O presente trabalho pretende-se articular internamente em seus aspectos. Para alcançar tal pretensão procura embasar-se no método fenomenológico de Husserl que busca o conhecimento, identificando as estruturas fundamentais dos fenômenos. A identificação dessas estruturas acontece mediante a compreensão do sentido que se encontra dentro do próprio fenômeno.
Aplicando esse fazer científico ao objeto desse estudo, a Missa, obtém-se reforço muito importante e explícito nas palavras de Jung:
“A Missa é um mistério ainda bastante vivo, cujos primórdios remontam aos primeiros tempos do Cristianismo. Seria supérfluo insistir que essa vitalidade se deve a um dinamismo
21 As idéias deste capitulo foram retiradas de Mauss, Marcel. Enssaios de Sociologia, 1999, pp, 144, 149, 151, 198, 212, 221-222.
psicológico indubitável, e isso implica que a Psicologia deve estudá-la. É óbvio que tal estudo só pode ser feito de um ponto de vista puramente fenomenológico, pois, as realidades da fé ultrapassam o domínio da Psicologia” (Jung, 1991).
Apoiada nesses pressupostos, a monografia prossegue delimitando sempre mais o enfoque de sua proposta e se atém, exclusivamente, a duas categorias teóricas:o sacrifício e a pertença,realidades correlatas, capazes de evidenciar o que se deseja apresentar, com clareza, à compreensão de todos...
A expressão do sacrifício provoca, desperta e mantém a correspondência da pertença. E essa, por sua vez, exige a realização reiterada e, cada vez mais intensa, do sacrifício.
Primeiro, fala-se aqui, do sacrifício estudado por Marcel Mauss como apoio à idéia a ser trabalhada: O sacrifício como ritual máximo de todo culto religioso, a gerar pertença. Mauss supõe em todos os sacrifícios uma unidade genérica. Eles têm o mesmo núcleo. São invólucros de um mesmo mecanismo. Portanto, dotados de unidade. O testemunho a seguir ilustra, talvez, essa unidade sacrifical:
“Não sou católico. Eu nasci católico. Sou Tião Zico, Sebastião Bento de Oliveira da Zizi. Sou casado com Da. Zizi
e amanhã, 28 de abril, estaremos completando 55 anos de casamento, uma união abençoada por Deus. Nós tivemos 16 filhos e 2 adotivos, fortes e sadios.
O padre que me batizou era um sacerdote de verdade. Contraiu lepra e foi abandonado por todos. Isso foi na década de 30. Como disse, eu não sou católico, mas assisto à “Santa Missa em Seu Lar” sempre que posso; e tenho profundo respeito pelo senhor e admiro muito o seu trabalho.
Somos pobres e aposentados, mas me considero rico porque tenho uma família maravilhosa.Eu me converti ao Espiritismo, onde encontrei apoio, consolo e explicação lógica para as minhas dores” (Carta 135).
A eloqüência desse testemunho, acredita-se, confirma e ilustra a unidade do sacrifício. Ela pode ser encontrada em qualquer culto e é capaz de corresponder aos anseios de qualquer pessoa, como Tião Zico.
Em segundo momento, faz-se referência ao sentido de pertença, nascido da reunião sacrifical, como ímã que a si atrai o pólo oposto, criando uma força magnética irresistível, própria do sagrado que impele e repele concomitantemente. As declarações testemunhais são copiosas,
diretas, vivas. A título de amostra e de confirmação da pertença, eruindo-se do sacrifício:
“Esta é uma missa que mexe muito com o coração de qualquer pessoa. Não perco nenhuma!” (Carta 113).
A pertença é límpida e generalizada. Chega ao sentimento mais íntimo: “mexe muito com o coração”...
Mauss volta a considerar o sacrifício e o define: “... é um ato religioso que só pode ser realizado num ambiente religioso, por agentes religiosos”. Dessa definição segue que como “ato religioso” vai precisar de ritos que se intensificam, gradativamente, obedecendo às regras de um ritual, de acordo com o ambiente e os requisitos sagrados.
