Definidos os custos com o investimento, os equipamentos dos quais se vão tratar as águas cinzentas, os que as vão consumir bem como as quantidades geradas, criou-se uma ferramenta que permite calcular a poupança de água que aplicação do SAAC vai alcançar, assim como as suas vantagens ou desvantagens económicas.
A análise económica é feita de forma análoga à realizada para as águas pluviais, de acordo com o definido no ponto 2.7.2 (página 43). Considera-se os ganhos anuais com a poupança, ou benefícios (B), os custos com o investimento inicial (i) e os custos anuais com energia e manutenção.
A poupança de água, assim como a água cinzenta aproveitada, vêm reflectidas nos seguintes parâmetros:
a) Volume total de água cinzenta consumida
Volume total de água cinzenta consumida = Volume de água da chuva consumida
b) Grau de aproveitamento
Grau de aproveitamento = Volume total de água cinzenta consumida Volume total de água cinzenta produzida
c) Redução no consumo de água potável
Redução no consumo de água =Volume total de água cinzenta consumida Volume total de água consumida
4.7. RESULTADOS E DISCUSSÃO
O objectivo é mais uma vez verificar a viabilidade económica dos sistemas em várias situações. A análise será então feita para cada caso de estudo, habitação ou edifício de escritórios, com e sem equipamentos de poupança, localizados no Porto e em Faro.
Esta última variável prende-se somente com o facto dos tarifários praticados nas duas zonas serem distintos.
Considerou-se novamente a situação económica mais desfavorável.
Para o edifício de escritórios testou-se ainda a hipótese da não existência de chuveiros, usando-se equipamentos de poupança.
4.7.1. Reduções e viabilidade económica
A) Habitação familiar
Equipamentos com consumos base Os resultados estão disponíveis na Tabela 4.7.
Tabela 4.7- Resultados para a habitação familiar (consumo base)
Situação económica desfavorável
Localização Sistema de tratamento Grau de aproveitamento Redução (autoclismo+máquina de lavar roupa+outros) Redução
total TRI TIR
Ganhos após 10 anos (€) Porto Ecodepur 62% 100% 36% 11 -7% -2125 Remosa 62% 100% 36% 11 - -4709 Faro Ecodepur 62% 100% 36% 11 - -3085 Remosa 62% 100% 36% 11 - -5669
Como se pode verificar, em nenhuma das situações o investimento é rentável, apesar de se reduzirem por completo os consumos de água potável nos equipamentos considerados. Acontece que o investimento é novamente demasiado avultado face aos ganhos que se obtêm com a poupança de água. Como Faro tem uma tarifa ainda mais baixa que o Porto (Tabela 2.15, página 26), o investimento é ainda menos rentável.
Nos casos em que se usam equipamentos que já poupam o investimento nunca será economicamente viável, tal como se pode verificar no ANEXO E.
A Figura 4.7 representa o que aconteceria se o sistema servisse mais do que uma habitação, para os mesmos consumos, no Porto e para o sistema mais acessível em termos de custo, o da Ecodepur.
Figura 4.7- TRI e ganhos ao final de 10 anos em função do nº de habitações (Porto)
Verifica-se que a partir de 3 habitações o investimento já é rentável. Para 7 e mais habitações já não foi possível calcular os ganhos pois a quantidade de água cinzenta a tratar excedia a capacidade máxima do sistema de tratamento.
195 𝐿/𝑑𝑖𝑎 × 7ℎ𝑎𝑏 > 1250 𝐿/𝑑𝑖𝑎 Na Figura 4.8 esta representada a mesma experiência, em Faro.
Figura 4.8- TRI e ganhos ao final de 10 anos em função do nº de habitações (Faro)
Em Faro, 5 habitações bastariam para haver retorno, enquanto que com um SAAP seriam necessárias 23( Figura 3.32, página 104).
Torna-se portanto evidente que a implementação de um SAAC numa zona com pouca pluviosidade é muito mais competitiva que a implementação de um SAAP.
