Esse processo foi analisado com base nos relatos das participantes obtidos nas etapas 2 e 4, levando-se em consideração os seguintes aspectos relativos à tomada de consciência (TC): se ela é periférica (P) ou se tende à centralidade (C); se ela é referente ao êxito (E) ou ao fracasso (F) e se ela é espontânea (T) ou estimulada (P).
9.3.1.1 Tomada de Consciência Periférica e com Tendência à Centralidade
Para Piaget (1977a), a tomada de consciência periférica refere-se exclusivamente à consciência do êxito ou fracasso, necessariamente sem observações sobre a participação ativa do próprio participante no resultado final da ação. Nesse nível, ainda não acontecem regulações, ou seja, ao se relacionar com o objeto, o sujeito não chega a se modificar, a reagir às perturbações, tal como descrito no capítulo dois. A TC periférica é a constatação do alcance ou não dos objetivos propostos. Segundo Piaget (1977a, p. 198) é uma “Reação mais imediata e exterior do sujeito em face do objeto: utilizá-lo em conformidade com o objetivo e anotar o resultado obtido” (Piaget, 1977a:198). Refere-se ao estado e não ao
processo. Não considera a participação dialética do adversário. É a simples constatação do resultado final da ação: êxito ou fracasso.
No caso da tomada de consciência com tendência à centralidade, o referido autor assinala que o sujeito consegue expressar algumas razões do êxito ou fracasso. Trata-se de um processo que tem o objetivo de “[...] alcançar o reconhecimento dos meios empregados, motivos de sua escolha ou de sua modificação durante a experiência [...]” (PIAGET, 1977a, p. 198). As razões do fracasso ou do êxito são analisadas, considerando uma relação dialética com o adversário. Ao contrário da anterior, envolve mecanismos de regulação, permitindo ao sujeito acomodar e construir novos esquemas.
Para a análise desses dois mecanismos da tomada de consciência, elaborou- se níveis evolutivos adaptados para o jogo Quoridor, com base na proposta de Piaget (1977a): I/A, I/B, II/A, II/B, II/C, III, sendo que os dois primeiros se referem à TC periférica e os demais são relativos à TC com tendência à centralidade.
Nível I/A - Apesar de ser o menos evoluído, o participante já consegue perceber o resultado final, e comumente o demonstra com reações diversas, por meio de expressões fisionômicas ou reclamações. É possível supor que uma reação desagradável ou agradável possa gerar um desequilíbrio necessário para que se evolua no processo de tomada de consciência.
Nível I/B - Como no nível anterior, o participante constata apenas o resultado final. Entretanto, menciona necessariamente o papel do adversário no êxito ou fracasso. Relaciona o resultado final com algumas jogadas, mas sem explicar o motivo do êxito ou do fracasso. Parece indicar um início de dialética, mas se ficar apenas nessa análise, não conseguirá entender as razões de seu êxito ou fracasso.
Nível II/A - Os motivos do fracasso ou do êxito são analisados, considerando sempre uma relação dialética com o adversário. Não se trata de uma simples menção ao adversário. Começa a entender o papel dele no resultado final da partida. Ainda assim, nesse nível, o jogador refere-se exclusivamente a uma ação específica, não generalizando, nem formulando uma estratégia geral para o jogo.
Não consegue, ainda, buscar alternativas para agir diferente. É freqüente, nesse nível de tomada de consciência, o sujeito mencionar que sua falta de atenção, preocupações externas ou falta de memória em relação a algumas regras foram responsáveis pelo seu fracasso. Como se trata de analisar o processo, e isso inclui não apenas o sistema do jogo, mas o próprio participante, tal análise também é considerada.
Nível II/B - Mantém as características do nível anterior, mas acrescenta a verbalização de uma estratégia específica para a partida analisada. Não menciona, ainda, uma estratégia geral para o jogo. Atribui seu êxito ou fracasso exclusivamente a uma estratégia que não necessariamente é responsável única ou direta para ganhar o jogo. Por exemplo, percebe que avançar com o peão é fundamental para ganhar o jogo, mas não entende que economizar barreiras, fechar a si próprio em alguns momentos e montar “ciladas” para o adversário também o são. É nesse nível que se torna capaz de formular estratégias para agir diferente de uma próxima vez.
Nível II/C - Mantém as características dos níveis anteriores, mas também consegue verbalizar uma estratégia geral para o jogo como justificativa de seu êxito ou fracasso, demonstrando compreender de maneira mais aprofundada o sistema do jogo. Trata-se de uma estratégia realmente significativa para ganhar o jogo, e costuma ser generalizada para todas as partidas, e não apenas para uma jogada, em uma partida.
Nível III – Esse é o nível mais elevado, pois, segundo Piaget (1977a), o sujeito já consegue realizar uma conceituação sobre a ação, ou seja, é quando ele tem alguma informação prévia e constrói uma teoria com possibilidades de êxito. Assim, primeiro ele teoriza, para só depois testar se o que elaborou realmente leva ao êxito. Está relacionado à abstração refletida.
9.3.1.2 Tomada de Consciência sobre o Êxito e sobre o Fracasso
Piaget (1977a) descreve o processo de tomada de consciência sobre o êxito como sendo a consciência sobre o sucesso da ação. No caso disposto nesta pesquisa, seria vencer uma partida ou sair de um labirinto proposto pelo adversário.
A TC sobre o fracasso refere-se ao fato do sujeito perceber que não conseguiu atingir seus objetivos. Não há relação entre estas percepções (sobre o êxito e o fracasso) com o nível, ou seja, uma TC pode ser periférica ou central, independente de se referir ao êxito ou ao fracasso.
9.3.1.3 Tomada de Consciência Espontânea e Estimulada
Essas duas categorias foram propostas a partir da análise dos relatos obtidos no estudo piloto. A tomada de consciência espontânea é aquela em que o participante reflete sobre suas ações sem nenhuma pergunta ou interferência da pesquisadora. Em alguns casos, até em momentos em que outros assuntos estão sendo abordados, mas que o participante associa espontaneamente com alguma situação de jogo vivida.
A tomada de consciência estimulada, por sua vez, é aquela em que a pesquisadora formula questões para o participante, com base no método clínico, sobre as razões de seu fracasso ou êxito, solicitando uma análise sobre suas ações.