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Comparaison des modules IAL4Sets, IAL3Sets et Ba- Ba-selineBa-seline

IRIES : un système interactif d’apprentissage de règles

Expérience 2 : elle consiste à reproduire l’expérience 1 mais en ne gardant dans

8.4 Apports des modules d’apprentissage actif proposésproposés

8.4.1 Comparaison des modules IAL4Sets, IAL3Sets et Ba- Ba-selineBa-seline

1.1. Percursos Históricos

Sendo um Movimento de origem Cristã e de profundas raízes católicas, espalhado por várias partes do mundo, o Movimento Graal chegou a Portugal em 1957. O seu grupo pioneiro foram mulheres, protagonistas em atitudes e discussões de género e participação social, incompatíveis com o contexto ditatorial então vigente. Iniciaram uma experiência educativa que veio marcar a história da Educação para a Cidadania nos tempos da resistência e na liberdade conquistada com o 25 de abril de 1974.

Respondendo aos objetivos perseguidos, o Movimento Graal “era a liturgia celebrada com profundidade e beleza, a reflexão sobre a especificidade do Ser e do Agir das mulheres, a dimensão internacional levada ainda mais longe do que a experiência já adquirida, sendo resposta à procura existencial vivida entre estudantes universitários dos anos 50” (Graal, 1983: 05).

Aos poucos, os grupos temáticos neste Movimento organizam-se à medida da procura das discussões “impostas” pelo respetivo contexto político e social. Reunidos em Lisboa, e considerados a versão portuguesa do que o Graal Internacional denominava de “centros-de- cidade”, as mulheres pioneiras deste movimento em Portugal, lideradas por Teresa Santa Clara e Maria de Lourdes Pintasilgo, reúnem-se em circularidade e universalidade de temas (Graal, 1983). O objetivo é discutir, nas inquietudes pessoais dos tempos vividos, uma

42 dimensão integradora das mulheres num projeto maior de sociedade, coletivo e de profundas mudanças sociais:

“Éramos doze, entre 18 e 27 anos, todas estudantes excepto duas. Muitas dirigentes da JUCF e todas entusiasticamente idealistas. Rapidamente, entre os meios católicos de Lisboa, circulou a notícia do nosso “exotismo”, porque rezávamos em inglês. Pura verdade, não havia na altura em Portugal uma boa tradução dos Salmos e nos não podíamos deixar de tentar viver o ritmo da liturgia que aprendemos nos círculos do Graal de outros países. Se para isso era preciso soletrar Salmos em língua estrangeira por que não fazê-lo!” (Graal,1983: 07).

Os encontros, cada vez mais visíveis e frequentes, chamaram a atenção dentro do próprio Graal internacional, sendo batizadas de “botão a arrebentar em flor” pela então Presidente Internacional, Raquel Donders. O núcleo de Lisboa torna-se conhecido e frequentado, em tempos de visibilidade social perigosa, chamando a atenção inclusive das autoridades eclesiásticas Portuguesas. Estas, em 1957, proíbem, pela mão do Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, de “ter atividades, fazer propaganda e viver em comunidade” (Graal, 1983: 11). Esta atitude radical vai, de certa forma, mudar o destino do Graal em Portugal, deslocando o grupo pioneiro e as suas ações para o interior do país. Foram caminhos novos e tempos difíceis mas fundamentais na construção da experiência de educação e mobilização social, caminho da cidadania no país. Por isso, diziam as pioneiras: “No nosso otimismo de jovens, não nos deixamos desencorajar. Se em Lisboa não éramos bem-vindas, por que não tomar o Evangelho de Lucas: quando não vos receberem, sai dessa cidade e sacudi o pó das vossas sandálias” (Graal, 1983: 8).

O Movimento Graal desenvolveu atitudes inovadoras e processos coletivos de formação e informação, buscando partir das ideias cristãs e avançar na construção de uma integração social, com uma política própria, construída de dentro para fora, com os olhos num mundo que mudava, a passos largos, e os pés no Portugal que não podia mais esperar para mudar. Estas mudanças estavam na pauta das jovens inquietas de Coimbra, num tempo de lutas feito de força e de fé, como testemunha esta afirmação:

“A verdade é que partimos. Não para longas terras, mas para duas novas Dioceses- Coimbra e Portalegre - que nos receberam de braços abertos. Em outubro de 1960, as duas equipas “oficiais” do Graal desembarcam, uma no Largo do Paço, em Portalegre, outra na Rua Sanches da Gama, Coimbra (…) Foi um salto no desconhecido que exigiu de cada um de nóss capacidades que nem sonhávamos ter. Mas não era isso, afinal, a “aventura” do Graal que conscientemente tínhamos embarcado!” (Graal, 1983: 08).

