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se davam nos edifícios termais que tratarei dentro em pouco.

Acompanhando as legiões, vieram à Península os médicos militares, criados pelo imperador AUGUSTO 2G1; pode imaginar-se

que por aqui espalhariam a sua sciência, quer exercendo a profissão, quer ensinando-a; sabe-se que no século iv também existiam em Roma médicos da armada e municipais, já com certas regalias e posição na sociedade. . Os últimos teriam repre- sentantes nos municípios lusitanos criados pela nova adminis- tração romana; é natural supor que não houvesse Escolas de medicina nas cidades romanizadas da Lusitânia — como fantasiava o Dr. J. M. SOARES — mas simplesmente médicos urbanos a que

se dava o nome de arquiatras 262.

Na antiga Roma a medicina estava na mão de escravos; o epíteto libertos, que se dava aos médicos, indica tam penosa e humílima situação; foram encontradas provas da existência de

médicos libertos na Península 2fi3.

Para o agasalho, pernoitamento e assistência médica das legiões eram dispostos, ao longo das vias militares, estabeleci- mentos com o nome de mansiones e stationes ou, por outra, albergarias, embriões das que se vão encontrar nos primeiros séculos da monarquia portuguesa; no entanto foram os Roma- nos os instituidores dos Hospitais 2M, que primeiro eram destina-

dos exclusivamente aos legionários, permitindo-se depois que neles se recolhessem os civis; a Grécia possuía estabelecimentos semelhantes, sob o nome de iatreion, geralmente anexos aos templos de Esculápio 2(i5. Desses hospitais militares ou valetudi-

nária, construídos em território lusitano para serviço das tropas

invasoras, nada se sabe, bem que fosse possível haverem existido. <iNão terão neles a sua origem as primeiras albergarias e hospí-

cios, anexos aos conventos portugueses dos primeiros séculos

da nacionalidade? Há razões para crê-lo. Seria interessante esse estudo se o número desta página não me estivesse a lembrar a brevidade no texto!

De todos os factos médicos devidos a Roma aquele que está realmente provado é o da utilização das águas mine- rais na terapêutica. Deve saber-se que nos balneários se fazia toda a espécie de tratamentos então conhecidos, como: balneo-

terapia quente, de vapor, ginástica 2Cf\ etc. As ruínas dos

mesmos o demonstram claramente, como se verá. Tendo apare- cido tantos vestígios de termas romanas, fica-se com a impressão de que os médicos desse tempo receitavam com extraordinária frequência as suas águas, se é que os próprios doentes as não procuravam sem o licet dos nossos arcaicos e veneráveis colegas. Já em 1821 o Dr. J. M. SOARES falava de algumas construções

termais romanas: Braga, Vizela, Chaves, Pedras Negras (Lisboa: rua da Prata) e Leiria (Monte Real) 267. O Prof. LEITE DE VAS-

CONCELOS ajunta que possivelmente foram usadas pelos romanos

as águas de Vidago, Monfortinho, Caldeias, Cabeço de Vide, Póvoa de Cós e Monchique (?) 20S. Isto não quere dizer que as

águas minerò-medicinais fossem desconhecidas antes; os homens da Idade neolítica conheceram e usaram algumas, como em outro lugar escrevi.

Certamente —como diz o Prof. LEITE DE VASCONCELOS269 — o sobrenatural não era excluído dos tratamentos nelas realizados, deles fazendo parte integrante o auxílio rogado aos deuses; já falei de alguns, reservando para quando tratar das águas de Vizela outras curiosas notas dessa divina protecção.

Em Portugal as escavações tem fornecido alguns objectos com- provadores da existência de uma medicina exercida por profissio- nais, já arrolados pelo distinto Professor, na mór parte referentes a um estojo de variado instrumental, provavelmente de um médico da romana Balsa (Torre de Ares — Antas)270: pinças, espátulas,

legras, instiladores de colírios, escalpelos, sondas metálicas, etc. (Fig. 25, l a 5). Empregados pelos Lusitanos registam-se mama- deiras ou biberons de barro, quer para o aleitamento artificial, quer para os doentes impossibilitados de, por si, tomarem os líquidos alimentares ou medicamentosos (Fig. 25, 8), que parece terem sido bastante usados por toda a parte, sob diferentes for- mas (Fig. 24, 13); sobre estes objectos escreveu o malogrado antropologista Dr. COSTA FERREIRA uma pequena notícia 271.

