Os contornos desta pesquisa inciaram bem antes de entrar no mestrado, em 2016. Quando filmei o Presente da Mãe d'Água, de Dona Conceição, em 2013, já foi com um olhar etnográfico, devido à minha formação inicial em ciências sociais e a formação que fazia naquele momento em audiovisual, as afinidades com documentários etnográficos e meu interesse pessoal pelos estudos etnográficos. E, desde então, com a aproximação com Dona Conceição e com parte de sua família, em Iriquitiá, com as visitas e registros na época do presente e com as diversas vezes que filmei uma parte da família que mora no Mocambo, na ilha de Itaparica, o estreitamento dos laços com a família se intensificou. Tenho certeza que meu trabalho seria totalmente outro e, muito provavelmente, mais superficial se o tempo passado nele fosse apenas os dois anos de mestrado. Tempo muito curto para uma pesquisa, sobretudo, nesse tipo de formato. Sinto que mesmo assim, tendo tido essa aproximação com Dona Conceição, sua família e sua identidade religiosa, bem antes de iniciar oficialmente ou academicamente, a pesquisa fica sendo embrionária.
Meu projeto inicial era ambicioso para o tempo que tinha para realizá-lo. E mais, quanto mais eu adentrava nas análises mais percebia que muita coisa tinha que ficar, infelizmente, de fora. A riqueza e complexidade das identidades encontradas, não só religiosas, possibilita um prisma de análises interessantes, para algumas, aqui, pouco desenvolvidas. Um dos pontos relevantes, pouco abordado neste trabalho, é o lugar da memória, sua construção e transmissão, e espero que meu orientador, historiador, me perdoe por isso.
Fiz a escolha também, na escrita etnográfica, de deixar de lado a abordagem e análise, do ponto de vista da interculturalidade, entre outros, das músicas ouvidas por Zé e impostas a todos durante o dia, já que o som estava sempre muito alto. Quis assim, mostrar, de certa forma, como esta escrita, que é uma seleção do que vai ser tratado, pode deixar de lado elementos dignos de abordagem, e isto sequer ser percebido. Em contrapartida, no vídeo, que também é uma edição (seleção) dos acontecimentos, não é possível ignorar alguns pontos. Os pagodes, funks e outras músicas “urbanas” ouvidas por Zé, permeiam o filme em diversos momentos.
Outra observação, diz respeito a minha última ida na casa de Dona Conceição, antes de terminar esta etnofilmografia, para tirar umas dúvidas ainda existentes e recolher a assinatura do termo de autorização de uso de imagem das pessoas que estão no filme. Para a maioria, era
a primeira vez na casa deles. E pude, assim também, confirmar o que já suspeitava, que as mulheres são os pilares destas famílias, elas são responsáveis pela estrutura familiar e, muitas vezes, pela economia também, assim como pela educação das crianças. Todos, da geração de Dona Conceição e seus filhos, são pessoas não alfabetizadas, algumas só sabem “assinar o nome”, como dizem, e a maioria nem isso.
Contudo, são pessoas, mulheres, que têm um grande conhecimento da terra que cultivam e da natureza que os rodeiam, das plantas medicinais e da história local. São repositórios da memória da comunidade que se transmite pela oralidade. Encontrei muitas, nas diversas casas de farinhas em que trabalham e onde, pela mesma ocasião, se reúnem, com as vizinhas e as crianças, para conversar, contar as histórias da comunidade, dar conselhos fitoterápicos de saúde ou, ainda, trocar notícias sobre os que não vivem mais lá. Foi muito interessante conversar e compartilhar estes momentos com elas e aprender mais sobre suas vidas e lutas diárias. São nesses momentos de convívio e de troca, entres mulheres e crianças, que se operam as transmissões. Dona Conceição me contou sobre seu trabalho de parteira e das mais de 60 crianças da comunidade que ela “botou a mão”. Ela começou dizendo que tinha feito o parto de umas 15 ou 20 mulheres, mas começamos a contar, com Cris e ela, e chegamos a muito mais, a própria Dona Conceição se deu conta de que ela estava esquecendo, provavelmente, de mais alguns. Contou sobre os banhos e chás que ela preparava para ocasião, ou para outras necessidades, e de como tinha conseguido salvar a mãe e a criança em partos complicados. Imaginei, e pude fazer a experiência, já que o carro não chegava até algumas casas, da distância e dificuldades de locomoção na região, ainda mais complicadas na época. A prima de Dona Conceição, Preta, lembrou que na juventude delas tudo se fazia montado a cavalo ou a pé, e contou “dos pegas” (corridas) que fazia com seu noivo quando iam para as festas nas casas dos parentes.