43 As mobilizações do movimento ocorriam no período do verão participando, na sua maioria, estudantes universitários, em regime de voluntariado, quase todos vindos da Juventude Universitária Católica/JUC, ou atraídos pelos serões do Movimento Graal em Lisboa, feitos de grandes rodas de conversa e debate coordenados por Maria de Lourdes Pintasilgo e Teresa Santa Clara Gomes. Sobre este período, Hermano Carmo (2006: 2) diz- nos:

“Foi nesse contexto de procura e de empenhamento juvenil que conheci a Maria de Lourdes, num dos serões organizados pelo Graal em que se discutiam assuntos da actualidade religiosa, social e política. O que desde logo me fascinou, foi a sensação de autenticidade que emanava dela: o discurso claro e rigoroso era também quente e convicto; o respeito com que escutava as pessoas, fossem elas jovens ou da sua idade e o modo corajoso e acutilante, mas simultaneamente afectuoso, com que expressava os seus pontos de vista e partilhava as suas experiências, seduziram-me desde logo (…) ela encarnava aquele tipo de cristão social e politicamente empenhado, que constituía uma referência obrigatória para a minha geração” (Carmo,2006 :02).

Nestes encontros, discutiam-se temáticas como a vida na comunidade, os laços de solidariedade, a formação de grupos de trabalho para enfrentar e melhorar as condições de vida no local, o género e a participação social da mulher na construção de um modelo mais justo de solidariedade. Na verdade: “A formação recebida pelo Graal em si mesma é uma forma de aprendizagem mais rica e mais útil do que muitas horas de simples estudos académicos. Quem passou guarda, com certeza, uma marca funda, qualquer que seja. Foram tempos de partilha e convívio onde o ser era mais importante do que o dizer ou o fazer” (Graal, 1983: 12-13)9.

A multiplicidade dos diálogos e a transversalidade da proposta formativa do Graal aliada à criatividade do grupo formador traduziam-se em diversificadas linguagens. Nos tempos difíceis de repressão, onde a discussão da realidade política era proibida e vigiada, tornava-se necessário utilizar muitas vezes estratégias metafóricas para trabalhar temáticas relacionadas com a leitura da realidade, como o recurso a linguagem teatral10 que, seguida de debates, promovia uma intensa reflexão sobre o que se vivia e o que se precisava viver11.

9 Todo o trabalho nas regiões de Coimbra e Portalegre articulava-se com as experiências realizadas na

região da Grande Lisboa, nomeadamente no mosteiro das irmãs Beneditinas e Sassoeiros, ou ainda na Casa de Oeiras, espaços cedidos na tentativa de se criar assim o Centro Nacional do Graal em Portugal.

10 Utilizando textos como “a Espera de Godot” (Becker) ou “A Cantora Careca” (Ionesco), “O Pomar das

Cerejeiras (Tchekov) ou o “Círculo de giz caucasiano” (Bertold Brecht).

11 Nasceram, assim, semanalmente, os “Programas de Cultura” em Coimbra (1963/1974), em Lisboa e em

44 O teatro com o seu jogo cénico permitia assim que se discutisse, com forte participação do coletivo, o Evangelho, a solidariedade cristã, a participação social e o contexto local e universal: “Falávamos de justiça social e de socialismo, denunciando o que na sociedade portuguesa era contrário à dignidade humana e aos valores do Evangelho, procurando ampliar vias e perspetivas para que o “novo” pudesse acontecer” (Graal, 1983: 19).

Vias e perspetivas novas em termos de dignidade humana e de justiça social traziam- nas o Movimento Graal como se pode observar no testemunho de Maria do Loreto Couceiro, uma das mulheres dos primeiro tempos do movimento12:

“Ao conhecer o Graal conheci um mundo novo (…) Essa experiência de construir uma nova sociedade, mesmo em tempos de riscos, com os indicadores apontados pelo próprio povo, na localidade, ampliava a minha formação cristã e apontava novos rumos à minha formação cidadã. Os voluntários, nós, muitas vezes vindos de família sem dificuldades financeiras, vivíamos uma experiência de vida onde se podia conhecer o interior do nosso país, os seus problemas sociais como o isolamento e o analfabetismo, além do afastamento das políticas sociais de inclusão, debatendo com as mulheres o nosso papel e ampliando a nossa participação na construção de um mundo novo onde valores como solidariedade e justiça social não fossem só dádivas presentes na proposta do cristianismo mas busca por justiça social, num país que seria livre em breve, mas que precisava muito do que fizemos naqueles tempos para que isso acontecesse” (E-Maria do Loreto, 12/12/2016).

