Como a espiritualidade pode ser útil ao desenvolvimento de uma capacidade de lidar com as dificuldades, os desafios, a incompreensão e o impossível que se apresentam no trabalho nas organizações? De acordo com Grof (1987, p. 265),
a espiritualidade é uma propriedade intrínseca da psique que emerge, quase espontaneamente, quando o processo de autoexploração alcança profundidade suficiente. Uma confrontação experiencial direta com os níveis perinatais e transpessoais do inconsciente é associada a um despertar espontâneo de uma espiritualidade bastante independente das experiências (associadas) a determinada religião.
Um dos objetivos da psicologia transpessoal é buscar rea- lizar a aproximação do sujeito com a sua espiritualidade pessoal. A experiência da espiritualidade seria para alguns o exercício de estabelecer a ligação, ou a integração, do indivíduo com dimensões que poderiam ser identificáveis, como:
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» o Todo; » Deus; » o cosmo; » a sabedoria; » a claridade; » a intuição; » um estado de Buda;
» um estado de consciência elevado.
De certo modo, todos os aspectos supracitados são entendi- dos por alguns como a mesma coisa. De qualquer forma, nota-se que a referida “experiência espiritual” proporcionaria uma per- cepção mais ampliada da realidade, permitindo que também se experiencie uma vivência de maior saúde física.
Assim sendo, é interessante compreender como gestores e funcionários recorrem à religião para encontrar forças no desen- volvimento de suas atividades diárias. É nessa comunicação com Deus que o trabalho pode encontrar uma expressão transcendente.
No contexto da compreensão da observação da espiritua- lidade na empresa, realizou-se uma análise da prática religiosa/ espiritual dos membros da SEARH e como ela influenciaria em uma experiência positiva do trabalho. Procurou-se avaliar a existência de um comportamento organizacional voltado à prática da espiritualidade, além de analisar como o respeito à prática da religião no trabalho interfere na experiência da espiritualidade na organização. A pesquisa foi do tipo exploratória, com caráter probabilístico, e utilizou como instrumento de coleta de dados o questionário, aplicado a uma amostra de 156 membros da orga- nização. Entre os levantamentos, verificou-se a existência de dois agrupamentos, ambos autopercebidos como católicos, que tiveram percepções diferentes quanto à prática da espiritualidade
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na organização. Para alguns, a espiritualidade é algo mais flexível e independente do contexto organizacional, enquanto outros verificam como viável a aplicação de algumas práticas espirituais no contexto da organização.
A SEARH tem como missão “formular e implementar políticas de administração dos recursos humanos, materiais, patrimoniais e da tecnologia para dotar o governo do RN dos meios para fazer uma prestação de serviços públicos de modo efetivo, ético e de alta qualidade, para os seus cidadãos” (SEARH, 2018). Alguns projetos de destaque da SEARH são: a Escola de Governo, o programa de qualidade de vida; o desenvolvimento do plano de cargos, carreiras e salários com avaliação individual de desempenho; a reestruturação física da SEARH; a inclusão digital de servidores; o projeto de padronização e automação de processos administrativos; entre outros. Os pilares do modelo de gestão da SEARH são: 1) gestão e controle público; 2) pessoas; 3) estrutura; 4) tecnologias de informação e comunicação (TIC).
Na figura a seguir, observa-se a visão externa das insta- lações físicas da SEARH.
Imagem 10 – A Secretaria de Estado da Administração do RN
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A experiência de saúde e de contato com a motivação pessoal poderia ser entendida, também, como uma experiência de espiritualidade? Estudos organizacionais sobre o diálogo entre organização e espiritualidade auxiliariam a descobrir como a égide espiritual advinda da experiência de distintas religiões influenciaria as organizações? Como a espiritualidade pode ser importante para uma experiência de felicidade?
A temática da espiritualidade no trabalho ou nas orga- nizações vem ganhando espaço nas agendas de pesquisa e literatura em administração. Nos Estados Unidos, o megae- vento da Academy of Management, que ocorreu na cidade de Anaheim, no período de 8 a 13 de agosto de 2008, apresentou que a temática vem ganhado relevância por meio da realização de meditações no início do dia antes de todas as apresentações de trabalhos acadêmicos. Alguns trabalhos apresentados na Academy of Management são How is diversity related to spirituality in the Workplace?, Linear and spiritual strategies for making deci- sions in turbulent times, Ethics, spirituality, and entrepreneurship, Extending theory through experience: a framework for business from Yoga. Esses são alguns indicativos sobre a pertinência do tema e a realização de pesquisas nesse campo que colaborem para a ampliação da teoria organizacional.
