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Chapitre I : généralité sur les cellules PV

chapitre 2 : cellules PV à hétérojonction de silicium a-Si/c-Si

II. Combinaison entre a-Si :H/c-Si

Segundo Selosse (1997), durante a busca pela autonomia, o adolescente almeja uma redistribuição de poderes entre os outros e ele, através de novas negociações e desafios às normas, regras e leis. Coloca-se à “margem” como forma de se afirmar, ser autêntico e se diferencia dos demais. Sai da margem quando consegue lidar com a angústia face à sua problemática identitária. No entanto, há situações em que o adolescente não consegue lidar com essa angústia e as leis passam a não ser mais desafiadas, negociadas, mas, sim, negadas por ele. O adolescente rompe com as negociações através das condutas desviantes, negando toda troca e reciprocidade.

Portanto, os adolescentes que possuem comportamentos desviantes são os que não encontram uma via de auto-regulação (confiança, cooperação, igualdade, reciprocidade) nas suas relações. Buscam na prática de atos infracionais a mediação do interdito, tentando provar que seus desejos podem modificar o real instituído. Os desviantes são aqueles que tombam e que repetem os cenários do abandono. Aqueles que não possuem vínculos para retê-los ou cujos vínculos são rígidos, arraigados, sem elasticidade ou tão sufocantes, que eles não conseguem utilizá-los para tecer seu próprio envelope de vida pulsional. Mais do que os marginais, os desviantes reagem à privação de objetos (Selosse, 1997).

Ao trabalharmos com adolescentes em contexto de vulnerabilidade social, estas questões relacionadas à margem, ao desvio e à exclusão social articulam-se com as condições de vida em que vivem, de forma complexa, passando a ser processos interdependentes, de dinâmica circular, que se influenciam mutuamente e que são desenvolvidos na relação com o outro (Sudbrack, 2003a, 2003b).

As comunidades em situação de vulnerabilidade social são comumente denominadas “regiões-problema”, “comunidades perigosas”, ou seja, territórios de privação e abandono que devem ser evitados e temidos, pois são comunidades assoladas por crimes, violência, drogas e desintegração, no imaginário social.

A sociedade moderna é elitista – caracterizada não somente por aceitar algumas pessoas e rejeitar outras, mas por sua intolerância cada vez mais acentuada ao diferente. O mundo, no entanto, é profundamente diferenciado – as pessoas são muito diferentes entre si e o diferente torna-se insuportável para uma sociedade que almeja a homogeneidade e a indiferenciação. Somente determinadas condutas são aceitas e

valorizadas e as pessoas devem adequar-se a elas. Neste sentido, que liberdade o adolescente tem para escolher seu caminho? Quais são as alternativas? A responsabilidade por escolher é apenas dele? Quando o adolescente faz uma escolha, deve fazê-la sozinho? Conforme afirma Enriquez (2004/2005, p.27), “o homem que se

torna o único responsável por sua vida passou a ser um homem sozinho” e, “se eu estou sozinho, por que então me preocupar com os outros?” (p.28, grifos nossos).

Gaulejac (2003/2006) aponta que os adolescentes, estigmatizados por seu comportamento – etiquetados “desadaptados” – acabam por se adaptar perfeitamente às suas condições concretas de existência. Estes adolescentes caem em contradição entre o que lhes é necessário ter para se adaptarem ao seu ambiente social e o que lhes é necessário ser para estarem de acordo com as normas da sociedade. São reprovados pelo que são, mas lhes são negados meios de viver de outra forma. Internalizam, através da pobreza, da desqualificação social, da exclusão, enfim, das violências humilhantes, uma imagem negativa de si mesmos, que destrói ao longo do tempo sua capacidade de ação. A isto, Gaulejac denomina vergonha: um sentimento doloroso, sensível, um sofrimento social e psíquico sobre o qual é preferível não falar.

Na adolescência, o sujeito passa por múltiplas mudanças e remanejamentos profundos nos planos corporal, sexual, afetivo, familiar e social. Diante de tantas mudanças, a vergonha pode se inserir nas falhas do funcionamento psíquico e nos conflitos que ele vive com o mundo que o cerca. A vergonha surge, portanto, quando os processos identitários são perturbados, deixando o adolescente confuso entre o que é no olhar dos outros e para si mesmo. Ela é incômoda, cria desconforto. Quando é habitado pela vergonha, sente-se inútil, incompreendido, sozinho, desvalorizado. “O silêncio e o

fechamento em si são os sintomas deste sentimento que mistura impotência e perda de confiança” (Gaulejac, 2003/3006, p. 17). Por isso, é preferível evitá-la e as drogas, o

alcoolismo, a violência, o segredo, o orgulho, os atos infracionais surgem como meios de entretê-la.

