CHAPITRE IV. Processus de conception
IV.10. Analyse de site
IV.10.5. Climatologie
homens que participaram da Revolta do Capim
Fonte: Acervo da pesquisa, agosto de 2014
Além de que, a reafiramação de uma “autoconsciência cultural” é compreendida como uma possibilidade de resgatar uma dívida histórica do poder público, quanto a acesso a condições de cidadania da valente gente do Aproaga:
“Tá faltando uma escola, um bom posto de saúde. Nós estamos aqui hoje é pra reivindicar os nossos direitos, pra que um dia tenhamos um posto de saúde e demonstrar a nossa precisão. Então é aqui que nós estamos.” “Uma estrada boa, a energia que a gente precisa. Uma educação melhor pros nossos filhos. Tem filho aqui que sai da sua casa e pega um caminho e pega um barco e quem tem filho maior trabalha. Então nós queremos uma escola bem “afeiçoada”, queremos um posto de saúde, nossa energia. Então é uma coisa que venha trazer benefício pra cada um de nós, pra vivermos
190 como cidadãos100.” (Senhor Antônio da Silva Coutinho, Sauá-Mirim,
PNCSA, FASCÍCULO 24 – Povos do Aproaga – São Domingos do Capim, 2008, p.11).
De fato, o diálogo com, os velhos quilombolas, me fez refletir, como nós pesquisadores, estamos envolvidos em uma rede de significados (Da Silva 2006), tanto no âmbito pessoal, como em relação à abordagem das populações tradicionais, e suas articulações políticas, processo que procura impor às agências governamentais uma agenda de discussão de seus problemas de territorialidade, colocando-se assim, como sujeitos de sua própria história e não como meros espectadores, frente à implantação de modelos econômicos que não consideram a sua existência. Estamos, portanto, diante de um campo minado, que no “caso mais geral das populações tradicionais novas no cenário público, trata-se de fazer um pacto ou contrato com a nação”. (Cunha & Almeida 1999, p.5). Esta parceria com os neotradicionais, proposta pelos autores, pode e deve priorizar a resolução de questões sociais urgentes.
Este campo minado envolve ainda outras riquezas, desde as narrativas sobre prováveis tesouros enterrados que existiriam nestes espaços simbólicos, que são as ruínas, e outras referências, que envolvem as demandas sociais dos Quilombolas relativamente veladas. Penso por exemplo, em como explicar que homens submetidos a históricos regimes de submissão, durante o período da escravidão, imagens que hoje a memória do grupo tenta reafirmar para legitimar a sua luta, de repente, se envolveram em um importante conflito travado nas margens do rio Capim, seguindo os ideais de um republicano de origens monárquicas, Vicente Chermont de Miranda? Refiro-me à participação, dos pretos valentes no evento que ficou conhecido como a Revolta do Capim (ocorrida em 1891) e que está carregada de ancoramentos e memórias da Cabanagem.
Neste processo a valorização da valentia do capiense também ajuda a resignificar as suas lutas por melhores condições de vida, como possivelmente, pensaram alguns cabanos, lembrados na atualidade, quando lentamente e de bubuia passa um tronco, reconfigurando os muitos corpos que tombaram no confronto às margens do rio Capim e foz do igarapé Pyrajauara e foram levados pela maré para o fundo do rio e para as memórias submersas da gente da região.
100 Das demandas sociais dos descendentes do Aproga, registrados pelo Senhor Antônio da Silva Coutinho, uma
das principais lideranças da Festividade de Nossa Senhora de Nazaré da Ponta, foi construída pela Prefeitura Municipal de São Domingos do Capim, na área da Taperinha uma pequena escola, permanecem contudo, questões associadas a infraestrutura pedagógica, entre as demais reivindicações.
191 3.4.3- A Revolta Cabana de 1891: corpos e memórias de bubuia no vale do rio Capim 101
Durante a pesquisa de campo do mestrado, tendo encontrado, narrativas que envolviam os outros dois elementos indicados por Maués (2006), para o entendimento desta identidade amazônica, de ocupação mais antiga, desta Amazônia das águas, ou seja, a Festa de Santo e a figura do Encantado, encontrada no boto, faltavam-me, narrativas relacionadas à memória da Cabanagem.
Rememorando aquele período, uma questão me intrigava permanentemente: cresci ouvindo o meu bisavô contar os casos de tesouros enterrados e de uma guerra da qual, o velho teria participado, juntamente com capienses do engenho Aproaga e Taperuçú, havia, aparentemente, um lapso de tempo entre as informações dos poucos interlocutores, que sabiam algo sobre o assunto e as minhas memórias. Não estávamos falando, ao que parecia do mesmo levante, pois a referência de idade que tinha de meu bisavô, segundo ele dizia, era de que quando veio a libertação, ele tinha onze, ou doze anos. Teria, portanto, nascido décadas depois da revolução cabana. Qual seria então este movimento de que o velho, cabeça branca, teria participado, e que os pretos da curva do rio sabiam contar?
