Capela do Buriti – foi, no passado, palco de tradicionais festas no meio rural do município de Indianópolis.
Autor: Gilmar José Ribeiro, 2005.
Embora se tenha originado de um aldeamento5, Indianópolis, de acordo com o depoimento de algumas pessoas mais velhas, adquiriu características próprias, algumas delas também comuns nos arraiais de Minas. Além disso, havia um grande número de povoados, espalhados pela área rural, que eram chamados, pela população, de arraiais. Alguns eram muito movimentados, possuindo muitos moradores, onde sempre havia festas que atraíam gente até mesmo da cidade. Em torno desses povoados, a vida cultural era muito rica; eram
5 Aldeamento era um núcleo de população indígena instituído pelo colonizador. Os índios eram capturados,
presos e sedentarizados, de forma compulsória ou cooptada pela catequese, e a partir de então eram tutelados pelo colonizador, que teve sua primeira aparição no Planalto do Piratininga, de 1553 em diante (BRANDÃO, 1989).
constituídos, geralmente, por uma capela, um armazém, as casas dos moradores e um campo de futebol, que não podia faltar. Segundo alguns, a vida ali era muito prazerosa.
Há que se ressaltar que a definição de arraial, para os moradores mais antigos do município, não segue os mesmos padrões clássicos e científicos encontrados na literatura a respeito desse assunto. Para esses moradores, arraial era apenas um povoado cujas características políticas, religiosas, de disposição das moradias e de número de habitantes eram encontradas nas pequenas cidades e povoados da região. Outro aspecto a ser considerado é que, nesse contexto, cidade e povoado tinham características muito parecidas.
Portanto, nessas localidades, capela era o lugar de realização das festas, onde o povo rezava fervorosamente; após os terços, havia leilões e, em seguida, os bailes, que duravam a noite toda. O senhor É. P. fala, com saudades, desse tempo:
Tinha muito povoado todos era bão, tinha muita gente, muita alegria, tinha muita festa eu já fui em festa no Parmital, na Lage, no São João, no Buriti, a gente divertia muito, ficava nos baile até de madrugadinha. Nas festa da capela era sem padre, mas quando ele aparecia pá fazê a festa era um respeito só. No domingo de tarde tinha o jogo de bola e nóis arreunia pa jogá ca turma de fora, o povão ficava assistino. Tinha tamém o jogo de truque, reunia um povão danado nesses lugá, o povo era mais unido de que hoje, tudo era divertido. O povo fazia até negóço na festa, trocava até dia de serviço (É. P. Conforme trabalho de campo em 14/10/05)
De acordo com as palavras do senhor É., pode-se perceber o quanto esses povoados eram importantes para a população rural, uma vez que neles desenvolvia-se uma vida cultural intensa.
Em Indianópolis, assim como na maioria dos arraiais mineiros, a identidade religiosa era manifestada através dos encontros religiosos, com rezas e festas em louvor aos santos de devoção, o que promovia a união da comunidade, que participava sempre fervorosamente, intensificando assim o grau de cooperação e reciprocidade e também as relações sociais mais íntimas, como batizados e casamentos.
De acordo com o contexto, Lourenço (2002), afirma que o bairro, além de ser o elemento de união da comunidade, era também o elo de ligação entre esta e o Estado. Neles eram realizadas as mais variadas atividades, como festas, missas, casamentos, batizados etc. O autor propõe, assim, que “Nos batizados, estabelecia-se o parentesco ritual ou compadrio; nos casamentos, o parentesco consangüíneo. Com esses rituais, o grupo da vizinhança ia criando uma consciência de si próprio, reforçando a identidade do bairro” (LOURENÇO, 2002, p. 197).
De acordo com alguns relatos, a capela fazia parte do traçado geográfico do município de Indianópolis, pois estava presente em grande parte das fazendas e povoados, já que era local de encontros da população, que promovia ali a realização das rezas e festas de louvor e agradecimento aos santos de devoção, possibilitando, assim, a união da comunidade e aprofundando as relações de amizade. Dessa forma, as relações de compadrio eram comuns e tiveram grande relevância na composição social do município, uma vez que representavam um elo de ligação muito forte entre as pessoas. A fé religiosa comum possibilitava a ampliação das relações de amizade e companheirismo, uma vez que o compadre era aquele em quem se podia confiar e com quem se podia contar, nas horas difíceis. Era, praticamente, uma pessoa da família, e essas relações, certamente, garantiam a união da comunidade.