Eis, em escorço, as provas dos conhecimentos médicos dos Lusò-Romanos, derivados de Itália e por seu turno bebidos na Grécia. Assim, diz COSTA DE MACEDO: *A cultura das sciên-

cias companheiras inseparáveis das artes, e por consequência do luxo que as alimenta, lavrou por toda a Espanha; e como

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os conhecimentos scientificos dos romanos eram moldados em protótipos gregos, a língua e literatura gregas, haviam neces-

sariamente de ser também cultivadas na Península Ibérica» 272.

Dessa medicina peninsular nos dão informações MOREJON e CHINCHILLA. O primeiro refere o uso das ervas medicinais pelos

Romanos, de que já falei em resumo, bem como nomes de médicos nascidos ou exercendo a profissão no território que hoje constitue a Espanha. E diz, acertadamente, sem a paixão nacio- nalista do Dr. J. M. SOARES: «NO hubo, pues, escuelas em

Espanha para el estúdio de la medicina en estos tiempos, y los conocimientos medicos se transmitian de unos á otros, como

sucede aun hoy con varias artes y ofícios. . . » 27ii. CHINCHILLA,

contando factos idênticos, chama griega-espanola à medicina deste período 274.

Postas estas considerações, passo a estudar tudo o que nos elucide sobre as noções médicas da população que nesses tem- pos habitava a região do concelho vimaranense.

A região de Guimarães foi, na Idade do Ferro e no período

lusò-romano, densamente povoada 275. Pode dizer-se que não há

freguesia no concelho que não tivesse dado a SARMENTO qual-

quer objecto desses tempos; mas os vestígios lusò-romanos foram, todavia, os que encontrou em maior número 27°. Há duas esta-

ções arqueológicas que demonstram bem a densidade da popu- lação nessa época longínqua: Citânia de Briteiros e Coto de Sabroso. Como disse, a primeira é caracteristicamente lusò- -romana; a segunda não teve a influência de Roma e pode considerar-se um castro puramente lusitano, embora existindo já na Idade neolítica 277. Muitas outras localidades tém dado ele-

mentos arqueológicos demonstrativos do extenso derrame do povo romano. A ser assim, podemos afirmar que o concelho de Guimarães, ao tempo do seu domínio, sofreu intensamente a civilização de Roma, amoldando-se, portanto, aos seus usos e costumes.

As residências dos invasores, mais ou menos ricas, ficaram a chamar-se villas até muitos séculos depois da sua retirada, origi- nando assim as Freguesias e os Lugares; os documentos históri- cos do século x em diante, respeitantes a Guimarães, citam-nas constantemente, bem como aos palácios (palatium, palatiolo),

sendo hoje mesmo vulgaríssimo encontrarmos tais nomes afectos a herdades e povoados 278.

Em verdade não é este o lugar para fazer-se uma síntese completa de tudo o que se deve às escavações de MARTINS SARMENTO, e do mais que após a sua morte continuou a apare-

cer; contudo é necessário, para firmar idéas, traçar um rápido quadro dos achados, incidindo depois o meu trabalho sobre os que se prendem a factos médicos, em maior ou menor relação 279.

Começarei pelo castro mais antigo: Sabroso. Como na Citâ- nia e outros oppidi, as habitações são geralmente arredondadas, de acanhado âmbito, fechando a povoação, de diminuto recinto, uma única muralha; deixo de repetir outras particularidades des- necessárias ou que já relatei noutro lugar e passarei à Citânia.

Este castro é maior e a sua população sofreu durante muito tempo, talvez até ao Imperador ADRIANO, a civilização romana 280.

