Os artigos agrupados por questões culturais e/ou biológicas abordaram música e linguagem sob a ótica da evolução humana, biológica ou cultural. Foram encon- trados quatro artigos para revisão neste tópico, uma vez que as análises de livros completos sobre este tema não fazem parte da proposta da revisão integrativa.3
Feld e Fox (1994), no artigo intitulado “Music and Language”, afirmam que as tendências para os estudos etnográficos da interpenetração da música e da linguagem contribuem fortemente para a ênfase crescente da antropologia sociocultural na poética e na pragmática do desempenho expressivo. Ao mesmo
2 A teoria da modularidade defende a afirmação de que a mente é formada por vários módulos de processamento de informação, e esses módulos operam de forma relativamente indepen- dente uns dos outros, processando somente um tipo específico de informação (corporal, vi- sual, auditivo, lingüístico [...]). (CANDIOTTO, 2008)
3 Os livros Language, music and the brain: a mysterious relationship (ARBIB, 2013) e The Singing
Neanderthals: the origins of music, language, mind and body (MITHEN, 2005), são sugestões de
tempo, as detalhadas etnografias musico-linguísticas oferecem uma crítica de certas tendências tanto da antropologia sociocultural, quanto da antropologia linguística para uma concepção de voz como texto e uma concepção excessiva- mente discursiva da construção social do significado. Esta crítica traça as con- sequências da distinção fenomenológica da música e da linguagem, levando a uma exploração mais profunda das dimensões polissêmicas, associativas, icô- nicas, apresentáveis, ostensivas, reflexivas, lúdicas, emotivas e encarnadas da sociabilidade.
Brown (2001), em seu artigo “Are music and language homologues?”, argu- menta que a música e a linguagem são funções homólogas que evoluíram de um ancestral comum que incorporou suas características comuns. Ele chama este modelo de musilanguage. De acordo com este modelo, os recursos compar- tilhados/paralelos entre música e linguagem evoluíram antes de suas caracte- rísticas distintas de domínio específico. Estas características paralelas incluem o uso de um conjunto limitado de blocos de construção distintos, combinados de forma organizada, para gerar frases estruturadas, moduladas por expressivos mecanismos de fraseado.
Ao pensar sobre a relação evolutiva entre música e linguagem, Brown (2001) faz uma distinção entre três tipos de características e considera modelos para suas respectivas localizações cerebrais:
1. recursos compartilhados; 2. características paralelas; 3. características distintas.
Os recursos compartilhados são aqueles idênticos entre música e linguagem, e podem incluir processos gerais de vocalização bem como de prosódia, o que ele considera como expressão dos estados emocionais em música ou linguagem. As características paralelas são aquelas análogas, mas não idênticas entre música e linguagem, e podem incluir as características de singularidade, formação de frases e fraseado. Por fim, as características distintas são aquelas que são espe- cíficas de cada domínio e, portanto, não são compartilhadas e nem paralelas. Incluem o uso de ritmos isométricos e as misturas de alturas na música (acordes, por exemplo), e também o uso de palavras e sintaxe propositiva na linguagem.
O autor destaca como esses três tipos de recursos poderiam ser instanciados no cérebro moderno a partir de um sistema bilateral simétrico musilanguage no cérebro hominídeo primitivo:
1. recursos compartilhados são mediados por módulos compartilhados; 2. as características paralelas são mediadas por módulos duplicados e; 3. características distintas são mediadas por diversas áreas neuronais cujos
arranjos não são previsíveis a priori.
Conclui o autor que tal tricotomia global de recursos cognitivos e localiza- ções neurais, embora altamente especulativa, poderia ser útil na elaboração de experimentos de neuroimagem para separar música e linguagem no cérebro. Para Brown (2001), a noção de que música e linguagem são homólogas poderia explicar muito sobre as semelhanças e diferenças entre estas duas formas humanas específicas de comunicação auditiva.
