Chapitre 3 : Apprendre une LE en échangeant à distance
1. La communication à distance - dispositifs et outils de médiation
Levando os apontamentos supracitados em consideração, é necessário refletir sobre os significados e atribuições das drogas para o ser humano e a própria humanidade, problematizando o que significam as drogas e qual a sua importância para o homem, sua constituição e ação no mundo. Ou seja, é postulada a necessidade de nos perguntarmos, inicialmente: O que é droga? Ou o que caracterizaria um usuário de drogas? Buscando responder a essas indagações, se seguirmos as definições da Organização Mundial de Saúde (OMS)8 e do UNODC9, que conceituam “droga” como qualquer substância exógena que, quando consumida, alteraria sistemas e processos mentais e orgânicos, estaríamos assumindo que todos nós somos, em alguma instância, ou em determinados momentos, usuários de drogas. Conclui-se, então, que existe uma impossibilidade de dissociação entre o ser humano e o dito usuário de drogas, o que nos faz transformar uma visão que toma este segundo sujeito sempre na terceira pessoa – ele(a), eles(as), o outro –, como alguém diferente a mim, ancorando o debate em uma concepção realista e, portanto, menos moralista sobre o assunto em voga, afinal me considero pertencente a essa realidade.
Indubitavelmente, fazem-se prementes processos de desomogeneização da visão que se tem tanto do uso ou dos usuários de drogas. Conforme apontam Costa e Paiva (2016), observa- se uma corriqueira homogeneização das análises e intervenções na área, sustentada pela naturalização do uso e do usuário de drogas, vistos de forma uníssona, desconsiderando os fatores históricos, os variados tipos de drogas e formas de uso, assim como as singularidades e necessidades dos sujeitos e os seus contextos de vida. Dessa forma, o que existe para o senso comum, pululando o imaginário social (e aí, estão inclusos também grande parcela dos profissionais das políticas públicas – saúde, assistência social etc.) é “o” usuário de drogas, normalmente aquele em situação mais problemática, de dependência, e “o” uso de drogas, vistos ambos de maneira pejorativa, moralista e racista, o que restringe nossa capacidade de compreender e abordar/tratar a temática em sua amplitude (Costa & Paiva, 2016).
Parte-se da ideia de que qualquer uso de drogas é, por princípio, deletério, causando dependência, e todo usuário de drogas é semelhante, sobretudo em suas características e atributos prejudiciais. Por outro lado, essa perspectiva não nega a compreensão da temática das drogas como uma das expressões de nosso modelo societário no momento presente, conforme assinalado anteriormente, isto é, como parte de uma totalidade social concreta que se refere à
8 “Lexicon of alcohol and drug terms”. Disponível em:
http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/39461/1/9241544686_eng.pdf
9 “Terminology and information on drugs”. Disponível em: https://www.unodc.org/pdf/publications/report_2003-
nossa sociedade. Trata-se de, na(s) figura(s) do(s) usuário(s) de drogas, suplantar as famosas dicotomias “individual versus social/coletivo”, “particular/específico versus universal/geral”, produzidas pelo próprio homem na tentativa de compreender a realidade que o circunda, por meio de um entendimento dialético que tome as dimensões histórica e material de sua constituição como pontos de partida.
Atrelado a esses fatores, outros questionamentos são derivados, tais como: Por que as pessoas usam? Afinal, existe ser humano e sociedade sem as drogas? Ou a história, a antropologia, dentre outras disciplinas do saber, estão erradas – ou devem ser desconsideradas – quando apontam a indissociabilidade entre o ser humano, seus processos de autoconhecimento e sociabilização e o uso de substâncias psicoativas, sejam elas quais forem, e por motivações diversas (culturais, espirituais/religiosas, medicinais, recreativas etc.)? O que pretendo demonstrar com estes questionamentos, sendo os dois últimos retóricos, é que as drogas, não importando quais, possuem um relevante papel nos processos relacionais, culturais, de sociabilização humana e na própria constituição das sociedades ao longo da história, sendo que este papel se dá diversas formas, muitas das vezes permeado por uma série de contradições/tensões inerentes à própria realidade vista de forma dialética10. Inclusive, se
formos perguntar a qualquer um por que usam drogas, a maioria das respostas (senão a totalidade) estará respalda por motivações e sentimentos vistos por ele como positivos, tais como: prazer, sociabilidade, maior sensibilidade e potencialização da produção artística, fuga da realidade, dentre outros.
