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A perspectiva de análise que apregoa que o Reinado em algumas cidades do interior mineiro, no início de século XX, compunha há tanto tempo, e, de tal

189 MARTINS. Estevam C. de Rezende. Tempo e memória: construção social do passado na história. Associação Nacional de História – ANPUH.VIV Simpósio Nacional de História. 2007. 190 GIFFONNI. Maria Amalia Corrêa. Op. Cit. ; GARCIA. Josyany de Oliveira. O grande Reinado do Rosário – Itapecerica/MG. O Tamanduá Desaparecido, Itapecerica, n. 1, agosto, 2012.

191 LEONEL, Guilherme Guimarães. Op. Cit. p. 161-162. 192 OLIVEIRA, Sueli do Carmo. Op. Cit. p. 69.

modo, o cenário público regional, que foi capaz de conquistar um espaço singular na comunidade, também sustenta que este realce só se tornou possível devido à chancela de certos grupos sociais com alguma proeminência. Suspeita-se que tal aprovação se embasava na longa procedência das celebrações, em uma associação entre a festa e a efervescência do catolicismo nos tempos coloniais e imperiais. Assim, o Reinado teria obtido status de representante de uma tradição religiosa alicerçada nos interstícios locais, mesmo que, em tal concepção, estivesse incluída uma clara demarcação social e reafirmação das posições hierárquicas das elites dominantes em meio á realização da festa.

No tocante à produção intelectual acerca dos festejos em Itapecerica, parece ter havido um distinto espaço de expressão para grupos que compreendiam o Reinado de maneira diversa daquela cujo símbolo foi a marcante condenação eclesiástica, inaugurada a partir do episcopado de Dom Antônio dos Santos Cabral à frente da recém-estabelecida diocese de Belo Horizonte, na década de 1920.

A revista O Natal – Folha dedicada à Infância surgiu do “Clube Infantil de Natal”, associação criada no município de Passos, Minas Gerais, entre o fim do século XIX e início do XX, por Hilarino Moraes, com o intuito de realizar comemorações para celebrar o Natal:

Essas festas eram muito populares em Portugal e denominavam-se apresentação das Pastorinhas. O Capitão Hilarino estudou no Colégio Caraça de Belo Horizonte e, de lá, trouxe a tradição e os hinos. O “Club” foi crescendo, organizou uma biblioteca que chegou a ter mais de 1200 volumes e ganhou prestígio entre as famílias dos coronéis, que se envolviam com a preparação dos presépios e das fantasias. Inicialmente, os trabalhos foram modestos e simples; depois, as celebrações foram ficando cada vez mais luxuosas. Nos anos 20, além do luxo com que se celebrava o Natal, havia disputa entre as adolescentes para ter a honra de participar das apresentações. 193

Foi desta distinta agremiação que se originou a revista O Natal, cuja circulação anual era coincidente à época das festividades natalinas. Tal anuário deve ter sido editado por um período de tempo considerável, já que foi possível localizar, através do arquivo particular da escritora Célia Lamounier, em

193 História da nossa gente, 150 anos de Passos. Passos, fascículo 06/10, agosto, 2008. Disponível em <http://www.fespmg.edu.br/Content/imagens/ProducoesFesp/passos_150anos_06.pdf>, acesso em 01 de setembro de 2011.

Itapecerica, uma sequência de fotocópias de trechos da revista que se inicia em 1903 e termina em 1929, com algumas ausências, sobretudo nos primeiros anos. Entre a década de 1920, não foram localizados fragmentos do número referente ao ano de 1927. Entre os extratos da coleção, percebe-se um interesse prioritário em matérias referentes a assuntos relacionados à localidade de Itapecerica.

O Natal pautava-se pela descrição das iniciativas do clube, além de conter ainda “contos, poesias, homenagens a vivos e mortos e artigos sobre Itapecerica, a cidade natal do Capitão Hilarino”. 194 O intelectual exercia o posto de escrivão em

Passos, 195 e parece ter obtido considerável prestígio no local, demonstrado através do fato de seu nome ser escolhido para batizar a escola municipal da cidade.

