7. CONCLUSIONS
7.1. Recommendations
Jorna-A: Foi difícil! Porque é tão mais fácil quando você faz uma coisa “para” elas, porque você coloca o que você acha que as pessoas gostariam, né? Agora “com” a comunidade, trabalhar “com” elas [as mulheres do coletivo], junto com elas foi meio problemático, não vou mentir não. // Porque não era só a gente colocar o que a gente queria, né? A gente tinha que colocar... trabalhar com elas, então, tipo assim, tinha muitas divergências de ideias. Uma das coisas que deu o maior problema foi a capa da revista, porque a gente achou que a modelo estaria representando as mulheres naquele momento, sobre a temática. Mas, não. Acabaram com a nossa capa, falaram que não! As meninas [do coletivo] falaram que [a modelo] não representava elas, que a gente tinha que colocar outra coisa. Aí, a gente falou: gente, mas como assim, como assim não representa? Até hoje eu não entendi isso direito, porque falaram que não. Falei, então tá, então vamos mudar essa capa. Aí, a gente chamou uma menina do próprio grupo, das meninas lá, das Cacheadas, para poder fazer uma arte para a revista. E aí, eu acho que ficou até melhor do que antes, do que a nossa ideia. // Concordei com elas que ficou melhor, que a arte era muito boa. Mas, não entendi até hoje porque que a modelo não representava elas.
(só a capa foi motivo de divergência; as demais atividades - pauta, redação da matéria, fotos - ocorreram de forma colaborativa e harmoniosa).
Jorna-B: Então, os nossos dois públicos-alvo [do projeto educomunicativo e do PEX] eram muito sensíveis pelo contexto e pelo público em si, pelo que eles estavam vivendo. Então, a gente teve que trabalhar não só a informação com eles, mas... sentar com eles e falar: “o quê que está acontecendo, o que vocês estão entendendo disso aqui?” Então, pra mim, isso é o jornalismo, sabe, não é só falar, não é só trabalhar a informação, é trabalhar o público também, pra quem você está falando? É ter essa importância de que você está viabilizando um acesso mesmo. // Eles falavam o que eles precisavam, nunca era em termos “olha, a gente quer isso, esse episódio para falar disso, disso, isso.” Não, eles falavam o que eles sentiam
enquanto pessoas que tinham hanseníase, o que precisava ser dito na mídia. Porque eles precisavam de uma coisa mais didática, era o que eles queriam. Eles estavam cansados de gente que vai lá e escreve artigos ou esses textos acadêmicos, né? Eles não queriam mais isso, eles queriam material que as pessoas entendessem o que eles passavam ali. // E a gente foi lá e levou [a ideia da websérie, as pautas], “a gente quer fazer isso, isso, isso”; e eles [falaram] assim “beleza, é isso que a gente precisa”. Eles fizeram alguns ajustes, tanto em linguagem e tudo. // E eu acho que o nosso trabalho por ser de uma linguagem que a gente construiu junto com eles, uma linguagem não muito difícil, mas também a gente tinha a preocupação de não marginalizar a doença, a história deles, junto com o formato de websérie, que é uma coisa didática, visual, que tem um apelo muito grande, de fácil compartilhamento porque era no Youtube. Então, acho que eles se viram muito representados, eles se enxergaram numa produção jornalística.
Jorna-C: (no início, a relação foi difícil porque a coordenadora e secretária da ong queriam que as estudantes fizessem trabalho de comunicação e marketing): Teve várias reuniões, inclusive, que a gente teve que explicar várias vezes que a gente não era marqueteira deles, sabe? Foi difícil até para organizar... Uma delas entendia super, mas a secretária não entendia, achava que a gente estava lá para fazer o trabalho dela. // (fala sobre o PEX com mulheres refugiadas): A gente optou por sempre perguntar o que a gente poderia falar ou não, a gente perguntava “ah, quando você quiser ser... sei lá, representada, o que você gostaria que as pessoas soubessem?” Elas tiveram participação antes, durante e depois. Depois do resultado também, compartilhando o site. E até de idéias, tipo assim: “ah, não, não coloca isso aqui não. Ah, essa foto aqui! Ah, gostei mais dessa!” Por exemplo, teve uma delas que a Ana Vitória escreveu uma coisa e, aí, mandou o texto pra ela antes de publicar, né? E ela falou “você pode tirar essa parte?” e a gente foi e super tirou, porque, assim, é um direito, né? Claro que o jornalista não tem que ficar esperando aval das pessoas, mas como era perfil, a gente...
