“Nas economias mais avançadas, especialmente nas economias europeias sujeitas à perda de dinamismo económico induzido pelo envelhecimento da população, a inovação e a diferenciação dos processos e dos produtos constituem um caminho inescapável para voltar a crescer e gerar empregos suficientes para satisfazer procuras sociais mais qualificadas”
Mateus et al. (2013: 10) A frase acima citada, pareceu-me a mais indicada para encetar este ponto cujo intuito é demonstrar em que medida é que o turismo cultural e, por conseguinte, o património arqueológico, merecem lugar entre as principais atividades que caracterizam as indústrias criativas.
O conceito de “indústria criativa”, primeiramente avançado na década de 90 pelo Department of Culture, Media and Sports do Reino Unido, incorpora diversas atividades – publicidade, arquitetura, artes visuais e antiguidades, artesanato, design, design de moda, joalharia, cinema, vídeo e audiovisual, software educacional e serviços de informática, televisão e rádio – e assenta na originalidade e criatividade individual e, consequentemente, nos benefícios que esta proporciona à economia em geral, seja através da criação de emprego, seja através da criação de riqueza4. Conceito a que Faustino (2013: 11) acrescenta o talento e a competência; ou seja, são caracterizadas por indivíduos criativos que, aliados a importantes recursos económicos e tecnológicos, geram produtos passíveis de serem incluídos no mercado, cujo valor económico se baseia nas suas propriedades culturais (Fundação Serralves, 2008: 15).
No que concerne à cultura, apenas na década de 90 se começou a verificar o seu valor no seio das indústrias criativas, sendo de destacar o papel de países como a Austrália e o Reino Unido, que foram pioneiros no desenvolvimento de propostas de reforma das políticas públicas orientadas para este sector, cujo principal objetivo era tornar o mercado mais competitivo, sendo, então, neste contexto, que começam a surgir alusões às designadas “indústrias culturais”, que viriam a ser parte integrante das indústrias criativas, num processo de “democratização da cultura e da arte” (Faustino, 2013: 22-23).
Assim, e indo de encontro ao defendido por Faustino (2013: 28-29), os conceitos de indústrias culturais e de indústrias criativas podem, muitas vezes, ser confundidos, pois, o primeiro, encontra-se relacionado com “a criação, fabricação, a comercialização de serviços ou produtos culturais”, enaltecendo o carácter simbólico da cultura; a segunda, por sua vez, encontra-se direcionada para a vertente económica e, consequentemente, para o desenvolvimento – seja regional e/ou local -, que daí advém, promovendo uma renovação a nível empresarial e urbano, através de bens e serviços com significado social e cultural (ENEI, 2014).
Dito isto, e ainda que relativamente recente (UNCTAD, 2010: 4), parece-nos óbvia a estrita relação entre as indústrias culturais e o surgimento de uma nova abordagem baseada em potenciais atividades comerciais que, até então, não eram consideradas relevantes para a dinamização da economia. Entre as quais surge o turismo que, apesar de ser um setor já bastante desenvolvido, constitui o principal “interface entre a segmentação dos mercados turísticos segundo as características dos consumidores e a diferenciação dos destinos segundos as características do território” (Mateus et al., 2013: 89). Ou seja, aludindo às diferentes atividades desenvolvidas no âmbito das indústrias culturais, é-nos possível criar novos segmentos na oferta turística e, mais do que isso, criar novas formas de o interpretar e apresentar.
Entre as diferentes classificações apresentadas na Figura 3, há que destacar os “Locais Culturais”, onde se incluem sítios arqueológicos, museus, bibliotecas, exposições, entre outros. Todos estes elementos são parte integrante daquilo que designamos como “património”, considerado pela UNCTAD um factor de união entre
Figura 3: Classificação da UNCTAD para as Indústrias Criativas Fonte: Adaptação do gráfico apresentado pela UNCTAD (2010: 8)
aspetos históricos, antropológicos, étnicos, estéticos e sociais que, aliados à criatividade, originam diferentes produtos e serviços de cariz patrimonial.