Pode dizer-se que o que caracteriza o oppidum é exacta- mente esse facto, que devia ter influído imenso nos povoados dos arredores. A Citânia seria como que o fulcro de toda a civilização do território vimaranense, pela sua relativa grandeza, pelo seu poderio, pela sua gente. As casas circulares, oblongas e quadrangulares, eram da mesma forma pequenas, e as ruas, ou melhor vielas, muito estreitas e em reduzido número. O abastecimento da água afigura-se-me insuficiente, a julgar-se pela ausência de construções fontanárias, embora tivesse sido desco- berta uma banal caleira, condutora da preciosa linfa até reserva- tórios apropriados. As habitações de pedra e madeira, antes dos romanos possuíam telhados de colmo, mas após a invasão impe- rial a telha substituiu a palha m; a pavimentação das casas, pri-

meiramente constituída pelo próprio terreno ou camada de lages, deu lugar ao calcetamento a tejolo.

O espólio arqueológico destes dois castros é de natureza vária, indicando o da Citânia um relativo esplendor — devido em grande parte à civilização romana — demonstrado pela cerâmica (louça arretina em abundância), por fusaiolas (verticilli), e pesos de tear (pondera) indicando o conhecimento da tecelagem — possivelmente tecidos de linho 2S2; por moedas de várias épo-

cas, pedras com insculturas várias, etc. Na cerâmica de Sabroso — mais arcaica — contam-se cerca de 35 temas ornamentais283.

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Apareceram muitos objectos de metal em ambos os castros:

fibulas, brincos, anéis, braceletes, pulseiras, fivelas, alfinetes para

o penteado feminino, etc., etc. 284

Preterindo tudo o que poderia fazer pecar por inoportuno esta prosa, deter-me-ei unicamente no relato de alguns achados que mais directamente nos prendam a atenção. Entre os objectos metálicos, quási todos de bronze, existe um pequeno instrumento que deve ser uma pinça de epilação ou cirurgia, semelhante a muitas das encontradas noutras estações desta idade; alguns restos de vasilhas em forma de tubo, como mostra a respectiva estampa (Fig. 24), deviam ter pertencido a biberons, que nesses tempos eram de múltiplas formas 283.

De Sabroso há muito pouco do que possa interessar este estudo. Não tendo aí habitado os Romanos, o povo não conheceu melhoria de situação e condições de vida; a sua existência era a da Idade do Ferro, em geral; de seus usos religiosos, foi desco- berta por SARMENTO uma prova do culto dos mortos: a curiosa

cabeça de porco, semelhante a outras esculturas de animais (ber- rões, etc.), registados nas estações dessa época (Fig. 26); nem uma só inscrição apareceu 28fi. Este castro é, no entanto, mais

precioso que o da Citânia, não só na sua antiguidade, como nos elementos arqueológicos de idades anteriores à do Ferro, que atrás referi. Em troca, a Citânia deu inscrições notáveis, pelo arcaísmo que revelam, infelizmente tam condensadas, quási se resumindo a indicar nomes próprios, talvez de origem ibérica 287. É abundante

o espólio de pedras ornamentadas e esculturas; a significação de algumas, como a da Pedra Formosa, desconhece-se; a-pesar-de ter sido alvo de cuidadosos estudos — alguns de insubsistente diagnose — aquela pedra de feição romana continua a ser um enigma, embora muitos arqueólogos a considerem mesa ou ara de sacrifícios 2S8. Como tal a podemos considerar, enquanto a

luz se não fizer sobre o mistério que a cobre.

Talvez ligados a cultos supersticiosos e possivelmente a prá- ticas de curandeirismo fácil, hei que citar certos gravados e escul- turas, como triscelos, tetrascelos (Fig. 26) e outras pedras, à certa lusò-romanas; uma figura feminina em granito, pode estar relacionada a idéas religiosas, pois é muito semelhante às repre- sentações das deusas-mães 289. Contudo, isto não passa de

uma despretenciosa opinião, sendo curioso o facto de não terem aparecido na Citânia lápides erigidas a deuses conhecidos do Olimpo romano, havendo algumas noutros pontos do concelho! iSeria a população citaniense devotada às divindades naturalistas (culto do sol, etc.) e pouco afeiçoada às outras já mencionadas?

