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Cognitive skills of most urban workers are limited, especially in Africa

Discorrendo agora conforme o trajeto realizado na aula, inici- emos pelos dois motes acerca da natureza da escrita. Primei- ro, temos a tese aristotélica que coloca a escrita como uma tentativa de transcrição da fala. Em segundo, temos a tese his- tórica de que a escrita teria surgido e se desenvolvido por al- gum tempo destacada da fala. (OLSON, 1997)

Independente de considerarmos uma ou outra tese como equi- vocada ou correta, o que nos interessou foi explicitar os entre- laçamentos entre escrita e fala no interior das práticas sociais, culturais e políticas na história da formação da civilização oci- dental. Percebamos, portanto, que o dito entrelaçamento pres- supõe separação histórica – depois veremos que também cognitiva – entre o desenvolvimento de cada uma das atividades em questão. É claro que tal afastamento é mais evidente na segunda tese, já que a primeira expressa uma dependência da escrita com respeito à fala. Porém, olhando atentamente, ve- remos que, ao considerar a escrita como uma transcrição, Aristóteles aponta uma dependência de origem da escrita com respeito à fala e não uma correspondência uniforme dela. Ques- tão que não iguala as mencionadas teses, mas as aproxima.

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Conforme a história da escrita, é impossível saber, com certe- za, o como e o porquê surgiram as primeiras representações gráficas.3 Entretanto, nesse campo estamos acostumados a con-

viver com hipóteses. A mais proeminente atualmente é reme- ter seu surgimento há quatro mil anos na Mesopotâmia com os sumérios. Expedições arqueológicas descobriram tábuas e rolos de argila contendo sinais geométricos e desenhos. O in- teressante é pensar que apesar da existência de uma sintaxe em tais rolos e tábuas, eles não eram lidos em nosso sentido moderno de leitura, mas diretamente interpretados, devido a não-correspondência direta entre figura e som, mas sim entre figura e objeto, a ponto de serem passíveis de entendimento sem que o ato de fala entrasse em jogo.

Com o passar dos anos os pictogramas4 foram recebendo mar-

cas em forma de traços simples até que um símbolo adquiris- se uma sintaxe. Um exemplo de tal escrita é o de Ur, datado de 2900 a.C. (classificado sob o número 10 496 no British

Museum). Trata-se do símbolo de um jarro sobre uma base

pontiaguda que significa “cerveja”, mas não a palavra cerveja e sim o líquido, ao passo que os registros de marcas arredonda- das representam a quantidade da bebida. Observa-se que há uma transcendência da simbolização para a construção de uma sintaxe de texto, entre símbolos (“cerveja” + marcas arredon- dadas). (OLSON, 1997, p. 89-91)

Temos aí o exemplo de um encontro da fala com a escrita e não uma dependência de origem da segunda em relação à pri- meira, tal como na hipótese de Aristóteles. Não podemos des- cartar a tese aristotélica como um pensamento contraditório, pois o filósofo teve seus motivos sociais, culturais e políticos, sendo que seu pensamento não representa outra coisa senão um dos entrelaçamentos entre fala e escrita. Destarte, a hipó-

tese a ser lançada é a de que para cada tese temos um contexto histórico. Aristóteles lançou, inicialmente, uma teoria sobre o assunto que foi por muitos anos seguida. Tempos depois ar- queólogos e historiadores lançaram outra hipótese.

Apesar de a civilização ocidental ter se desenvolvido em gran- de parte sobre o solo da escrita grega, produzida por seus filó- sofos, cujos ícones mais eminentes são Sócrates, Platão e Aristóteles, tal cultura não priorizava essa prática. Na verdade, o texto escrito não exercia muita influência como nos dias de hoje. Para eles a verdade estava na fala e somente dela poderia ser retirada.5 Lembremo-nos da maiêutica6 socrática, que além

de pressupor a verdade na fala, concebe-a como um mecanis- mo de fazer advir a verdade da boca do interlocutor.

