A teologia da prosperidade, que se define a partir de um conjunto de crenças e afirmações surgidas nos Estados Unidos e que advoga ser legítimo ao crente buscar resultados, fortuna favorável, obter o favorecimento de Deus para a sua vida material, está na base de várias denominações, como a Igreja Universal, a Igreja Renascer em Cristo, Igreja Internacional da Graça de Deus, Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra e outras (CAMPOS, 1997, 363).
A prosperidade é tema das reuniões de todas as segundas-feiras nos templos iurdianos, com o nome, conforme já anteriormente mencionado, de corrente da prosperidade ou da vida regalada ou dos empresários. Os anúncios televisivos dessas reuniões entrecortam toda a programação da noite e da madrugada precedente, e a tônica das pregações que os acompanham enfatiza que a prosperidade é um direito de todo cristão fiel, é o propósito de Deus na vida do homem (CAMPOS, 1997, 367).
Em algumas passagens, a prosperidade engloba todas as dimensões da vida humana: financeira, física, emocional e espiritual, noutras refere-se mais ao progresso na vida financeira ou ao consumo, aparecendo ainda diretamente associada ao dízimo, reforçando uma ordem social baseada na dádiva e na contra-dádiva, que, embora alvo de acusações da mídia de charlatanismo e exploração dos pobres, não é exclusividade da Igreja Universal (CAMPOS,
1997, 369).
25 Tendo-se em conta que Deus é teologicamente representado no cristianismo como trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.
Para conquistar uma vida em abundância, a prosperidade no sentido pleno, o fiel deve mergulhar na fé, deve determinar, para que o seu desejo seja transformado numa vontade divina, o que justifica a importância desse termo e de seus correlatos no discurso iurdiano.
"Estaremos nesse espírito determinando, meu amigo, minha amiga, há prosperidade na sua vida, há paz, porque está escrito que o Senhor Jesus Cristo veio para nos dar vida com abundância, então, hoje, hoje, segunda-feira, você pode tomar posse dessa vida abundante; é só você, é só você tomar uma atitude de fé e de participar conosco da grande reunião da prosperidade" (Pastor Amauri, Programa Fala que eu te escuto, Salvador, Rede Record, 18-
05-98).
A idéia de que Deus garante, preserva a riqueza do que vive pela fé, conforme já explicitado, é reforçada pela propaganda da corrente dos empresários:
"Esta palavra é para você, empresário que tem passado por sérios e graves problemas. Por mais que você fa ça sua empresa continua em queda, já foram à falência muitos dos seus amigos e por isso a incerteza e o medo estão tirando as suas forças e acabando com a sua paz. Chegou a hora do milagre. Participe da reunião dos empresários e veja o poder de Deus na sua vida, na sua empresa. Está escrito: entrega os teus caminhos ao Senhor, confia n'Ele e o mais Ele fará" (Narrador, Programa falando de fé, Florianópolis, Rede Record, 25-05-98).
"Atenção, atenção, você que se encontra nessa situação: cheque sem fundos nas mãos de agiota, contas atrasadas, com sua empresa falindo, pensando em suicídio, não perca, reunião dos empresários todas as segundas-feiras, às 19:00 horas, e sua vida vai mudar” (Narrador, Programa O despertar da fé, Florianópolis, Rede Record, 25-05-98).
No "Almanaque", "prosperidade" e "prosperar" assumem um sentido mais restrito ao campo material, sempre submetido aos preceitos de uma vida modesta e alicerçada num permanente balanço. A riqueza é, às vezes, qualificada como empresarial, o que pressupõe sua fonte. Na ética puritana, a prosperidade sem ostentação é amplamente aprovada, indicando que as oportunidades divinas foram aproveitadas com êxito . Portanto, nas duas vertentes protestantes (tendo em vista que nos mantivemos, no caso iurdiano, no campo da retórica), a prosperidade é enfatizada, representa um fruto da fé religiosa, resguardando-se as diferentes
26 Weber afirma que a ascese condenava a ostentação dos novos ricos e tinha para o sóbrio "self-made man" da classe média (aqueles homens bons que venceram na vida por seu próprio esforço), que Franklin parece espelhar fielmente, toda a aprovação ética. Para os quaeres, a prosperidade freqüentemente representava o prêmio de uma vida santa, teologia retratada no livro bíblico de Jó. Foi da classe de pequenos capitalistas e de uma classe sem propriedades, às quais pertenciam os puritanos sectários: batistas, quaeres, menonitas, etc., e não da classe dos grandes magnatas, monopolistas empreiteiros governamentais ou aventureiros financeiros, que surgiu o que
nuanças no que tange ao consumo, que não sofre restrições explícitas na teologia iurdiana. Essa homología reflete-se, de alguma forma na tabela 18, da qual se pode inferir uma pequena diferença entre os valores obtidos e os esperados pelo teste, ou seja o "Almanaque", que está imbuído de uma coloração religiosa puritana, confere uma ênfase à prosperidade quase na mesma proporção que a ênfase presente nos discursos iurdianos.
"Quando a Prosperidade estava bem montada, ela soltou a Rédea e logo caiu da Sela" (FRANKLIN, 1964, 229).
Tanto no calvinismo e luteranismo quanto no pensamento liberal, manifesta-se uma oposição à riqueza excessiva. Se a propriedade era instituída pelo trabalho, este, por sua vez, impunha limitações à propriedade (WEFFORT, 1997, 85). O surgimento da moeda, de acordo com Locke, teria levado à distribuição desigual dos bens entre os seres humanos e à concentração da riqueza, impedindo outros de trabalharem. Nessa medida, a democracia liberal, em última instância, buscava assegurar a formação de uma classe média forte, o que reporta a uma certa consonância com as estratégias empresariais e comunicativas da Igreja Universal.