Desta feita, se refletirmos sobre a crescente tendência para a segmentação do mercado, emerge a relação com as designadas “criações funcionais”, que correspondem às indústrias “impulsionadas pela demanda e voltadas à prestação de serviços, com a criação de produtos e serviços que possuam fins funcionais” (idem, 8), onde se compreendem o design, os novos media e os serviços criativos.
Assim, perante uma economia cada vez mais competitiva, onde a inovação e a diferenciação constituem aspectos fundamentais e metas a alcançar, e onde a cultura se apresenta como um sector em franco crescimento, podemos afirmar que todas as indústrias devem ser culturais e criativas, caso contrário, não subsistirão no mercado (Mateus et al., 2013: 11). Logo, a conjugação destes dois elementos permitir-nos-á criar novas experiências patrimoniais, através de conteúdos digitais criativos, como, por exemplo, a reconstrução 3D de vestígios arqueológicos, a criação de museus interativos e a elaboração e implementação de roteiros turísticos em plataforma digital, assim como desenvolver atividades que promovam a história e tradição dos diferentes lugares, através de recriações em locais emblemáticos, que permitirão ao visitante recuar no tempo e, por conseguinte, experienciar ambientes característicos de outras épocas.
“A base das indústrias criativas de qualquer país são os conhecimentos tradicionais subjacentes às diferentes formas de expressão criativa desse país: canções, danças, poesias, histórias, imagens e os símbolos que são o patrimônio singular da terra e de seu povo. Esse conhecimento é mantido vivo por meio da transmissão escrita, oral e pictórica das tradições culturais de uma geração à outra. Como qualquer tipo de conhecimento, ele não é estático, e sim constantemente reinterpretado e adaptado a novos formatos.”
(UNCTAD, 2010: 38) Esta ideia da reinterpretação e adaptação dos formatos é, igualmente, defendida pela UNESCO (2011), cuja visão acerca das indústrias criativas aponta o maior acesso à cultura por recurso ao desenvolvimento da tecnologia digital e à paisagem cultural e ambiente construído, incrementados pelo design, dois dos elementos estruturantes ao desenvolvimento de cidades criativas.
desenvolvimento de novas formas de apresentação do património cultural, assim como de fortalecimento da identidade dos povos e de promoção da internacionalização da cultura, tendo em conta que os turistas são o público-alvo destes novos produtos criativos. A este nível, a definição de padrões internacionais, de que é exemplo a classificação de Património Mundial da UNESCO, outorga e estimula a procura turística (Mateus et al., 2013: 92), sendo que Portugal, com os diversos sítios/monumentos classificados nesta categoria (Tabela 1), tem o dever de incentivar a proteção e valorização do seu património, tendo em conta que este constitui um factor de diferenciação dos destinos turísticos.
Assim, e no que diz respeito ao património histórico classificado na categoria referida anteriormente, torna-se pertinente expor alguns exemplos, a nível nacional, de promoção da criatividade inseridas nas diferentes atividades desenvolvidas no âmbito das indústrias criativas5. Veja-se anexo II.
A partir dos exemplos apresentados em anexo, e indo de encontro às categorias expostas no esquema da Figura 3, as formas de divulgação e apresentação do nosso património cultural mostram-se bastante diversificadas, facto que nos permite enquadrá- las no seio das indústrias criativas e culturais.
Vimos, ao nível das expressões culturais tradicionais, a “Feira da Laranja Conventual”, realizada anualmente no Convento de Cristo em Tomar; ao nível das artes cénicas, destaca-se o trabalho desenvolvido pelo Mosteiro da Batalha com as recriações históricas da vista de William Thomas Beckford a este local; ao nível das novas tecnologias – que assumem um papel de destaque -, apontamos a iniciativa do Centro Interpretativo da Batalha de Aljubarrota, o Museu Digital da Universidade de Coimbra, o Convento de Cristo em Tomar – para além das visitas temáticas, disponibiliza uma visita multimédia a partir de diferentes plataformas -, e o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém – apresentam no seu website visitas virtuais e acesso a um roteiro 3D. Ao nível dos novos media, figura o trabalho de divulgação desenvolvido pelos núcleos de arte rupestre do Côa e Siega Verde, nas redes sociais e, finalmente, ao nível dos serviços criativos, destaque para o papel ativo de todas estas instituições enquanto centros educativos, cujas ações se direcionam para a familiarização e consciencialização dos mais jovens para a importância da nossa história e do nosso património.