Nesse sentido, as relações de compadrio eram sempre bem vindas, sendo quase sempre garantidas pelas famílias numerosas, onde o número de filhos, geralmente, nunca era inferior a cinco; o que não faltava eram os motivos para se conquistarem novos compadres.
O senhor J. D. conta como eram as relações de compadrio e de amizade:
O povo tinha muito cumpade porque todo mundo tinha muito fio e cada fio tinha que tê um padrim de batizado, mas tinha tamém otos tipo de padrim, tinha o padrim de crisma, tinha o padrim de batismo na fogueira de São João, tinha padrim de casamento os afiado tomava bença de todos e todos era cumpade do mesmo jeito. Assim ia aumentano as amizade. Eu tive um cumpade que era um home muito bão, era um cumpade dos mió, não tinha home igual pá sirvi os amigo tudo cocê percisava ele dispunha na hora (J. D. Conforme trabalho de campo, em 15/10/05).
Neste depoimento do senhor J. D., observa-se que as relações de amizade eram fundamentais para o fortalecimento das comunidades rurais.
Outro aspecto importante a ser considerado, sobre a vida no campo, era o caráter social cumprido pela vida religiosa, já que os encontros religiosos funcionavam, para o homem rural, também como elo de ligação, com os amigos e com a comunidade, e serviam para reforçar os laços de amizade, pois aí se estabelecia, também, um alto grau de reciprocidade.
Portanto, a vida no campo sempre teve o seu ritmo próprio a sua dinâmica de trabalho e de produção, criando, com isso, características que são peculiares ao homem do campo, na maneira de agir, de trabalhar, de conversar e de tratar as pessoas, onde a simplicidade esteve sempre presente. Desse modo, eram valores pautados por uma grande religiosidade.
Nessa perspectiva, o senhor A. J. da S. fala, com orgulho, como era vivida a vida na fazenda e exercida a fé religiosa:
A gente levantava bem cedo e ia trabaiá, fazia todo tipo de sirviço era tudo mais trabaioso, mas o povo tinha mais fé rezava mais do que hoje, sempre tinha terço em casa e nas capela, tinha terço no cruzeiro todo meis. A gente rezava na hora de dormí, rezava na hora de levantá, na quaresma, a gente rezava e respeitava as proibição, no natal sempre tinha muita reza. Missa nóis só tinha quando o padre vinha, mas o povo tinha mais religião. O povo era mais amigo, era mais unido, ajudava os amigo e os vizim que precisava, o povo fazia mutirão era tudo na base da amizade, o povo ia nas casa dos vizim e dos amigo, trabaiava muito mais tinha tempo pa cunversá. As muié tomava conta da casa e os home cuidava da roça, quando tinha festa na capela o povo todo arreunia, era um tempo de mais dificurdade, mais era um tempo bão (A. J. S. Conforme trabalho de campo em 14/10/05).
As palavras do senhor A. retratam bem um tempo em que os valores eram outros, sendo as práticas religiosas muito fortes e as relações pessoais valorizadas.
Como a população do município de Indianópolis vivia, predominantemente, no meio rural, até por volta da década de 1970, sua área urbana era muito pequena e não possuía sequer as infra-estruturas minimamente necessárias para a vida dos que ali moravam. Nesse sentido, a vida na cidade não diferia muito daquela vivida pela população do campo.
Desta forma, Borges (2004), afirma que Indianópolis tinha as mesmas características de um arraial, com acessos difíceis e poucas casas, desenvolvendo-se aí características políticas e religiosas, presentes nos arraiais de Minas, que se mantiveram até o momento de sua emancipação. O que, de acordo com a opinião dos moradores mais velhos, permaneceu por muito tempo, prolongando-se, praticamente, até por volta da década de 1970, quando esses aspectos começam a ser modificados.
