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Dans le document Décision n° 2013 - 669 DC (Page 54-57)

questionado, a rentabilidade – conceito da literatura comparada que enfatiza a capacidade de cada texto de provocar reações – das interpretações geográficas da literatura de contrabando será ampliada pela busca de textos literários não- canônicos, capazes de revelar ângulos inusitados e percursos menos trilhados. As trocas induzidas pelas fronteiras, a confrontação de identidades, valores e normas incita à invenção de práticas e representações originais, entre-lugares e híbridos que valorizam as práticas locais específicas (GROUPE FRONTIÈRE, 2004, p. 9).

A tendência contemporânea de valorização da fronteira em suas várias acepções reconhece nesse objeto geográfico um ponto de observação privilegiado para o conhecimento dos processos identitários (BHABHA, 2001). Esse autor defende que o presente caracteriza-se como pós-nacional. Note-se que o “pós” não seria um novo horizonte ou a ruptura com o passado, mas uma passagem “além das narrativas de subjetividades originárias e iniciais” proclamando “o direito de se expressar a partir da periferia do poder e do privilégio autorizados” “no trabalho fronteiriço da cultura” (idem, ibidem, p.21).

O interesse despertado pela literatura de fronteira mostra que a “comunidade imaginada” de Benedict Anderson ([1983] 1998) parece estar sendo complementada por novas representações. Nas palavras de Bhabha:

Cada vez mais as culturas “nacionais” são produzidas a partir da perspectiva de minorias destituídas. O efeito mais significativo desse processo não é a proliferação de ‘histórias alternativas dos excluídos’, que produziriam, segundo alguns, uma anarquia pluralista. O que meus exemplos mostram é o estabelecimento de uma base alterada para o estabelecimento de conexões internacionais. A moeda corrente do comparativismo crítico, ou do juízo estético não é mais a soberania da cultura nacional concebida, como propõe Benedict Anderson, como uma

‘comunidade imaginada’ com raízes em um tempo vazio homogêneo de modernidade e progresso. (BHABHA, 2000, p. 25).

Cabe apontar que esse tipo de análise preenche a lacuna produzida pelas interpretações que tomam como unidade o território nacional, onde invariavelmente a fronteira aparece como fenômeno marginal, estatisticamente irrelevante. Chegar a conclusões qualitativas sobre a fronteira a partir de dados quantitativos nacionais é perigoso. Da mesma forma, encontra-se grande dificuldade em trabalhar a fronteira tomando como base o mapa político. A força do nacionalismo se manifesta na representação cartográfica, registrando apenas uma linha cega, como uma máscara, obliterando a visualização dos fluxos e dinâmicas na escala regional, coerentemente esquecendo ser este espaço também um lugar de contatos, possuidor de lógicas regionais e locais.

Para levantar hipóteses sobre o ambiente e as práticas dos contrabandistas de pequenos volumes atuando contemporaneamente na fronteira de Santana do Livramento-Rivera, seis obras literárias foram examinadas. Nelas é recorrente o recurso à linguagem local. Segundo Lígia Chiappini, João Simões Lopes Neto, o primeiro autor analisado, se destaca entre os regionalistas por realizar “um trabalho profundo com a própria experiência para, através dela, atingir e compreender o outro [...] um trabalho profundamente negativo com a própria linguagem e a cultura letrada” (CHIAPPINI, 1988, p.345). Essa vontade de tradução resolve-se formalmente pela criação de Blau Nunes, o narrador nativo: na primeira pessoa as histórias surgem como contos-causos.

Ligia Chiappini (1999, p. 21) cita Dino Preti (1977, p. 42-3, 47) para enumerar outras estratégias a que Simões Lopes Neto recorre em seu esforço para transcrever a oralidade:

a redundância; a freqüência das expressões de situação (aqui, ali, agora...); o truncamento básico; o ritmo e sonoridade típicos da fala; o papel da pontuação ressaltando a afetividade; a imagem do interlocutor; as interjeições e chamamentos, pelo vocativo; as questões, supostamente dirigidas ao interlocutor e, por meio deste, ao leitor-ouvinte; as comparações dentro do horizonte de Blau; os castelhanismos.

A figura 19 é uma gravura de Nelson Boeira para os Contos gauchescos de Simões Lopes Neto.

FIGURA 19: Contando um causo: gravura de Nelson Boeira Fonte: LOPES NETO (1983, p.76).