Demorei a entender que não se tratava do mesmo levante. Foi somente nas últimas incursões ao campo no final do ano de 2009, que compreendi que se reportavam a outra Cabanagem. Uma sobreposição de imagens, uma Cabanagem que aparece resignificada nas memórias, sobre a Revolta do Capim. Poucos são os registros históricos sobre este evento, que atingiu as ruas de Belém, ou se existem, exaltam as autoridades envolvidas, colocando-as na condição de “vencedoras” diante de “revoltosos”, conforme o texto abaixo:
“Substituindo o dr. Justo Leite Chermont que havia sido nomeado Ministro do Exterior, assumiu o governo do Estado o Capitão Tenente Duarte Hust de Bacellar Pinto Guedes. A 11 de Junho de 1891, explodiu na capital um movimento revolucionário, chefiado pelo patriota Francisco Xavier da Veiga Cabral, ao qual adheriu o corpo de polícia. Os revoltosos tinham em mira depor o governador do Estado, mas foram vencidos, após várias horas de cerrado tiroteio e heroica resistência.
101 Como possibilidade de novas pesquisas em relação a este conflito no vale do rio Capim, cabe o registro que
é feito em relação a comunidade Alegre Vamos por ACEVEDO MARIN et all (2014, p.50): “No território, que hoje ocupa Alegre Vamos, foi sediada a vila de Santana do Capim, e, posteriormente, no século XIX transferida para a atual localização, nas proximidades da PA – 252. Outro acontecimento histórico de Alegre Vamos é referido à revolta do Capim, quando se criou um cemitério clandestino pelos moradores para sepultar os campinenses mortos no confronto com as forças republicanas. Os corpos encontrados no rio Capim eram velados e sepultados em Alegre Vamos, às escondidas, para a família não sofrer represálias pelo governo do Estado. Já, os rebeldes tinham como esconderijo um morro chamado Serrinha, que fica na divisa de Taperinha com Alegre Vamos. Ele forma parte do conjunto disperso de povoados – autoidentificados quilombolas – que ficam entre a PA – 252 e a foz do igarapé Pirajauara, na jusante do rio Capim”.
192 A defesa legalista foi feita pelo esquadrão de Cavallaria, 15º Batalhão de Infantaria, uma bateria do 4.º de Artilharia, contingente da marinha com metralhadoras e dos Bombeiros, sob commando do tenente coronel Claudio Savaget, coadjuvado pelo capitão de mar e guerra Bernardino José de Queiroz, inspetor do Arsenal de Marinha e generaes Bento Fernandes Junior commandante das armas, e José de Magalhães, inspetor dos corpos de milícia do Estado.
No arsenal de Guerra, sob a assistência do seu director major Vasconcellos de Drumond, foi organizado forte linha de defesa, tendo em vista ser o mesmo o depósito do material bélico da guarnição.
As forças legais, depois da Victória, empenharam-se na perseguição aos rebeldes, que estavam concentrados na chácara CONCEIÇÃO de propriedade do dr. Vicente Miranda, no CACOALINHO, onde levantaram trincheiras e fortificações de emergência.
Embrenhando-se nas matas adjacentes, muitos conseguiram fugir à perseguição tenaz dos vencedores que se extremaram em violências de varia espécie”. (ERNESTO CRUZ, 1937 p. 176).
Bem como são poucos, entre os descendentes dos envolvidos nesta querela, os que se dispõe a falar sobre o fato, ocorrido no final do século XIX. Se por um lado, a história oficiosa e seus representantes, não tinham o interesse que cultuá-la, assim, como durante muito tempo se fez com a Cabanagem. Por outro lado, criou-se em razão da revolta, um estigma em torno da representação capiense, em função das mortes inerentes ao movimento, sobretudo, entre os membros das forças policiais defensoras do lado republicano, que então governava a província.