Um dos colunistas de maior destaque em O Natal era Bento Ernesto Júnior, também proveniente de Itapecerica, figura de renome na produção memorialística do município, e que publica um dos primeiros periódicos da localidade em 1884, intitulado O Raio, e ainda outros dois jornais, A Prosa, e O

Beija Flor. 196 A despeito de tais publicações, Bento Ernesto Júnior se transfere para a cidade de São João del Rei, dedicando-se ao magistério, e chegando a alcançar o cargo de inspetor regional de ensino. Foi autor de livros de poesia e contos197 e, sobretudo, onipresente cronista de periódicos da região, nos quais assinava seus textos através das iniciais de seu nome, sendo ainda, notável amante de música, letrista de hinos escolares, de cidades, e peças sacras.

O intelectual dá início à sua colaboração em O Natal no ano de 1915, de acordo com nota publicada na revista, de autoria de seu redator, Hilarino Moraes:

Nossa modesta revista, que, desde o seu início, vem sempre intermeando os louvores ao Menino Jesus (em cuja honra é publicada) com referencias saudosas à velha terra tamanduaense o pittoresco torrão que se liga tão fortemente ao

194 História da nossa gente, 150 anos de Passos. Passos, fascículo 06/10, agosto, 2008. Disponível em <http://www.fespmg.edu.br/Content/imagens/ProducoesFesp/passos_150anos_06.pdf>, acesso em 01 de setembro de 2011.

195 História da nossa gente, 150 anos de Passos. Passos, fascículo 05/10, julho, 2008. Disponível em <http://www.fespmg.edu.br/Content/imagens/ProducoesFesp/passos_150anos_06.pdf>, acesso em 01 de setembro de 2011.

196 ARAÚJO. Célia Lamounier de. Itapecerica. Antologia n. 1. Itapecerica: CMC – Consórcio mineiro de comunicação LTDA, 1993.

197 JÚNIOR. Bento Ernesto. Frondes. Primeiros Versos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1895; JÚNIOR. Bento Ernesto. Atomos Lyricos. Rio de Janeiro: Carlos Schmidt, 1896; JÚNIOR. Bento Ernesto. Vida aldeã. Contos. Rio de Janeiro: Edição do próprio autor, 1908.

espirito dos directores desta publicação, - nossa modesta revista, com o seu numero deste anno, vai, estamos certo, despertar em a alma dos filhos d‟aquella terra, já existindo ali por 1878, as mais cruciantes saudades. Motiva esse levantar de evocações affectuosas à publicação de diversos trabalhos, artigos, versos, e desenhos, da lavra de Bento Ernesto, filho do torrão tamanduaense e que tem os seus dotes de prosador e poeta redoirados por um largo sentimento de amor à terra querida do seu berço, que elle procura, sempre e em toda a parte, homenagear com enthusiasmo e sinceridade. 198

A relação entre o colunista Bento Ernesto Junior e o redator da revista e criador do clube O Natal de Passos, Hilarino Moraes, parece ter se caracterizado pela cordialidade e companheirismo de longa data, na medida em que Bento Ernesto dedica muitas crônicas ao “compadre Hilarino Moraes”, como a primeira publicada na revista, A matriz da minha terra. Os escritos do colunista de O Natal remetem-se muitas vezes a um interlocutor oculto (em algumas ocasiões, explicitamente) com o qual compartilha memórias associadas a eventos passados na “velha terra tamanduaense”, em geral num tom saudoso e nostálgico, que lamenta a dissipação de costumes e figuras conhecidas na cidade:

O meu bom Compadre Hilarino, hoje circumspecto tabelião de notas e brilhante soldado, outrora, d‟aquella gloriosa milicia de vagabundos tamanduaenses, ao fazer, hoje, a chamada da tropa, ha de, com os olhos em lagrimas, verificar quanta gente dos nossos não acode ao appello e isso por que já têm a bocca sellada pelo beijo friissimo da Morte! 199

O conteúdo das colunas de Bento Ernesto Junior sobre assuntos relacionados à Itapecerica segue as características gerais da revista, composta majoritariamente por textos que envolvem a temática religiosa, isto é, contos e poemas a respeito das celebrações do nascimento de Jesus, missa do galo, gravuras que se remetem a imagens e acontecimentos bíblicos, registros da ocorrência de festividades religiosas, fotos e menções a clérigos e também a políticos destacados na região, além de notas de falecimento, pedidos de doações para a biblioteca do clube do Natal e anedotas de humor. Hilarino Moraes, em escrito de 1925, afirma que Bento Ernesto Júnior“tem sido incontestavelmente o

198 MORAES, Hilarino. O presente número do Natal. O Natal, Passos, dez. 1915. S/N. p. 3. 199 JÚNIOR. Bento Ernesto. A matriz da minha terra. O Natal, Passos, dez. 1915. S/N. p. 4.

amigo mais dedicado do Natal”, e apresenta uma nova faceta de seu amigo e colaborador da revista, que vai além de sua inclinação para a produção literária.