A experiência de Maria do Loreto no Graal e a sua proximidade direta com Maria de Lourdes Pintasilgo e Teresa Santa Clara mostrava, além das afinidades de formação e crenças sociais cristãs, um forte comprometimento político com a causa do povo, com a vontade de uma nação mais justa, com os ideais de valorização do Ser, tão difíceis de serem visíveis na sociedade do Ter (Graal, 1983). Um comprometimento que mostravam a importância da dinâmica social e política do Movimento Graal que se manifestava nomeadamente na necessidade de se promover verdadeiras políticas sociais de inclusão. Na verdade, o trabalho das mulheres do Movimento Graal feito de esperança cristã, de luta política de atitudes solidárias e visíveis, nestes tempos em que a terra fértil estava árida e as pessoas esperançosas por novas sementes: “apontava já então para o país novo que queríamos construir, um país sem desigualdades nem discriminações, um país onde a riqueza fosse de todos e para todos” (Graal, 1983: 19).

12 Ver ainda, para complementar, a entrevista dada ao jornal “A voz da verdade” (Coimbra, 08/02/2009: 02) onde

45 1.2. As mulheres do Graal: Alma feminina da inclusão

Nas lutas democráticas pela vida e pela construção de uma cidadania ampla e participativa, as mulheres sempre estiveram presentes, constituindo-se como a maioria da população e as maiores construtoras do cotidiano que forma o tecido social. Em Portugal, estiveram particularmente presentes com as mulheres do Movimento Graal. Pelo seu trabalho determinado, cheio de fé cristã e de esperança humana, em prol de um país sem desigualdades nem discriminações tornaram-se a alma feminina da inclusão.

As duas primeiras referências femininas do Movimento Graal em Portugal são as suas fundadoras: Maria de Lourdes Pintasilgo e Teresa Santa Clara Gomes, com vidas e caminhos diretamente ligados, quer ao Graal e aos seus projetos de mobilização e transformação social, incluindo os de alfabetização e animação cultural, como ainda ao seu trabalho nas áreas institucionais, antes e depois do 25 de Abril de 1974. Companheiras de inúmeras lutas, como coordenadoras do grupo pioneiro do Movimento Graal em Portugal, sempre estiveram presentes movimentos sociais pela educação e construção da cidadania. Estas notáveis mulheres, de vida intrinsecamente ligadas à história da educação de Portugal, e responsáveis pela aproximação e “participação” de Paulo Freire no processo de alfabetização em Portugal, desde o encontro em 1969, em Harvard nos EUA, foram incansáveis em acreditar e em ter esperanças. Constituem, por isso, um destaque na luta de direitos nomeadamente nas áreas da educação e da cidadania (Ver Anexo 2 - Imagens 16/17, pág. 81).

Mulheres fortes em tempos difíceis, que a história nem sempre regista com a devida importância, como salienta Boaventura Santos (2000, 61): “Dói-me profundamente o silenciamento e a marginalização a que Maria de Lourdes foi sujeita, por uma classe medíocre e sexista. Mas dói-me, sobretudo, o que meu país perdeu com isso, o desperdício de capital humano que isso significou.” Lamenta a pouca alusão histórica ainda feita em Portugal relativo à importância de Lourdes Pintasilgo mas também a ausência de convites para missões importantes em tempos recentes, quando tinha tanto para contribuir ainda, nos anos que sucederam ao seu papel na política publica nacional.

Maria de Lourdes Pintasilgo (18-01-30/10-07-2004) foi a primeira mulher (a única até hoje) a assumir o cargo de Primeira-ministra em Portugal. Liderou o V Governo Constitucional, de 31 de julho de 1979 a 3 de Janeiro de 1980, na III República Portuguesa. Tornar-se-ia uma destacada dirigente eclesial sendo que a procura religiosa, enraizada na

46 cultura e no seu tempo, moveu-a durante toda a vida. Como observa Marcelo Rebelo de Sousa (2000: 45):

“Sonhadora, uns dirão utopista, outros dirão profeta, de universalismos, de comunitarismos, de novas formas de organização política e social (…): Sonhadora porque cristã militante. Nessa exacta medida, antes de tudo e mais que tudo, uma sonhadora cristã.”