No artigo intitulado “The nature of music from a biological perspective”, Peretz (2006) apresenta argumentos que, embora encontrem fortes reivindi- cações da perspectiva exclusivamente cultural, apontam evidências de que as habilidades musicais dependerão, em parte, dos processos cerebrais especiali- zados que têm sua raiz nas predisposições musicais, fazendo alusão a uma espe- cialização inicial, apresentando assim argumentos contrários a uma perspectiva exclusivamente cultural na música. Ela argumenta que esta perspectiva exclusi- vamente cultural é neurobiologicamente questionável, sugerindo que a música é uma função autônoma, por natureza restrita, e composta por vários módulos que se sobrepõem minimamente com outras funções (como a linguagem). A autora aponta, como exemplo dos processos cerebrais especializados, as ques- tões do comprometimento neurológico da fala (afasia) e da música (amusia), mostrando que um processamento comprometido não afeta o outro direta- mente. Além disso, afirma que a alfabetização é um processo recente na história humana e não é ubíqua, como a música e a linguagem.
Faudree (2012) afirma, em seu artigo “Music, language, and texts: soundand- semiotic ethnography”, que não se trata somente de separar canais expressivos entre linguagem e música, mas que a relação entre elas parte de um complexo semiótico sem costura, chamando a atenção para um quadro analítico, inte- grado, unificado e holístico que toma como unidade mais básica da análise
socialmente situada, um sinal compreendido, seja ele cantado, falado, escrito, executado ou incorporado.
Ele organizou o trabalho em três seções:
1. estudos de cronótopos4 e paisagens sonoras, que exploram processos
que reconfiguram tempo e lugar. Nesta seção, a partir da criação dialé- tica de ordenações complexas de sinais musicais e linguísticos, os signi- ficados vividos por determinadas localidades permitem a identificação social desta comunidade;
2. trabalhos na criação de sujeitos com foco na voz, na emoção, na inter- subjetividade e na escuta. O conceito de voz tem uma multiplicidade semântica, permitindo que várias teorias sejam desenvolvidas, metafo- ricamente ou teoricamente. Neste mesmo artigo, o conceito de que a voz seja o local onde “a antropologia linguística e musical mais impres- sionante conjugam uma prática e política da cultura” (FELD et al., 2005, p. 342) é bem aplicado;
3. estudos sobre as dimensões sociais da criação do objeto, incluindo me- diação tecnológica, autenticação e circulação.
O autor conclui discutindo os rumos futuros na pesquisa sobre linguagem e música e a promessa de que este trabalho promova uma chamada para ampliação do holismo da antropologia, enquanto liberam as práticas que estão centradas no texto.
Apontamentos
Os quatro artigos encontrados corroboram a visão de Patel (2013), que afirma que em termos de evolução, há um longo debate sobre o papel que a música ou a música como vocalizações desempenhou na evolução da linguagem. Citando Darwin (1871), afirma que este propôs que os antepassados humanos cantavam
4 A palavra é um neologismo criado pelo pensador russo Mikhail M. Bakthin para designar a possibilidade de compreensão do contexto por um leitor ou ouvinte de uma obra literária a partir da equação tempo-espaço. (ROCHA, 2009)
antes de falarem, ou seja, eles tinham uma “protolinguagem musical” não signi- ficante que lançou as bases para a evolução da fala articulada.
Seu contemporâneo, Herbert Spencer, discordou e argumentou que a música era uma elaboração cultural dos sons da fala emocional. (SPENCER, [1857]) Spencer ([1857]) prefigurou pensadores como James (1884, 1968) e Pinker (1997), que argumentam que nossa musicalidade é um subproduto de outras habilidades cognitivas e motoras, ao invés de um traço evoluído que foi selecio- nado para a evolução. Este debate ainda está em discussão nos dias atuais.
Patel (2013) afirma que os proponentes da teoria da protolinguagem musical (MITHEN, 2005; FITCH, 2010) atualizaram as ideias de Darwin à luz da moderna pesquisa em antropologia, arqueologia, linguística e ciência cognitiva. Ele cita Fitch (2010, p. 331), pontuando que “a hipótese central dos modelos protolin- guísticos musicais é que (proposicionalmente) a canção sem sentido era uma vez o principal sistema de comunicação dos hominídeos pré-linguistas”. Fitch (2010) ainda propõe que os mecanismos neurais subjacentes à canção foram os precursores dos mecanismos fonológicos na linguagem falada, uma visão que, para Patel (2013, p. 331), prevê “considerável sobreposição entre as habilidades fonológicas e musicais (dentro dos indivíduos) e os mecanismos (entre indiví- duos)”. Fitch (2010) também aponta as relações entre a música e a linguagem no cérebro como evidência importante para a resolução de debates sobre a evo- lução da linguagem.