d‘ella, e 10, ou 12 virão bater ao meu portão desafiando os meus escravos
ladinos que são 22 estes promptam.te tão bem prepararão-se e mais a uns
trinta e tantos novos mas possantes e [costeados] a 2 annos.
No interior da minha caza fui informado por um homem branco da proxima tragedia que estava a apparecer em scena forão immediatamente aferrolhados os meos, mandei por 2 brancos saber que pretendião os sitiantes, mandarão ousadamente resposta que querião mostrar aos negros Cariocas
a pimponeza dos negros Paulistas. Redobrarão então os assobios, e assoadas. Destes capoeiras dizem serem os chefes uns 2, ou 3 de barretes vermelhos. He-me desconhecido o motivo d‘esta rivalidade, mas os meos
ladinos me informarão que não é outro mas que o de uns serem do Rio e
outros de São Paulo ao mesmo tempo que todos elles são Africanos. Seja
elle qual for temo no Domingo seguinte a renovação do mesmo acto, que se pode tornar consequente e funesto. A V. Sa. Senhor compete providenciar. Digne-se V. Sa. pois aceitar as cinceras espreções da distincta concideração com que me honro ser de V. Sa. o mais attento venerador e criado = Antonio Joaquim de Macedo = Chacra do Bom Sucesso 5 março de 18317
Ao estudar o documento, em uma pesquisa sobre identidades africanas em São Paulo, Regiane Mattos ressalta que ―além de ser um espaço para o lúdico ou para a resistência contra o sistema escravista‖, a capoeira seria ―um espaço para disputa de poder entre os próprios africanos‖.8 Nessa mesma linha de entendimento e analisando o
6 MARINS, Paulo César Garcez. Através da rótula: sociedade e arquitetura urbana no Brasil, séculos XVII-XX. São Paulo, 1999. Tese (Doutorado em História) - USP, p. 170.
7 AESP. Ofícios Diversos da Capital (1831), Caixa 72, Ordem 867, Pasta 1, Doc. 98A. (Grifo nosso).
8 MATTOS, Regiane Augusto de. De cassange, mina, benguela a gentio da Guiné. Grupos étnicos e formação de identidades africanas na cidade de São Paulo (1800-1850). São Paulo, 2006. Dissertação
documento, Enidelce Bertin argumenta ser esta uma nova referência para se entender as divisões e hierarquias existentes entre os escravos, diferente daquelas direcionadas por questões étnicas ou pelo nível de ladinização, permitindo sugerir um elemento a mais de identificação entre os cativos: a distinção entre paulistas e cariocas. Para esta historiadora, o caso remete ainda à questão da primazia, que teria importância relevante no sistema de valores africanos, supondo que ―talvez os desafiantes considerassem que tinham primazia sobre a cidade, ou sobre as práticas culturais nela exercida, e que, por isso, tenham decidido ameaçar e mostrar aos cariocas a ‗pimponeza‘ dos paulistas‖.9
Esta forma de associação de africanos em terras paulistas, ou seja, grupos de capoeira separados entre homens oriundos do Rio de Janeiro e outros de São Paulo, poderia ser lida como um reflexo dos embates políticos entre as duas regiões no período. Estudos recentes têm mostrado que as identidades políticas coletivas existentes em diferentes regiões do Brasil, durante a construção de um Estado independente, defendiam projetos nacionais distintos, e aquele levado a cabo, oriundo da corte, passou após muitas negociações.10 Se é preciso levar em conta essa possibilidade, de que africanos escravizados, ao perceberem uma disputa macropolítica em curso que tinha como grandes protagonistas exatamente as elites carioca e paulista, projetaram-na em sua micropolítica cotidiana, preferimos pensar em outras suposições. Até porque elementos percebidos no caso da chácara no Brás insinuam uma demanda mais própria da realidade de africanos escravizados, tornando-se mais interessante compreender tal divisão pelo prisma de Joseph Miller, segundo o qual era ―através das novas conexões que eles (africanos) construíram para sobreviver, para serem reconhecidos, para tornarem-se visíveis uns aos outros em meio ao anonimato despedaçador da escravidão na qual eles viveram‖.11
Não conseguimos localizar o inventário da chácara Bom Sucesso, do padre Antonio Joaquim de Macedo, que poderia ajudar a esclarecer a divisão apontada no
(Mestrado em História) - USP, p 182. Agradeço a Maria Cristina Wissenbach por me indicar o referido documento e este estudo que trata do mesmo.