O seu protagonismo, a sua sensibilização e participação nas questões sociais, conduziu-a ao envolvimento político. Do marcelismo até 1986, teve uma participação constante na política institucional em Portugal. Derrotada como candidata às eleições presidenciais desse ano, virou-se para o envolvimento em organizações internacionais, exercendo vários cargos de liderança: “A justiça social, a intervenção das mulheres na sociedade e a dimensão internacional de todas as questões foram as suas causas” (Fundação Cuidar o Futuro, 2016: 01).

Aos que acreditaram na luta de Lourdes Pintasilgo, nunca foi esquecida. Estímulo e inspiração para os que procuravam uma sociedade democrática e participativa, Lourdes Pintasilgo foi, de facto, uma das figuras femininas relevantes do Movimento Graal, não só pela sua importância política e histórica mas, sobretudo, por tudo o que veio através dela e por ela, em particular, o desejo de construir um novo modelo de sociedade e de país.

Maria Teresa Dória de Santa Clara Gomes (30-01-36/04-10-96), licenciada em Filosofia Germânica e membro da Juventude Universitária Católica/JUC, foi também Presidente da Comissão Interministerial de animação sociocultural, tendo desempenhado no III Governo Constitucional a função de Secretária de Estado da Cultura (1979). Estando sempre ao lado de Maria de Lourdes Pintasilgo, quer dentro como fora do Graal, teve um importante papel na construção do processo de formação das lideranças no trabalho feito em Lisboa, na região de Coimbra e Portalegre e nas aldeias no Norte do país.

Sobre o papel relevante de Maria de Lourdes Pintasilgo e de Teresa Santa Clara Gomes nos momentos pioneiros do Movimento Graal em Portugal, Clarisse Duarte diz-nos:

“Conheci a Maria de Lourdes Pintasilgo e a Teresa Santa Clara, ambas na JUC, onde mesmo muito jovens já mostravam lideranças, protagonizando um processo de evangelização, numa prática cristã aliada aos menos favorecidos. Teresa era inteligentíssima, embora não tendo a eloquência de Lourdes Pintasilgo. Conheci-as ainda nos anos 50. Teresa estava presente em todas as discussões e ações do Graal (…) sendo uma referência de mulher inteligente e cidadã empenhada nas lutas e movimentos sociais de nosso tempo. A JUC contestava a sociedade da época, o que era

47 um ato de extrema coragem. E Teresa Santa Clara mantinha-se informada do que acontecia no mundo, organizava, com Lourdes Pintasilgo, os grupos de voluntários universitários, apresentando, a uma parcela da sociedade, um pedaço do nosso país ainda desconhecido por nós. (…) As duas tinham uma presença muito forte e uma vida espiritual muito rica, servindo de inspiração para todas nós. Na CUF, Pintasilgo dava- se com todo o mundo, sem fazer distinção entre nós e ela, entre ela e o pessoal da limpeza. Estava sempre a chamar-nos para a luta, foi uma mulher admirável. As duas estão a frente do tempo, hoje compreendo isso. E muito do que somos hoje ou conquistámos tem a marca delas. Elas são o grito feminino das mulheres, ouvido aos quatro cantos do mundo, o nosso grito de liberdade” (E- Clarisse Duarte, 15/02/2017). Maria do Loreto salienta o papel destas duas mulheres na emancipação das mulheres e na consequente construção de uma cidadania solidária e social:

“Tanto Teresa Santa Clara como Lourdes Pintasilgo são referências na luta pela emancipação das mulheres, conquistando lugares importantes na sociedade portuguesa e na luta pelo feminino na História do país (…). São elas que, sonhando com um país melhor, foram à luta levando nos seus caminhos nós todas, numa proposta que ia além da mobilização político-social, mas que ajudou a construir um novo modelo de participação e de mudanças sociais em tempos difíceis e de pouca visibilidade da população pobre e excluída dos seus mais importantes direitos como a saúde e a educação. A história contemporânea feminina, a ocupação das mulheres nos espaços e no tempo novo e a experiência do Graal por dentro de Portugal cumpriu o papel de tecer a cidadania através de paradigmas universais de solidariedade e o compromisso com o coletivo social. Em tempo difíceis de repressão e lutas, marcámos os nossos caminhos, ficando esses tempos também marcados como o tempo das mulheres, para nunca mais retroceder nem esquecer” (E-Maria do Loreto, 14/01/2017).

