3. Round tables
3.8 Climate Finance for Africa
Recorrendo novamente ao Dicionário de termos históricos, Silva e Silva (2005, p. 202-205) apresentam o verbete identidade, afirmando que, ainda que antiga, esta noção tornou-se uma das mais importantes de nossa época e tem sido trabalhada por várias áreas de conhecimento, sobretudo pelas Ciências Humanas e Sociais, incluindo-se, evidentemente, a Historiografia. A interdisciplinaridade, aliada aos Estudos Culturais, por exemplo, tem permitido refletir sobre identidade(s) ligando-a(s) a questões de memória e de representação social e cultural. Ademais, ela possibilita discutir temas complexos, tais como hierarquia cultural, raça, etnia e nação, sob o ponto de vista da produção, da indústria e da cultura popular, além do colonialismo e do pós-colonialismo. Silva e Silva (2005, p. 204) trazem para o verbete identidade a perspectiva de que ela é uma construção relacional, ou seja,
[...] para existir, ela [a identidade] depende de algo fora dela, que é outra identidade. Além disso, precisamos considerar que toda identidade é uma construção histórica: ela não existe sozinha, nem de forma absoluta, e é sempre construída com outras identidades, pois sempre nos identificamos com o que somos para nos distinguir de outras pessoas.
Este fragmento do verbete exemplifica a forma como vemos a questão das identidades na narrativa de Plutarco. Ser grego, romano, greco-romano ou egípcio no Império Romano é, evidentemente, uma questão de imagem identitária, visto ser uma construção histórica que se baseia na alteridade, no outro, nas distinções cambiantes (e semelhanças também cambiantes) entre as culturas naquele espaço-tempo.
Frequentemente utilizado pela historiografia (sobretudo na subárea História Cultural) na atualidade, o complexo conceito de identidade se mostra intrinsecamente
103 “[...] we need to rethink our understanding of indigenous societies in contact with Rome. They were neither passive victims, nor enthusiastic participants, nor entirely free agents in these relations.”
atrelado ao também complexo conceito de representação. Isso porque uma identidade é, de uma certa forma, uma (re)construção representacional de algo ou de alguém, ou seja, uma, representação pode adquirir status de posição ou função social. Como vermos ao longo desta dissertação, as representações do passado sobre o qual nos debruçamos chegam até nós prioritariamente sob a forma de linguagem, de texto e de discursos. Assim, na obra de Plutarco, Antônio representa (um poder de) Roma, Otávio/Augusto representa o Império Romano e Cleópatra representa os Lágidas, o Oriente, dentre várias outras representações. Para os egípcios da Antiguidade, a rainha representa o poder supremo/divino (Ísis). Já para os romanos, nesse mesmo período, Cleópatra representa um Oriente exótico e perigoso. Para Plutarco Otávio/Augusto representa um modelo de retidão moral. Uma das perguntas motivadoras desta pesquisa é: “Como Plutarco representa a identidade de Cleópatra e do Oriente”? Vê-se, desses exemplos, a proximidade entre representação e imagem identitária (ethos).
Mesmo em se tratando de dois conceitos abstratos, vê-se que representação e identidade são conceitos convergentes, imbricados em vários (con)textos. Ademais, muitas vezes, um é tomado pelo outro, como no nosso caso. Ambos podem trazer consigo a conotação de retratar, de colocar no lugar de (como em uma metáfora ou uma metonímia, por exemplo). Nesse sentido, representação designa aquilo ou aquele por meio do qual se conhece algo, alguém, algum lugar. A imagem representa aquilo de que é imagem. Por isso, talvez, não causa estranhamento o fato de se dizer que Alexandria é uma metáfora/metonímia de Cleópatra ou que a rainha do Egito é uma metáfora/metonímia do Oriente, para Plutarco. Em todos esses exemplos, estamos falando de representação no sentido de ideia, de imagem identitária. Dos usos e sentidos de representação, na convergência com o conceito de identidade, tem-se que representar, na perspectiva das encenações sociais, é produzir imagens abstratas de algo, de alguém ou de algum espaço no imaginário social, mais particularmente no nível do discurso/texto, já que o “real”, sobretudo o de um passado longínquo, só nos é acessível nesse nível e enquanto possibilidade.