1—Triscelo (culto solar?) — Citânia de Briteiros. 2-3 — Divindades? — Citânia de Briteiros e Sabroso.

4 —Cabeça de porco (sagrado).

5 —Escultura representativa do Sol —Citânia de Briteiros.

Nas Caldas das Taipas — não muito distante da Citânia e Sabroso — onde os Romanos ergueram termas, ainda não apareceu lápide alguma relacionada com as águas, indicando o nome de qualquer deus grecò-romano. A zona compreendida entre Citânia, Caldas das Taipas e Sabroso foi, em meu entender, um dos locais preferidos — de toda a região concelhia — pelas tribus dos Caláicos ou Gróvios para estacionamento e habitação; noutras freguesias encontram-se vestígios de povoados lusò-romanos, mais ou menos importantes e que rapidamente passarei em revista para se aquilatar do grau de densidade da população vimara- nense em tempos da Idade do Ferro e a quando do domínio de Roma.

É natural que o rol desses achados peque por muitas defi- ciências; deve perdoar-se-me a tentativa — agora feita pela pri-

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meira vez— de catalogar por forma tam resumida, as riquezas arqueológicas lusò-romanas do concelho de Guimarães, baseando- -me em grande parte, nos escritos de SARMENTO, tam dispersos e

de moroso arranjo 290.

MARTINS SARMENTO fala-nos de restos de povoados ou cas-

tros, mais ou menos importantes, nas seguintes freguesias:

S. Miguel do Paraíso (Monte da Santa), S. Pedro de Polvoreira (Monte de Polvoreira), Santo Estêvam de Urgezes (Monte da Forca), S. Pedro de Gominhães, Santa Eufemia (de Prazins?), S. Clemente de Sande (Lugar de Sever), Santa Cristina de Longos (Pedrais), S. Salvador ou Santa Maria de Souto (Castelo dos Mou- ros), Santa Maria de Guardizela (cercanias da Igreja), Santa Eulália de Nespereira (Senhora do Monte?), Santa Eulália de Fermentões (Monte de Santa Eulália), Santo Tirso de Prazins (Castro), S. Mar- tinho de Candoso, O Salvador de Tagilde (Castros de Santo Adrião e de Regilde), Monte da Penha, Santa Maria de Matamá, S. Tor- cato (morro do Mosteiro Velho), S. Tomé de Abação (Penedos Altos), S. Miguel do Castelo (morro do Castelo?), S. João de Ponte (Ribeira e arredores) e S. Tiago de Pencêlo.

Da tradição de existência de cidades antigas, das quais topou vestígios, o insubstituível arqueólogo aponta:

Cidade de Santa Eufemia (S. Cláudio de Barco), de Pedráuca (Santa Cristina de Serzedelo), cidade aluída (O Salvador da Gandarela), e cidade de Vila-Cós (Santa Eulália de Fermentões).

Perto de Guimarães, na limítrofe freguesia de Fareja (Fafe) diz o povo ter existido uma Citânia 2!U.

De casas, muralhas e vestígios de castros, a êle se devem as indicações de:

muralhas e edifício isolado (O Salvador do Souto);

muralhas (Vila Nova de Sande, Outeiro do Monte da Forca —Castelo dos Mouros, Salvador do Souto — Santa Eulália de Fermentões, monte de Santa Eulália);

ruínas de habitações (S. Miguel de Creixomil, próximo a Santo Amaro); casas circulares (S. Vicente de Mascotelos, Monte de Santo Amaro); casa quadrangular (S. Cipriano de Taboadeio);

alicerces de construção indeterminada (Santa Cristina de Serzedelo, Campo dos Pinheiros);

vestígios de castro (Penha, Monte de Santo Antoninho?); fornos (S. João de Ponte 292 e S. Vicente de Oleiros); casas circulares (Santa Cristina de Longos, Pedrais);

casas e muralhas (S. Tiago de Pencêlo, Castro);

edificações - compartimentos quadrangulares (S. Vicente de Moscotelos); edificações indefinidas (O Salvador de Tagilde);

alicerces de casas (S. Torcato);

alicerces de construções (S. Tomé de Abação, Penedos altos).

