3.2 R´ esultats
3.2.3 Rˆ ole du sable et du silicatage sur l’arc
3.2.3.2 Comparaison des radiographies
Francisco de Assis Rodrigues no seu “Diccionario Technico e Historico de
Pintura, Esculptura, Architectura e Gravura” publicado na Imprensa Nacional em
1875, apresenta na entrada ‘Retratar’ uma definição em tudo muito semelhante às encontradas em autores anteriores: “...tirar ou copiar do natural a imagem ou figura de alguma pessoa ou de qualquer objecto, de modo que em tudo fique similhante ao seu original. Esta representação ou copia póde fazer-se em simples desenho, em pintura ou esculptura.”339. Mantém assim a tónica na semelhança. Na entrada ‘Retrato’ o autor pormenoriza uma série de aspectos relativos ao retrato. Em primeiro lugar, a introdução de ‘representação exacta’, o retrato é assim a: “... imagem ou representação exacta e similhante de uma pessoa, produzida por meio das artes do desenho.(...)”340. Em seguida, a introdução de uma técnica nova para a realização do retrato – a da fotografia: “Os retratos fazem-se a lapis, à penna, a aguarella, a pastel, a têmpera, a oleo, em miniatura, sobre esmalte, sobre porcelana, em lithographia e ultimamente com o auxilio da photographia.”341.
Logo de seguida uma descrição mais detalhada do que deve ser o retrato ‘com primor’: “O primor de um retrato não consiste em uma fria similhança do original, mas na verdadeira expressão do seu caracter, do temperamento e de mais circumstancias da sua physionomia.”342.
Para se conseguir o retrato perfeito deve-se ter em atenção o ‘ar’, a ‘côr’, a ‘attitude’ e os ‘acessorios’.
O ‘ar’ ‘é o acordo das partes no momento que designa a physionomia, o espirito e o temperamento de uma pessoa’; a ‘côr’ ‘O colorido ou a tinta nos retratos é essa efusão de natureza que de ordinario faz conhecer o caracter proprio e dominante de uma
339 Diccionario Technico e Historico de Pintura, Esculptura, Architectura e Gravura, Lisboa,
Imprensa Nacional, 1875, p. 327.
340 Ibidem, p. 328. 341 Ibidem. 342 Ibidem.
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pessoa’; a ‘attitude’ - ‘A attitude é a postura ou antes a acção da figura. Conhece-se que a attitude deve ser consentanea à edade, ao sexo, ao temperamento e à qualidade.; os ‘acessorios’ - ‘As vestes e accessorios concorrem pela sua propriedade e boa disposição para se conseguir a similhança e primor de taes obras’.
Temos assim o interesse não apenas pela semelhança física, mas principalmente o interesse pelo apresentação das características de personalidade do representado aqui referidos como ‘a physionomia, o espirito e o temperamento de uma pessoa’ ou o ‘caracter proprio e dominante de uma pessoa’343.
O ‘decorum’ de Leonardo da Vinci é também aqui retomado na atenção pela ‘attitude’344.
A ideia do momento revelador, o momento preciso que a arte fixa, é também retomado: ‘A arte encarrega-se de procurar o momento favoravel em que as pessoas se apresentam bem e sem affectação ou constrangimento’.
O topos do retrato como semelhança é também referido por Assis Rodrigues no recurso às referências da Antiguidade Clássica: ‘Apelles, segundo refere Plinio, executava os retratos com tal arte e similhança, que os astrologos pela simples vista dos quadros tiravam o horoscopo das pessoas representadas’.
Por último, o retrato histórico: “Chama-se retrato historico ao que é acompanhado de figuras ou tributos allegoricos (...)”345.
343 Aqui retoma-se uma ideia da teoria da arte renascentista, a das funções do ‘bom pintor’ que
Leonardo da Vinci refere: “The good painter has to paint two principal things, that is to say, man and the intention of hid mind. The first is easy and the second difficult, because the later has to be represented through gestures and movements of the limbs…” in Leonardo on painting , p. 144.
344 Leonardo definia o ‘decorum’ como “The actions of men are to be expressed in keeping with
their age and station, and they will vary according to their types, that is to say the types of men and those of women. Observe decorum, that is to say the suitability of action, clothing, and situation, and have regard to the dignity or baseness of those whom you wihs to portray, that is to say the king will be bearded, with dignified demeneaour and clothing…” op. cit. p. 150-151.
Francisco de Holanda definia o ‘decoro’ tendo em conta a unidade da representação “Mas propriamente o que eu chamo decoro na pintura é aquela figura ou imagem que pintamos, se háde ser triste ou agravada, que não tenha ao redor jardins pintados nem caças, nem outras graças e alegrias; mas antes que pareça que até as pedras as árvores, e as almárias e os homens sentem e ajudam mais sua tristeza.”, in José Fernandes Pereira, p. 29.
