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B. Comparaison des performances des s´ elections
A noção de contrato remete ao vínculo entre emissão e recepção, dadas as condições de produção e reconhecimento de discurso. Proposta numa revisão às pesquisas administrativas ou funcionalistas sobre os efeitos, e também às análises imanentes dos discursos, esta noção tenciona reduzir o fosso entre os conhecimentos sobre o texto, de um lado, e os conhecimento sobre o leitor, do outro.
O contrato de leitura é formalizado na prática textual, quando se consagra no vínculo entre o produtor e o leitor, e refere-se às regras, estratégias e políticas de sentido que modulam os elos dessa conexão (FAUSTO NETO et al, 2011). Em sua pesquisa sobre o contrato de leitura em revistas e jornais, Verón observa que os elos são estabelecidos logo na capa, uma vez que, nesse primeiro contato, já há traços da identidade, do estilo do suporte e sua forma de abordagem do acontecimento.
Ainda segundo Verón (2004), há uma constante negociação entre produção e recepção, o contrato é balizado no conhecimento que os interlocutores têm um da fala do outro (FAUSTO et al, 2011; VERÓN, 2004). Dessa forma, diferentes veículos estabelecem contratos distintos com os leitores e, assim, assumem posicionamentos diferenciados, alimentando e enfrentando a concorrência no mercado (VERÓN, 1985).
A noção de contrato de leitura tem uma perspectiva suporte-leitor e, neste estudo, focamos mais as situações de comunicação entre assessoria de imprensa e redação jornalística, por um lado, e redação jornalística (suporte) e leitor, por outro. Enfatizamos, portanto, o caráter relacional da produção do discurso informativo. No mais, apostamos que a relação intercontratual, constituída pela zona de interseção, pode desencadear mudanças na produção discursiva, uma vez que as assessorias de comunicação são convertidas em personagens ativos no processo de construção da informação, na atualidade. A ênfase nas situações de comunicação e no aspecto intercontratual da produção discursiva, estudada neste trabalho, fundamenta, pois, a predominância do uso do termo “contrato de comunicação” (CHARAUDEAU, 2003, 2012). Além disso, essa noção é sustentada teoricamente no percurso mimético de Ricoeur, cujo círculo é aporte teórico-metodológico para nosso estudo. Charaudeau (2003, 2012) argumenta que a situação de comunicação, na qual é construído o discurso, determina seu impacto social e engendra os contratos de comunicação. Assim, a relevância ou interesse social de um discurso vai depender das condições específicas da
situação de troca da qual ele surge. As situações de comunicação constituem quadros de referência, molduras (GOFFMAN, 1974), cujas restrições são reguladas pelas práticas sociais e discursos de representação, “produzidos para justificar essas mesmas práticas, a fim de valorizá-las” (CHARAUDEAU, 2012. p.67). Os contratos são balizados pela cointencionalidade e são regulados por dados externos e dados internos ao discurso.
Os contratos estabelecidos entre os agentes de uma dada situação comunicativa são social e historicamente definidos. No que diz respeito à construção da notícia, na relação entre assessoria de imprensa e redação jornalística, como já explicitado, mapeamos duas situações de comunicação que merecem destaque: 1) a situação de comunicação entre a AI e a redação jornalística e 2) a situação de comunicação entre a redação jornalística (suporte) e o leitor. Esta segunda reverbera na primeira e temos, assim, dois contratos que se encontram e que são estabelecidos em prol da construção dos discursos informativos e de outros interesses. Em outras palavras, as condições de produção da notícia ocorrem na conexão e tensionamento entre esses dois contratos de comunicação. No processo analítico, o desafio é localizar os aspectos externos (características da situação de troca) e os aspectos internos (do discurso), que os determinam.
Segundo Charaudeau (2003, 2012), os dados externos compreendem as regularidades comportamentais dos indivíduos envolvidos na situação de troca e as constantes dessa situação. Os discursos de representação confirmam as regularidades e lhes atribuem valores. Os dados externos podem ser agrupados em quatro categorias, que correspondem às condições de enunciação, a saber: identidade, finalidade, propósito e dispositivo.
No que tange à condição de identidade, é preciso responder à questão “quem troca com quem?”, traçando um perfil dos parceiros da situação, no que concerne ao ato comunicativo. Essa identificação fica nos limites das representações. A condição de finalidade responde à questão “estamos aqui para dizer o quê?” e está associada à problemática da influência. A pretensão de que os discursos possam ser tematizados e a configuração do acontecimento respondam à pergunta “do que se trata?”, abarcada pela condição de propósito. As indagações sobre as estratégias de enunciação do suporte midiático podem ser respondidas pelas condições de dispositivo. Como discorrem sobre o quadro do ato comunicativo, parcialmente previsível, é possível mapear a manifestação e a organização das condições do dispositivo.
falar, como falar e os comportamentos adequados às delimitações situacionais. Os dados internos são propriamente discursivos e respondem à pergunta “como dizer?”.