Nesse contexto, a palavra escrita fora concebida como algo que não significava por si, portanto dependia da fala verdadeira de alguém para pronunciá-la. Segundo Cavallo e Chartier (1998, p. 10), tal entendimento permitia que as leituras constituíssem interpretações diversas para cada leitor. Em suma, o sentido e a veracidade estavam no leitor. Muito diferente de nosso modo de leitura contemporâneo, quando muitas vezes o conselho didático é de suspendermos nosso juízo durante a leitura, para não corromper a verdade da escrita. Esse tipo de disposição para leitura é derivado da “maneira judia” de ler o Velho Testa- mento (OLSON, 1997, p. 165). Por conseguinte, fica uma ques- tão: como discorria o processo de alfabetização na Grécia? No mundo grego, escrita e fala recebiam a denotação relacional. Para nascer a segunda tese, de que fala e escrita não são depen- dentes, os estudos tiveram que se distanciar não só de Aristóteles, mas do contexto no qual ele pensava. Assim, a Grécia foi retirada do status de núcleo originário da cultura

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Ocidental e os olhares dos pesquisadores se voltaram para a antiguidade, isto é, para as terras não-gregas e não-européias, respectivamente.7

Na origem da escrita dos sumérios, tudo indica sua inde- pendência da fala, de modo que a escrita expressava uma função bem específica: registros, anotações e historietas logográficas8

pouco recorrendo ao princípio fonográfico (OLSON, 1997, p.94). Contudo, o primeiro silabário resultou do ajustamento da logografia suméria a uma língua semítica, o acadiano, que dá lugar ao cuneiforme9 babilônico e canaanita, a mais conhecida

das escritas (LARSEN, 1989, p. 131 apud OLSON, 1997, p. 94). Sendo o acadiano uma língua semítica, é possível ligar os sumérios com os hebreus. Os acádios e os sumérios fundiram- se em um só povo chamado caldeus, na Babilônica 2600 a.C., conduzindo o acadiano à escrita cuneiforme babilônica e canaanita praticada pelos cananeus também de linhagem semítica, que ocuparam a Palestina antes dos hebreus; os fenícios e os árabes. Lembrando que o território desta última pode também ser chamado de Terra de Canaã.

Já os Gregos têm sua origem datada de 1500 a.C., quando da invasão da região da Ilha de Creta a Corinto pelos dórios, eólios, jônios e aqueus: povos de tradição oral. Tentemos com isso perceber que o paralelismo entre a tese aristotélica e a tese histórica tem suas raízes no paralelismo entre os povos que originaram os gregos e aqueles que originaram os hebreus, que no caminho da intersecção social, política, cultural e religi- osa deu-se na origem do mundo Ocidental: o cruzamento en- tre hebreus (judeus), gregos e romanos.

Ora, a cultura Ocidental, tal como se iniciou com a queda de Roma e posterior Idade Média, possui duas ramas que duran- te muito tempo correram paralelas: os gregos e os hebreus

cujo encontro podemos metaforizar como sendo mais uma das intersecções entre fala e escrita na história das civilizações. No entanto, nossa metáfora exige certa cautela na medida em que ambos os povos mencionados praticavam tanto a oralidade quanto a composição gráfica, a diferença está no modo como cada uma delas tratava tais “artes”. Como já visto, os gregos apresentavam como fonte da verdade a fala. Já os hebreus pau- taram suas incursões na escrita, mais precisamente naquilo que denominaram Sagradas Escrituras. A leitura do Velho Testa- mento consistia em recontar o texto de acordo com as própri- as palavras (OLSON, 1997, p. 165). Se caso adviessem novas idéias em leituras diferentes, estas teriam sua origem no tex- to. Havia uma crença na ignorância por parte do leitor e na sabedoria absoluta da palavra sagrada.

Não se sabe de encontros marcantes entre hebreus e gregos. É certo que, de uma forma ou de outra, eles se conheciam. Com efeito, o paralelismo entre esses povos é encerrado com o defini- tivo encontro dos judeus com os romanos, estes, os herdeiros da cultura grega, que funda o mundo greco-romano e cuja decadên- cia pode ser metaforicamente anunciada pelo nascimento de Je- sus Cristo.10 Noutros termos, o encontro entre oralidade e escrita,

que ordenou em grande medida o desenvolvimento do Ociden- te, estava sob a égide das filosofia platônica e aristotélica (uma civilização concebendo a verdade advindo da oralidade), e das ins- crições bíblicas do velho e do novo testamento (uma civilização que destacava a escrita como verdade).