Referências históricas na construção de um novo modelo de sociedade consubstanciada no papel fundamental da educação que, chegando a todos os indivíduos, faz deles sujeitos históricos da transformação social no espírito do pensamento e da prática de Paulo Freire, promovendo, deste modo, a cidadania, Hermano Carmo, uma referência atual da Educação para a Cidadania em Portugal, conheceu Maria de Lourdes Pintasilgo em tempos anteriores ao 25 de Abril, tornando-se nos primeiros tempos da revolução, em maio de 1974, com 23 anos, foi secretário de Maria de Lourdes Pintasilgo (entre maio e dezembro de 1974). Afirma que ela teve uma grande influência na sua prática profissional: “Uma vez que foi através dela que ouvi pela primeira vez falar de Paulo Freire, tendo começado a trabalhar como técnico do Centro de Acção Social Universitário/CASU em três bairros de barracas; a filosofia e o método de intervenção de Paulo Freire foram fundamentais para o trabalho daquela organização” (Carmo, 2006: 21). Referindo-se ao trabalho com Maria de Lurdes Pintasilgo e Teresa Santa Clara Gomes, Hermano Carmo (2014: 02) diz:

48 “Tive o privilégio de trabalhar como secretário de Maria de Lourdes Pintasilgo e como técnico da Comissão Interministerial para a Animação Sociocultural/CIASC sob orientação de Teresa Santa Clara Gomes. Com essas duas mulheres notáveis, verifiquei no terreno que era possível conciliar a ética e a prática política. Aprendi que as cunhas e as cartas anónimas devem ser deitadas para o lixo e não devem ser consideradas. Com elas, aprofundei o pensamento de Paulo Freire na intervenção organizacional e na animação sociocultural. Nunca mais me esqueci, pelo exemplo de integridade que elas me deram e que tem constituído uma referência em toda a minha vida profissional (…) Eram umas mulheres decididas, voluntariosas. Foi um enorme privilégio tê-las conhecido.”

Como temos vindo a analisar e a refletir nesta parte deste estudo, para se compreender melhor o contributo do Movimento Graal em Portugal na conceção e implementação de verdadeiras políticas sociais nomeadamente nas áreas da educação e da cidadania cuja inspiração foi buscar ao pensamento e prática de Paulo Freire, temos vindo a dar conta de testemunhos de mulheres que colaboraram em todo este processo. Mulheres que, de certa forma, continuam a prosseguir o sonho concreto e possível de uma nova sociedade, mais justa, mais solidária e mais cidadã.

São mulheres como Celeste Isabel Sousa Lopes e Maria Teresinha Tavares, ambas do Graal, educadoras e militantes, que encontrámos, na Casa da Golegã, um dos centros do Movimento Graal. Representam depoimentos relevantes de mulheres pioneiras num tempo difícil, sem nunca desistirem de serem coletivas, em ações educativas e em atitudes inovadoras, protagonizando uma história que precisa ser conhecida porque contributo para a construção da educação e cidadania em Portugal.

Comecemos pela Maria Teresinha Tavares, natural da aldeia de Carvalhal, Concelho de Proença-a-Nova, que integrou o grupo das primeiras mulheres que formavam o Núcleo do Graal no começo da década de 1960. Hoje, com quase 70 anos, Teresinha conta-nos, com determinação e confiança, toda a dinâmica de mobilização e formação do Movimento Graal e do contato com Paulo Freire e do seu “Método” aquando da sua visita a Portugal em 1974:

“Estou no Graal desde o início, quando percorríamos as aldeias na região de Portalegre e Coimbra para mobilização e animação cultural. Ali montávamos todo o processo que ia desde os avisos nas missas e encontros paroquiais, quando a Igreja Católica mediava a nossa aproximação com o povo, passando pelas equipas de formação dos estudantes universitários, voluntários que vinham nos verões morar nas aldeias, em casas e locais modestos, e juntos trabalhamos em projetos e programas de cultura e educação. Os tempos eram difíceis mais não podíamos ter medo. A necessidade do povo era mais urgente. Nesses encontros discutimos questões relacionadas com a vida cotidiana, as

49 mulheres, que no início pouco falavam. Estávamos dentro do país que se encontrava