Embora as restrições da situação de comunicação sejam dadas previamente ao ato de comunicação, este não está determinado em definitivo e permite ao emissor construir suas próprias estratégias e até remodelar espaços de enunciação.
Os espaços enunciativos conformam os dados internos do contrato e dividem-se em três: espaço de locução (o sujeito falante conquista o direito de poder comunicar, assumindo o lugar de fala e identificando seu interlocutor); espaço da relação (ao construir seu espaço de locutor e também ao identificar o interlocutor, o sujeito falante estabelece relações de força, submissão, inclusão, exclusão, dependência etc); espaço de tematização (onde é organizado o tema, ou temas, da troca) (CHARAUDEAU, 2003, 2012; PINTO, 2002; VERÓN, 1985, 2004).
Os dados internos dos contratos nos permitem operacionalizar os conceitos de heterogeneidade ou interdiscurso, intradiscurso, sujeitos do enunciado e da enunciação. Já os operadores o poder e o ideológico transitam tanto nos dados internos, quanto nos dados externos, e só podem ser apreendidos neste movimento de complementariedade entre a situação de comunicação e o discurso produzido.
Demonstramos que a mecânica de produção do sentido do discurso informativo se complexifica, a partir do momento em que as assessorias de imprensa são contempladas na instância de produção e, consequentemente, nas condições de produção. Aqui, chega o momento de salientar que os contratos de comunicação, nesta construção da notícia, ganham, portanto, outras dimensões e camadas de sentido.
Figura 3
Fonte: Livre adaptação da autora, a partir de Charaudeau (2003, 2012), Ferreira (1997, 1999).
Os contratos se referem aos processos de transação no círculo hermenêutico, que dispõe sobre a semiotização global do mundo. A título de lembrança, o contrato para produção da informação jornalística é marcado pela contradição entre o faze saber (informar) e o fazer sentir (seduzir). Por sua vez, o contrato para produção d informação estratégica é marcado pelo desacordo entre informar e convencer, mas neste último, acrescentamos a finalidade de relações públicas, concernente à construção de imagem e reputação do cliente.
Em ambos os contratos, há a busca por uma aderência ao saber do conhecimento e a presença dos operadores enunciativos para a produção dos efeitos de sentido de
verdade. Contudo, no que diz respeito à informação estratégica, em todas as etapas, faz se necessário averiguar o apagamento discursivo do tom promocional, enquanto recurso retórico para convencer o jornalista da redação sobre a legitimidade da pauta4.
Neste momento, podemos inferir que contradições e encobrimentos fazem parte do contrato da informação estratégica, uma vez que o fazer saber, ou seja, o informar, de maneira ambígua, consiste em: artimanha retórica para posicionar o cliente e subsídio para conquistar a atenção da redação jornalística. Do ponto de vista da assessoria de imprensa, é necessário informar o jornalista e convencê-lo dos valores da pauta, mas também é preciso construir um posicionamento para a organização, que ecoe na sua imagem e reputação (KUNSCH, 2009; DUARTE, 2011).
Dito isso, o desafio é abarcar, analiticamente, as características dos contratos
estabelecidos entre AI e redação jornalística, por um lado, e redação (suporte) e leitor,
por outro. A princípio, a análise precisa atentar para as instâncias de produção e
recepção da informação; as finalidades do contratos; o acontecimento em construção e
os dispositivos (CHARAUDEAU, 2012).
Ao nosso ver, as perguntas devem motivar e orientar o processo analítico. Assim, as questões sobre os agentes dos contratos, por exemplo, levam-nos ao jogo disposto pelos respectivos discursos das representações em confronto com as práticas.
As indagações sobre as finalidades e os propósitos reverberam no processo de configuração do acontecimento e nas escolhas que o definem. Já as interrogações em torno do dispositivo concernem à enunciação, que liga aspectos técnicos e simbólicos.
Ou seja, os agentes, finalidades, propósitos e dispositivos do contrato são
indissociáveis, mantêm relações intrínsecas. No quadro, abaixo, buscamos sistematizar os operadores para a análise dos contratos, nos âmbitos interno e externo.
Quadro 3: Apontamentos e operadores para análise dos contratos Contrato de Comunicação Das trocas entre os enunciadores em situações de comunicação
Dados externos
Identidade (Posições e papéis dos agentes na troca) Finalidade (Os objetivos do acordo)
Propósito (Processo evenemencial)
Dispositivo (As restrições do dispositivo)
Representação dos agentes (Produção – o informante como testemunha ou revelador, assume funções de pesquisador e/ou comentador)
Para fazer saber, busca dizer o exato, o que aconteceu, as intenções e fornece provas. Para fazer sentir, recorre às estratégias retóricas da dramatização.