Apareceram em diversos locais vários objectos soltos. Assim, a telha romana — que aparece quasi por toda a parte — princi- palmente em:

S. João de Ponte, O Salvador do Souto, Santa Eulália de Fermentões, S. Miguel de Creixomil, S. Cláudio do Barco, S. Jorge de Selho, S. Miguel do Paraíso, S. Pedro de Polvoreira, S. Cipriano de Taboadelo, Santa Cristina de Serzedelo (Campo dos Pinheiros), O Salvador de Gominhães, Santo Estêvam de Urgezes, Santa Maria de Matamá, S. Torcato, Santa Maria de Prazins, S. Miguel de Gonça, Santa Maria de Silvares, S. Pedro de Azurei, Santa Maria de Guardizela, S. Martinho de Sande, Santa Cristina de Longos, S. Clemente de Sande, Santa Maria do Souto, Santa Eulália de Nespereira, S. Martinho do Conde, Senhora do Monte, Santa Maria de Infias, Santa Eufemia de Prazins, S. Tiago de Pencêlo, S. Mar- tinho de Candôso e S. Tomé de Abação.

Além destas freguesias onde MARTINS SARMENTO colheu telha

romana, em algumas com notável abundância, devo ainda men- cionar a Penha e a freguesia de O Salvador de Pinheiro, onde tenho encontrado bastantes fragmentos de tejolo e telha romana

(imbrex e tegula); o tejolo encontra-se quasi tam frequente-

mente como aquela e nos mesmos locais.

Forneceu a região concelhia algumas sepulturas lusò-romanas e seu habitual recheio (cinzas, dolios, pequenas vasilhas, objectos de metal, etc.). As de S. Paio de Moreira de Cónegos, abertas no saibro e com vestígios de terem guardado caixões funerários de madeira (existência de pregos em abundância), denunciando uma influência cristã 298, são as mais importantes, passando o seu

número de duas dúzias; além dessas:

Uma, forrada de tejolo, em S. Cristóvam de Abação (no lugar da Fornalha, onde a tradição aponta terem sido queimados alguns cris- tãos); sepulturas cavadas na terra, cobertas de lages, em S. Miguel de Gonça; vestígios de sepultura de tejolo em Santa Maria de Silvares e S. João de Ponte; um poço funerário (?) na Cruz d'Argola (S. Mamede de Aldão?); 6 poços idênticos em S. Paio de Vizela;

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sepultura de tejolo em S. Martinho de Leitões; um outro em O Salvador do Souto e restos de urnas funerárias em S. Tiago de Pen- cêlo (Antemil).

No morro da Lapinha (Devesa escura), pertença da Serra da Penha, apareceu o ano passado uma fossa sepulcral que explorei, tendo encontrado apenas, além de duas fusaiolas e parte de uma mó giratória, os restos das vasilhas que o povo estilhaçara, desi- ludido por não encontrar dentro delas o desejado tesouro! Enviei estes achados para o Museu da Sociedade MARTINS SARMENTO,

onde se conservam. Apareceram noutros locais sepulturas cava- das no granito, de forma trapezoidal, cuja data é incerta, mas que se julga pertencerem aos primeiros tempos do cristianismo 21H.

