«Se dependesse de mim eu faria este tipo de projeto também abrangendo mais o vídeo e a música ou o cinema mesmo em si, porque são atividades que não só estimulam os jovens mas que também os incentiva a seguir os sonhos que eles têm.» T.B., participante do Projeto Olhares da Kova
Outro dos métodos participativos utilizados no desenvolvimento da presente investigação, consiste na realização e análise das entrevistas exploratórias64, realizadas ao promotor e participantes do projeto Olhares da Kova. Estas foram executadas na fase após o término do projeto. Pretendeu-se com estas, saber a opinião dos protagonistas face ao desempenho do projeto e expectativas deste. Trata-se de um instrumento importante numa investigação que, utiliza a recolha de dados qualitativos como critérios de avaliação de um projeto de intervenção social. A realização de entrevistas é relevante num projeto de intervenção social porque este é concebido por indivíduos e direcionado a indivíduos que, por sua vez, podem apresentar interpretações ou perceções das ocorrências de formas muito distintas. Por outras palavras, «nós temos opiniões sobre as coisas, os seres, os fenómenos, e manifestamo-las por juízos de valor […] e porque cada pessoa serve-se dos seus próprios meios de expressão para descrever acontecimentos, práticas, crenças, episódios passados.» (Bardin, 2011: 90-201).
Com as entrevistas pretendeu-se demonstrar e confrontar as diferentes opiniões, ou não, dos propósitos de concretização do projeto Olhares da Kova. Foram realizadas um total de três entrevistas exploratórias, ao promotor do projeto e a dois jovens participantes, sendo que os seus nomes não são aqui divulgados por uma questão de privacidade. As questões feitas foram diferenciadas segundo o papel de cada um na perspetiva de executor e recetor. Contudo, a todos os inquiridos foi colocada a questão se o projeto teve uma incidência favorável ou menos favorável na sua implementação.
64 Neste caso foram selecionados os dois jovens beneficiários, que se mantiveram presentes do início ao fim do projeto.
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8.2.1. Resultados da Entrevista ao Promotor do Projeto
Relativamente ao propósito de intervenção do projeto Olhares da Kova, o promotor deste refere que consiste em trabalhar a,
«Fotografia participativa dos jovens, às vezes alguns jovens têm dificuldades de se expressarem ao nível oral, verbal ou escrito, e o que o projeto faz é fazer com que eles consigam se expressar através de um outro tipo de linguagem, que é a linguagem visual […]eles comecem a refletir e a pensar quais são os problemas, quais são as necessidades e quais são os próprios recursos que o bairro tem».
A escolha deste bairro vai de encontro às espectativas ideológicas do projeto em comparação com outros bairros onde o sentido de comunidade não é tão visível mas, que se torna mais fácil de trabalhar e controlar.
«O projeto, ele funciona muito melhor quando os grupos de jovens, quando eles já têm um trabalho feito de base, ao nível de identidade de grupo, então eles já têm uma identidade com a comunidade muito forte, faz com que eles sejam a própria comunidade».
Durante o processo de execução das atividades houve necessidade de realizar alterações e segundo o que estaria previsto inicialmente. Relativamente a este facto o promotor comenta que,
«Acho que nem 20%, a questão do tempo é uma questão muito perversa, eu queria com que eles fotografassem um território, que conseguissem colocar no Google Maps, os espaços de Internet sempre estavam muito congestionados […] eles chegaram a fotografar e discutimos algumas fotografias mas eles não chegaram a montar os vídeos com as histórias de vida, não, por uma questão de tempo e logística do espaço também, o estúdio precisava de um monitor para gravar, nós não tínhamos esse monitor e depois o monitor não estava lá e era um bocado confuso, então o projeto em si necessita da logística da equipe técnica da instituição».
Neste cenário, as principais razões que conduziram à necessidade de alterar e desistir de realizar atividades, devem-se à elevada amplitude temporal entre as sessões e a falta de apoio técnico e logístico por parte da instituição acolhedora65, isto porque, segundo o promotor,
«Uma pessoa de fora que nunca teve contacto com os jovens que vai lá uma vez por semana não consegue ter esses laços, e esse mediador tem um laço de
65 Que neste caso se refere à Associação Cultural Moinho da Juventude, localizada no interior do bairro da Cova da Moura.
85 confiança muito forte com o jovem, o jovem já vem de um meio onde nem todo o mundo confia no que ele faz, então a autoestima e a autoconfiança tem de estar fortalecida, então se você fortalecer isso e para isso precisa de um mediador comunitário e esse mediador ele é fundamental, de todos os projetos que eu já fiz até hoje o único que conseguiu ter sustentabilidade e continuidade foi o que o mediador conseguiu estar desde o começo até ao fim».
Mesmo sem conseguir executar todas as atividades, estipuladas inicialmente no plano de ação do projeto, o promotor retira do total das sessões realizadas uma conclusão favorável para os jovens participantes do projeto,
«Eu acho que não consegui fazer tudo, mas eu acho que as atividades foram interessantes […] tudo contabilizou para que eles desenvolvessem um outro tipo de competências, seja ao nível de comunicação, de conhecimento do bairro, de estrutura de poderes, de status».