Dentre as várias implicações existentes para se (re)pensar as práticas profissionais que lidem com a temática, constata-se que qualquer ação de cuidado, seja de prevenção ou tratamento estritamente, que tome como desfecho ideal e único a abstinência está, por princípio, se ancorando numa perspectiva irrealista e descontextualizada. Nesse sentido, a Redução de Danos se apresenta como sustentação e horizonte para os modelos assistenciais e ações na área, partindo do princípio de que o uso de drogas, conforme mencionado, não é, necessariamente, uma prática ruim e essencialmente danosa, e que devemos repensar as formas como nos relacionamos com as drogas, compreendo os aspectos gerais, mas também as especificidades existentes nas pessoas e contextos, o que nos faz romper com a ideia que coloca a abstinência como a única saída possível. Em termos históricos, esse paradigma foi adotado no Brasil no
10 Por exemplo, uma curiosidade que serve como ilustração do papel desempenhado pelas drogas na constituição
do próprio Brasil é o brasão nacional, símbolo da nossa República Federativa. Este possui, do lado direito, um ramo da planta de café, e do esquerdo uma de fumo, representando duas das principais culturas agrícolas e atividades econômicas do país na época e também nos dias atuais.
final dos anos 1980, influenciado por movimentos bem sucedidos de países europeus, como a Holanda, visando prevenir os índices de transmissão de HIV relacionados ao uso de drogas injetáveis, mas, posteriormente, se expandiu para outras condições de saúde e práticas assistenciais, até se tornar a racionalidades orientadora das ações e abordagem de saúde pública referente à temática do uso de drogas (Passos & Souza, 2011; Machado & Boarini, 2013). Assim, a redução de danos possibilita fomentar uma lógica de cuidado que não tome como pré- requisito a abstinência e que, portanto, exclua, penalize e/ou culpabilize aqueles que não se encaixam neste parâmetro, ao mesmo tempo em que minimiza possíveis vulnerabilidades associadas ao uso ou, mesmo, promova melhores condições de vida ou potencialize outras dimensões da existência dos sujeitos por meio de uma abordagem integrada e holística, compreendendo-o para além da droga (Machado & Boarini, 2013; Petuco, 2014).
Contudo, devemos pensar que as drogas, ao se inserirem numa lógica de exploração imanente ao capitalismo e sua contradição capital x trabalho, perpassadas pelo valor de troca, isto é, pela lógica de mercado, com produção em larga escala e que tem como principal finalidade a obtenção de lucro (ao invés do uso ritualístico, recreativo etc.), passam a se tornar meras mercadorias, configurando-se, inclusive, como instrumentos de sustentação do nosso atual modelo societário capitalista. Tais aspectos nos levam a uma série de paradoxos/tensões, como pensar que as drogas, sobretudo aquelas em maior evidência (álcool, cigarro e as consideradas ilícitas), ao mesmo tempo em que se configuram como um problema social e de saúde pública, conformam-se como um dos mais lucrativos negócios e mercados pelo mundo – legal e ilegal (UNODC, 2016). O próprio combate a essas substâncias, caracterizado pela perspectiva de “Guerra contra as Drogas” fomenta todo um mercado bélico, de produção armamentista, por exemplo, altamente lucrativo. Adicionalmente, do mesmo modo em que o uso de drogas propicia diversão, lazer, fuga da realidade etc., as drogas, especialmente as lícitas na forma de medicamentos, podem servir como um aparato para o aprofundamento da alienação social, conjugada à psicopatologização da vida cotidiana, bem como à acentuação da precarização de cenários, condições de vida e grupos sociais já marginalizados pelo próprio sistema. Entretanto, novamente, deve-se levar em consideração que todo este processo deve ser compreendido em um determinado contexto social, agregando tais condicionalidades a partir do momento em que se insere e se conformam dentro dessa totalidade.
Ademais, o uso de drogas e seus efeitos se expressam tanto de forma concreta, mas também simbólica, através dos discursos e ações que usam as drogas como principal argumento para fomentar estratégias de estigmatização, racismo, criminalização, encarceramento em massa, em suma, uma guerra que se volta às pessoas, principalmente à população jovem, pobre
e negra, e não às substâncias. Ou seja, logo de cara, percebemos a necessidade de amplificarmos nossa compreensão sobre este assunto, buscando fugir de visões maniqueístas dicotômicas (p. ex. “droga é bom” versus “droga é ruim”) e/ou de causa e efeito (p. ex. as drogas geram criminalidade) bastante presentes em nossa atualidade, mas que simplificam e distorcem a própria realidade. Afinal, conforme atestou Marx (1859), o quão contraditória e pútrida é a essência de uma sociedade como a nossa que, apesar de se pautar na elevação da riqueza produzida, é caracterizada por um aumento da desigualdade social e do antagonismo de classes, juntamente com uma série de implicações negativas, como, por exemplo, o crescimento da criminalidade.