São inumeráveis as vasilhas e fragmentos de cerâmica lusò- -romana descobertas:

S. Cláudio de Barco (asa cilíndrica, vasilhas); fragmentos de ânforas (S. Vicente de Mascotelos — Santo Amaro); pedaços de cerâmica (S. Paio de Moreira de Cónegos, S. Pedro de Polvoreira, S. Cipriano de Taboadelo, Santo Estêvam de Urgezes, Penha, S. Miguel do Castelo (cidade), S. Tiago de Pencêlo, O Salvador de Guardizela, O Salvador do Souto, Vila Nova de Sande, S. Clemente de Sande, Santo Tirso de Prazins, S. Miguel de Gonça e S. Jorge de Selho); asa de ânfora (Santa Maria de Silvares); vasilhas (S. Cristóvam de Abação, S. Torcato, S. Miguel de Gonça; louça pintada (S. Paio de Moreira de Cónegos, S. Torcato, S. João das Caldas—Vizela); fra- gmentos ornamentados com carranca em relevo e motivos impressos na massa fresca ou a buril (S. Torcato?); com a representação em relevo, dum animal (vaca [Atouguia, cidade]), etc. etc.

O recheio numismático do Museu da cidade é valioso; as moedas romanas são de diversos Imperadores — algumas já devi- damente catalogadas 295 — aparecidas em várias localidades, prin-

cipalmente na Citânia de Briteiros, onde MARTINS SARMENTO

encontrou uma «velha moeda lusitana». Em Vizela (Lameira) encontrou-se um numisma celtibérico, muito curioso 2!Ki.

Memórias de várias esculturas devidas aos Romanos regis- tou-as M. SARMENTO:

Arco e dois capiteis coríntios lavrados (Entre Lapinha e S. Tomé de Abação); dois capiteis análogos (S. Pedro de Gominhães); outro em S. Miguel de Gonça; em S. Paio de Moreira de Cónegos desço-

briu-se um capitel semelhante; o ilustre arqueólogo aponta-o como pertencendo à extinta igreja de S. Gião, sendo, portanto, românico e não romano; uma pedra lavrada (sic) em S. Torcato; em Santa Maria de Infías colheu a tradição de ali existir um templo a Diana, pois ao prepararein-se os alicerces da torre da igreja paroquial, apareceram numerosos fragmentos de mármore, que, a meu ver, fortalecem um pouco a tradição 297.

Objectos a que podem reportar-se certos cultos supersticiosos:

Uma colossal estátua de pedra, à certa relacionada com o culto fálico, em Pedralva—que não pertence ao concelho — mas que cito, não só por ter sido estudada por SARMENTO, como por se encontrar em sítio quási limítrofe do concelho, servindo para estudo de influências nas usanças e costumes dos povos desta região 2!»8; gste colosso — de um extraordinário valor —pertença do Museu de Guimarães, que tanto preocupara MARTINS SARMENTO, parece-me que jaz ainda no mesmo local, ao abandono, à espera de atrevidos que o esca- dracem a tiro de dinamite para esteios de ramadas! Mais: uma pedra quási informe, em S. Martinho de Gondomar, do aspecto da qual dizia o grande arqueólogo: «se qualquer observador audacioso

não se lembrar de lhe descobrir uma forma phallica » ; é curiosa a

tradição que as mulheres alimentam sobre essa pedra, existente na igreja da freguesia: com o pó que obtém por raspagem da mesma preparam uma tisana eficacíssima na esterilidade! Não me refiro neste ponto às pedras esculpidas da Citânia de Briteiros; em breve tratarei delas.

Conhecem-se penedos a que estão ligadas curiosas tradições, dizendo respeito a práticas de curandeirismo, algumas oriundas, talvez, dos tempos prèhistóricos 2":

Penedo dos Casamentos (Entre Prazins e S. Tiago de Pencêlo?); a rocha a que se encosta a igreja de S. Lourenço de Calvos, onde dizem ter aparecido a Senhora da Lapinha; uma penha nos Pene- dos altos (S. Tomé de Abação), onde colhi a lenda de ir sobre ela pentear-se uma menina muito linda; na Lapinha, o Penedo do Santinho para o cansamento do peito; os Penedos do Sino e do

Escrivão na Penha; o da Orca, em Travassos; alguns na Senhora

do Monte, local já citado, e tantos outros de que é impossível dar notícia completa soo.

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