Quem quisesse conhecer-lhe a feição literária bastava percorrer a nossa colecção. Na verdade, nossas paginas tem inserido do nosso camarada artigos, poesias, contos, humorismos, e até desenhos, expressamente feito para ellas. O seu pendor para as bellas letras e para as bellas artes, Bento Ernesto já o tem manifestado fartamente aos nossos leitores. Uma face, porém, do sentimento artístico do poeta tamanduaense, os nossos leitores ainda não conheciam: a sua paixão pela musica que elle cultiva discretamente [...] O Natal dá, nesta edição, um autographo musical de Bento Ernesto: uma suavissima Salve Rainha, de composição do poeta dos Frondca, grande enthusiasta de musica sacra. 200

As menções aos festejos de Reinado, contudo, não se iniciam a partir da integração de Bento Ernesto Júnior a O Natal, nem tampouco estão associadas exclusivamente às matérias que tocam em temas que relativos à “velha Tamanduá”. A primeira alusão ao Reinado ocorre no alvorecer do século XX, em 1906. No total, há citações dos festejos em sete números da revista e, em alguns casos, mais de uma referência por ano. No início da década de 1920, sobretudo, os memorialistas fartam-se em relembrar a festividade de Itapecerica, e não mencionam nenhuma restrição em sua prática por parte das autoridades eclesiásticas da diocese de Dom Antônio dos Santos Cabral. Na primeira menção ao Reinado em O Natal, no entanto, não está claro se a referência diz respeito à realização da festa no município de Itapecerica, ou em Passos, onde a publicação era editada. Tal menção consistia em duas breves notas que informavam a ocorrência dos festejos em homenagens a santos católicos, em fins de dezembro, portanto, nas proximidades das comemorações do Natal, primeiramente em honra a São Benedito:

No dia 28 deste terá lugar o Reinado de S. Benedicto. Espera- se que a sua poética Capella attrrahirá esse anno, grande romaria de devotos que vão cumprir suas promessas, e para ver o sympatico, o deslumbrante presepe do Ludovico, taboa de salvação de sua situação. 201

200 MORAES, HILARINO. Bento Ernesto Junior. O Natal, Passos, dez. 1925. S/N, s/p. 201 O Natal, Passos, dez. 1906. N. 8. p. 2.

Nota-se referência ao pagamento de promessas, prática intrinsecamente relacionada aos compromissos rituais das festividades de Reinado. Além de tal citação neste exemplar de O Natal, na página seguinte, encontra-se outra menção ao Reinado, desta vez, em homenagem a Nossa Senhora do Rosário:

Com as solemnidades do estylo, realisara no dia 26 e 27 deste o imponente reinado de N. S. do Rosário, para o qual a Mesa Administrativa pede o concurso dos fiéis, a irem cumprir suas promessas e depositar suas esmolas. A egreja, mais que nunca, precisa que os bons chistãos a auxiliem para solver os seus onerosos compromissos. 202

Cabe ressaltar a centralidade das festas de Reinado para a arrecadação de esmolas em benefício da instituição católica. Supõe-se que também por causa desta imputação, os festejos tenham adquirido o caráter de manifestação positivamente enraizada no espaço público mineiro até o início do século XX, enquanto representantes da cultura religiosa local.

Todavia, a historiadora norte-americana Elisabeth Kiddy afirma, focalizando sua análise na festa do Rosário no município de Oliveira, que a década de 1910 teria inaugurado um período de paulatina delimitação entre o “sagrado” e o “profano” no Reinado, e consequente “separação entre pretos e brancos”, o que teria resultado em uma crescente reprovação da festa por setores com voz ativa no interior do jornal local da cidade. 203

A integração do intelectual itapecericano Bento Ernesto Júnior na revista

O Natal, conforme mencionado anteriormente, de deu na edição de 1915, na qual estiveram presentes, além da crônica A matriz da minha terra, versos sobre as celebrações natalinas e ainda, um poema em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, padroeira de São João del Rei, onde, de acordo com a publicação, “por occasião das solemnes festas que, a 8 de Dezembro, ali se celebram à Virgem da Conceição, têm sido distribuídos, a hora da missa solemne, versos do nosso collaborador Bento Ernesto Junior”. 204