9 BERTIN, Enidelce. Os meia-cara. Africanos livres em São Paulo no século XIX. São Paulo, 2006. Tese (Doutorado em História) - USP, p. 116.
10 JANCSÓ, István; PIMENTA, João Paulo Garrido. ―Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira)‖. In: MOTA, Carlos Guilherme (org.). Viagem incompleta: a experiência brasileira (1500-2000). Formação: histórias. 2ª ed. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2000, p. 127-175.
documento citado, sobre a origem dos escravos pertencentes ao clérigo. Não obstante, há outras fontes que podem contribuir para o melhor entendimento do ocorrido. Ao citar o ofício, Mattos lembrou que o fato teria ocorrido em um espaço intermediário entre as fazendas e a capital, em uma chácara, mostrando que a prática pode ter se espalhado para fora do meio urbano. Nesse sentido, vale ressaltar que a Freguesia do Brás, na época, era cercada por várzeas e campos, que também poderiam ser denominados capoeiras, como pode ser observado em uma imagem da cidade de São Paulo vista a partir do Brás, feita por Thomas Ender.12
Figura 7. Desenho de Thomas Ender mostra área de vegetação rasteira que separa o
centro do Brás.
A imagem de uma ampla planície pouco habitada fixada pelo artista também aparece nos relatos de outros viajantes. Saint-Hilaire, em sua passagem pela região em 1822, salientou a existência de brejos na margem do Rio Tamanduateí, chamado pelos paulistas de várzea.13 Já Kidder, que por lá esteve em 1837, durante uma excursão à Penha, descreveu um caminho com flores nas beiradas e de campos onde proliferavam espécimes botânicos raros.14
12 SPIX, J. B. von e MARTIUS, C. F. P. von. Viagem pelo Brasil (1817-1820). 2ª edição. São Paulo: Ed. Melhoramentos, Tomo I, s/d. Na imagem, aparece ao centro o Mosteiro de São Bento (Figura 7).
13 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem à província de São Paulo e resumos das viagens ao Brasil, província Cisplatina e Missões do Paraguay. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1972, p. 147-160.
14 KIDDER, Daniel P. Reminiscências de viagens e permanências nas províncias do Sul do Brasil. Belo Horizonte: Livraria Itatiaia, Edusp, 1980, p. 228.
Conforme explica Caio Prado Júnior, o desenvolvimento de São Paulo e a estrutura do seu plano fundamental deriva de sua ―topografia irregular‖. Diz ele que ―a cidade nasceu justamente do promontório que forma a várzea do Tamanduateí de um lado, e o Vale do Anhangabaú do outro, dominando aí a planície extensa formada por aquela várzea e a do Tietê, no ponto em que confluem‖.15
E completa:
São Paulo compõe-se hoje de um núcleo central que ocupa o maciço cercado pelas várzeas do Tietê, do Tamanduateí e do Pinheiros; e de uma auréola de bairros que se instalaram numa parte destas várzeas, e, transpondo-as, vão alargar-se pelas elevações da outra margem. Bairros que nasceram, em sua grande maioria, ao acaso, sem plano de conjunto.16
À descrição acima, enquadra-se perfeitamente o Brás, local do desafio de 1831.17 Sobre as preocupações e benefícios dos primeiros habitantes dessa região, Maria Celestina Torres comenta, com base nos termos das cartas de datas, que ―com as chácaras, hortas e pomares, onde, obrigatoriamente, seus proprietários deveriam não apenas aplainar, cultivar e construir, mas também destruir os formigueiros, a antiga paragem do Brás torna-se parada obrigatória para os que se dirigem à freguesia de Nossa Senhora da Penha, a ponto de haver aí, também, ‗as milícias da freguesia do Senhor Bom Jesus‘ e de se preocupar a Câmara com a ponte preta do aterrado do Bom Jesus‖.18
Ainda segundo Torres, as terras da Freguesia do Brás logo se tornaram motivo de disputas, pois além de servirem de rota de chegada e partida para a corte imperial, pela Estrada Geral (atual Avenida Rangel Pestana), eram também ponto de uma das mais importantes procissões, entre a Igreja da Sé e a Nossa Senhora da Penha de França. Estas informações justificam o grande número de clérigos que, assim como o proprietário da Chácara Bom Sucesso, ocuparam as terras devolutas da região nos primeiros anos do século XIX: reverendos João José Vieira Ramalho (1822) e Joaquim