Organizações religiosas não são necessariamente espirituais, assim como organizações espirituais, ou que se comportam no compartilhamento desse tipo de experiência, não são necessariamente religiosas. É interessante também constatar que existem organizações religiosas que pretendem ser espirituais (a fórceps ou sob a força do martelo) e existem organizações que possibilitam que ocorra uma experiência espiritual e que não pretendem ser uma organização religiosa, muitas vezes. Nessa última situação, a experiência espiritual é uma consequência, algo que não está sob controle. A partir dessa reflexão, a espiritualidade nas organizações não possui um delineamento simplista, mas é uma tarefa complexa que
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demanda se pensar em modelos metodológicos complexos de estudo da temática nas organizações. De modo a complementar ainda mais este status de complexidade no estudo da espiritu- alidade na organização, nota-se, ainda, que a espiritualidade poderia ser compreendida por alguns como: 1) organizada impecavelmente; 2) com elevados resultados financeiros, isto é, sucesso. O bom resultado financeiro pode ser entendido por alguns como uma graça de Deus, sendo assim a organização conceituada como um fato espiritual, uma consequência de uma prática espiritual, ou um esforço de troca. Isso é um pouco explorado por Weber (1985) em A ética protestante e o espírito do capitalismo. Portanto, a percepção quanto ao que seja uma orga- nização espiritual é muito vasta demandando que se questione dos participantes da organização o que eles entendem quanto ao que seja a espiritualidade na empresa.
De modo complementar, e buscando apresentar um viés crítico quanto ao papel da religião e da prática da espiritualidade nas organizações, Bell e Taylor (2004) chamam a atenção para o fato de, muitas vezes, a espiritualidade se caracterizar como um meio pelo qual o discurso se materializa como fonte de poder administrativo. Destarte, o discurso da espiritualidade no trabalho compartilharia o ideário defendido por Weber (1985) quanto a se buscar criar uma percepção interna de significado e virtude. Em vista disso, o discurso da espiritualidade, como uma ferramenta motivacional, pode ser, de certo modo, uma renovação da ética protestante.
A atividade de diagnóstico da prática religiosa e espiritual na organização pode envolver os seguintes questionamentos:
» Você é uma pessoa religiosa?
» Você possui uma religião? Se sim, qual? » Faz parte de uma comunidade religiosa? » Possui uma crença religiosa, mas não
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» Acredita que possui uma espiritualidade, mas não uma religião?
» Você procura perceber o trabalho como uma dimensão espiritual?
» Que tipo de técnicas/expertises espirituais você leva ao trabalho?
» Quais os benefícios de procurar experienciar o trabalho como uma instância espiritual?
» Qual a principal motivação em procurar experienciar o trabalho como uma prática espiritual?
• para tornar o trabalho mais agradável? • para se relacionar melhor com os outros
funcionários e gestores?
• para lidar com o estresse e a pressão no trabalho?
• para manter um nível de saúde maior no trabalho?
• por dívida a “Deus”?
» A organização promove alguma iniciativa de conotação espiritual?
» A espiritualidade está nos discursos dos gestores? » A espiritualidade está nos discursos da comunidade
de colaboradores?
» Como a espiritualidade influencia o modelo de negócio e as práticas da organização?
A partir do momento que se tem as respostas a esses questionamentos, torna-se possível obter um panorama mais objetivo quanto ao que seja a experiência da espiritualidade nas organizações.
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De modo mais pragmático, estudar se a prática religiosa/ espiritual influencia uma experiência positiva do trabalho envolve os seguintes objetivos específicos:
» identificar os resultados da adoção de práticas espirituais no trabalho;
» avaliar a existência de um comportamento organi- zacional voltado à prática da espiritualidade; » analisar como o respeito à prática da religião no
trabalho interfere na experiência da espirituali- dade na organização;
» avaliar se o respeito à religião favorece uma expe- riência de espiritualidade no trabalho, experiência essa que apresenta semelhanças ao aspecto “sentido de comunidade” a que Rego, Cunha e Souto (2007) se referem. Os autores ainda estudaram: sentido de comunidade; alinhamento do indivíduo com os valo- res da organização; sentido de serviço à comunidade (trabalho com significado); alegria no trabalho e oportunidades para a vida interior.