B) Edifício de escritórios
Para este caso de estudo, considerando um consumo de equipamentos eficientes, com consumos conjuntos de 6040 L/dia (Tabela 4.4, página 122) obtiveram-se os seguintes resultados.
Tabela 4.8- Resultados para o edifício de escritórios (máxima poupança)
Situação económica desfavorável Localização Sistema de tratamento Grau de aproveitamento Redução (autoclismos+urinóis) Redução
total TRI TIR
Ganhos após 10 anos (€) Porto Almaqua 32% 100% 24% 4 32% 20968 Ecodepur 32% 100% 24% 6 20% 13579 Faro Almaqua 32% 100% 24% 3 39% 28600 Ecodepur 32% 100% 24% 5 26% 20921
Para o caso de estudo do edifício, esta seria a opção mais desfavorável, pois os equipamentos são de máxima poupança. No entanto, verifica-se que todas as situações têm um beneficio económico excelente, o que afasta qualquer indicio de que o aproveitamento de água cinzentas deixe de ser rentável quando os equipamentos já poupam. Note-se mais uma vez que este caso é especial, pois o edifício tem chuveiros que garantem a 100% a disponibilidade de águas cinzentas.
Como o tarifário de Faro é superior ao do Porto para este tipo de edifícios, os ganhos foram necessariamente maiores.
Os resultados do uso de equipamentos mais económicos a nível de investimento, com consumos na ordem dos 7181 L/dia, estão apenas disponíveis no ANEXO E, pois a análise é semelhante, com resultados ainda melhores.
Equipamentos com poupança máxima (inexistência de chuveiros)
Esta opção prende-se com a necessidade de verificar se o investimento em edifícios que não tenham chuveiros continua a ser viável.
Neste caso a produção de água cinzenta é menor que o consumo, constitui-se assim factor limitante, não podendo o consumo ultrapassar os 3060 L/dia, de acordo com a Tabela 4.3 (página 122).
Os resultados encontram-se na Tabela 4.9.
Tabela 4.9- Resultados para o edifício de escritórios (sem chuveiros)
Situação económica desfavorável Localização Sistema de tratamento Grau de aproveitamento Redução (autoclismos+ urinóis) Redução
total TRI TIR
Ganhos após 10 anos (€) Porto Almaqua 100% 51% 12% 9 11% 2232 Ecodepur 100% 51% 12% 11 4% -4032 Faro Almaqua 100% 51% 11% 7 16% 5827 Ecodepur 100% 51% 11% 11 8% -484
Verificou-se uma redução de apenas 51% nos consumos dos urinóis e autoclismos, o que não permite que o benefício seja máximo.
Conclui-se assim que a viabilidade económica dos sistemas de tratamento de águas cinzentas é bastante limitada, quando a fonte de água é apenas proveniente de lavatórios, uma vez que só com um dos sistemas, o mais barato mas também menos completo, é que se conseguiu obter algum/pouco beneficio.
Neste caso específico, um SAAP possibilitaria ganhos ao final de 10 anos de 6052€ e um TRI de 7 anos, o que é claramente mais apetecível.
Apesar de tudo as TIR são sempre positivas, o que demonstra que o investimento ainda tem bastante beneficio, não compensando porém o elevado investimento inicial dentro do tempo considerado, isto para o sistema da Ecodepur.
4.7.2. Viabilidade dos créditos LEED
O sistema LEED considera, para além do recurso ao aproveitamento de águas pluviais, o aproveitamento de águas cinzentas como substituto da água potável, para cumprimentos dos créditos seguidamente mencionados.
Como anteriormente referido, o caso de estudo foi o edifício de escritórios, no Porto, e numa situação económica desfavorável. Neste caso o sistema usado foi o da Ecodepur.
Crédito WE 2
O objectivo deste crédito é reduzir em 50% o consumo de água potável nos WC’s, em relação a um caso base, definido no ponto 2.4.4.
Como se pode verificar pela Tabela 4.8, a redução total conseguida é de 100%, sendo o crédito facilmente atingido. Note-se que, sempre que a produção seja superior ao consumo, a poupança será sempre de 100%.
Os resultados estão disponíveis na Tabela 4.10.
