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Partie I Contexte de travail 9

3.6 Combinaison de plusieurs mesures de confiance

3.6.3 Classificateurs

Outubro de 1998

(Devido a problemas com a gravação, apenas parte dos diálogos foram recuperados e transcritos. As restantes partes foram reconstituídas através das anotações da investigadora no momento e no fim do encontro)

P - Num trabalho que visa uma aceitação activa da diversidade cultural, como o que foi proposto, que tipo de situações consideram que devem ser registadas?...

G - Eu penso que deveríamos privilegiar a linguagem. Por exemplo os textos, redacções, a linguagem que usam uns com os outros... Não sei...

C - Eu ainda não entendi muito bem... o que vamos fazer. Porque me sinto em branco. Nunca gostei de partir do "zero" para o que quer que seja. Depois, estou muito ocupada com o meu grupo. Com o que eles têm de aprender... Porque depois, para o ano, quando eles forem para a escola "X" [do segundo ciclo] eles têm de saber... os conteúdos mesmo.

É complicado. Não consigo estar disponível para me colocar numa situação de observador e observar e registar - na hora - as relações entre os alunos. Tenho de estar a trabalhar com eles...

P - Sim, mas também podem ajudar-se mutuamente... aliás o que se pretende é que este trabalho seja desenvolvido em equipa.

C - Pois, eu no recreio até posso...

O que mais se nota aqui são diferenças sócio-económicas...

A - Eu, por acaso, quando saímos da outra reunião fiquei com a impressão que o que devíamos registar, eram as situações relativas a etnias... Nós aqui até já tivemos... Agora o que temos é mais... religiões diversas e diferenças socio-económicas e culturais. Podemos analisar casos concretos de algumas crianças... Agora, por esta conversa, parece-me que podemos registar estas...

L - Eu penso que se pode registar tudo. Dentro da sala e também fora.

Ontem, por exemplo, fomos visitar o centro infantil e juvenil de Campanhã. Fomos recebidos com música clássica, num ambiente (XXXX). Fizemos a nossa apresentação aos outros meninos e eles fizeram a sua. Tudo num ambiente muito acolhedor. Foi tudo filmado. As crianças reagiram muito bem...

C - Mas se calhar para a Luisa é mais fácil porque já está mais por dentro destas coisas [por ter a licenciatura em ciências da educação]. E nós temos de dar contas dos programas, do que os meninos sabem e não sabem.

Olhe, eu já tive fases da minha vida profissional em que tive de "trabalhar para o currículo". Tive num projecto que penso que teve uma primeira fase muito séria e depois acabou com uma grande encenação. Eu, neste momento não estou disposta a despoletar uma situação que não corresponda à realidade, ao meu dia-a-dia

G - E porque não? Tu podes preparar alguma coisa com os alunos e depois ver como eles reagiram... P - Bom, o que se pretende é de facto registar situações do quotidiano. Situações que cada professora/educadora considere significativa relativamente a temática da diversidade cultural. Situações que ocorrem diariamente... e às vezes nem valorizamos porque passam despercebidas.

G - E também se podem registar as relações criança-auxiliares...? A - E relações criança-professor...

P - Sim. Claro. Todas as situações que se relacionem com a vida da escola, dentro ou fora da instituição.

S - Olhe, a diferença que mais se evidencia aqui são as diferenças culturais sobretudo em relação aos da manhã. Nós estamos aqui provisoriamente, até a nossa escola estar pronta e os desta escola têm aulas da parte da manhã. E de facto eles... Têm muitos problemas. Ambientes familiares muito degradados - são aqui do bairro...

C - Mas nós não temos tanto isso... Também temos diferenças socio-económicas... Mas o que é engraçado é que os meninos que vêm de famílias que têm tudo - têm princípios, aprendem a Ter maneiras à mesa, a esperar pela sua vez, etc., à vezes, aqui na escola, com os outros, adoptam os mesmos comportamentos e, às vezes até são os piores. Por exemplo, quando há um aniversário, parece que nunca comeram bolo. Qurem tudo para eles... E às vezes até nem gostam muito... Era interessante estudar isso... Muitas vezes seguem os líderes...