O ambiente também tem que ser sagrado, isto é, apropriado a favorecer o desempenho de entrada na esfera do divino. E “por agentes religiosos”, acrescente-se. Não há desencontro pior de convicções, que agir religiosamente desprovido de religiosidade; em vez de sacerdote, encontrar-se simplesmente como um “funcionário do culto”:
“Santa Missa em Seu Lar é muito importante para mim. Ela já faz parte da minha vida. Quando o senhor se emociona eu também me emociono, porque vejo que ainda existem pessoas que não são máquinas” (Carta 22).
Para o ato religioso convencer, é preciso que tenha e se apresente dentro de uma atitude densa de verdadeira convicção religiosa. Isso se mostra em todo o desdobramento do ritual sagrado. Mas vão gradativamente crescendo os ritos e intensificando na explicitação dos gestos, posturas, fórmulas, danças e aclamações da assembléia até atingir o ápice do seu objeto: a consagração, onde a vítima que se interpõe entre o sacrificante e a divindade, é sacrificada, degolada para, em seguida, ser consumida.
O que ontem estava presente ao sacrifício primitivo, continua hoje, de maneira diferente, mas essencialmente constituindo e formalizando as celebrações sacrificais atuais. Na missa católica, a consagração do corpo e do sangue do Senhor é em tudo o ápice da celebração litúrgica. É naquele momento que se realiza o sacramento cristão, por força do ato consecratório: “fazei isto em memória de mim!”. Como anteriormente, “a vítima era degolada para ser consumida”, aqui também o Cristo se faz vítima de expiação e de propiciação pela humanidade. A semelhança e a sincronia do passado com o presente, do antigo com o novo são muito fortes. As palavras desta senhora reforçam a apreciação acima:
“Para mim a ‘Santa Missa em Seu Lar’ é a melhor coisa. Não perco! Eu gosto de ver repartir o pão na missa da Televisão” (Carta 44).
Repartir o pão na atualidade é o mesmo ato antigo praticado pelo sacrificante e participantes, de comerem parte da vítima, que é alimento da divindade; alimento esse, de que ela precisa para continuar presente à comunidade dos crentes e, ao mesmo tempo, de preservá-los de serem atingidos pela potência divina, cujo impacto, se direto, os destruiria. Os ritos intermedeiam, portanto, essa relação e a tornam apta a realizar o intercâmbio entre profano e sagrado sem maiores traumas, vez que, ambos são de natureza diversa. A participação da mesma comida divina traz-lhes o sentimento de serem divinizados. Mas sem a mediação ritual que ameniza gradativamente as diferenças, essa aproximação da divindade não seria possível.
Para compor melhor o cenário sacrifical, é preciso ressaltar a figura do sacerdote: Mauss acrescenta que “os rituais têm a função de transformar um profano em pessoa sagrada, apta a oferecer dons à divindade”. Com a finalidade de não se ficar indefinidamente agindo, por assim dizer, a varejo, no preparo da vítima, do oferente e do ambiente para elevá-los à altura do sagrado, houve a necessidade de se apelar à presença da instituição que simplificou as funções anteriores do sacrificante e do oferente na pessoa do sacerdote. De agora para frente, ele estaria apto previa e constantemente a realizar a ação sagrada. Ele se tornou, portanto, o agente visível da consagração no sacrifício, acentua Mauss. Ele está no limiar do mundo
profano com o sagrado e os representa simultaneamente. Os dois mundos se unem nele.
Como o sacerdote está, naturalmente, mais próximo do sagrado, pela sua consagração pessoal, bastam operações mais simples para fazê-lo aí entrar.
Entre os hebreus, o sacerdote, em seu contato habitual com o divino, era sem cessar ameaçado de morte sobrenatural. Tal situação aos poucos era amenizada com o aumento da santidade pessoal, com o esforço e dedicação própria que lhe serviam de salvaguardas. Em suma, trata-se da realização de um ato religioso para o qual é preciso que a atividade interna do sacrificante corresponda à atitude externa no exercício da função sagrada. Corresponderia essa convicção primeva ao que na Igreja se recomenda: “sancta sancte tractanda”- as coisas santas devem ser tratadas santamente. Como se percebe, é uma atitude que pertence à natureza mesma da relação com o sagrado. Ele a exige tanto do primitivo como do contemporâneo no mesmo grau de reverência.