De acordo com relatos de alguns dos moradores mais antigos do município de Indianópolis, a cidade era marcada por uma vida pacata e muito companheirismo da comunidade, que se ajudava sempre que era necessário. Embora existissem também atritos e contradições sociais, a religiosidade era a sua característica mais forte, o que garantia a realização de constantes festas, muitas das quais se tornaram tradicionais; algumas permanecem até hoje, apesar das transformações.
Em Indianópolis, assim como na maioria dos povoados mineiros, as relações de vizinhança eram muito fortes, permeadas por algumas características, até certo ponto semelhantes àquelas retratadas por Antônio Cândido em Parceiros do Rio Bonito, nas quais, segundo o autor, “As relações de vizinhança constituem, entre a família e o povoado, uma estrutura intermediária que define o universo imediato da vida caipira, e em função da qual se configuram as suas relações sociais básicas” (CÂNDIDO, 2003, p. 77.).
O vizinho, segundo os mais velhos, era aquele que estava sempre próximo, ouvia até os gemidos de dor, nos casos de doença, conhecia a vida, as dificuldades. Esses vizinhos conversavam, constantemente, uns com os outros, e por isso um estava sempre disposto a ajudar o outro.
Desse modo, a cidade de Indianópolis, bem como os povoados de sua área rural, eram locais em que as relações de vizinhança definiam os costumes, principalmente o da reciprocidade na execução das tarefas, com permanentes trocas de favores, assim como o das relações de compadrio, estabelecendo-se aí uma vida praticamente familiar.
É muito comentado, entre os moradores mais antigos do município de Indianópolis, que alguns povoados, como o povoado de Palmital, de São João, de Onças, de Lage, de Posses e do Itambé, tinham muitos moradores e grande parte deles eram parentes. Dizem até que aqueles que não eram parentes eram compadres, portanto, eram comunidades muito unidas, onde as pessoas estavam sempre dispostas a ajudar, quando era preciso. Nesses locais, segundo contam, a vida era bem simples e o povo era muito religioso. As festas das capelas, nesses povoados, eram constantes e muito freqüentadas, não só pelo povo das fazendas, mas também pela população da própria cidade. Embora houvesse muito trabalho na lavoura, o tempo da festa e do divertimento era sempre reservado, intercalando-se, assim, festa e trabalho.
O senhor D. G. dos S. fala das festas e de como era a vida na fazenda:
Na roça tinha sempre muito trabaio e o sirviço era pesado, quando tinha festa o povo tudo ia, a festa era comentada a semana inteira, o povo era religioso, era mais devoto. O maió divertimento era quando tinha a festa, porque a gente rezava, mas tinha sempre o baile que era a maió diversão, nas festa sempre tinha muita comida, muito doce. Vinha muita gente de todo lugá mas por essas banda aqui morava muita gente. Nas festa o povo tudo ajudava. Quando era festa de Santos Reis cada um dava um trenzim, um capado, uma galinha, os que pudia mais dava até vaca (D. G. S. Conforme trabalho de campo em 16/l0/05).
Pelo depoimento do senhor D., podemos notar que a solidariedade era uma prática comum e que a festa era o momento maior, realizada sempre em devoção a algum santo.
Essa realidade, embora diferente daquela estudada por Lourenço (2002), tem características até certo ponto parecidas, principalmente em relação aos encontros. Para o referido autor, “o deslocamento dominical para os arraiais era feito, preferencialmente, pelos homens. Nas grandes festas, contudo, tinha caráter familiar. As festas eram ocasiões em que as famílias, junto com escravos e agregados, permaneciam por mais tempo no arraial” (Lourenço, op.cit., p 203).
No município de Indianópolis, de acordo com alguns relatos, o movimento nas missas e festas se constituía, geralmente, com a presença da família, pois eram momentos também do divertimento; para os homens havia, além do baile, o jogo de truco e de futebol, sem falar dos negócios que eram realizados, como a venda e troca de animais, a troca de dias de serviço e os acordos para a realização do mutirão.