Representar pode trazer em seu bojo semântico o sentido de figurar, delinear algo ou alguém (individual ou coletivamente). Nesse caso, fica o entendimento de que a representação opera uma espécie de substituição, de preenchimento de um vazio, de uma lacuna. Aliás, o próprio signo linguístico representa algo que está além dele, já dizia Ferdinand Saussure (2002), no jogo arbitrário entre significados e significantes. Ademais, conforme assevera Carlo Ginzburg (2001, p. 85), percebe-se um jogo de
ausência/presença na representação, que pode “estar no lugar de”... uma realidade representada, destacando a ausência daquilo que é representado, como também pode fazer-se visível mimeticamente, sugerindo a presença daquilo que é representado na e pela linguagem, que (re)constrói (enquanto representação) o real e até mesmo o próprio sujeito, “sujeito de linguagem”.
Em uma linha de pensamento convergente com a de Ginzburg, Roger Chartier (1990, p. 19) percebe que é função de uma história cultural buscar compreender “[...] as representações do mundo social, que o descrevem como pensam que ele é ou como gostariam que ele fosse”. E, voltar-se para o passado, para as práticas sociais/culturais e para seus discursos é valer-se das representações, das imagens e das identidades naquele espaço-tempo para se entender as mentalidades e as sensibilidades (com mais representações), exatamente como buscamos fazer nesta dissertação.
O conceito de representação, faz, assim, orbitar em torno dele, uma série de vocábulos, de noções e de conceitos tais como real e realidade, verdade e ficcionalidade, identidade e alteridade, interpretação e atuação, ideia e juízo, universo simbólico e sentido, linguagem e figura de linguagem, texto e discurso, saber de crença e estereótipo, metáfora e metonímia, reflexão e espelhamento, História e Ficção. Desse conjunto fica a certeza de que representação, assim como imagem identitária fazem partem das atividades humanas, construções subjetivas marcadamente ideológicas. Como disse Dominique Santos (2011, p. 40), “[...] devemos, assim, superar a ilusão de que é possível transcender as representações, pois elas não são verdadeiras e nem falsas, elas ocupam o intervalo entre a presença e a ausência.”104 Sendo a representação constituída por dispositivos consensuais de conhecimento cujas pretensões são de estar “no lugar de uma verdade”, ela está intrinsecamente relacionada aos outros conceitos com os quais trabalhamos: imperialismo, orientalismo, romanização e identidade; todos eles entendidos como co-construções socioculturais e político-ideológicas.
Said (2007, p. 31) alerta que as representações não refletem algo dado ou “real”, pronto para ser examinado por análises ou teorias, mas sim um produto criado pelos homens e por condições históricas específicas que engendram um pensamento, um imaginário e uma presença que marcam as relações de poder. O autor critica o imobilismo
104 Para maiores informações sobre a complexa discussão a respeito de representação, além de Dominique Santos (2011), cf. Roger Chartier (2002); Ciro Flamarion Cardoso (2000); Marcos Alexandre Capellari (2004; 2006); Antônio Cândido Mendes (2003); Maria Helena Capelato et al ((2000); Denise Jodelet (2001); Henri Lefebvre (2006); Serge Moscovici (2003); Hanna Fenichel Pitkin (1967; 2006).
subjacente às noções de representação e identidade, núcleo do pensamento cultural imperialista, que divide o mundo entre o “nós” e o “eles”. O autor lembra que isso não é uma prerrogativa apenas dos colonizadores; há colonizados que também se valem do mesmo raciocínio/visão. O estudioso chama a atenção para o respeito às diversidades, à variedade concreta da realidade e a consequente desqualificação das unidades identitárias, falsas suposições epistemológicas e mesmo ontológicas, a exemplo das que se aglutinam na oposição Oriente vs Ocidente.
O entendimento de identidade deve estar vinculado ao de variedade e complexidade dos elementos que a constituem, enfim, a todas as culturas que estão mutuamente imbricadas, já que nenhuma delas é pura e única, são todas elas resultados de trocas, de interdependências, ou seja, são híbridas, fluidas, heterogêneas, diferentes e diferenciadas. Nesse sentido, é preciso combater as totalizações, os reducionismos, enfim, os essencialismos, e lutar em favor de um posicionamento crítico diante do imperialismo cultural. Vemos como importante, por um lado, buscar, na narrativa de Plutarco, as ideias (preconcebidas), os (fortes) componentes culturais imperiais propagandísticos presentes, entranhados em sua narrativa e, por outro, dar voz aos subjugados, olhar sob o ponto de vista do dominado, no caso, Cleópatra e o egípcios.