É verdade que entre o causo – um tipo de conto popular, portanto anônimo e oral, “suspenso por um fio de vozes humanas” (BRICOUT, 1997, p. 196) – e o conto – autoral – existe uma distância gerada pela consciência da forma, pela intenção individual, pela ancoragem no tempo e no espaço, mais marcados no segundo caso. Em direção ao outro extremo do espectro de autoria e contextualização, mitos também podem ser vislumbrados nas obras de ficção aqui analisadas. Sob certo ângulo, podemos alinhar mito, conto popular e conto autoral, que, num crescendo de contextualização e individuação e que “no interior de certa sociedade, revolvem incansavelmente o mesmo material, articulam os mesmos motivos, reempregam as mesmas seqüências, mas em escala diferente” (BRICOUT, 1997, p. 194). Um exemplo em que esse crescendo se revela é o eco da tragédia de Antígona em vários contos analisados, como veremos no capítulo 3.78

As mediações entre um concreto em que o oral é instrumental (na experiência cotidiana), a fabulação desse concreto em seqüências ordenadoras do mundo, no exercício local da narratividade (os causos) e a criação literária (que busca uma transcendência da linguagem) apontam para a representatividade das obras literárias, na medida em que a progressão mito/causo/conto é feita pela reinterpretação dos mesmos materiais. O contexto histórico reforça a função de testemunhas dos autores que se perfilam aqui: a crença na importância do papel social do escritor (corroborada pela escolha de protagonistas despossuídos, como é o caso dos contrabandistas); um desejo de registro ou documento desencadeado pelo lamento pelo mundo rural que se desarticula; e ainda a marca do cotidiano no imaginário do artista.

O uso desse material na investigação geográfica é possibilitado pela sobreposição autor/testemunha, que permite sopesar cada texto em busca das ressonâncias do coletivo humano territorializado, sublinhando a relação entre a literatura e a oralidade do lugar.

Existem técnicas para traduzir os textos orais para a forma escrita, dando ênfase à performance do emissor e à sua relação com a audiência. Luciana

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Segundo Raymond Williams, “sustentou-se que o mito é uma versão mais verdadeira (mais profunda) da realidade do que a história secular, a descrição realista ou a explicação científica. [...] [em] relatos mais sofisticados, nos quais se sustenta que os mitos são expressões fundamentais de certas propriedades da mente humana e até mesmo da organização mental ou psicológica básica do homem.” seja como estrutura universal ou manifestação de culturas específicas (WILLIAMS, 2007, p.281).

Hartmann, tendo se dedicado ao estudo da “performance e experiência nas narrativas orais da fronteira entre Argentina, Brasil e Uruguai” afirma que os causos/cuentos inserem-se nos relatos das experiências dos informantes. Na notação empregada pela autora, enfatizam-se as estratégias poéticas da oralidade, em que se entrelaçam vozes, personagens, comportamentos e pontos de vista (2005, p. 137). Entre os dispositivos por ela empregados, listam-se as seguintes marcações:

Mudanças de linha indicam separação de sentenças e são relativas a pequenas pausas de respiração feitas pelo contador; letras maiúsculas indicam pronúncias enfatizadas em volume mais alto; repetição de vogais indicam sílabas alongadas; grafia incorreta de algumas palavras busca representar sua pronúncia na oralidade (idem, ibidem, p.136).

Há ainda indicações sobre “as diferentes estratégias utilizadas pelo contador, como o recurso à linguagem poética (rimas, repetições), à função fática (apelo à audiência), representação das falas dos personagens (reported speech), etc.” (id., ibid.).

Todos esses esforços voltam-se a conhecer, registrar e analisar o contexto da narração e da narrativa, ampliando o significado, que é “buscado não mais na própria história, mas no encadeamento particular das várias histórias, e é relativo a um contexto específico de interação com a audiência” (id., ibid., p.149).

Em sua dissertação, a pesquisadora elenca diferentes categorias de contadores de causos, acrescentando que, além desses, todos habitantes têm algo a contar, ainda que não tenham especialmente desenvolvida a habilidade para fazê- lo. Ela cita as mulheres, os borrachos (bêbados), os tradicionalistas, os historiadores e os idosos como figuras reconhecidas, de quem se espera que mantenham viva a memória do grupo (id., 2000, p. 68-81).

É evidente que a intersecção entre os dispositivos da pesquisadora contemporânea, filiada à “antropologia da experiência”, em busca da tradução da narratividade característica dessa região para suportes escritos, e das estratégias identificadas na obra de Simões Lopes Neto, autor já centenário, em sua tarefa de criação/registro do imaginário do gaúcho. Mais do que demonstrar a convergência entre ciência e literatura – mesmo porque o século que separa as duas representações textuais testemunhou uma profunda transformação nessa antinomia

–, interessa reconhecer as técnicas para interpretação dos contos/causos, causos/cuentos e outros textos orais capazes de revelar o significado do contrabando para a população fronteiriça.

As representações textuais têm sido utilizadas por diferentes disciplinas voltadas ao estudo da cultura. Nesta tese reúno textos de origens diversas para tratar das práticas dos contrabandistas na fronteira sob um viés geográfico. No próximo capítulo apresento textos literários sobre o contrabando, analisando-os como fonte de interpretação sobre o ethos da fronteira.

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