O primeiro texto de autoria do escritor a ser publicado em O Natal que contém referência direta ao Reinado de Itapecerica data de 1918. Trata-se de uma coluna intitulada Os Typos de Rua (em Tamanduá), e que, na ocasião, reporta-se

202 O Natal, Passos, dez. 1906. N. 8. p. 3. 203 KIDDY, Elizabeth. Op. Cit. p. 97.

ao negro Vicente do Barreiro, considerado “trabalhador e pacífico, era uma figura popular no meu tempo e do Hilarino”. O texto é construído a partir da contraposição entre uma positivada liderança exercida por Vicente, “vulto mais distinto”, a “cabeça pensante do ebanico nucleo”, em meio à conjuntura do cativeiro, e o comando efetivo do grupo de “Pae Joaquim Caraolho”, preto de “um olho vazado”, feiticeiro temido e respeitado por negros e brancos, portador da fama de antipático. O autor inicia o escrito esclarecendo que, como Hilarino Moraes, chega a vivenciar o período de vigência do sistema escravocrata: 205

Uns vinte annos da nossa vida nós os passamos em pleno florescimento da escravidão. Dos escravos daquella épocha, muitos havia notaveis. D‟elles a suprema chefia andou em outras mãos; mas, o vulto mais distincto era o Vicente do Barreiro, assim conhecido por causa da fazenda em que era escravo. Na minha meninice, o chefe dos negros de Tamanduá era Pae Joaquim Caraolho, alcunha que lhe adveiu de ter um olho vazado. Era um creoulão der elevada estatura e poucas carnes. Nada se fazia, nas festividades em que a negrada entrava, sem o seu beneplácito. Mas, a alma de todos os movimentos era o Vicente, que se podia dizer, - a cabeça pensante do ebanico nucleo. Era como que um mestre de cerimônias sapientíssimo, um constitucionalista de truz. O Vicente seria, por consenso unanime de todos, o chefe supremo da turba, se o Pae Joaquim Caraolho não fosse de todos temido pela fama, que lhe aureolava o nome – de feiticeiro de primeira agua. Ninguém, portanto, - nem branco, nem preto – o contradizia nas suas deliberações, fossem ellas o mais supremo dos disparates. Era profundamente antipathico. Todo o mundo o detestava: ninguem, enmanto, ousava – de medo – manifestar-lhe a má vontade em que o tinham. Contrariamente, o Vicente, pelos seus modos humildes e bondosos, era largamente estimado. Estimado e apreciado, porque lá nas suas dansas, - muito embora estas grosseiras e disparatadas – o creoulo do Barreiro era um artista, sabendo na ponta da língua todos os capitulos e paragraphos da lithurgia e do rito. 206

A que danças “grosseiras e disparatadas” Bento Ernesto Júnior estaria se referindo nesta coluna, as quais o estimado negro Vicente do Barreiro protagonizava tão bem, a ponto de saber todos “os capítulos e parágrafos da liturgia e do rito”? No prosseguimento do texto, encontram-se mais algumas pistas acerca de tais práticas:

205 JÚNIOR, Bento Ernesto. O Vicente do Barreiro. O Natal, Passos, dez. 1918. S/N. p. 6. 206 JÚNIOR, Bento Ernesto. O Vicente do Barreiro. O Natal, Passos, dez. 1918. S/N. p. 6.

Em Tamanduá, naquelle tempo, como se diz nos Evangelhos, os senhores de escravos davam a estes umas férias em fins de Dezembro e principios de Janeiro, tempo consagrado às festas do Rosário, entre as quaes occupava logar de proeminencia o Reinado, que tinha logar a primeiro de Janeiro. Desde 8 de Dezembro, porém, já a negrada se punha em movimento, percorrendo as ruas, nos seus trajes bizarros, cantarolando trovas selvagens, ao som monótono das caixas e adules. Nesses dias, então, o Vicente, vestido a caracter – camisas, calças e saias de mulher, apanhada esta na cintura, à feição de um saiote, um lenço de seda à cabeça, como turbante e um chalé chitado a tiracollo, e guizos nos pés – o Vicente, dizia eu, estava no Céo. Pae Joaquim empavonava-se na sua importância de Menelik d‟aquelles pobres diabos pretos: mas, ignorante, cerradamente bronco, nada entendo do riscado moçambique, deixava tudo por conta do Vicente e este, verdade seja dita!... desempenhava-se a rigor da empreitada. 207

