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Comparaison des capacit´es d’ajustement des mod`eles en comp´etition

6.3 Application aux donn´ees de relev´es au chalut de fond du Centre des Pˆeches

6.3.3 Comparaison des capacit´es d’ajustement des mod`eles en comp´etition

Como o ingrediente 2 não está escrito nos manuais de prescrição, mas emerge em situações reais de trabalho, é muito importante para a identificação do mesmo, a análise dos protagonistas da atividade sobre o próprio trabalho, o que poderá nos ajudar a isolar este ingrediente. Esta ocorrência (4) foi reconstituída por meio de relato, a partir de entrevista, em 20/07/09, agendada previamente e registrada em Diário de Campo (não usamos gravador), com o „supervisor de central‟, cuja função prescrita em organograma (Figura8) seria coordenar e acompanhar a equipe dos TARMs e ROs (operadores de frota ou „despachantes‟). Abordamos aqui „os imprevistos na madrugada‟, que nos indicam pistas para identificar o ingrediente 2 na atividade dos trabalhadores do Samu-BH: esses saberes gerados na gestão da própria atividade, essa competência para „preencher furos‟, essas experiências e aprendizagens armazenadas no decorrer da história de vida e de trabalho.

Num primeiro momento, o trabalhador se refere à enchente que aconteceu no „Ano Novo‟ (2008-2009), em BH, na Av. Teresa Cristina. Em suas palavras:

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- Catástrofe grande, Arrudas [rio que corta esta avenida] transbordou (...) muitas chamadas, às vezes não tinha a ver com o Samu (...) Central entra em desespero, atendentes e médicos, peço para se acalmarem! Uma funcionária (tele), residente no local da enchente, tirei ela do atendimento - o tempo todo do lado dos meninos para acalmar... [supervisor se refere aos profissionais como meninos. Os TARMs/teledigitadores são chamados pelos colegas de teles] todos estressados, médicos também (...)

Observa-se em sua fala, quando analisa a situação de trabalho, a presença do ingrediente 2, ao gerir e tomar decisões diante dos acontecimentos, como ao propor retirar do posto de trabalho, a trabalhadora que residia no local da enchente e estava bastante „abalada emocionalmente‟. Ao mesmo tempo, assume o lugar de coordenação da „Central‟ que seria função dos médicos reguladores, conforme sua interpretação do organograma. E aqui articulam-se o ingrediente 2 e o ingrediente 6 (ECRP), ou seja, ao (re)criarem na atividade para enfrentar esse „evento‟ („Registro 2‟) , os trabalhadores desfazem hierarquias, partilham valores e saberes/experiências e assim restabelecem uma “espécie de igualdade e de projeto comum entre todos” ( Schwartz & Durrive, 2007, p. 162, grifo dos autores); uma ECRP se forma e esses protagonistas da atividade experimentam o „viver junto‟, retrabalham “a gestão das variabilidades e fazem escolhas em função de seus valores” (op. cit., p. 163, grifo dos autores).

Concluindo relato sobre essa ocorrência, supervisor disse: esta ação seria mais para bombeiros (...) de noite é mais difícil, resolutividade é maior de dia (...).

Mais uma vez aparece a questão das relações entre Samu e bombeiros, no caso de ocorrências como esta („enchente na madrugada‟), as responsabilidades de cada um e as hierarquias previstas na legislação e manuais da Urgência do SUS (ingrediente 1) são recriadas e restabelecidas, e as equipes e tarefas „rigidamente‟ prescritas se desfazem no desenrolar da atividade, quando um objetivo comum é partilhado por todos. Nessa hora, não existem „uns melhores que os outros‟, „uns que mandam e outros que obedecem‟, as pessoas „criam laços ao trabalhar‟ e se tornam „iguais‟. Poderíamos dizer, a partir daí, que a fragmentação e parcelarização do trabalho, conforme princípios tayloristas, não se realizam durante a atividade em que prevalece o valor sem dimensão – defesa da vida, ou na fala dos trabalhadores, salvar vidas?

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Ao considerarmos o ponto de vista da atividade e os diferentes ingredientes que se articulam no „agir em competência‟ novas questões se formulam e nos indicam „pistas‟ que poderão nos ajudar a encontrar respostas às nossas indagações iniciais. Retomaremos esta discussão ao abordarmos especificamente o ingrediente 6 ( ECRP), quando procuraremos „pinçar‟ idéias que nos ajudarão a aprofundar sobre a gestão compartilhada e a valorização do trabalho e dos trabalhadores no Samu, diretrizes tão caras à PNH.

Voltemos à ocorrência (4) – „os imprevistos na madrugada‟ – que exige dos trabalhadores competência para „preencher furos‟, para „gerir imprevistos‟, em que identificamos a presença do ingrediente 2 - „os efeitos de urdidura‟, a história que perpassa a atividade – através da fala do „supervisor‟, quando nos „conta o caso‟ de um dia em que acabou a luz:

- Acabou a luz, à noite, de 20h às 20:05h – 5 minutos sem luz – é muito tempo para uma Central do Samu! - empresa terceirizada, à parte, que ligou.

Depois fala sobre outro dia, quando o „sistema caiu‟:

- Sistema caiu por cerca de 5 horas, atendimento no papel, comuniquei à Prodabel, 1 hora da manhã (...)

Conclui seu relato:

- Trabalhamos no sentido de resolver tudo, sem deixar vazar, se precisar eu ligo prá gerente de madrugada!

A partir das abordagens e análises desse trabalhador, observamos que o ingrediente 2 parece ter relevância no trabalho noturno do Samu, na tomada de posição frente aos „eventos‟ na madrugada, o que favorece a inventividade e „sabedoria‟ para gerir imprevistos, panes, acontecimentos inesperados, e também a criação de laços de cooperação entre as pessoas, quando os trabalhadores experimentam o „viver junto‟ em prol de um objetivo comum.

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Ocorrência (5): ‘O trabalho no Samu e a violência urbana’

Esta temática da violência urbana emergiu através de entrevista à técnica de enfermagem, na sede do Samu, em 29/07/09, agendada com antecedência. Desde a primeira vez que encontrei com essa profissional, no almoxarifado, no dia de apresentação da pesquisa/pesquisadora, que a mesma manifestou interesse em conversar comigo. Disse-me:

- (...) gosto muito do HumanizaSUS, no hospital onde trabalhava participei de algumas reuniões com a humanização e gostaria de participar desta pesquisa, ajudar no que for preciso!

Então me passou o telefone, e eu fiquei de lhe ligar para agendarmos uma entrevista. Logo que lhe telefonei, mostrou-se disponível e marcamos o encontro, na sede do Samu. Ao iniciarmos a entrevista, propus que falasse sobre o seu trabalho no Samu, quando expressou sua preocupação com os efeitos da violência urbana no trabalho que realizam na rua, no atendimento às ocorrências em regiões mais expostas a situações de conflitos armados. A partir daí demos nome a esta ocorrência (5) e optamos por extrair as falas que se referem a esta temática, que emergiu com „muita força‟ (se poderíamos dizer, „força de convocação‟) em seus relatos e reflexões e nos ajudam a identificar o ingrediente 2 em relação com os ingredientes 4 e 3.

Em seguida a fala da trabalhadora, quando expressa saberes „da experiência‟, debate de valores/normas, renormatizações:

- (...) Central de Regulação ás vezes não sabe o que você está vivendo na rua (...) favela, alguém armado (...) uma colega saiu da ambulância e passou um tiro assim [faz o gesto com as mãos] - (...) Samu é uma experiência nova prá mim, a gente não imagina o que é o trabalho do Samu, só quando tá aqui é que sabe...