Soma-se a esta situação, a ampla campanha difamatória dos instrumentos de imprensa, ligados a esta vertente política, durante o período que antecede o movimento102, e a atmosfera de terror, que se criou em torno da expectativa de invasão da capital, pelos guerrilheiros “sangrentos do capim”, que se dirigiram à Belém, após os combates no Capim, com o objetivo de auxiliar as forças arregimentadas por Francisco Xavier da Veiga Cabral, (conhecido como Cabralzinho) liderança fundamental para o sucesso das frentes que repeliram a força governamental, nas águas labirínticas do rio Capim, e que atuou mais
102 Esta campanha difamatória em relação aos guerreiros “sangrentos do Capim”, se estendeu posteriormente ao
conflito, ocorrendo como na Cabanagem uma defesa dos vencedores, através de ampla divulgação de panfletagem jornalística em Belém, (ver figura em anexo), que se soma a uma violenta repressão ao descendentes do movimento, produzindo entre outras questões, um estereótipo negativo do capiense, como uma gente violenta. Durante a pesquisa de campo escutei breves relatos, que exemplificam esta situação, enfatizando a dificuldade das embarcações provenientes do Capim em ancorar nos portos do litoral belenense, segundo afirmavam alguns interlocutores, quanto as embarcações estavam próximo de “encostar” nos trapiches, perguntava-se de onde vinha o barco, respondia-se: vem do Capim, o que era indicado também pelos complementos das denominações da embarcação que, em linhas gerais, indicam os locais de origem. A resposta de quem estava em terra era sempre a expressão: “Iiii, é do Capim!”. Seguia-se então, uma espécie de estado de vigilância aos embarcadiços, enquanto o barco estivesse no porto.
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efetivamente, em outro levante ocorrido em Belém a 11 de junho de 1891, estreitamente ligado ao movimento que vinha do Capim, reproduzindo a estratégia cabana de arrancar, pela força, os representantes do poder da sede da província.
Os trabalhos histórico-etnográficos desenvolvidos por Farias (2005, 2008), são alguns dos poucos referendos deste evento social, envolvendo diferentes grupos políticos, que duelaram pelo poder da Província do Grão-Pará, tendo sido produzidos, basicamente, com algumas poucas narrativas sobre o evento e, especialmente, a partir de uma vasta análise dos periódicos que circulavam em Belém. Onde, como reflexo do movimento político, de um lado, se posicionava o folhetim A República, representando os interesses do grupo ligado ao Partido Republicano do Pará - PRP, onde militavam personagens históricos, como Paes de Carvalho, Lauro Sodré e Antônio Lemos.
Na oposição, mas com ideais não menos republicanos, o grupo coadunado pelo Partido Republicano Democrata - PRD, tendo como principal instrumento de divulgação, o jornal: O Democrata. É preciso, então, considerar que as intensas disputas políticas ideológicas dos referidos grupos, que estampavam as páginas dos jornais, extrapolavam o simples interesse em ocupar cargos públicos, passando pelo projeto de reorganização da estrutura político-administrativa do regime recém instalado.
É sobre este contexto de disputas político-ideológicas e confrontos armados ocorridos na área territorial de São Domingos do Capim, especialmente, o último conflito travado na margem do Capim, na foz do igarapé Pyrajauara, resignificando a memória da Cabanagem, que vou me debruçar na continuidade deste texto embrionário. Para tal, faço uma síntese do trabalho de Farias (2005, 2008), e trago a cena memorial, velhos das antigas da região, cujas narrativas ajudam a subsidiar atualmente, um amplo movimento de luta pela legalização da posse, da área onde residem os descendentes daqueles que labutaram nos afazeres do Aproaga, e que se somaram aos homens do Taperuçu, no confronto ocorrido na foz do igarapé Pyrajauara e que posteriormente, procurar invadir Belém.
O ano é 1891, como termômetro das tensões que envolviam a abertura do Congresso Constituinte, os periódicos jornalísticos da capital se contra-atacavam a cada edição, os ânimos se acirravam, e assinalavam para a eclosão de conflitos de rua e de revoltas pelo interior do Estado. De ambos os lados se usava as simbologias revolucionárias francesas, embora com motivações distintas. Derrotados nas eleições que escolheram os membros constituintes, e tendo como principal liderança, o proprietário dos engenhos Aproaga e
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Taperuçu, Vicente Chermont de Miranda, os membros do Partido Republicano Democrata- PRD, passam a se posicionar como vítimas de eleições, supostamente fraudulentas, de perseguições políticas, e como reais defensores da democracia republicana.