Segundo Minayo (2001), é preciso lutar contra a naturalização destes processos sociais de exclusão que levam a sociedade a crer na desesperança dos adolescentes, na sensação de que sua contribuição para a sociedade é desnecessária, na ausência de temor e medo a que a realidade os obriga a viver, além da crueldade e da ostentação crescentes com que muitos deles matam, transgridem e afrontam a sociedade. Na verdade, estes adolescentes possuem um fatalismo cristalizado em frases como “Por que ter medo, se

Uma revisão dos processos sociais, antropológicos e econômicos nos tem mostrado um processo de migração forte levando à desafiliação (Castel, 1995/1998), isto é, a debilitação dos laços de pertencimento. Sawaia (1999) aponta que existe uma dialética inclusão/exclusão social ou afiliação/desafiliação social (Carreteiro, 1999) relacionada a subjetividades específicas (que vão desde o sentir-se incluído até o sentir- se discriminado e revoltado), que não podem ser explicadas unicamente pelo fator econômico, mas por formas diferenciadas de legitimação social e individual, manifestando-se como “identidade, sociabilidade, afetividade, consciência e

inconsciência” (Sawaia, 1999, p.9). Mais do que uma rejeição física, geográfica ou

material, a exclusão refere-se à rejeição de valores, à questão do não reconhecimento social; abarca as dimensões culturais e institucionais, por intermédio das quais uma grande parcela da população se torna e permanece alheia ao contrato social, privada do exercício da cidadania, desassistida e desamparada pelo Estado (Castel, 1995/1998).

Segundo Wanderley (1999), qualquer estudo sobre exclusão social deve ser contextualizado no tempo e no espaço. Para a autora “os excluídos não são

simplesmente rejeitados física, geográfica ou materialmente, não apenas do mercado e de suas trocas, mas de todas as riquezas espirituais, seus valores não são reconhecidos, ou seja, há também uma exclusão cultural.” (p.17, grifos nossos).

Para mudar este cenário, compreendemos ser necessário tratarmos estes adolescentes como pessoas capazes de escolher, de tomar decisões dentro de uma realidade social muito limitada. Esta linha de reflexão é fundamental porque deixa sempre aberta a janela da mudança e a crença no protagonismo social e pessoal do adolescente (Minayo, 2001).

Neste sentido, Enriquez (2001b, 2004/2005) aponta, ainda, a importância dos sentimentos na construção ou restabelecimento dos laços coletivos. No decorrer da História, ele mostra o surgimento do desemprego através do capitalismo financeiro, que substitui o industrial. Se um determinado período da História caracterizava-se como período do pleno emprego, outro já se caracterizava como o do subemprego. E quando este se tornava uma ameaça, os sindicatos perdiam sua força e os homens passavam a lutar sozinhos para manterem seu emprego, para defenderem sua própria existência. Isto vem se perpetuando nos dias de hoje:

As pessoas, sentindo-se excluídas ou ainda estacionadas teriam tendência a tentar se agrupar. Daí, surgirem as manifestações estudantis, os movimentos

feministas, os movimentos de desempregados, as associações anti-racismo. Todos esses grupos tentam tirar essas pessoas de sua solidão (Enriquez,

2004/2005, p. 29).

Assim, a sociedade exclui para incluir, o que é condição da nossa ordem social desigual. Por isso, a exclusão pressupõe a inclusão. Todos nós estamos inseridos de algum modo, mesmo quando não por uma forma decente e digna, ou seja, mesmo que por uma inserção social perversa. É o que acontece com alguns adolescentes, que precisam sofrer para se incluírem (inclusão em grupos perversos, como o tráfico de drogas, por exemplo).

A priori, a definição de exclusão e de margem parece simples: se situa em relação à norma. No entanto, não sabemos de qual norma se trata, porque não sabemos a relação que cada um de nós sustenta, psiquicamente, com a mãe, a família, as instituições (Olivenstein, 1997, p.17).

Em outras palavras, e a partir do exposto acima, podemos afirmar que os conceitos de margem, desvio e exclusão social na adolescência não podem ser definidos ou compreendidos sem que se compreenda o universo relacional do adolescente, ou seja, sem que se compreenda como tem se construído sua rede social pessoal.

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