O referido encontro ocorreu em meio a conflitos sociais, po- líticos, culturais e religiosos nos quais as tradições orais e grá- ficas também estavam em jogo de maneira explícita ou implícita. Mas um fato notável neste contexto foi o fortalecimento do cristianismo através da transmissão das palavras escritas nos

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Testamentos. A Bíblia, concebida como escrita divina, esteve tão envolvida com a derrocada da cultura greco-romana que o Imperador Constantino, sob sua influência, dizia ter visto es- crito no céu a imagem da cruz seguida da inscrição: Com este

sinal vencerás.12 Atitude bem diferente dos antigos gregos que

costumavam ouvir os deuses, por causa de suas raízes espiri- tuais estarem na oralidade.

Doravante, à escrita destina-se uma importância nunca vista com tamanha intensidade e extensão. Roma foi dividida (d.C.395) em Império do Oriente (Constantinopla) e Império do Ocidente (Milão). O primeiro se manteve centrado na fi- gura do Imperador Arcádio, filho de Teodósio, que consoli- dou o Cristianismo em religião oficial. O segundo império, sob o comando de Honório e também filho de Teodósio, não teve a mesma sorte, pois fora fragmentando pelo domínio dos vários povos “bárbaros germanos” – politeístas. Novamente conferimos um desencontro entre oralidade e escrita, de modo que, o Império do Oriente ficara sob a influência da escritura bíblica, o que possibilitou seus professores e escritores dis- seminar o texto Divino às pessoas do Império, diferentemen- te da Antiguidade pagã quando a homeopática cultura da escrita era restrita à elite de maior poderio econômico e político. Já o Ocidente fora ocupado por culturas que não apresentavam dis- posição à prática da escrita de maneira eminente.

No entanto, em apreço à decadência da unificação do Estado Romano no Ocidente, o cristianismo (leia-se, uma cultura a partir a escrita) permaneceu não de maneira oficial, mas em plena atividade de catequização, o que justificaria o desapareci- mento, enfraquecimento e dispersão de alguns povos “bárba- ros” e a constituição de uma Europa cristã e letrada.13

Os cristãos, apesar da insistência, não conseguiram letrar (no sentido de fazer ler e atribuir a importância à escrita) todos os povos e pessoas através da Bíblia. Muitos deles continuaram na posição de “bárbaros” na visão dos cristãos, tal como eram na visão dos romanos, porque não se tornaram nem um nem outro. Tão pouco suas culturas sobreviveram, levando-nos a inferir que a grande leva de pessoas marginais tanto no cristi- anismo quanto na prática da escrita, os habitantes das urbani- dades medievais, eram originárias das diásporas dos povos ditos “bárbaros”. Vejamos que a escrita e sua leitura participam dos conflitos gerados por transformações culturais que se esten- dem até os dias de hoje, mas aqui, nos reportamos até o Renascimento.

A partir de então toda e qualquer problemática cultural e civilizatória pressupõe a presença da escrita. Em suma, ela deixa de ser algo externo às culturas ou da ilusão de uma cultura uni- versal, e passa a ser tema geral da Europa ao Mundo Novo. Chartier não hesita em mencionar sua fidelidade à tese de Philippe Ariès de que o ingresso das sociedades ocidentais na escrita é o aspecto mais marcante da modernidade. (CHARTIER, 1991, p. 113). O que não quer dizer que o autor sugere um domínio total da escrita sobre as culturas ágrafas, mas que, como ressaltamos há pouco, sua marca consiste em presença ativa, nas investidas e nas renúncias por parte das sociedades, dos Estados e das Igrejas. Sem dúvida, a comparação entre filogênese e ontogênese da Alfabetização se torna possível quando identifi- camos o conflituoso processo que esta desencadeou na forma- ção do Ocidente, bem como na de cada sujeito que se aventura nesta empreitada.

A aculturação escrita das sociedades ocidentais, passa, portan- to, por numerosas significações favoráveis e pejorativas, assim

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como coligamos com atitudes de crianças, jovens e adultos in- seridos na aventura da leitura e da escrita. Chartier, por exem- plo, conta que a hostilidade à escrita era tão comum nos períodos que englobam a Idade Média, Renascimento e Iluminismo, que o escritor Shakespeare coloca em cena na se- gunda parte de Henrique VI, uma personagem chamado Jack Cade, fabricante de tecidos, que investe tríplice ódio sobre a escrita, pois a veicula às decisões da justiça, já que esta o puniu por roubo de gado. (CHARTIER, 1991, p. 123)