A realidade investigada por nós guarda alguma semelhança com aquela tratada por Lourenço (2002), onde ele afirma que:
Além dos deveres religiosos, os domingos serviam para a prática do comércio. As festas religiosas eram ocasiões privilegiadas para a mercancia. Dezenas de pessoas acorriam aos arraiais e geralmente, na praça da capela ou matriz, montavam-se as feiras. O calendário religioso misturava-se ao comercial, e os fazendeiros e sitiantes tinham, assim, a ocasião para vender seu excedente e fazer negócios. Compravam dos comerciantes estabelecidos nas vendas os gêneros destinados às fazendas e sítios, que não eram produzidos pela economia local, como tecidos finos, ferragens e, principalmente, o sal (Lourenço, op. cit., p. 205).
Alguns dos moradores mais antigos do município de Indianópolis, que viveram próximos desses povoados, conhecidos pela população local como arraiais, contam que a vida era muito prazerosa e que os armazéns dessas localidades, assim como os da própria cidade, eram chamados de vendas, e forneciam tudo que era consumido nas fazendas, desde chapéu a querosene e sal, sendo estas as mercadorias mais consumidas. Desse modo, tais locais eram muito movimentados, pois atraíam o povo da região onde ficavam situados. Nos dias de maior movimento, havia, sempre, muitos cavalos, que ficavam amarrados por todos os lados, nas cercas, nos postes etc. Pois quase todos iam a cavalo, que era o principal meio de transporte. Normalmente, o jogo de futebol era a principal diversão.
Nesse sentido, os povoados mineiros sempre foram locais muito atrativos para as populações rurais, onde as relações sociais eram intensas.
O senhor A. P. de R. fala, com saudosismo, da vida no meio rural:
No dia de domingo a gente levantava cedo, tirava o leite e depois do armoço a gente ia lá pa venda fazê hora e prusiá depois tinha o jogo de bola que era muito bão. Dia de festa o movimento era muito maió, porque o povo ia pa rezá. O ritmo da vida na roça era diferente, o dia era mais demorado, nas fazenda tinha muito agregado era um tempo mais gostoso, num tinha luxo, o povo num tinha muita ilusão, mas a fartura era grande. O povo tinha muita fé, rezava muito terço e fazia muita novena, tinha muita festa na roça era uma vida sacrificada mais a gente achava bão (A. P. R. Conforme trabalho de campo em 17/10/05).
As palavras do senhor A. mostram como a vida era simples e vivida com grande religiosidade, onde as pessoas viviam intensamente a festa.
Com relação aos locais de construção das capelas em Indianópolis, estes possuíam certa semelhança com aqueles que são tratados por Murilo Marques, em que, segundo o autor, as capelas deveriam ser erigidas em sítios altos, "[...] em lugares decentes, desviado de lugares sujos, livres dos lados de outras edificações, afastadas das demais como candeia posta sobre castiçal, que alumeia todos" (MURILO MARX, 1991, p. 22-23).
Segundo o senhor G., as capelas do município de Indianópolis eram construídas, geralmente, nos lugares mais altos, o que pode ser comprovado visitando-se aquelas que ainda existem. Usavam-se candeias para a iluminação, feitas com pavio de algodão, usando-se o azeite, que as sustentavam acesas, durante o tempo necessário. Embora a maioria dos velórios na zona rural fosse feita na casa do morto, houve casos de serem feitos também nas capelas.
No que diz respeito à importância das capelas, naquele momento histórico, Lourenço (2002, p. 211) afirma que “Todos os terreiros das capelas construídas nessa época tinham dois lados paralelos bem maiores do que os outros dois, formando um retângulo. Isso ocorria porque, em frente ou atrás da igreja, localizava-se o cemitério, reforçando ainda mais o caráter de “campo santo” do adro”. Comenta-se muito, entre os moradores mais antigos da cidade de Indianópolis, que na Igreja de Santana havia um adro fechado, que servia de cemitério para os padres e as famílias mais abastadas. Durante as reformas e restaurações pelas quais a igreja passou, foram encontrados restos de ossos humanos o que, para muitos, confirmaria tal fato. O largo da Igreja possuía forma retangular, que foi modificada em função do crescimento da cidade. Segundo alguns relatos, existia, nessa igreja, imagens de santos e objetos de ouro, que teriam sido roubados. Esses detalhes reforçam a importância da representação do sagrado perante a vida não religiosa, pois morar perto da igreja, ou nela ser enterrado, significava estar mais próximo de Deus, além de mostrar o seu prestígio, na hierarquia social.