A configuração do acontecimento (Aspectos da inteligibilidade, do simbolismo e da temporalidade)
Especificidades dos meios As condições materiais (técnicas) e simbólicas. Dados Internos
A Locução A Relação O Tema
Os modos de dizer, postulados nos dispositivos de enunciação, permitem operacionalizar os conceitos de heterogeneidade, inter e intradiscurso e sujeitos na enunciação.
Fonte: Livre adaptação, a partir de Charaudeau (2003, 2012); Pinto (2002); Verón (1987, 1995, 2004)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trecho do nosso percurso, vimos que os processos de transação consistem nas negociações moduladas pelos contratos de comunicação (e leitura), cuja abordagem analítica nos remete aos dados internos e externos do discurso. Em outras palavras, registra-se, aqui, a inerência entre a transformação e a transação, evidenciada pela dinâmica do círculo hermenêutico. Através da perspectiva da tríplice mímesis, tratar da configuração é, de certa forma, ser impelido a abordar também as negociações que a tornaram possível e, no movimento contrário, entender a negociação é buscar o que foi configurado. A separação dos processos, portanto, cumpre fins metodológicos. E o analista, mesmo ciente dessa escolha, percebe, num dado momento, o quão incontornável é a associação; assim, a divisão, mesmo metodológica, torna-se inviável. Como exemplo disso, podemos citar os estudos dos dispositivos de enunciação, os quais colocam o analista diante da necessidade de abordar, simultaneamente, o que está fora e dentro do discurso, para compreender a produção de sentido.
A partir da abordagem do nosso tema de pesquisa, possibilitada pelo círculo hermenêutico, verificamos que, para tratarmos analiticamente o nosso objetivo,
precisamos contemplar as zonas de interseção existentes entre o discurso informativo estratégico e o discurso informativo jornalístico. Esta é uma etapa do percurso
de comunicação estabelecidos entre assessoria de imprensa-redação jornalística, de um lado, e suporte jornalístico-leitor, do outro. Em termos de processos analíticos
propostos temos a seguinte disposição: a construção do discurso informativo entre assessoria e redação jornalística se dá a partir de relações (inter) contratuais e negociação entre os discursos informativos estratégico e jornalístico.
Para traçarmos as zonas de interseção entre os discursos mencionados, sugerimos que eles sejam analisados, no primeiro momento, separadamente, para, depois, serem comparados, a fim de efetuar a sinalização dos elementos de aproximação e distanciamento. Já no que diz respeito às relações contratuais, vamos verificar como os contratos em jogo podem ser modalizados para atender ao processo configurativo do discurso jornalístico, quando este se ancora numa produção da assessoria. Em síntese, propomos, para além da consideração analítica dos discursos e dos contratos individualmente, a investigação sobre as articulações que são operadas nas conexões entre eles, nas zonas de interseção instauradas.
REFERÊNCIAS
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<http://seer.ufrgs.br/intexto/article/view/19208>. Acesso em: 11 mar. 2013.
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CHARAUDEAU, Patrick. El discurso de la información. Barcelona: Gedisa, 2003. CHARAUDEAU. Patrick. Discurso das mídias. 2. ed., 1a reimp. Trad. Ângela S. M. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2012.
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FAUSTO NETO, Antonio et. al. (Re)Visitando os conceitos de contrato de leitura uma proposta de entendimento dos pontos de vínculo entre emissor/receptor da sociedade dos meios para sociedade midiatizada. Disciplinarum Scientia. Série Artes, Letras e Comunicação, v. 10, p. 17-28, 2011.
FERREIRA, Giovandro Marcus. Do círculo semiológico ao círculo hermenêutico: contribuições de Paul Ricoeur à análise de discurso. Interface, Ano III, No 5, Vitória - ES, 1999.
GOFFMAN, Erving. Frame analysis: an essay on the organization of experience. Cambridge: Harvard University, 1974.
KUNSCH, Margarida (Org). Relações Públicas: história, teorias e estratégias nas organizações contemporâneas. São Paulo: Saraiva, 2009a.
PINTO, Milton José. Comunicação e discurso: introdução à Análise de Discursos. 2. ed. São Paulo: Hacker, 2002.
RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa. A intriga e a narrativa histórica. Tomo 1. Trad. Claudia Berliner. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
VERÓN, E. L'analyse du 'contrat de lecture': une nouvelle méthode pour les études de positionnement des supports presse. Les médias: expériences, recherches actuelles, applications, IREP, Paris, 1985, p.203-230.
VERÓN, Eliseo. Fragmentos de um tecido. Trad. Vanise Dresch São Leopoldo, RS: Editora Unisinos, 2004.
VERÓN, Eliseo. La semiosis social, 2. Ideas, momentos, interpretantes. Buenos Aires, Paidós. Planeta, 2013.
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