Outro famoso conflito diz respeito à substituição dos manus- critos pelo texto impresso. Em Veneza, Filippo di Strata de- senvolve contra a invenção de Gutenberg o argumento de que a imprensa é culpada por corromper os textos, publicando-os em edições apressadas e falhas, visando apenas ao lucro. Além de corromper as mentes por rapidamente fazer circular textos imorais e heterodoxos. (CHARTIER, 1991, p. 125)

Nesse período a leitura não era hábito comum a todos. Den- tro do contexto onde alguns sabiam apenas ler, outros, assinar o nome, muitos não tinham o domínio nem de um nem de outro; participavam do mundo da escrita como ouvintes de textos lidos por nobres, padres e alguns da plebe que acaba- ram por desenvolver tal saber. O conflito direto entre cultura oral e cultura escrita iniciada com o encontro entre judeus, romanos e bárbaros se perpetuou no conflito entre a oralidade da plebe e a escrita da nobreza.

A leitura em voz alta era comum sob dois aspectos. O nobre e o padre o faziam quando destinava suas leituras a ouvintes, na maioria mulheres e plebeus tolhidos do privilégio. Estes últi- mos, quando liam, proferiam em voz alta suas leituras para facilitar o desenvolvimento da mesma, além de acompanhar palavra a palavra com o dedo, com estratégia para não perder o

fio do texto. Até o século XIX os leitores inábeis se distingui- ram dos outros por sua incapacidade de ler em silêncio. (CHARTIER, 1991, p. 126)

Se no início da formação da Europa medieval os cristãos foram catequizando os “bárbaros”, alguns por meio da oralidade e ou- tros pela leitura, conforme o fortalecimento da religião, e a con- seqüente hierarquização, as escrituras iam se restringindo ao manuseio de alguns sacerdotes autorizados, pois é da fala deles que os bárbaros deveriam apreender a palavra divina. É curioso perceber esse movimento contraditório do cristianismo refe- rente à alfabetização: ora ele abre as portas deste saber, ora as fecha. A igreja luterana, por exemplo, apoiada pelo Estado, em- preendeu na Inglaterra uma vasta campanha de ensino da leitura para que todos os fiéis aprendessem com os próprios olhos a ler a Palavra Sagrada. Daí o clero das paróquias empreenderem essa ação. Contudo, anos mais tarde, por volta de 1520, Lutero abandona a exigência de leitura individual e universal da Bíblia pelos pastores em prol do controle da compreensão do texto sagrado. (CHARTIER, 1991, p. 120-121)

Atentemos que, no parágrafo acima, as considerações sobre o ensino se limitam à leitura. Portanto, a prática da escrita era ainda mais restrita a certos círculos da sociedade. O exemplo das mulheres. Poucas sabiam ler, mas quando liam, isso ainda era aceito, contudo o exercício da escrita pelo sexo feminino era algo quase impensável, considerada atividade inútil e peri- gosa. Deixando de lado a natureza ética deste valor, o fato é que a ocorrência de pessoas que sabiam apenas ler para si e oralizar a escrita sem, no entanto, saber executá-la, demonstra que, há muito, a história da civilização demonstra que ler e escrever são atividades cognitivamente independentes e que envolvem até mesmo conflitos culturais entre oralidade e escrita.

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Os feitos da escrita transcendem os interesses religiosos em direção aos puramente literários e comerciais. Na Espanha (nos séculos XVI e XVII), são formados auditórios populares para ouvir a leitura em voz alta de vários escritos como novelas de cavalarias e periódicos que contavam a vida e os ideais dos ri- cos fazendeiros, médicos, patriotas etc. que no bojo de suas intenções guardavam um projeto de civilidade. (CHARTIER, 1991, p. 155). Todavia, não é possível reduzir a inteligência dos humildes populares em relação à aprendizagem da leitura e da escrita, de modo que, de alguma forma, muitos conseguiam aprender o artifício e assim passarem a produzir seus textos muito vinculados às suas histórias de vida envolvida com a re- alidade e o imaginário. Com efeito, é relevante destacar que, se a aquisição da linguagem escrita não consiste em algo natu- ral, nem mesmo para a burguesia e o clero, então é possível inferir que os obstáculos a serem vencidos por parte daqueles que estão distantes da cultura alfabética, são muito maiores.