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3. ETUDE DU THEME

3.6. COMMENTAIRE

A escolha pela entrevista narrativa foi importante para que pudéssemos atingir os objetivos da pesquisa, tendo em vista que esse procedimento metodológico possibilitou o acesso às produções de sentido dos jovens acerca de suas vivências com a medida socioeducativa e a da responsabilização pelo ato infracional cometido. Além disso, a entrevista narrativa se adequou ao campo de pesquisa que trazia na sua dinâmica uma certa rotatividade dos adolescentes no equipamento, o que dificultava pensar um grupo específico para essa proposta.

De acordo com Brunner (2013), é a partir da narrativa que o sujeito cria e recria a sua identidade, ou seja, é na capacidade de narrar histórias sobre nós mesmos que nos formamos sujeitos e nos diferenciamos das demais espécies, segundo o autor: “o talento narrativo é uma característica distintiva da raça humana, bem como a posição ereta ou o polegar oposto” (BRUNNER, 2013, p 122).

O autor expõe ainda que a capacidade de falar sobre si possibilita a vinculação com outras identidades ao mesmo tempo em que leva o sujeito ao seu passado lhe fazendo vislumbrar um futuro. É importante ressaltar que as narrativas construídas estão inseridas em um contexto histórico-cultural que é dialético e que atravessa a identidade do indivíduo, de modo que as histórias narradas se configuram como um reflexo dessa relação homem e mundo. (BRUNNER, 2013).

Neste procedimento metodológico não há a elaboração de um roteiro estruturado, se configurando assim em uma entrevista aberta em que o pesquisador intervém a partir da narrativa do participante. No caso do estudo em questão, após a explicação do que se tratava a pesquisa foi solicitado aos jovens que narrassem sobre suas trajetórias de vida, a partir daí fomos construindo perguntas que tivessem a ver com o contexto das medidas socioeducativas e a responsabilização juvenil. É importante ressaltar que o caminho dessas perguntas foi pensado a partir de como cada jovem conduzia o diálogo, porém, as perguntas relacionadas ao contexto do estudo, foram pensadas previamente, sendo utilizadas de maneira diferenciada com cada adolescentes, pois o mais importante era seguir a forma que o jovem conduzia a entrevista. Para maior esclarecimento, segue um quadro abaixo com perguntas que mais se sobressaíram em todas as entrevistas:

Pergunta Norteadora da Entrevista Narrativa

Perguntas Relacionadas com a problemática do estudo

- Me conta sobre a tua história de vida

- Me fala sobre a tua experiência nos centros de privação (no caso dos jovens que havia passado pela medida de internação) - Me fala sobre a tua experiência com a L.A. /PSC

- O que tu acha da medida que o juiz te deu em relação ao teu ato infracional?

- Como é ser um jovem que cumpre MSE?

- Qual é teu sonho?

Quadro 1

As entrevistas foram importantes por possibilitar a produção de sentido sobre a responsabilização do ato infracional cometido e a experiência com as medidas socioeducativa, objetivos centrais deste estudo. Ao todo foram realizadas seis entrevistas narrativas individuais, nas quais todos os adolescentes, com autorização dos seus responsáveis, permitiram a gravação em áudio.

3.3.2 Oficina temática

Durante o caminhar da pesquisa surgiu a possibilidade de introduzir à construção do corpus a experiência de uma oficina temática com alguns dos adolescentes, participantes

da pesquisa, acerca da responsabilização. Essa oportunidade veio por meio de uma atividade que o VIESES - UFC estava realizando no período em que eu estava imersa no campo.

O projeto realizado pelo VIESES - UFC, se caracterizava por uma atividade de extensão chamada “Histórias Desmedidas” em parceria com o projeto “Traficando Saberes” do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), onde a proposta era a realização de oficinas temáticas com adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa em meio aberto. Foram propostas 12 oficinas temáticas relacionadas ao campo dos direitos humanos e juventude. Os encontros aconteciam todas as quintas-feiras com o revezamento entre os laboratórios de estudos, onde em uma semana a facilitação ficava por conta do VIESES e na outra pelo LEV.

Uma das propostas temáticas trabalhada nas oficinas foi o tema da responsabilização, que, na ocasião, o grupo do VIESES havia nomeado de “responsabilização juvenil e projeto de vida”. Sabendo dessa possibilidade, me articulei com os facilitadores a fim de contribuir junto com eles com a atividade e usar o espaço da oficina como mais uma possibilidade de produção do corpus para além das entrevistas narrativas, uma vez que o estudo em questão e a oficina tinham a proposta de trabalhar a mesma temática. Assim, o VIESES me deu a possibilidade de usar o dispositivo de grupo para perceber como os adolescentes produziam sentido acerca da responsabilização.

A oficina, da qual participei na construção, junto com a equipe do VIESES, foi organizada no formato de um círculo de cultura em que levamos palavras geradoras expostas no chão sobre o contexto e a temática abordada. As palavras norteadoras foram: medida socioeducativa; ECA; L.A; PSC; punição; responsabilização; ato infracional; mudar de vida; apoio ao adolescente; futuro; juiz; dificuldades. Cada adolescentes, assim como os facilitadores pegava uma ou mais palavras e falava o que pensava sobre. É importante pontuar que no encontro não foi possível trabalhar todas as palavras expostas, por conta da limitação do tempo.

Nesse encontro participaram três adolescentes, dois deles já haviam colaborado com a entrevista narrativa (Júnior e Iel) e, portanto, já haviam assinado os termos de autorização de participação da pesquisa. Os dados acerca do encontro foram registrados através do diário de campo, já que não houve disponibilidade de gravar o momento. Assim, as considerações sobre a oficina se darão nos capítulos analíticos de forma generalizada e a partir das considerações realizadas no diário de campo.

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