Por ser um assunto crucial e bastante complexo, decidimos tratar separadamente neste capítulo de alguns aspectos teóricos mais específicos a respeito da noção de identidade, ainda que a temática percorra, direta ou indiretamente, toda a dissertação, abrangendo os personagens selecionados por nós nesta investigação. Lidamos com questões que envolvem várias modalidades ou nuanças de identidade, tais como, representação identitária, imagem de si, ethos, identidade individual, de Plutarco, de Cleópatra, de Antônio, identidade coletiva, social dos romanos, dos gregos, dos egípcios, dos greco-romanos, dos “bárbaros”, identidade étnica, imperial, cultural, religiosa, colonial, plural, híbrida.
É sabido que o conceito/noção de identidade é fluido, cambiante, sujeito a uma enormidade de variáveis, já que comumente envolve, por exemplo, práticas sociais, políticas, éticas, morais e discursivas. Nesse sentido, a (re)construção das identidades ocorre por meio do encontro tanto de diferenças quanto de semelhanças entre os sujeitos, as comunidades, as culturas e suas representações. As identidades se estruturam recorrentemente no espaço-tempo a partir de uma espécie de opositor dicotômico, a alteridade. Nesse sentido, o eu se constitui a partir do tu e/ou de uma variante gramatical, pronominal (vós, nós, ela, ele, elas, eles, nós e até mesmo de um outro eu). As identidades
são (re)criadas o tempo todo nas relações sociais pelos próprios agentes históricos, em situações contextuais e discursivas específicas (cf. BURKE, 2004). Por essas e outras razões, não é possível afirmar que haja uma identidade homogênea e unificada, não é aceitável dizer que haja uma única identidade romana para abarcar todos aqueles que viveram sob sua égide. Identidade será sempre algo cambiante e plural.
Para Mattingly (2011, p. 208), identidade é uma noção que vem substituir o conceito de romanização:
Para um número crescente de estudiosos, a romanização é um obstáculo para avançar o debate. Aqui, vou delinear uma nova estrutura baseada no reconhecimento do comportamento social e cultural heterogêneo. Identidade é a palavra chave aqui, mas é preciso salientar que isso deve ser entendido como algo relacionado a padrões de comportamento, e não simplesmente para perceber diferenças na cultura material.105
O estudioso critica a historiografia que vê passividade na constituição identitária dos subjugados por Roma no processo imperialista. A identidade se mostra intimamente ligada ao poder, logo, é nesse embate, é na dinâmica de poderes instaurados nas relações, ou melhor, é na mão dupla das relações sociais e culturais, políticas e econômicas entre dominador e dominado que se deve focar os trabalhos que buscam refletir sobre questões relacionadas às representações identitárias. Nesse sentido, identidade(s) é algo fluido, constantemente em vias de mudança, algo maleável e heterogêneo, poroso e permeável, sujeito a adaptações de toda sorte. Vasques (2012, p. 11), resenhando a obra de Mattingly (2011), assevera que
[Para o autor], a identidade deve ser estudada em termos de poder e de cultura. E embora considere a importância do agente ativo nativo na mudança cultural sabe que há limites sobre a habilidade de escolher nossa identidade aos olhos dos outros. Enquanto o processo de conquista e assimilação ao Império Romano promoveu uma delineação profunda das identidades étnicas, vários fatores militaram contra a manutenção disto na longa duração. A identidade étnica dificultava e criava uma barreira para estas sociedades negociarem com Roma.
Diante das diferentes reações dos dominados às ações de Roma, Mattingly (2011) vê as questões identitárias em suas particularidades, em suas diferenças e distinções, ao
105 “For an increasing number of scholars, Romanization is an obstacle to moving debate forward. Here I shall outline a new framework based on the recognition of heterogeneous social and cultural behavior. Identity is the key word here, but it must be stressed that this is to be understood to relate to patterns of behavior, not simply to perceivable differences in material culture alone.”