Tabela 4.10- Reduções conseguidas nos WC’s e ganhos
Equipamentos de poupança Aproveitamento das águas cinzentas Opções conjuntas
Reduções Ganhos para 10 anos (€) Reduções Ganhos para 10 anos (€) Redução total Ganhos para 10 anos (€)
Poupança máxima 45,8% 11.650 100% 13.579 100% 25.229
Qualquer uma das opções permite cumprir com este crédito. Curiosamente se a opção fosse apenas a aplicação de um SAAC, sem a instalação prévia de equipamentos de poupança, conseguir-se-ia uma poupança de 100% nos WC’s e um ganho de 47008€ ao final de 10 anos,, o que representa uma diferença de 7839€.
Crédito WE 3.1, 3.2 e crédito extra
Estes créditos indicam a redução do consumo total de água potável no edifício em 20, 30 e 40%, respectivamente. A Tabela 4.11 apresenta os resultados obtidos.
Tabela 4.11- Reduções totais conseguidas e respectivos ganhos
Equipamentos de poupança Aproveitamento das águas cinzentas Opções conjuntas
Reduções Ganhos para 10 anos (€) Reduções Ganhos para 10 anos (€) Redução total Ganhos para 10 anos (€)
Poupança máxima 31,4% 33.356 18,1% 13.579 49,5% 46.935
Opção económica 25,7% 51.898 20,5% 20.323 46,2% 72.221
O facto de as reduções nos consumos e consequentes ganhos para o aproveitamento de águas cinzentas serem superiores na opção económica prende-se com maior quantidade de água que é tratada, pois um dos equipamentos mais económicos, neste caso o urinol pneumático, poupa menos água que o considerado para a poupança máxima, o urinol sem água.
A opção económica é sem dúvida a melhor, pois para além de cumprir todos os créditos ainda possibilita os maiores ganhos, que são sem dúvida muito significativos.
Deve-se ainda referir que a aplicação isolada de um SAAC, apesar de garantir a redução de 33% do consumo de água potável, correspondente à redução de 100% dos consumos nos WC’s (Figura 2.6, página 24), não seria por si só suficiente para cumprir com o crédito extra.
Pode-se neste ponto elogiar os mentores deste sistema na medida em que criaram requisitos que não obrigam a uma poupança localizada, mas sim generalizada (pois teve-se de poupar também nos outros equipamentos, torneiras e chuveiros) para atingir todos os créditos pretendidos.
Poder-se-ia pensar ainda na aplicação conjunta de um SAAP com um SAAC.No entanto para este caso não seria uma boa opção, pois como se verificou, o aproveitamento de águas cinzentas é suficiente para garantir a total substituição de água potável nos equipamentos passíveis de a consumir, autoclismos e urinóis.
4.8. CONCLUSÕES
O estudo permitiu concluir, à semelhança da recolha de água pluviais, que os sistemas actualmente disponíveis no mercado não são economicamente viáveis para aplicação numa habitação familiar, devido ao grande investimento que requerem, em comparação com o benefício da poupança. Sugere- se que sistemas mais simples sejam construídos, como por exemplo apenas com a etapa de cloragem, que é no fundo a responsável pela desinfecção da água.
Assim, e enquanto não surgem desenvolvimentos, podem ser adoptadas algumas soluções, tais como aplicar o SAAC a condomínios. Requer-se para isso vontade e visão por parte dos mentores dos projectos que por agora se consideram sustentáveis, mas que podem um dia vir a ser banais.
Para edifícios de grandes consumos o SAAC obtém um grande e rápido retorno económico, para além de poder reduzir até 100% consumo de água potável nos autoclismos e urinóis. No entanto, as disponibilidades de água cinzenta devem ser sempre superiores aos consumos, caso contrário estes sistemas podem facilmente perder a competitividade.
A aplicação deste sistema ao edifício de escritórios em conjunto com os equipamentos de poupança permite cumprir com todos os requisitos dos créditos do sistema LEED conseguindo-se ainda um ganho, ao final de 10 anos, de 72.221€, permitindo por isso dizer que ambas as medidas se complementam positivamente.