ambiental
DIÁLOGOS ENTRE A TEORIA DA
COMPLEXIDADE E A TEMÁTICA
‘VISÃO E COSMOVISÃO’:
CONSTRUINDO PROPOSTAS DE
INDICADORES PARA ANÁLISE DA
EDUCAÇÃO AMBIENTAL CRÍTICA
Juliana Conde61
Idelvon da Silva Poubel62
Eixo Temático e Tema: Educação Ambiental na construção das sociedades sustentáveis
→ Espaços de Construção de Saberes, Fazeres e Sentires
Palavras-Chave: Complexidade; Visão e Cosmovisão; Educação Ambiental Crítica
Resumo Expandido: A proposta de discussão aqui pretendida parte de reflexões
desenvolvidas por Conde (2016) no que concerne possíveis diálogos da Teoria da Complexidade proposta por Edgar Morin com a temática sobre Visão e Cosmovisão de Carlos Prado, relacionando as duas com a práxis que envolve a Educação Ambiental Crítica. A partir destas reflexões, são apresentadas três propostas de indicadores para análise de práticas de Educação Ambiental, na perspectiva crítica. Diante de vínculos simplistas e reducionistas adotados pela sociedade moderna, principalmente a partir do século XIX, quando o pensamento científico e a fragmentação do saber foram potencializados, Edgar Morin (1997), com sua Teoria da Complexidade, propõe um novo paradigma de religação, reaproximação e reestabelecimento de relações fragilizadas. Pontos antagônicos, muitas vezes podem ser complementares, porém o “olhar viciado” da sociedade moderna não enxerga essa complexidade, essa dinâmica que ocorre a todo tempo. Morin sugere que a compreensão e a construção de uma sociedade realmente sustentável, equilibrada, harmônica e solidária dependem do estabelecimento e da crença na emersão de novos paradigmas. De forma emotiva, Morin diz que “o pensamento complexo tenta religar o que o pensamento disciplinar e compartimentado disjuntou e parcelarizou [...]”, como que quem “pratica o abraço” (MORIN, 1997, p.11). Esta reflexão pode ser relacionada com a crise ambiental mundial, pois é urgente a religação, a solidariedade e a necessidade de trabalhar com o incerto. O autor apresenta tais características como necessidade e, ao mesmo tempo, como desafio da complexidade ao citar que “é preciso aprender a fazer com que as certezas interajam com a incerteza”, sendo preciso “[...] religar o que era considerado como separado” (MORIN, 1997, p. 63). O Pensamento Complexo que Morin nos presenteia pode ser relacionado ao que Carlos Prado, pertencente à etnia boliviana Quechua, nos apresenta com suas reflexões acerca do tema Visão e Cosmovisão. Prado (2015), diz que “um pequeno pedaço do todo, é parte do todo” e relaciona o microcosmos com o macrocosmos a partir
61 Secretaria de Meio Ambiente de Vitória - SEMMAM. E-mail: [email protected]
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o revista brasileira deeducação
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de um princípio de correspondência. A visão e a cosmovisão, em Prado (2015), configuram-se como posições antagônicas, porém complementares, o que corrobora com o pensamento complexo apresentado por Morin. O indígena conceitua visão como algo concreto, elaborado, pré conceituado, acadêmico, reducionista. Já a cosmovisão é conceituada como um conhecimento intuitivo, holístico, empírico, de relação dos elementos com e na natureza. Nesse sentido, Morin e Prado defendem a necessária mudança paradigmática em direção à complementaridade, onde haja qualificação da energia, da vibração, dos padrões de pensamento, tanto do indivíduo quanto da coletividade. Não é um processo fácil, nem rápido, porém ideológico e real. O desejo de transformar o mundo, em qualificar positivamente e de forma integrada a vivência individual e a convivência coletiva dos seres e elementos passageiros neste planeta, é um motivador para a busca de uma educação transformadora, emancipatória e crítica. Nesse contexto da Educação Ambiental Crítica, são propostos três indicadores de análise (CONDE, 2016), a partir da adequação dos princípios da Educação Ambiental apresentados pelo Programa Nacional de Educação Ambiental - PRONEA (BRASIL, 2004): Indicador 1) Estímulo ao pensamento crítico, no âmbito ecológico, social e
cultural - relacionado ao princípio “Enfoque humanista, histórico, crítico, político,
democrático, participativo, inclusivo, dialógico, cooperativo e emancipatório” (BRASIL, 2004), no sentido de formar um cidadão com condições de refletir criticamente sobre os problemas ambientais e suas relações; Indicador 2) Visão política (local, regional,
mundial) sobre as questões e problemáticas ambientais - fundamentado no princípio
“Abordagem articulada das questões ambientais locais, regionais, nacionais, transfronteiriças e globais” (BRASIL, 2004), que busca verificar se o público-alvo alcançou uma ampliação da visão para além dos problemas e questões locais, palpáveis, visíveis a eles; e, Indicador 3) Transformação da percepção sociedade-natureza - baseia-se no princípio “concepção de ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência sistêmica entre o meio natural e o construído, o socioeconômico e o cultural, o físico e o espiritual, sob o enfoque da sustentabilidade" (BRASIL, 2004), propondo um novo paradigma de religação, reaproximação e reestabelecimento de relações fragilizadas. A partir destes três indicadores, é possível identificar os conhecimentos apresentados pelo público-alvo em que se pretende desenvolver processos educativos; o envolvimento dos mesmos nessa vivência; além da expansão de visão de mundo, para uma concepção crítica e transformadora. Ao trazer esse diálogo para a prática, compreende-se a importância da não fragmentação dos conhecimentos e sim de junção e de religação, por meio da complexidade e da multidimensionalidade de pensamentos e conhecimentos. É necessário mudar os paradigmas e as relações que o ser humano tem com a Mãe Terra. Religar o afeto, o amor e o cuidado para com ela, de forma a transformar e então fortalecer a teia da vida, em que os elementos se complementam e cooperam entre si.
Referências
BRASIL. Programa Nacional de Educação Ambiental – PRONEA: documento básico.
Ministério do Meio Ambiente, Diretoria de Educação Ambiental; Ministério da Educação, Coordenação Geral de Educação Ambiental. 2.ed. Brasília, 2004.
CONDE, Juliana. Projeto “Mangueando na educação” (SEMMAM, Vitória-ES): um olhar sobre a complementaridade da educação formal e não formal na perspectiva da educação ambiental crítica. 2016. 163f. Dissertação (Mestrado em Ciências e Matemática) – Curso de Pós-Graduação em Ciências e Matemática, Instituto Federal do Espírito Santo. Vitória: IFES, 2016.
MORIN, Edgar. “Complexidade e ética da solidariedade”. In: CASTRO, G. de;
CARVALHO, E. de A. e ALMEIDA, M. C. de (orgs.). Ensaios de complexidade.
Porto Alegre: Sulina. 1997.
PRADO, Carlos. Mancharisqa y saude del planeta. Areal/RJ: UFRRJ, 2015. (Comunicação oral).