A coluna ratifica o acontecimento dos festejos de Reinado em Itapecerica entre os meses de dezembro e janeiro, associando o fato à ocorrência de um período de intervalo nos afazeres das lavouras, trégua concedida pelos senhores aos seus trabalhadores negros no contexto da escravidão. Era neste momento que as festas do Rosário tinham seu lugar em Itapecerica. A questão que vem à tona refere-se a que espécie de realce é imputado ao Reinado por Bento Ernesto Júnior, já que, se o intelectual alude ao “lugar de proeminência” dos festejos em meio às celebrações do Rosário, em seguida, menciona os “trajes bizarros”, “trovas selvagens” e o “som monótono das caixas e adules” dos negros ocupados com os preparativos para a grande festa. Se a figura do negro Vicente do Barreiro é alvo de acintosos elogios devido ao seu desempenho na festividade, ao pai Joaquim Caraolho é direcionada uma cortante crítica de, a despeito de sua posição de “chefe supremo da turba”, nada entender do “riscado moçambique”.

A primeira constatação atestada por meio do texto de Bento Ernesto Júnior é a supracitada “dimensão fronteiriça” do Reinado, a que se refere a historiadora Sueli Oliveira ao analisar as notícias sobre a festa na imprensa do município de Itaúna, nas primeiras décadas do século XX. As impressões sobre o Reinado pareciam se pautar por uma feição dúplice, que alocava o caráter familiar e remoto da prática no interior mineiro a certo estranhamento, pela associação dos festejos a uma religiosidade africana ancestral. Além disso, a historiadora faz

menção à incompatibilidade da festa em um cenário marcado pelo entusiasmo com a emergência de um novo protótipo de civilização. 208

É nítido que as considerações de Bento Ernesto Júnior a respeito do Reinado expressam a ambigüidade da festa, na medida em que congregam alguma proximidade do intelectual com as celebrações – dança sobre a qual o autor devia estar suficientemente familiarizado, a ponto de sentir-se à vontade para emitir sua opinião acerca do desempenho do negro Joaquim Caraolho – com o ambicionado distanciamento dos festejos, identificados, embora não de maneira excludente, com a religiosidade e a cultura africanas. No entanto, alguns elementos recorrentes ao longo da leitura de O Natal desautorizam a vinculação do discurso da revista a uma condenação das festividades do Reinado, frente ao arrebatamento com a emergência de novos preceitos de civilização e progresso. Na contramão de tais anseios, tanto o festejado colunista de Bento Ernesto Júnior, quanto o próprio redator da revista, Hilarino Moraes, assinando outros artigos, revelam a existência de um sentimento nostálgico, despertado pela reminiscência dos festejos:

Que saudades, para nós d‟aquella geração, d‟aquelle tempo em que a negrada da parochia se despejava, naquellas férias, das fazendas para a cidade, onde vinham, nos seus rústicos, innocentes folguedos, esquecer-se, algum dia, da vida miseranda que levavam! Os fazendeiros, também – porque - cessasse o serviço nas roças – vinham assistir na cidade, durante a quadra festiva, que era, para os pobres, captivos, uma como que parenthesis da luz, na treva escura de sua desgraçada vida de párias. 209

No decorrer da coluna sobre o ex-cativo Vicente do Barreiro, Bento Ernesto Júnior afirma vivenciar uma lembrança saudosa a partir da descrição das festas de Reinado, os “rústicos, inocentes folguedos”, cuja promoção fazia com que os negros obtivessem louvável suspensão em seus sofrimentos diários. Assim, sob o caráter de “parenteses da luz, na treva escura de sua desgraçada vida de párias”, o Reinado oferecia o tal “discurso compensatório”, que, de acordo com a abordagem da historiadora norte-americana Elisabeth Kiddy, servia como um reforço nas tradicionais relações de dominação da população escrava pela elite

208 OLIVEIRA, Sueli do Carmo. Op. Cit. p. 50.

branca.210 O discurso do intelectual soa como sustentação para tal perspectiva e, mais que apenas isso, oferece um singular contraponto entre duas lideranças negras associadas à festividade, uma delas, Vicente do Barreiro, notavelmente aprovada e, até mesmo, admirada pelo destacado membro da nata intelectual