Da vila de Sant’Ana do Capim, chegavam notícias oficiais, quanto à existência de grupos armados prontos para invadir a capital e tomar a administração provinciana. Apesar das ameaças de repressão do governo Bacelar, os democratas capienses, promoviam ações desafiadoras, como o incêndio da cadeia pública de São Domingos da Boa Vista (São Domingos do Capim), ação coordenada por “João Francisco da Luz, Raymundo Ayres Franco Lopes e Fausto Ernesto Furtado Pereira”, (Farias 2005 p. 168, 169). Neste contexto, em que os conflitos eram iminentes e as noticias circulavam rapidamente pelos rios e furos da região, nas margens do rio Capim, três momentos de enfrentamento armado tiveram maior destaque, sendo eles:
Segundo Farias (2005), no dia 26 de maio o democrata Félix Antônio de Souza, personagem influente em São Domingos da Boa Vista acusado de guardar armas e munições para seus companheiros, já preparando a ocupação de Belém, reagiu à tentativa de invasão de sua casa por força policial, juntamente com seus filhos, resultando na morte de um civil que fazia parte da escolta e de um policial, que depois de atirado teve o corpo lançado no rio. Na tentativa seguinte, quando a polícia adentrou à residência, os acusados haviam embrenhado-se pela mata, tendo se refugiado na boca do igarapé Pyrajauara, local de moradia, agregada a um comércio de João Francisco da Luz, e onde, provavelmente, estariam escondidas as armas, que a milícia procurava, e que mais tarde foram utilizadas, tanto no confronto na foz do igarapé Pyrajauara, quanto na tentativa de ocupação da capital da província em 11 de junho de 1891.
Em 4 de junho, novamente um confronto armado, desta vez, sem a participação direta de milícias, onde correligionários democratas, liderados por João Francisco da Luz, atacaram a casa comercial do republicano Belmiro Pacheco Barboza, na localidade de Santo Antônio. Com a ausência deste último, os agressores foram rechaçados por amigos do republicano que saíram em sua defesa, provavelmente, também republicanos, que haviam se preparado para o desfecho. Desta feita, morreram homens do grupo de João Francisco da Luz, tendo o restante tomado o rumo da mata. De fato, neste segundo embate, estavam em jogo, além dos ideais políticos, interesses de cunho pessoal, questões mal resolvidas localmente.
195 Foto 36: Antiga casa comercial desativada localizada na margem esquerda do rio Capim, na foz do
igarapé Pyrajauara, local onde aconteceram confrontos da Revolta do Capim na região
Foto: Acervo da pesquisa, dezembro de 2009
Com o agravamento das diferenças políticas na capital, e da possibilidade de mais sangue descer os rios e atingir outros povoados da região, o governo de Bacelar, resolve enviar tropas legalistas fortemente armadas, para reprimir os levantes. Farias (2005, p. 172), afirma que: o jornal O Democrata de 06 de junho de 1891, noticiou a expedição da polícia que seguiu para o Capim, sob o comando do Capitão Francisco Antônio de Souza Camisão. Resultando em um conflito sangrento entre policiais e moradores da localidade, principalmente, homens recém-alforriados dos engenhos Aproaga e Taperuçu, quando “o Capitão reunindo a força de seu destacamento ao de São Domingos, seguiu para a boca do Pyrajauara”.
Sobre este terceiro e mais intenso confronto, na foz do Pyrajauara, o velho Trindade, com pouco mais de noventa anos, muitos dos quais vividos a bordo da embarcação “Maria de Nazaré” e depois da “Varela” subindo e descendo o rio Capim, descendente de João Francisco da Luz, afirmou-me que o pai, (Rocque da Luz), sentado no inicio da noite no trapiche de uma casa comercial depois demolida, na foz daquele igarapé, costumava contar os fatos recorrentes ao conflito de 1891, este descendente que atualmente mora no bairro do Jurunas, em Belém, narrou-me assim o combate:
“Quando viram, viram 110 a força que veio, aí o comandante disse olha uma coisa. _vou falar pra vocês[...].
É nessa corveta , mas nesta corveta não tinha nada não.
_Vamos cortar aqui abaixo da campina e ai vocês saiam e nós ficamos aqui, eu e o comandante[...] olharam tava feita aquela montanha de pau aí o
196 soldado disse: _nós tamos metidos numa arapuca aqui, pra nos passar temos que ir pela água, mas nós já tamos aqui!
Aí o João da Luz deixou uma passagem assim que era pro cachorro passar pra encontrar logo eles lá no mato, aí foi quando ele soltou os cachorros e eles vieram latindo.
Foi quando eles tocaram a corneta [...]
Ele tinha dado ordem que só podia atirar quando ele mandasse, o João da Luz.
Quando atirou o cachorro ai começou o fogo. Tinha mais de 500 rifles, aí começaram a atirar, mas não enxergavam, atiravam mais não enxergavam. E ai pra dizer, só se feriu uns 20 dos negros (vindos do Aproaga e do Taperuçu). Eles acabaram com os 110 soldados. E os oficiais e a lancha quando ouviu muito tiroteio, conheceu que a força policial era inútil.
O oficial disse: _ João larga a lancha. Vamos embora.
E aí mataram tudo, aqueles que ficavam vivos corriam, se metiam no buraco assim da terra.
Aí eles traziam os cachorros pra tirar os soldados do buraco e matavam [...]”, (entrevista aberta, novembro de 2009).
Foto 37: Velho Trindade, (Tio Tinda), descendente de João da Luz, sentado ao lado da esposa D.