Para futuros projetos, este intervencionista social chama a atenção para a situação dos jovens com idades mais avançadas residentes no bairro. Salienta a ausência de ações e projetos para estas idades que, podem ser uma forte potência no desenvolvimento e futuro da comunidade onde estão inseridos,
«Os processos de autonomia são processos complicados mas são processos que tiram todas as amarras da dependência, de todos os níveis institucionais de organizações governamentais como não-governamentais, então esse trabalho de autonomia os jovens não tem isso muito claro e a instituição não fortalece esse tipo de atividades para eles e também faz com que os mais velhos acima dos dezasseis anos eles não participem nas atividades pois não existem praticamente atividades para eles, grande parte das atividades são atividades para jovens mais jovens, entre os doze e quinze ou dezasseis anos».
Recomenda que, devem de ser criados projetos para fomentar a autonomia dos jovens adolescentes porque,
«Eles precisam de ter autonomia, eles precisam de ter projetos onde eles tomem a decisão sobre o próprio projeto, onde eles já decidem sobre a vida deles, isso está dentro do próprio desenvolvimento de juventude da relação de adolescência».
8.2.2. Resultados das Entrevistas aos Participantes
O Projeto implementado no bairro da Cova da Moura para crianças e jovens moradores compreendeu um conjunto alargado de sessões e atividades desenvolvidas por estes e, definem o principal objetivo de execução do projeto o de,
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«Transmitir outro olhar da Cova da Moura, não aquele que as pessoas de fora conhecem mas aquele que todos os dias vivemos lá dentro, para mim, eu vivo lá e não acho que é mau, acho que é um bairro social onde todas as pessoas convivem umas com as outras, quando precisas de algo ajudamo-nos uns aos outros» (E.F). No mesmo sentido T.B. acrescenta que,
«Através da fotografia dar a conhecer um bocado mais sobre o interior da nossa comunidade, quebrando certos estigmas que são presentes na sociedade sobre a nossa comunidade».
De todas as atividades desenvolvidas ao longo do processo de intervenção, as que mais suscitaram entusiasmo na memória destes jovens foram as sessões de fotografia, “sair para a rua e fotografar sem dúvida” (T.B.) e o focus grups sobre os problemas e pontos fortes do bairro, « foi o mais importante, para nós estarmos mais alerta» (E.F).
Quando foi abordado o motivo de concretização deste tipo de projeto no bairro da Cova da Moura, as respostas foram unânimes, pela imagem negativa que este detém aos olhos do exterior como refere E.F, «Porque o bairro da Cova da Moura é muito conhecido, com má fama mas é conhecido».
Ambos os entrevistados, mencionam que foram bem acolhidos pela equipe de intervenção e que se sentiram confortáveis durantes todo o desenvolvimento das sessões. A concretização do projeto teve impactos positivos sobre estes jovens, nomeadamente ao nível de consciencialização social e aprendizagem técnica. Para E.F. o projeto ajudou-a,
«A levantar a cabeça e não desistir e lutar pelos nossos objetivos e também sermos sempre humildes para com as pessoas».
Por outro lado, segundo o T.B. participar neste projeto deu-lhe,
«Uma maior perceção do uso da fotografia, ou seja, do uso da fotografia socialmente, ou seja, com uma foto podemos tentar transmitir uma mensagem ou pensamento».
Confrontada a forma como o projeto finalizou, os jovens apresentam uma opinião ligeiramente diferentes. Por um lado E.F. que afirma que,
«Nunca pensei que esse projeto fosse acabar, eu sempre pensei que fossemos continuar […] acabou assim do nada, ninguém nos disse nada, acabou, já está tudo o que tínhamos para fazer… mas gostei».
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«Terminou de uma boa forma, mas como eu sou muito exigente… terminou com a exposição mas eu acho que deveriam de ter sido feitas outras coisas, inclusivamente uma divulgação maior do projeto, e também nessa divulgação incentivar outras comunidades a realizar projetos com o mesmo sentido».
Ambos admitiram que, gostariam de continuar a participar e desenvolver este projeto na comunidade. Para estes dois jovens participantes, seria importante implementar mais projetos com atividades lúdicas, nomeadamente como E.F. exemplifica o caso do,
«Teatro, dança, música, fotografias, todo o tipo de atividades como futebol, assim coisas que não têm nada a ver com a escola mas que possam fazer, e depois como estamos sempre na escola, sempre temos problemas em casa, como se fizéssemos um grupo e fossemos todos família e tivéssemos sempre juntos».
Mas para T.B,
«Eu faria este tipo de projeto também abrangendo mais o vídeo e a música ou o cinema mesmo em si, porque são atividades que não só estimulam os jovens mas que também os incentiva a seguir os sonhos que eles têm […] seria importante desenvolver projetos em que as pessoas deveriam ser alertadas sobre os seus direitos talvez, os seus deveres também, à valorização de si próprio, ou seja, as pessoas de mais idade já estão digamos assim mais conformadas com a vida que têm, e se lhes mostrassem que havia mais para fazer eu acho que seria interessante».
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CAPÍTULO IX – AVALIAÇÃO DO PROJETO OLHARES DA
KOVA
O principal motivo de concretização do presente trabalho consiste em caracterizar, acompanhar e avaliar o projeto de intervenção cívica denominado de Olhares da Kova. No presente capítulo é demonstrado o cruzamento entre todas as ferramentas utilizadas e desenvolvidas ao longo de todo o processo de análise, observação e investigação para realizar a construção de um modelo de avaliação do projeto. O tipo de avaliação aqui desenvolvida caracteriza-se por um exercício prático de carácter demonstrativo da, importância e necessidade que deve de ser dada à utilização da avaliação em qualquer prática de intervenção no território. Por outro lado, tentar mostrar as dificuldades e limitações que subsistem para quem pretende intervir no domínio social.