345Diccionario Technico e Historico de Pintura, Esculptura, Architectura e Gravura, Lisboa,
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Duas designações são atribuídas a quem faz retratos, o ‘Retratador’ que é “... o artista ou a pessoa que faz retratos.”, e o ‘Retratista’ que é a “pessoa que se apllica especialmente a tirar retratos.”. Interessante aqui a referência ao artista que faz retratos e à pessoa que faz retratos, separando dois tipos de retrato – o artístico e o não artístico. O ‘retratista’ é alguém que nos parece estar no campo do não artístico e, talvez mesmo do fotográfico revelado pela expressão ‘tirar retratos’.
Temos assim num autor clássico em tempo de românticos (como refere José Fernandes Pereira) a continuação de um pensamento clássico que convive com realidades novas – a da fotografia – e com expressões novas, nomeadamente, a da ‘representação exacta’ e da ‘fria semelhança’.
Se o corpo se constitui como problema na cultura artística portuguesa, principalmente na fase pós-tridentina, o retrato, como género, possui uma dupla ‘culpa’. O ser inevitavelmente de um corpo e, por outro lado, de pela sua natureza se constituir sempre como um acto de revelação e exibição.
A representação do corpo, no entendimento da cultura clássica dos séculos XVI a XVIII, é permitida enquanto lugar de sujeição à construção geométrica ao reino das proporções e ao espartilho representacional criado pela leitura da cultura clássica da antiguidade greco-romana. Será de preferência um corpo anónimo, local de treino e prática para a aplicação a personagens ligadas à história. A pintura de história é assim a área de eleição da cultura artística, mostrando inevitavelmente corpos que pertencem à história e às suas narrativas, longe do retrato – entendido como lugar de representação de um presente e de uma relação entre o artista e o modelo. O retrato terá de ser um local do indivíduo isolado o que também o afasta formalmente da pintura de história346.
346 Félibien, nas suas Conférences de l’Académie Royale de Peinture et de Sculpture, de 1668,
refere que o pintor para ser considerado um pintor erudito terá de “...passar de uma só figura à representação de vários conjuntos; tem de tratar a história e a fábula; tem de representar as grandes acções como os historiadores, ou os assuntos agradáveis como os poetas; e, subindo mais acima, com as composições alegóricas, tem de saber cobrir com o véu da fábula as virtudes dos grandes homens e os mistérios mais elevados” citado por Luís de Moura Sobral in Pintura Portuguesa do século XVII.
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Questão central é a do entendimento da questão do retrato como questão artística – aqui afastando-nos da área da teoria das motivações e da articulação com questões culturais, ficando no âmbito de uma arte que fala de si própria.
As ideias que salientámos dos textos de autores portugueses analisados inserem-se no pensamento clássico e neoclássico, pressentindo-se neles uma permanente tensão entre os dois grandes paradigmas criados pelo século XVI: ‘ritrarre’ e ‘imitare’. Como pólos opostos na defesa destes paradigmas temos Francisco de Holanda que – relativamente à teoria do retrato – se pode situar no quadro de uma relação próxima com a Natureza (origem da Arte) e do artista criador que tal como Deus cria. Machado de Castro situa-se no pólo oposto no seio de um discurso neoclássico afastado da Natureza e proponente de uma criação autónoma – ‘o bello reunido’.
O retrato preso à sua função referencial ( retrato substituto, retrato exemplar, retrato memorial) encontra-se no seio do neoclassicismo, num dos momentos em que essa função é mais esquecida, enquadrando-se numa função política ligado à representação / exibição do Rei. O retrato exemplar permite o afastamento da função referencial no quadro de uma teoria que entende o ‘belo’ como uma construção – feita pelo artista e conforme às regras dos Antigos. Será um momento que leva à existência de uma concepção de arte e do retrato que rapidamente o tempo fará desvanecer nas exigências de novas técnicas – a fotografia –, e de novos paradigmas artísticos – os do romantismo e do realismo.
Uma função é no entanto atribuída ao retrato e, como tal, se manterá numa persistência estrutural. Tal como Machado de Castro a enunciou - a do retrato como forma de ‘Quebrar ao voraz tempo a fouce devoradora’, função que a fotografia desempenhará de um modo exemplar.
Fotografia que como veremos manterá – explícita ou implicitamente – todas estas ideias e opiniões, mais ou menos diluídas no senso comum, sobre a representação do corpo. Ideias que viajam no tempo – nómadas como refere Hans Belting – através da escrita, da oralidade ou estruturando as imagens.
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2.AREPRESENTAÇÃODOCORPONAFOTOGRAFIA