Jorna-D: Nós chegamos na escola e, como o processo é educomunicativo, a gente não pode chegar com nada pronto, né? A gente tinha uma ideia de que seria interessante fazermos algum projeto que fosse suprir a necessidade daquele local, agregando conhecimento. E uma necessidade que a gente via muito grande era a união dos alunos, né? A escola tinha grandes índices de divergência entre os alunos e com a comunidade, porque está inserida numa realidade que tem problemas com drogas, com criminalidade. Nós apresentamos a proposta [da agência de notícias] e ali os meninos falaram “ah, a gente podia fazer isso, podia gravar
vídeo”. Tinha gente que escrevia poesia, que gostava de escrever histórias e trabalhar crônica, tinha alguns alunos com voz de... aí tem até o debate do rádio, que tipo de voz que é pro rádio. E apresentamos as áreas jornalismo impresso, nós fizemos TV também, que o suporte foi o Youtube, mas com formato de TV e a rádio. E aí, cada um foi pra um canto e desenvolveu a partir da técnica escolhida, mas tinha as reuniões de pauta, a gente se encontrava, a gente debatia e foi muito bom os alunos participarem. // A gente tem que ter muito respeito com os processos que cada um vive; a gente via o recorte que eles estavam fazendo, o olhar e nós, talvez, por ter uma vivência um pouco diferente, não em questões periféricas, mas acadêmicas, né, que na universidade a gente poderia pensar “ah, isso poderia ser feito de uma forma diferente”, mas eles optaram por fazer assim e tem todo um significado porque fazer assim. Eu vejo muito isso na própria escolha das pautas. Então, assim, eles escolheram isso e é preciso respeitar porque, talvez, aquilo faça mais resultado, tenha mais impacto na vida deles do que essas outras coisas; o que, talvez, não deveria ser da forma como estava posta, era aquilo que estava surtindo efeito.
Jorna-E: eu lembro que a gente fez um livro... e acho que foi uma das disciplinas que eu mais lembro, assim, da questão de construir junto com o público... que é exatamente isso, assim, que eu vejo no jornalismo, de construir o produto junto com o público que necessita dele. // a gente fez em parceria com o professor de artes, ele tinha um pensamento muito parecido com o que a gente estava construindo, que era aquele professor diferentão, que estimula os alunos.
Jorna-F: E aí, eles foram entendendo [como era o processo educomunicativo, do fazer coletivo] e a gente foi... também mudou um pouco, assim... a gente estava com uma coisa na cabeça: “ah, fazer um site tal, assim...” Aí, a gente já começou a ver que, por exemplo, um deles gostava muito de cordel e recitar, e aí, a gente falou: “oh, porque não contar a história de vocês por meio de um cordel?” E, aí, a gente... através de nossa conversa, a gente também foi mudando as coisas e tentando construir outras, né? Porque, às vezes, a gente também tinha chegado com uma ideia, né? // Até porque eles já tinham falado pra gente que queriam um site. Ah, então, tá, o que que vai ter no site? [...] . E aí, a gente tentou juntar as duas coisas: coisas que a gente estava produzindo, como a história deles, e também adequando com o que eles estavam querendo, de ser um local para que outros nordestinos pudessem conhecer a associação. E, aí, a gente viu que o site era a melhor coisa para adequar essas várias mídias que a gente estava fazendo, fotos e tal.
Jorna-G: Quando eles aceitaram, a gente perguntou se eles tinham em mente alguma coisa para trabalhar, se eles tinham algo específico que eles queriam falar sobre ou algo que não queriam falar, porque é válido também, a gente não queria correr o risco de chegar e dizer alguma coisa sobre a qual eles não queriam comentar. E aí eles mesmos nos deram essa ideia. E, aí, pra gente do grupo [foi] sensacional, porque eles já nos deram as demandas, a gente tinha toda a parte técnica e o suporte para ajudar e construir tudo junto. Aí, a gente só desenvolveu. Fomos lá mais umas quatro vezes, ajudamos nas gravações, eles mesmos se filmaram, né, a gente só orientou. A gente ajudou também na edição, apesar de ter passado pra eles [as técnicas de edição]. Mas, essa decisão sobre o que falar e como falar foi deles, foi uma demanda que eles trouxeram pra gente. // [fala sobre o momento da edição dos vídeos] foi a parte mais nítida de troca de experiências, porque foi o momento em que eu percebi ali diretamente na prática o que eles sabiam, o que a gente sabia, e como a gente poderia chegar a um meio termo e todo mundo aprender entre as partes. // (fala sobre a demanda da comunidade) utilizar a página que eles já tinham no Facebook e produzir material; eles queriam entrar no Youtube também, fazer uns videozinhos curtos para colocar lá; foi uma demanda que eles trouxeram, na verdade, e a gente aceitou, entrou de cabeça pra fazer esse trabalho. Então, nós conhecemos muito da cultura deles, a gente aprendeu muito e nós ensinamos pra eles todas essas técnicas básicas pra filmar, pra editar, de linguagem pra se usar no Facebook, principalmente, como colocar esse material [conteúdos – vídeos - no Facebook].