Há um valor positivo atribuído ao empresário e à atividade empresarial tanto no protestantismo originário, que interpretava tal atividade como vocação voltada para a glória de Deus (WEBER, 1981, 129), quanto no neopentecostalismo iurdiano, onde um dos sinais da bênção de Deus é visualizado na posse de um negócio ou empresa próprios, nessa "vitória" do fiel, na sua "conquista", palavras que adquirem forte peso no discurso televisivo.
"É um grande sonho sendo realizado, é um sonho realmente, e há dois, três anos, não tinha capacidade. Essa empresa é obra do Espírito Santo. Há três ou quatro anos eu vivia encerrado num computador, era um programador, não tinha capacidade empresarial, capacidade administrativa, capacidade de negociador, não existia aquilo, não via as oportunidades. A empresa está sendo uma bênção" (Depoente Juan, Programa Fala que eu te escuto, Salvador, Rede Record, 18-05-98).
No "Almanaque" as expressões "perda" (5 o lugar na tabela 3), "gasto" (15.°), "ganho" (11.°) e seus correlatos não estão circunscritas ao âmbito econômico, embora girem em tomo dele; são adotadas num sentido geral: perder o crédito, a pontaria, o amigo, o cavalo, a honra,
passaria a caracterizar o capitalismo ocidental: a organização de classe média do trabalho industrial baseada na propriedade privada (WEBER, 1981, 117 e 221).
mas são recorrentes nos conselhos para enriquecer, que insistem no ganho máximo e no gasto mínimo. "Comprar", "pagar", "endividar" também compõem a pauta desse ethos, que refuta qualquer aquisição supérflua ou contração de dívidas.
"Não despreze nem Perda trivial, nem Ganho trivial; Montículos, se freqüentemente somados, viram Montanhas; Pese cada pequeno Gasto e nada desperdice,
Quantias ínfimas, economizadas por muito tempo, equivalem a Libras no fin a l" (FRANKLIN, 1964, 172).
"Depois de cruzes e perdas, os homens tornam-se mais humildes e sábios" (FRANKLIN, 1964,49).
'Mas, ah, pense no que você fa z quando incorre em Dívidas: Você concede a outro Poder sobre sua Liberdade...Como diz o Pobre Richard, O Segundo Vício é mentir, o primeiro é incorrer em Dívidas" (TRANKLIN. 1964,283).
Nos depoimentos, narrações e pregações veiculados pela Igreja Universal, "perda" e "perder" (em 3 o lugar na tabela 3) são expressões-chaves, que parecem promover a transposição do mundo laico para o mundo sacralizado. E a perda do gosto pela vida, perda do crédito, de familiares, de amigos, da esperança, dos bens, de tudo, até não se ter mais nada a perder - é o fondo do poço, que será abordado mas adiante. São bastante recorrentes nos relatos as perdas materiais, perda do emprego, da empresa, só repostas pelo encontro com Jesus na IURD. A busca de Deus a partir de situações-limite parece um traço relevante na adesão das pessoas à Igreja Universal, diferenciando-a do protestantismo originário, onde a idéia de salvação como meta permanente dominava o horizonte religioso. Para alguns analistas, o grande objetivo da IURD são os resultados imediatos, o que pode ser deduzido não só das propagandas que veicula, mas também da retórica dos pastores e do próprio processo de fabulação que incorpora o fiel ou convertido (VIGNOLI, 1995, 44). No entanto, um viés mais
"teológico", que pode até visar amortecer o tom das críticas, também emerge dos discursos:
"Você só será salvo se você se sentir perdido, se você não se sentir perdido você não será salvo, porque Jesus só salva aqueles que se encontram perdidos, então está aí a razão porque muitas pessoas estão indo às igrejas, mas que não conquistam nada, porque estão buscando não a salvação, não o salvador, não o solucionador, mas estão buscando a solução, então, é justo que você busque a solução, mas, se você quer a solução de Deus, você tem que se encontrar com Ele, você tem que ter um encontro com Ele. A í você tem o direito de que
necessita. M as se você tenta buscar suas bênçãos e seu beneficios, então, sem buscar o encontro com Ele, sem procurar entregar a sua vida ou ofertar a sua vida, então você vai fica r correndo atrás do vento, é, não vai conseguir, não vai acontecer nada na sua vida. O segredo para o encontro com o Senhor Jesus é o desejo profundo que cada um deve ter no coração disso" (Bispo Macedo, Programa Fala que eu te escuto, Salvador e Florianópolis, Rede Record, 21-05-98).
Os termos "pagar" (15.° lugar na tabela 3), "ganhar" (17.°), "gastar" (29.°), nos discursos iurdianos, reproduzem o cotidiano das contas de luz, aluguel, dívidas, os parâmetros avaliativos do ganhar bem ou pouco, os gastos com remédios, com doenças, com drogas, bebida, etc., passando por uma certa transfusão a partir do momento em que ocorre de fato a conversão do indivíduo, que subverte o salário, o desemprego, a miséria, as dívidas. A compra do carro novo, do apartamento, da casa própria, do celular são indicativos da prosperidade adquirida, do novo poder de compra, que demarca não apenas uma dessemelhança radical em relação à ética puritana, que impunha uma severa restrição ao consumo, mas também a mudança de paradigma que, a partir dos anos 40, 50, instaura a sociedade de consumo.