S - tivemos - já não temos - por exemplo o caso dos gémeos que viviam 32 pessoas num apartamento. Aquilo era... até na banheira dormiam. Os miúdos nunca saíam do quarto. Apesar de tudo aquela mãe tentava preservá-los da resto do ambiente...

Eles só faziam disparates, mas eram engraçados e nós tentávamos acarinhá-los. Se calhar até devíamos ter sido mais duras. A escola até uma casa tentou arranjar-lhes, mas, no fim, o pai opôs-se.

Disse que os filhos não eram malucos. E, de facto, não eram.

P - E em que medida esta diversidade cultural - os vários padrões culturais, os vários estilos de vida - "afectam" a vida na vossa escola7

S - Não afecta muito... Há casos de alguns problemas que até são provocados por elementos estranhos. Daqui do bairro..

Há muitos problemas no grupo da manhã. Há muitos pais que estão ausentes quase todo o dia e as crianças são muito carentes.

G - E o caso daquela aluna da Alexandra que foi picada com uma seringa pelo P.

A - Isso aí deve haver muita imaginação pelo meio. A miúda fez análises e a mãe nem cá apareceu mais. Eu é que me interessei pelo caso. Fiquei preocupada...

C - Eu não gosto muito de fazer publicidade destas coisas, mas eu tomo notas sobre as minhas aulas Tenho um caderninho, que é só para mim, onde anoto tudo o que me interessa. Mas é uma coisa que eu acho que não tem interesse para os outros...

Esta semana aconteceu-me um coisa que eu acho interessante. É o caso de uma criança de outra religião. É Jeová. Ela defende-se sempre. Tem aquelas ideias tão... O pai, aliás, até já me deu o livro lá da religião para eu saber o que ele pode ou não pode fazer...

Mas eu estava a dar História e como gosto, desenvolvi mais o tema "A fixação dos cristãos na Península". Ele disse-me: "Ó professora, eu não posso dizer esta palavra, [cristão], É contra a minha religião."

Eu lá lhe disse que aquela palavra que não fazia mal, que não era a religião que estávamos a tratar, que aquilo era História... Estava a mentir-lhe, de certa maneira. Depois senti-me mal com esta minha atitude...

(Todas falam ao mesmo tempo.)

C - Ele está sempre a defender-se. Tem uma atenção a tudo... Nem ao magusto quena vir. Mas eu disse-lhe que aquilo não era uma festa. Que apenas íamos, em conjunto, comer castanhas. E ele gosta de castanhas e lá se convenceu...

P - Este é um óptimo exemplo de uma situação em que uma cultura minoritária face à cultura dominante, que , neste caso é a religião católica... De como é complicado para o professor gerir isto... C - Mas eu tenho de lhe ensinar a História. São factos que realmente aconteceram e ele necessita de os aprender.

P - Devemos é questionar-nos se existe apenas esta versão dos factos. Sena interessante, por exemplo analisar esses factos à luz da perspectiva dos povos muçulmanos...

È que os saberes que a escola transmite não são neutros. Mesmo que subtilmente, têm sempre uma carga ideológica... são atravessados por valores...

E esse tipo de questões que nos interessa analisar.

C - Eu analisei e reflecti... Porque, de facto... os outros colegas até já dizem, quando se combina alguma coisa "O B. não vem. O B. não pode." Já o referem logo...

Eu também concordo que estamos a impor... Por exemplo, às vezes mandamos postais para a mãe ou para o pai, sem pensarmos caso a caso. Alguns não têm ou estão separados ou outra situação. Eu senti muito isso este ano. A minha mãe morreu há uns meses e eu não consegui fazer nada com eles para o dia da mãe...

ANEXO 3