des principes à la pratique
Encadré 2.17 Chartes de la diversité
A argumentação de que houve amplo repúdio à violência policial78 em Junho tem como
base a cidade de São Paulo. Pesquisa Datafolha do dia 18 detectou que “para 37% dos paulistanos, a Polícia Militar é vista como nada eficiente na prevenção ao crime antes que eles aconteçam. Esse índice é dez pontos superior ao registrado na semana anterior, em pesquisa realizada antes da ação em que policiais militares foram acusados de reprimir com violência os protestos contra o reajuste da tarifa de ônibus. No mesmo período, caiu de 60% para 51% o índice dos que consideram a corporação um pouco eficiente, e recua de 11% para 8% o índice dos que avaliam a Polícia Militar como muito eficiente” (Datafolha, 2013ª, p. 4). A mesma pesquisa revela que a opinião sobre os protestos contra o aumento da tarifa salta de 55% a favor no dia 13 para 77% a favor no dia 18, e a posição contrária, cai de 41% para 18%. Tais números podem ser atribuídos a diversos fatores, da simpatia aos estudantes às consequências na mudança na linha editorial da Folha de S. Paulo, que após ser reprimida na Avenida Consolação, deixa de apoiar as ações da Tropa de Choque, antecipando um movimento que mais tarde atingiria o resto da imprensa no país.
Tendências ideológicas distintas àquelas em São Paulo, simpáticas à repressão da Polícia Militar, podem ser identificadas na pesquisa Ibope, feita em escala nacional sobre os protestos de 2013. Segundo 42,4% dos entrevistados, a polícia “agiu com muita violência” em junho, porém, um número ainda maior, de 43,8%, acredita que os manifestantes também agiram “com muita violência”. Para 41,3% a polícia agiu “com violência, mas sem exageros” (o mesmo dado, para os manifestantes, foi de 38,9%). Somados aos 12,7% que acham que a polícia “agiu sem violência”, 54% argumentavam que o movimento foi reprimido de forma legítima. Parte importante do discurso usado pela polícia para justificar a repressão ao movimento relacionou-se diretamente à tática black bloc.
Ao debater os protestos de 2013, Camila Jourdan (2018) afirma que “este ano também foi, e talvez fundamentalmente, o ano do surgimento da tática black bloc no Brasil. A tática ajudou a dar voz aos protestos nas ruas, expressando uma crítica radical ao sistema e fortalecendo sua capacidade de resistir aos ataques da polícia à população.” (p. 110) Gohn
78 Segundo Gohn (2013) “quando o povo viu na TV e jornais jovens sendo espancados por lutarem por bandeiras que eram também suas, a mobilidade urbana, ele saiu as ruas. Com isto pode-se afirmar: boa parte da sociedade aderiu e entrou no movimento” (p.21).
enfatizará que o movimento em junho estava sob direção não apenas do MPL, mas também do grupo Anonymous e de adeptos da tática Black Bloc79. Enquanto Gohn (2013) identifica os
Black blocs como responsáveis pelos enfrentamentos físicos contra a esquerda organizada durante os protestos dia 20 de junho, para Cocco (2015) “talvez a agressão foi planejada por algum grupo manipulado. O fato é que, quando aconteceu, o sentimento geral da multidão era de hostilidade a toda tentativa de “representar” um movimento que “valia a pena” exatamente por ser irrepresentável.”
No entanto, ao contrário do que sugere Gohn (2013), entendemos que o MPL deve ser classificado de forma diferente dos Black Blocs e do Anonymous. Movimento de base estudantil por direito à cidade, a internet serviu ao MPL como meio de comunicação e organização de seu programa por transporte gratuito, porém não substituiu as reuniões presenciais periódicas do grupo; já entre os adeptos da tática Black Blocs e o grupo Anonymous, as redes digitais funcionaram como principal instrumento de sociabilidade interna. Ainda mais relevante, ao contrário do MPL, Black Blocs e Anonymous não possuíam tradição no movimento social de São Paulo antes dos protestos de 2013. Esta característica, em parte, explica o antipetismo destes grupos. Dia 11 de junho, quando black blocs assumem o controle do ato, segundo Ortellado et al (2013) “além de estações de metro e agências bancárias, é depredada a sede do Partido dos Trabalhadores. Apesar da tentativa de militantes do MPL de impedir o ataque, o prédio tem seus vidros quebrados e o muro pichado. O movimento liga imediatamente para a lideranças do partido para se desculpar por não ter conseguido conter os manifestantes.” (p. 63)
Enquanto no Rio de Janeiro os Black Blocs foram organizados pela Frente Independente Popular (FIP), possuindo certo grau de organicidade política, este fenômeno não se repetiu em São Paulo. Segundo Jourdan (2018) a FIP pode ser descrita como “uma frente que faz ressurgir a aliança histórica entre anarquistas e comunistas (maoístas), com um número grande também de pessoas independentes, que não fazem parte de movimentos organizados.” (p. 120) Jourdan (2013) destaca também o papel da infiltração policial (p. 65-8) entre os Black Blocs. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em filosofia na Universidade Estadual
79 Como parte dos novíssimos movimentos sociais responsáveis por junho, Gohn atribui aos black blocs representatividade política similar à do MPL (Gohn, 2013, p.56). Segundo a autora “com o ciclo de violência que passou a imperar no segundo momento das manifestações de junho, o Anonymous passou a ficar isolado, juntamente com o grupo que passou a dominar a cena dos conflitos: os black blocs.” (p. 55).
do Rio de Janeiro (UERJ) Jourdan80 foi presa dia 12 de julho de 2014 junto com outras 22
pessoas, tendo passado 13 dias na penitenciária feminina de Bangu. Em manifesto assinado junto a outras ativistas presas (Jourdan et al, 2018) afirma que “numa ação arbitrária, com um processo forjado, provas plantadas, menores presos, violências, ameaças, fomos jogadas no cárcere com outras exploradas e excluídas como nós.” (p. 43) O inquérito da polícia civil, que acusou a filosofa de formação de quadrilha armada, identificava também Mikhail Bakunin (morto em 1876) como suspeito potencial dos protestos na cidade. (p. 83)
Mesmo com os Black Blocs nutrindo diferentes graus de simpatia entre ativistas de esquerda, não seria um exagero afirmar que a aplicação da tática foi a principal responsável por afastar os grupos iniciadores dos protestos de 2013 do grosso da população no período posterior a junho. Segundo pesquisa do Datafolha (2013c) realizada em novembro, 95% dos entrevistados em São Paulo se apresentavam como contrários à tática. Na região central, 11% da população se posicionou de forma simpática ao movimento, porém a rejeição à tática foi muito maior na periferia, com 4% de apoio na zona sul da cidade e 3% na zona leste. Entre os que recebiam até dois salários mínimos, o apoio aos black blocs era de 2%, na faixa de dois e cinco salários, 5%. Este número que salta para 10% entre aqueles que recebem de cinco a dez salários, com a taxa de apoio caindo novamente a 3% entre os que recebem mais de dez salários, possivelmente expressando maior simpatia ao movimento entre as classes médias. Mesmo a tática Black Bloc sendo uma reação à violência policial do início de junho, este tipo de ação parece ter sido instrumentalizado pela grande imprensa e pelo Estado para a criminalização dos movimentos sociais pós-2013 com amplo apoio popular.