5 Os exemplos apresentados basearam-se no exposto no website da Comissão Nacional da UNESCO –
Ministério dos Negócios Estrangeiros <http://www.unescoportugal.mne.pt/pt/temas/proteger-o-nosso- patrimonio-e-promover-a-criatividade.html>
Estamos, portanto, perante processos de mediação patrimonial distintos, concordantes com os princípios que estão na base do fenómeno das indústrias criativas: a originalidade, a criatividade, o talento e a competência, que, conjugados, permitem levar ao público produtos passíveis de ser consumidos no âmbito do sector turístico, denunciando, o já mencionado, processo de democratização da cultura.
Desta feita, podemos afirmar que as indústrias criativas são, de um modo geral, relevantes para a economia nacional, sendo que, de acordo com o estudo desenvolvido por Mateus et al. (2013: 11), que visava medir a relevância da criatividade e da cultura para a criação de riqueza e de emprego em Portugal, verificou-se um contributo de 2,8% e de 2,6%, respetivamente, no ano de 2006, facto que reforça a importância de apostar em atividades culturais e criativas. Num sentido mais restrito, as indústrias criativas comportam também benefícios para o sector turístico – aqui entendido como uma plataforma de exportação -, em termos de impactes diretos e indiretos, resultantes da combinação de fatores económicos, culturais e sociais, com a tecnologia, propriedade intelectual e o turismo, sendo que tais impactes, têm maior expressão para o património cultural e atividades de lazer (Faustino, 2013: 34). Mas, para além de gerar riqueza e criar emprego, é também uma forma de potenciar a procura pelo mercado interno e por mercados internacionais, assim como incrementar novas formas de turismo e, por conseguinte, atrair novos visitantes (Mateus et al., 2013: 17).
No entanto, é importante referir que o sucesso das indústrias criativas só é possível se se implementarem políticas públicas capazes de “aproveitar o potencial da
cultura e da criatividade enquanto instrumentos para fortalecer a competitividade”
(idem, 126), que se materializam, por exemplo, no planeamento cultural a nível municipal, através de ações como: a identificação de fatores de diferenciação em determinada região; o desenvolvimento da criatividade, via educação, mais concretamente através da cooperação entre as instituições de ensino e as diferentes entidades ligadas ao desenvolvimento científico e tecnológico, entre outras; e a participação das populações nestes processos6.
Em suma, é através das políticas públicas que as indústrias criativas passam a ser parte integrante das estratégias de desenvolvimento económico, parecendo-nos evidente
6As iniciativas apresentadas pelos serviços educativos dos locais anteriormente apontados, comprovam
estes aspetos, sendo de destacar o Mosteiro da Batalha que, aquando da primeira recriação histórica da visita de William Thomas Beckford àquele local, promoveram a participação dos familiares das crianças que frequentavam a escola que desenvolveu este projeto.
a panóplia de oportunidades que Portugal, através do turismo e, especificamente, do património, terá para melhorar a sua competitividade a nível local, regional e nacional, inovando, criando emprego e produtos exportáveis, e promovendo a sua cultura e identidade nacional (Faustino, 2013: 51). Só a criatividade permitirá manter o carácter distintivo de um destino e incrementar a sua capacidade de atração (Fundação Serralves, 2008: 33), sendo que, através dos projetos apresentados, é percetível a valorização dos aspectos simbólicos inerentes a cada um dos locais, que, no contexto do turismo, geram benefícios económicos e de mercado.