Toda a vida do meio sacrifical se organiza... e se concentra em torno do mesmo foco, tudo converge para a vítima, que neste momento, vai aparecer. Tudo está pronto para recebê-la. Nela se completa a aproximação do sagrado e do profano. A cerimônia chega ao ponto culminante. Todos os elementos do sacrifício estão a postos. Falta apenas a operação suprema: a
morte da vítima. É a morte sangrenta que a liberta, de vez, dos laços profanos e a consagra definitiva e irrevogavelmente à assunção divinal. Esse momento é de solenidade máxima!
Chegados ao cume da relação divinal, necessário se faz voltar à realidade quotidiana, sem criar atritos com a divindade. A maneira, de se realizar tal operação de gentileza, passa pelas “libações e expiações”. Tudo isso tem suas razões de ser: o assassinato da vítima libera uma força terrível e ambígüa. É preciso limitá-la, dirigi-la para retirar tudo que estiver impregnado de caráter divino, tudo que houver de perigoso ao fiel na sua rotina diária. A água é o grande elemento purificador que acolhe e suporta os descarregos da divindade, isentando os humanos de seqüelas sacrificais.
Essas práticas de abluções e de destruições são tão importantes no sacrifício hindu, que a missa cristã as inclui no seu ritual: o sacerdote, após a comunhão, lava as mãos e o cálice, bebe a água dessa ablução e encerra o ciclo do sacrifício, pronunciando a fórmula final libertadora: “Ite, missa est”. A missa terminou! Após declaração tão solene, tanto o sacerdote, quanto o fiel estão dispensados para voltar ao quotidiano.
O sacrificante é, pois, a origem e o fim do sacrifício. O ato sacrifical começa e termina nele. À saída da cerimônia, em todos os tipos de sacrifício, ele melhorou a sua sorte... Acontece, até, que a comunhão determine: consumindo a coisa sagrada, na qual o deus reside, o
sacrificante o absorve e é por ele possuído. Neste momento, os que escaparam do pecado, pelo sacrifício, são inscritos no “livro da vida”.
No sacrifício cristão, essas mesmas idéias são vivenciadas de maneira bem parecidas: O Deus Cristão, na pessoa de Jesus Cristo, em forma de comida e de bebida, vem habitar a interioridade da pessoa que o comunga; e pela comunhão do corpo e do sangue do Senhor, principal e paulatinamente, o fiel vai se transformando num “alter Christus” num outro Cristo, ou seja, vai melhorando de comportamento, vai adquirindo condutas recomendáveis e confiáveis perante si e a comunidade. Em suma, como nos antigos sacrifícios, também aqui, a sua sorte melhorou.
O dinamismo do sacrifício, unindo e separando o humano da divindade, fez surgir importantes crenças religiosas. A teoria do renascimento pelo sacrifício ocupa o primeiro lugar e é reconhecida pelo próprio dogma cristão: Nessa teoria aparece o valor do nome que contém algo da personalidade e da alma de quem o adota. “O nome é a pessoa. O nome define a função e a tarefa que a pessoa deve desempenhar... Toda pessoa decente zela pelo nome que tem: ‘Tenho meu nome limpo!’ (Neves, 1998, p. 244). A referência e a firmeza que o nome projeta na sociedade, aquilata o seu valor. O sacrifício leva em consideração essa expressão a tal ponto que, freqüentemente, muda o nome da pessoa que o celebra ou que o
celebrará. É o caso de Abrão para Abraão, de Simão para Pedro. Há neles uma ligação com o sacrifício e com a função sacrifical.
É natural, portanto, continua Mauss dizendo, pensar que a mudança de nome e o sacrifício expiatório façam parte de um mesmo complexo ritual, exprimindo a modificação profunda realizada na pessoa do sacrificante.
Essa virtude vivificante do sacrifício transcende a vida neste mundo e repercute na vida futura. Semelhante à ela é a relação que se estabelece entre a comunhão cristã e a salvação eterna.