15 PRADO JR, Caio. Evolução política do Brasil e outros estudos. São Paulo: Brasiliense, 1971. p. 125.
16 PRADO JR, Caio. Evolução política..., p. 125
17 Ao que parece, a mais antiga referência ao Brás está nas Atas da Câmara Municipal de São Paulo, no termo de vereança de 4 de março de 1769, quando ―se despacharam várias petições que concorreram das partes, e na mesma se passou um mandado dos moradores do Pari fazerem as pontes que ficam entre o caminho de José Brás até a chácara do Nicolau‖. José Brás teria construído a Capela de Bom Jesus dos Matozinhos, reedificada por volta de 1803 pelo tenente-coronel José Corrêa de Moraes, e, em 8 de junho de 1818, foi criada a Freguesia e declarada matriz a capela. Cf. TORRES, Maria Celestina Teixeira Mendes. O bairro do Brás. São Paulo: Departamento de Cultura da Prefeitura, 1985, p. 43 e 44.
de Araújo (em 1829), o reverendo padre mestre de cerimônias da Sé, José de Freitas Saldanha (1823), e os padres José Joaquim de Toledo e Antonio José Correia.
Apesar dessa demanda, a freguesia permaneceu por muito tempo com uma característica rural, tendo sua principal via, acesso à Penha e, de lá, para o Rio de Janeiro, com um chão desnivelado e coberto de vegetação rasteira, servindo de pouso para tropeiros, como aparece na fotografia de Militão, de 1862.19
Figura 8. Fotografia de Militão, feita em 1862, mostra o Brás com um ambiente que
ainda mistura traços de rural e urbano.
Se não temos informações específicas sobre a função da chácara na qual se deu o desafio dos capoeiras, uma análise do habitantes da freguesia do Brás serve de base para algumas suposições. O recenseamento realizado por Daniel Pedro Müller, em 1836, registrou, para toda a cidade de São Paulo, 4.068 fogos, compreendendo 21.933 habitantes. Na freguesia do Brás, viviam 659 pessoas, sendo 328 brancos, 156 pretos, 175 pardos.20 Ao analisar esse último dado, Torres assinala:
A porcentagem de negros e mulatos ultrapassa os 50%, o que é perfeitamente explicável – o bairro do Brás é ainda uma espécie de bairro rural, por suas atividades, com suas chácaras, seus quintais enormes, onde muitos dos terrenos concedidos sem terem, todavia, dimensões típicas de zona rural, nem mesmo a área das primeiras chácaras, são utilizados como ―hortas e pomares,
19 AZEVEDO, Militão Augusto. Acervo do Arquivo do Estado de São Paulo, coleção Militão Augusto de Azevedo (CD), FOTO_034.jpg.
com agricultura miúda‖, possuindo, pois, seus proprietários, alguns trabalhadores escravos para o serviço da pequena lavoura. Os mais abastados proprietários têm, ainda, seus ‗caseiros‘.21
Se levarmos em conta esse recenseamento, podemos inferir que o padre Antônio Joaquim de Macedo tinha como escravos, em sua chácara – somando-se seus 22 ladinos com os mais de 30 novos –, cerca de um terço dos negros residentes na freguesia. Com essa concentração de homens, seus africanos ―cariocas‖ provavelmente produziam bens a serem comercializados na cidade. E, para se impor sobre a escravaria de chácaras vizinhas nos mercados formais e informais de excedentes, poderiam fazer uso de habilidades marciais que eventualmente dominassem, produzindo um efeito negativo nos cativos ―paulistas‖ que viviam em locais próximos ou mesmo no centro.
Ao reconstituir a vida de mulheres pobres, forras e escravas na cidade de São Paulo, ao longo do século XIX, Maria Odila Leite da Silva Dias mostrou a importância das quitandeiras no fornecimento de comida pelas ruas da cidade, principalmente pelas ―contínuas crises de abastecimento, que provocavam carestia e falta de gêneros alimentícios na cidade‖, como as de 1818, 1823, 1826 e 1828.22
Desta forma, afirma a historiadora que, dentro do que ela chama de ―urbanização incipiente‖ de São Paulo, ―os papéis femininos foram definidos por força dos desajustes do próprio sistema colonial; enredados na organização precária do abastecimento de gêneros alimentícios, frequentemente se exacerbavam e entravam em atrito com as autoridades, pois sobreviviam do contrabando‖.23
Aos escravos das chácaras do Brás, fazer alianças com essas quitandeiras, ou mesmo com taverneiros, talvez fosse uma forma mais segura de repassar alimentos furtados de seus donos, construindo assim uma renda própria. Até porque as autoridades locais visavam coibir a ação de ―atravessadores‖, como mostra um ofício de 1826, do almotacel João Nepomuceno de Almeida, ao presidente da província, sobre a crise de alimentos:
21 TORRES, Maria Celestina Teixeira Mendes. O bairro do Brás..., p. 72.
22 DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder..., p.28.
... tenho pesquizado o estado em que se achão as Cozinhas desta Cidade onde unicam.te há toucinho, e nenhum mantim.to para bastecim.to geral e de que se aproveitão os taverneiros e atravessadores p.a exhorbitarem o preço do que possuem vendendo a varejo, e que o comprão ainda antes de entrar na Cid.e como na Freg.a da Penha, e athe mais longe, na da Conceição, Estrada do Jaraguá, de S.ta Anna, e Pinheiros, e outros nas Pontes das m.mas entradas, e m.tos destes nem o vendem aqui...24
Além do suprimento das necessidades alimentares da população citadina, Maria Cristina Cortez Wissenbach cita a importância de regiões mais afastadas do centro urbano, exatamente o espaço das chácaras, no provimento de pedras para construção, artesanato, couro e outros produtos como madeira. ―Para os escravos urbanos, a atividade residual de coleta tinha o sentido complementar... Nas horas vagas, sobretudo à noite, iam em direção aos campos do Bexiga ou de Santana, colher capim ou cortar lenha que, em feixes, traziam à cidade para vender aos moradores‖, esclarece a historiadora, reforçando que, entre escravos de chácaras e sítios, essas atividades, realizadas muitas vezes nos intervalos de suas tarefas, representavam muitas vezes a única possibilidade de obter alguns poucos vinténs, que, ao final de anos, poderiam render-lhes uma alforria.25
Dentro desse contexto, a disputa entre cativos africanos cariocas e paulistas também pode ser reflexo do tráfico interprovincial que cresceu na época, em razão da proibição de se trazer escravos da África. Homens ladinizados em outras regiões, ao chegar em São Paulo, buscavam ganhar espaço, incomodando os paulistas.
Se a coleta de produtos já era uma tarefa difícil para os escravos, levá-los ao centro urbano poderia ser algo ainda mais perigoso, em razão do percurso. Torres destaca a predominância de ―capoeiras e matagais ao longo da estrada geral que ligava o centro propriamente urbano de São Paulo à longínqua Penha, caminho do Rio de Janeiro‖.26
Essa imagem de um trajeto inabitado pode ser apreendida em uma fotografia, feita anos depois do confronto entre paulistas e cariocas no Brás, já em 1862, por Militão Augusto de Azevedo, que mostra o caminho para a freguesia, pela várzea do
24 AESP. Ofícios Diversos da Capital (1826-1827). Caixa 70, Ordem 865, Pasta 1, Documento 1. Conforme Documento 66, datado de 16 de setembro do mesmo ano, a solução seria reforçar o policiamento nas entradas da cidade.
25 WISSENBACH, Maria Cristina Cortez. Sonhos africanos, vivências ladinas: escravos e forros em São Paulo (1850-1880). São Paulo: Hucitec, 2009, p.134.
Carmo,27 uma ladeira de pedras desniveladas que seguia por um caminho de chão batido, sem casas próximas e por um terreno alagadiço que, conforme Torres, mais separava do que unia o Brás e a cidade.28
Figura 9. Em outra fotografia de Militão, também de 1862, pode-se ver a ladeira do Carmo
que levava ao Brás.
A visão de um percurso longo e descampado é reforçada ainda por uma planta da cidade de São Paulo traçada por C. A. Bresser, engenheiro alemão estabelecido em São Paulo e proprietário de uma chácara no Brás. O mapa revela o bairro ainda bastante despovoado, com grandes vazios, mas diretamente articulado com o centro urbano: no caminho da Penha, atravessando as três pontes sobre o Tamanduateí – do Cano, do Meio e do Irmão – apenas algumas casas do lado esquerdo da estrada, principalmente em torno da Igreja do Senhor Bom Jesus do Matozinho; mais para o interior, a chácara do Bispo, ocupando área bastante ampla; nas proximidades do caminho da Moóca, à direita, a chácara do vigário do Brás.29
27 AZEVEDO, Militão Augusto. Acervo do Arquivo do Estado de São Paulo, coleção Militão Augusto de Azevedo (CD), FOTO_044.jpg.