Nessa viagem, para surpresa e alegria das crianças, também fomos com uma equipe que levou um drone, para filmagem de umas imagens aéreas para o vídeo. Fizemos imagens em Maragogipe, para situar a região e sua riqueza fluvial, e imagens nos arredores da casa de Dona Conceição, para uma visão geral do local. Infelizmente, quando a equipe voltava para Salvador, foram assaltados na estrada, na saída de São Félix, município vizinho, e além dos celulares e dinheiro, levaram o drone com as imagens realizadas. Ficamos, todos, muito sentidos, e nessa ocasião contarem que não faz muito tempo, no local, houveram vários assaltos, e que “antigamente não existia isso”.
Nos três dias que ficamos por ali, além das visitas aos vizinhos, fizemos farinha e beiju, na casa de farinha de Dona Conceição, com Cris, Bia, Ita e o seu filho mais novo. Foi, para mim, um mergulho nas minhas memórias de infância, quando fazíamos farinha no Mocambo, e para os outros, uma surpresa em me ver reproduzir gestos e técnicas que eu imaginava perdidos. No final, foi feito uma repartição da produção entre os que estavam lá, mas também para os outros irmãos que não puderam participar. Sempre que volto, na maioria das vezes acompanhada de Cris, saímos com o carro cheio de iguarias, mudas para plantar, folhas para curas diversas e, até mesmo, animais, desta vez foram um galo e uma galinha.
Não posso dizer que foi uma pesquisa fácil, não pela dificuldade de mergulhar nela ou pela resistência que podia ter encontrado da família, pois estas não existiriam, mas muito mais pelas consequências advindas dessa aproximação com a família e algumas de suas dificuldades, que não vem ao caso abordar aqui. Contudo, minha ideia inicial de analisar a construção de uma identidade religiosa e sua transmissão, operada essencialmente pelas mulheres, no seio de uma família me parece ter sido, relativamente, bem-sucedida. De fato, na família de Dona Conceição são as mulheres que são protagonistas dessa transmissão, sendo possível perceber, ou pelos menos supor, quem são as novas protagonistas por vir na geração dos bisnetos.
Por mais que o mito fundador passe por novos arranjos, que os membros mais jovens da família sejam cada vez mais cosmopolitas, no sentido de Appiah (1999) – já que o próximo membro da família, que nasce em alguns meses, será suíço-brasileiro –, e que alguns outros membros tenham se voltado para as igrejas neopentecostais, a identidade religiosa da família de Dona Conceição ainda tem belos caminhos pela frente.
Retomando as palavras de Dona Conceição aqui, “a gente morre, mas isso nunca morre!”
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APÊNDICE A – Entrevista de Dona Conceição e sua prima e amiga de infância
Local: Iriquitiá, zona rural do município de Maragogipe Data: 07 de fevereiro de 2016
Arquivo: MVI_8618
Tinha acabado de entrevistar duas de suas bisnetas. Algumas crianças ficaram por perto olhando e, às vezes, comentando a entrevista. Chamo Dona Conceição e sua amiga para falarem da oferenda e da festa, elas se instalam no mesmo lugar onde aconteceu a entrevista anterior, com a ajuda de Rita, uma das filhas de Dona Conceição.
Rita (ao meu lado durante a entrevista) – Comece do começo, viu! Desde piquena até... hoje. Criança69 – Desde piquena sambava e uuuuuuuuu. Cuidado pra não dar duas hora da tarde e tá aí conversano ainda...
Amiga (sentanda) – Num sei pra quê filmar duas veias feia... Conceição (fala para mim) – Depoij tu liga o DVD prela vê, viu70.
Rita – Ela viu! Conceição – Viu não.