invés de buscar as semelhanças entre elas. Daí, tem-se o uso em seu texto de termos como “discrepantes”, “discordantes” e “desarmonia” para falar de cultura e de identidade (e não mais de romanização). As identidades no Império Romano mostram-se, segundo os estudos de Mattingly (2011, p. 211), dinâmicas e multifacetadas, discrepantes e discordantes, amalgamadas e amalgamáveis:
Guerras de expansão colonial, portanto, muitas vezes definem e dão nova forma a ambos os lados da equação imperial, juntamente com o Estado, que constrói seu propósito e sua identidade, ambos percebidos à distância e também constrói as diferenças com relação ao “outro” bárbaro, mesmo quando as sociedades indígenas são igualmente organizadas em comparação ao agressor colonial.106
Essa observação enterra, pelo menos em parte, a visão equivocada e perigosa de que os dominados se deixam, passiva e pacificamente, dominar, que suas identidades são “substituídas” pela identidade metropolitana, que esta é melhor e/ou mais eficaz do que aquelas. Mattingly nos mostra, de maneira elucidativa, que, nas relações entre culturas, uma não se sobrepõe “natural e pacificamente” à(s) outra(s). As identidades passam por processos de diversidades e trocas culturais, (con)formam-se nos embates cotidianos, nas relações corriqueiras do dia-a-dia, apesar, muitas vezes, dos esforços imperialistas em querer fazer diferente.
Para Revell, a identidade de qualquer pessoa é um misto de tensão entre o individual e o coletivo, com muitas possibilidades de variação em sua composição sempre fluida e transitória. Nesse sentido, nenhum cidadão, nenhum sujeito acumula o mesmo conjunto de experiências, ainda que todo esse conjunto seja internalizado pelos discursos socialmente partilhados. Identidade é, então, muito mais um leque de possibilidades do que um conjunto fixo de dados, como pode se supor no conceito de romanização. O conceito de romanização não pode e não deve trazer consigo o entendimento de identidade como algo homogêneo e fixo, tendo em vista o grupo de elementos composicionais de que falamos acima.
Ainda segundo a autora, não havia uma única identidade romana no Império, mas sim um discurso de romanização dentro do qual havia uma multiplicidade de experiências possíveis. E esse discurso não esteve enraizado em uma única estrutura social e tampouco
106 “Wars of colonial expansion thus often give definition and new shape to both sides of the imperial equation, with the state building its sense of purpose and identity on its perceived distance and difference from the barbarian "other" while indigenous societies are equally reordered in opposition to the colonial aggressor.”
expressou uma cultura única e monolítica. O imperialismo romano era multifacetado e seu poder esteve localizado dentro de numerosas formas de ideologia e múltiplas situações que, apesar de independentes, estavam entrelaçadas, formando uma rede complexa. Na vida cotidiana dos subjugados pelo Império Romano, as pessoas compartilhavam estruturas políticas, econômicas, sociais, espaços nos quais elas construíam e partilhavam, consciente ou inconscientemente, mensagens, representações, enfim, imagens de si mesmas e dos outros, suas posições dentro da estrutura social cambiante, das hierarquias e como elas queriam ser vistas pelas outras pessoas.
Mendes (2009, p. 88) define identidade sob o ponto de vista tanto da História Política quanto da História Cultural, como “[...] um conjunto composto de mitos, memórias, valores e símbolos que norteiam as práticas sociais e resultam em processos de identificação”, cuja construção “[...] apresenta uma dinâmica relacional, pois é construída por meio da diferença, e é a criação de um termo específico, histórico, sendo passível de mudança”. Além disso, ainda no entendimento de Mendes (2009, p. 88),
[...] o político é visto como uma das expressões da identidade coletiva, marcado por sistemas de representação que sustentam as identidades e envolvem a criação de sistemas classificatórios, responsáveis pela demarcação de fronteiras entre o ‘nós’ e o ‘eles’.
Complementando, de certa forma, o que diz Mendes (2009), Guarinello (2009, p. 147) é de opinião de que identidade “[...] é uma das questões mais centrais e urgentes das ciências humanas em nossos dias [...] vivemos num mundo que tomou consciência do caráter precário e mutante das identidades sociais”. Segundo o autor, essa tomada de consciência tem dois aspectos: i) não é mais aceitável, nos dias de hoje, momento de vigilância social constante contra o racismo, o antissemitismo, o machismo e a misoginia, por exemplo, falar em identidades naturais (apesar dos recrudescimentos conservadores contemporâneos que temos notado) baseadas em raça, etnia, nacionalidade e gênero; ii) nunca se falou tanto como na atualidade a respeito dessas questões, o que traz à tona a temática das identidades. As várias áreas de conhecimento, assim como as redes sociais, têm mostrado o quão essencial é debater sobre identidades para que, por um lado, as pessoas possam melhor (se) identificar, (se) posicionar e atuar, individual e coletivamente, no mundo; e, por outro, desconstruir/destruir antigos mitos (do passado e do presente) de supremacia, qualquer que seja ela. Assistimos, hoje, ao complexo
multifacetamento identitário, ao multiculturalismo e às lutas as mais variadas pelos direitos e respeito às diferenças.