Conforme o que já foi apresentado, o estudo da experiência religiosa nas organizações englobaria as seguintes dimensões:
» percepção enquanto uma pessoa religiosa; » aplicação de alguns ensinamentos da
religião pessoal no trabalho;
» importância da experiência espiritual para a realização do trabalho.
A dimensão relacionada à experiência psicológica positiva no trabalho está associada a aspectos como:
» promoção de iniciativa de conotação espiritual pela organização;
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» presença de elementos espirituais no discurso e na prática dos gestores;
» presença de elementos espirituais no discurso e na prática dos meus colegas de trabalho; » respeito da organização pela religião; » respeito da religião pessoal pelos gestores; » respeito da religião pessoal pelos colegas
de trabalho;
» existência de espaços para a prática de minha religião na organização.
O estudo da espiritualidade na Secretaria de Estado da Administração e Recursos Humanos do Rio Grande do Norte (SEARH) revelou uma opção religiosa preponderantemente católica, conforme visto no próximo gráfico.
Gráfico 1 – Religião dos servidores da SEARH
Fonte: dados da pesquisa.
Observando-se o gráfico anterior, percebe-se uma predo- minância da religião católica sobre as demais. Contudo, faz-se pertinente destacar que algumas pessoas responderam que são católicas e evangélicas e outras opinaram que são católicas
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e espíritas. Entre as pessoas que responderam possuir outra religião, algumas relacionadas foram Testemunha de Jeová, Igreja Messiânica do Brasil e Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Tendo em vista os pesquisados serem, em grande número, católicos, e a religião mais popular no Brasil ser a católica, esses percebem que existe um espaço por parte da organização para a prática da religião. No que se refere a uma questão aberta, realizada ao final do questionário, quanto às opiniões sobre se a SEARH deveria ou não realizar ações de cunho espiritual, foi informado que não apenas essa, mas o Governo do Estado do Rio Grande do Norte já realiza celebra- ções religiosas em datas especiais como Natal, Páscoa, Dia do Servidor, Dia dos Pais e das Mães. Portanto, essas celebrações colaboram para que se tenha uma percepção de que existe um espaço para a prática da religião.
Acredita-se que a participação do indivíduo em uma prática religiosa pode estar associada à experiência da religio- sidade/espiritualidade. Assim, no questionário formulado com o propósito da investigação, buscou-se identificar a motivação para se frequentar as celebrações religiosas. O quadro a seguir apresenta algumas dessas razões.
Gráfico 2 – Motivo da frequência em celebrações religiosas
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Observou-se uma forte motivação decorrente de uma busca por um “conforto espiritual” (53%). De qualquer modo, é representativo algumas pessoas informarem frequentar cele- brações religiosas por circunstância de eventos sociais (27%) como casamento, batizado, entre outros.
Algumas pessoas que responderam “outros motivos” (7%) para participar das celebrações relacionaram motivações como:
» interação com pessoas amigas, fraternidade; » escutar um sermão nos tira do ar durante alguns
minutos (atemporalidade); » reabastecimento energético; » alegria;
» adoração; » louvor a Deus;
» estudo da doutrina espírita, debate e palestras, buscar o conhecimento;
» a fé (três respondentes em um universo de 156 respondentes);
» sentir-me bem;
» experienciar a felicidade; » praticar a intimidade com Deus.
Outros itens relacionados pelos entrevistados são eluci- dativos para imaginar em pesquisas futuras novas categorias de práticas religiosas que podem vir a ser investigadas junto a outras organizações.
É interessante constatar que a forma como a questão relativa às motivações para comparecer às celebrações religio- sas foi respondida apresenta um padrão semelhante aos dois grupos do Diagrama de Perfil das Médias. Desse modo, poderia
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dizer que uma parte das pessoas não apresenta um compro- metimento com uma frequência em celebrações religiosas e, quando frequentam, justificam que seria por motivos sociais como casamento, missa de sétimo dia, entre outros.