28 TORRES, Maria Celestina Teixeira Mendes. O bairro do Brás..., p. 76.
29 BRESSER, C. A. ―Mapa da cidade de São Paulo‖, s. d. Detalhe. Apud TORRES, Maria Celestina Teixeira Mendes. O bairro do Brás..., p. 45.
Figura 10. O mapa feito por Bresser em meados do século XIX mostra o caminho entre o Brás e o centro.
Assim, é possível que, após encerrarem as tarefas diárias, os cativos da chácara do padre Antonio Joaquim de Macedo precisassem superar as vicissitudes do trajeto até o centro comercial, incluindo possíveis disputas com rivais em condições iguais, o que tornaria a formação de grupos com habilidades marciais quase que uma necessidade. Vale levantar ainda outra possibilidade pela análise espacial. Localizada no caminho entre São Paulo e a corte, a chácara poderia ser uma base para escravos tropeiros, que vinham do Rio de Janeiro para trocar produtos e depois retornavam. Nessas vindas, eles poderiam aproveitar as horas de descanso para realizarem incursões na cidade e, lá, inevitavelmente se encontrariam com cativos locais, abrindo brecha para conflitos.
Independentemente da função da chácara de Antonio Joaquim de Macedo e de seus cativos ―cariocas‖, devemos atentar para o fato de que os africanos escravizados de São Paulo procuraram se impor de uma maneira bastante peculiar. Como sugeriu Miller:
...o aspecto mais africano das lutas dos africanos por identidade sob a escravidão era, portanto, a adaptabilidade com a qual eles re-sintonizaram ecos específicos de seus passados pessoais para repercutir coletivamente nas circunstâncias inovadoras que encontraram nas Américas.30
Da mesma forma que os ―africanos cariocas‖ deveriam usar reminiscências de suas terras de origem para criar estratégias de domínio espacial, ―africanos paulistas‖ de chácaras vizinhas ou mesmo do centro da cidade responderiam sobre o mesmo substrato, o que justificaria a intenção dos cativos que cercaram a chácara Bom Sucesso em ―mostrar aos negros cariocas a pimponeza dos negros paulistas‖. A opção por esta palavra ―pimponeza‖ indica que essa disputa não visava apenas vantagens comerciais, nem se limitava a atos violentos. Subentendia também o predomínio sobre atividades culturais, momentos de diversão em grupo.31 O desafio, assim, fazia parte de um jogo de demonstração de valentia, que, assim como no Rio de Janeiro, trazia rituais e símbolos próprios, em São Paulo, ―ecos específicos‖, nas palavras de Miller.
Dentre outros ―ecos específicos‖ de um passado africano, identificáveis no caso narrado pelo padre, podem estar os ―barretes vermelhos‖, usados pelos líderes do grupo de escravos paulistas que cercou a chácara de Antônio Joaquim de Macedo. O uso de barretes, chapéus e fitas de cor, em especial nos tons vermelho, amarelo e branco, entre capoeiras, no Rio de Janeiro, tem registro desde a primeira década do século XIX. Conforme Soares, estes ornamentos eram ―geralmente exibidos como sinal de distinção de determinados grupos‖,32
servindo ainda para marcar domínio de uma determinada área. Citando um trabalho antropológico sobre rituais do baixo Zaire, o pesquisador da capoeira carioca enfatizou o papel do vermelho como sinal de poder patriarcal, de chefia, nessa região.33 Para ele, no Rio de Janeiro da primeira metade dos oitocentos, ―tudo indica que o barrete vermelho e as fitas eram símbolos exclusivos de algumas etnias, enquanto outros africanos, como os da África Ocidental, partilhavam diferentes formas de identificação‖.34
Ainda sobre o uso da cor vermelha entre cativos, em rituais no Sudeste do Brasil, Robert Slenes traz outra referência próxima, de que ―as cores
31 Sobre o termo ―pimponeza‖, o Dicionário Priberam de Língua Portuguesa se refere a ―pimpão‖ como adjetivo de valentão, fanfarrão, ou engalanado, festivo. Disponível em
<<http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=pimp%C3%A30>>. Último acesso em 09/08/2010. Agradeço a Elaine Ribeiro por enfatizar a importância desse dado.
32 SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A capoeira escrava..., p. 80.
33 SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A capoeira escrava..., p. 144