Evidentemente, quando Guarinello fala de identidades sociais, sabemos que ela impacta, direta e indiretamente, nas identidades pessoais/individuais, visto que uma sustenta a outra, uma está embutida na outra. A partir do que diz Guarinello (2009), sentimo-nos concernidos e impelidos a buscar nas discussões identitárias, sobretudo nas acadêmicas, científicas/teóricas, parâmetros que nos sirvam de base de pesquisa para pensarmos justamente a maneira como Plutarco trata dessa questão. Os romanos, com suas ações “imperialistas”, com seus processos expansionistas de “romanização”, com suas percepções “orientalistas” do Egito e de Cleópatra, proporcionam, a Plutarco e a nós, uma rica, profícua e peculiar oportunidade de discutir identidades e representações. No entanto, se para Plutarco essa discussão (lhe) servia para referendar, de forma opositiva, a supremacia da cultura greco-romana, para nós, ela serve para refutar esse entendimento e propor uma interpretação outra, pautada em trocas culturais e nos princípios da heterogeneidade, da multiplicidade, das particularidades e das especificidades identitárias sem escalas dicotômicas de valoração.
A definição de Mendes (1999) e a reflexão de Guarinello (2009) sobre identidades se alinham, assim, ao nosso trabalho investigativo. A partir do entendimento deles e de todos os demais autores escolhidos por nós que trabalham com o conceito de identidade, tentamos responder, ao longo desta dissertação, questões tais como: qual a identidade de Cleópatra e do Egito forjada por Plutarco? Como se estruturam essas identidades em sua narrativa? Que elementos ele utilizou para compor suas representações? Com qual objetivo? Para quem? Que identidades de Plutarco são delineadas em sua própria narrativa? O que é ser romano, grego e egípcio na narrativa plutarquiana? Que modelos, ou melhor, que elementos constitutivos convergem e divergem para essas (con)formações identitárias? Evidentemente, as respostas a essas questões devem ser retiradas da materialidade textual e discursiva das fontes e das referências bibliográficas selecionadas. Parte da obra de Bhabha nos auxilia neste capítulo teórico, haja vista a amplitude e a pertinência de seu pensamento que coadunam com os posicionamentos críticos assumidos nesta pesquisa. Sem querer dar conta de toda a complexidade de sua obra, trazemos para explanação somente alguns pontos mais convergentes com as discussões sobre o conceito de identidade. Bhabha propõe uma discussão sobre como ocorre a construção dos discursos de poder que supostamente garantem a dominação e a superioridade de uma cultura sobre outra. Seguindo (e citando) os ensinamentos de Said,
Bhabha conta em comum, não só com ele, mas também com uma série de outros intelectuais, tais como Hall, Shohat, Franz Fanon e Aimé Césaire, o fato de pertencerem a culturas, nações subjugadas, de viverem/terem vivido, trabalhado, pesquisado em/para/sobre países imperialistas, colonizadores. São intelectuais que refletem/refletiram sobre os sentimentos identitários. Por essa razão, não surpreende que as fronteiras, as diásporas e as identidades constituam as principais inspirações e os eixos articuladores de seus trabalhos acadêmicos. Trata-se de discutir como as representações dessas situações podem ser discursivamente (des)construídas.
O que parece sustentar os textos e os discursos como os de Bhabha é a necessidade de se designar um lugar simbólico (legítimo e legível) de onde se possa falar sobre as condições de dominado. Nesse sentido, o discurso de Bhabha se mostra como um contradiscurso pertencente àqueles que foram subjugados, discurso elaborado no exílio, ou seja, na Metrópole e contra ela. Autores como Bhabha e Said são, em certo sentido e contraditoriamente, periféricos e não-periféricos, ao mesmo tempo. Eles pesquisam, falam de um “entre-lugar” (“entre-meio”, “entre-tempo”), numa espécie de zona