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Les centres de décision critiques au regard de la “gestion par affaire”

B Achat d’une pièce

SOUS-TRAITANCE DE CAPACITE

2. M ODELISATION DES FLUX DECISIONNELS EN “ GESTION PAR AFFAIRE ”

2.2. Proposition d’un modèle de référence lié au mode de “gestion par affaire”

2.2.4. Les centres de décision critiques au regard de la “gestion par affaire”

Deste modo, inferimos que estes esquemas são responsáveis pela definição dos gostos. Passa a ser “óbvio”, portanto, gostar desta ou daquela emissora, deste ou daquele gênero musical. Esquemas que também podem ser associados a um longo período de aculturação, como afirma o pesquisador Daniel Levitin na obra “A Música no seu cérebro”, durante o qual a criança absorve a música da cultura em que nasceu:

“Crianças pequenas começam a manifestar preferência pela música de sua cultura aos dois anos, mais ou menos na mesma época em que começam a desenvolver o processamento especializado da fala” (LEVITIN, 2010:258).

E nestas ações, neste agir cotidiano, ainda segundo Bordieu, o mundo social é objeto de três modos de conhecimento teórico. O fenomenológico, que considera:

“[...] a relação de familiaridade com o meio familiar, apreensão do mundo social como mundo natural e evidente, sobre o qual, por definição, não se pensa, e que exclui a questão de suas próprias condições de possibilidade.[...] O conhecimento objetivista, que constrói relações objetivas (isto é, econômicas e linguísticas), que estruturam as práticas e as representações práticas ao preço de uma ruptura com esse conhecimento primeiro (fenomenológico)[...] Enfim, o conhecimento que podemos chamar de praxiológico, que tem como objeto não somente o sistema de relações objetivas que o modo de conhecimento objetivista constrói, mas também as relações dialéticas entre essas estruturas e as disposições estruturadas nas quais elas se atualizam e que tendem a reproduzi-las. (BORDIEU, 1983: 46-47). Para melhor relacionar estes modos de conhecimento teórico dos quais o mundo social é objeto, com os gostos e predileções dos ouvintes pelas emissoras Tupi ou Eldorado, formulamos algumas hipóteses que ambicionam sugerir em quais modos se enquadram os perfis socioculturais dos ouvintes, de acordo com seu habitus correspondente. Uma vez que, pensar a relação entre indivíduo e sociedade com base na categoria de habitus implica afirmar que o individual, o pessoal e o subjetivo são

“simultaneamente sociais e coletivamente orquestrados”. (SETTON, 2002:63). Habitus é uma subjetividade socializada. (BORDIEU, 1992:101)

Hipoteticamente, portanto, relacionando campo compartilhado, habitus e modos

de conhecimento teórico, os ouvintes da emissora Tupi FM – que, como já fora sublinhado, executa um único gênero musical, o sertanejo – apoiam-se na relação de familiaridade do “universo” fenomenológico, sobre o qual pouco se questiona os evidentes e naturais códigos que se compartilha. Ao executar um só gênero, ou subgêneros de um mesmo código matriz – timbrístico, harmônico, rítmico e oral-verbal, essencialmente – a direção artística da emissora claramente propõe um universo ideal, utópico, para o qual se exclui a própria “condição de possibilidades” outras, como ressaltou Bordieu. Não há espaço para que outros campos “invadam” este meio familiar. Há inúmeros indícios que sustentam essa hipótese. Um deles é a publicidade praticada pela emissora: os próprios apresentadores/locutores/disque-jóqueis, que cotidianamente estreitam contato com o público, anunciam os produtos “expostos” na vitrine radiofônica, legitimando assim a relação do anunciante com o ouvinte, como se o anunciante fosse mais um membro desta mesma “família”. E mais, além da publicidade que, de maneira geral, orbita em torno desta relação “natural” e sem intermediários, há também o fato do próprio discurso – este trabalho não ambiciona interpretar ou analisar o discurso em seu caráter linguístico, mas a mensagem que se transmite – a partir do conteúdo oral-verbal presente nas canções executadas, remete a uma retroalimentação espiralada de fruição icônica compartilhada pelos ouvintes. Uma rede contínua que corrobora e sedimenta o hábito compartilhado e facilmente reconhecível. Canta-se, melodiza-se, neste contexto, um discurso condizente com a identidade desta familiaridade cercada por festas de peão, apologia ao consumo de álcool, paixões mal

resolvidas, veneração à figura da mulher enquanto objeto de desejo, religiosidade, divina providência, entre outras temáticas.

Ainda que a música sertaneja executada no prefixo tenha sua gênese no hibridismo originado pela intersecção entre “dois sistemas de objetos” (o da elite e o popular), que segundo Carmen Lúcia José trata-se de “um terceiro objeto que apresenta índices dos objetos da elite reaproveitados nas estruturas dos objetos identificados como populares”, ou seja, “a estrutura melódica das composições musicais é retirada da frequência média da música popular (ocidental) e nela são acrescentados os signos no homem rural, reconceituados depois de seu contato com a urbanidade.”(JOSÉ, 2002: 42).

Prospectando hipótese semelhante entre os ouvintes da emissora Eldorado FM, podemos inferir que o modo de conhecimento teórico do qual compartilham e pelo qual se reconhecem aponta para o conhecimento objetivista, uma vez que demonstram – retornando às concepções ligadas à teoria das mediações de Martín-Barbero – seguir incessantemente uma espécie de hegemonia cultural e simbólica difundida em um processo de “enculturação” recôndito e que, não raras vezes, mostra sua face mais evidente na estimulação do desejo de ser pessoal, único em meio à trivialidade do popular. Como ressaltou Bordieu, o objetivista “constrói relações objetivas (isto é, econômicas e linguísticas), que estruturam as práticas e as representações práticas ao preço de uma ruptura com esse conhecimento primeiro” (fenomenológico e popular). Ou seja, o ouvinte da Eldorado Brasil 3000 FM é interpelado pela noção de ruptura com o massivo. Ele quer exclusividade, tanto que o slogan está associado diretamente à sua proposta fundamental no que tange ao direcionamento artístico e é revelador neste sentido: “Eldorado, a rádio dos melhores ouvintes”. Logo, se o ouvinte é melhor que os outros, passa a ser único, o primeiro.

Fato recente e significativo é que o prefixo da Eldorado FM – antes localizado no centro do dial, ou seja, na região mais nobre, mais fácil de ser sintonizada, do aparelho receptor – foi alterado. Pulou de 92,9MHz para 107,3MHz, passando a dividir espaço com o limbo comercial do espectro radiofônico, o fim do dial, entre concessões comunitárias e educativas. Tal fato teria ocorrido em razão de um acordo do Grupo Estado, holding midiática que gerencia a emissora, e a Fundação Brasil 2000, esta última detentora da concessão atual. O objetivo principal do acordo seria dar voz a uma nova emissora, essencialmente jornalística, que pudesse fazer frente à CBN notícias, que, no dial, está situada justamente nesta nobre área do receptor, atua em 90,5MHz. Assim, os 92,9MHz passaram a responder pela emissora Estadão/ESPN.

Sob alegação de, agora apartada da centralidade do poder e da visibilidade, ter a possibilidade de “experimentar” mais, a Eldorado Brasil 3000 FM pretende enfatizar seu pioneirismo em prestação de serviços e apostar em novos projetos, além incentivar mudanças constantes de colaboradores. Foram mais de 50 anos atuando em uma mesma frequência no espectro radiofônico paulistano.