aqui os três a conversar e o ambiente não é
tão triste… parece que nos alivia a pressão que foi no hospital e isso também é uma coisa muito boa…
Durante a maior parte da observação e entrevista, os pais estavam ambos focados no seu filho. Quando existiam relações diádicas, era com a cumplicidade do outro e, portanto, sem rivalidade. Assim, a maioria das interações eram triangulares com uma coparentalidade cooperativa. Havia lugar para o terceiro compatível com a ausência, a potencialidade e a virtualidade (Green 2005, p. 680).
A identificação da investigadora com a família e da família com a investigadora, teve um efeito integrador ao propiciar a todos o aprender com a experiência, o respeito pela integridade e pela sinceridade. Daí as notas seguintes:
Gostei desta família. Senti a gratidão nas palavras dos dois e comungava do mesmo sentimento em relação a eles. O meu desejo desde o início era de os conhecer, me conhecer e de lhes facilitar o conhecimento através de várias questões que nos proporcionassem um melhor conhecimento, sem expectativas idealizadas e sem desespero.
Nestas entrevistas foi possível compreender como é que a individualidade e a intersubjetividade dominam em diferentes momentos da vida da tríada, em diferentes circunstâncias e posições sociais. O conflito e os padrões iniciais da intersubjetividade do par mãe-bebé persistem em certos momentos em cada um dos dois, como o conhecido impensado. Sara continuava ansiosa, mas num movimento de desenvolvimento (feito de momentos de regressão e de progressão). Estava muito mais segura no seu papel de mãe e na sua função, era capaz de se identificar com o incómodo do bebé devido à transição dos leites, reconhecendo o mal-estar no seu bebé ao mesmo tempo que reconhecia os seus exageros como mãe, era capaz de se rir de si mesma quando se referia à alimentação. Os limites entre ela e o filho iam-se tornando claros, daí ela referir: Eu fico preocupada, mas ele está muito bem… O mesmo acontecia relativamente aos ritmos entre a vigília e o sono que ia reconhecendo no bebé. Sara era capaz de se sintonizar com as subtilezas destas mudanças e dizia-lhe: Está com soninho, quer dormir?
Apesar da tensão interior que se lhe pressentia, a sinergia entre a diferenciação do self de Sara e o desenvolvimento da sua capacidade de cuidar o filho era notória, o que é bom para o bebé que está a ser cuidado, pode ser bom para a mãe cuidadora.
A individualização da mulher comecei a voltar a ser pessoa (risos), a ser mulher coloca desafios à subjetividade maternal. Tanto a individualidade como a intersubjetividade estão em permanente tensão, daí ela dizer a certa altura: Comecei a olhar para mim novamente como uma mulher… e depois também me sinto muito mais rica e muito mais forte. A verdade é que há a vida antes do filho e depois do filho, nós depois ficamos muito diferentes… é a nossa segurança e até a nossa felicidade.
O pai, menos expressivo, não falava com o bebé mas já começava a integrá-lo e a reconhecê-lo como sujeito. Evoluía mais lentamente no tornar-se.
A relação dialética entre as individualidades e a intersubjetividade da tríada era visível. Para além do desenvolvimento do self do bebé ser acompanhado pelo desenvolvimento do self de cada um dos pais, em especial pelo desenvolvimento materno, o desenvolvimento do bebé também promove a relação do casal por isso e é o pai que o diz: Ele acaba por ser um catalisador da relação.
A experiência prova que quando os pais conseguem estabelecer uma aliança com um outro desconhecido (como por exemplo o investigador), o bebé tem um enorme benefício, porque também ele próprio acaba por ser um outro desconhecido para os pais.
Na história de Isaac a diferenciação dos papéis de cada um dos pais não se reportava apenas ao processo de gravidez, mas era mantida ao longo do tornar-se pais, o que facilitava a integração.
Estes nove meses de conhecimento revelam-se um período curto para a compreensão de todas as mudanças que ocorrem no processo de se tornar pais, a prova disso era a frustração e tristeza que senti aquando da última visita, sobretudo por antecipar novas turbulências aquando da cintigrafia de Isaac e quando Sara retomasse o trabalho. Mas a comunicação empática que se foi coconstruindo através dos ajustes ambientais necessários, do reconhecimento do outro (desconhecido e conhecido) e a dádiva recíproca, iam a par com o desenvolvimento do self do bebé e de cada um de nós, tornando-nos mais sintónicos e diretos na comunicação. A preocupação materna inicial ia desaparecendo lenta e gradualmente.
Verificava-se um desenvolvimento mútuo dos pais e do filho que decorria da contenção, da rêverie, da gestão eficaz da rotina do casal com a criança e da aceitação da natural ambivalência.
As novas subjetividades materna e paterna iam emergindo da intersubjetividade criada como uma forma de trabalho relacional e emocional. Os pais não são mães, mas também podem desenvolver a suas capacidades de cuidar. As práticas maternas e paternas permanecem distintas. A dinâmica relacional que se fora estabelecendo, ao longo do tempo, constituíra o potencial de transformação quer da investigadora quer da tríada.
Foi com prazer que recebi as mensagens da mãe, acompanhadas de fotos (aos seis meses e no primeiro ano do bebé):
Isaac está muito bem, a cintigrafia correu muito bem, felizmente não há sequelas da infeção, por isso está liberado de mais exames! Ele tem estado muito bem, esta semana estreamo-nos na praia, e ele adora. É um curioso, deita-se na areia a olhar para quem passa e adora o mar. Esta foi a minha última semana de licença e segunda volto ao trabalho, confesso que já me estou a roer de saudades do tempo que passamos juntos... Estes meses de licença de maternidade são mesmo um privilégio. Agora é o pai que fica com ele nos próximos 15 dias, também será muito bom para eles. Mas a sensação que fica é mesmo a de que ainda é muito cedo para recomeçar, ou melhor, para ficar sem ele durante um dia... Espero que consigo esteja também tudo bem. Vamos conversando, foi um privilégio participar no seu estudo, e ser acompanhada por si numa fase em que precisava tanto! Muitos beijinhos, de todos cá em casa.
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Muito obrigada! Lembrei-me muito de si nesta data. Foi um dia de celebração da vida. Está tudo muito bem. Isaac já está muito crescido e já anda! Um amor. Um grande beijinho.