• Aucun résultat trouvé

Cell-Cycle Regulation Accounts for Variability in Ki-67 Expression Levels

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 84-97)

O fortalecimento da memória como reparação e como uma das ferramentas da Justiça Transicional é fomentado nas Américas pela proliferação das Comissões da Verdade ou processos de organização de minorias. Esses movimentos fizeram emergir uma nova série de museus ou sítios de memória, com a finalidade de dar voz e imagem a atores sociais portadores de histórias traumáticas, com o objetivo de exaltar valores maiores de uma sociedade democrática, como os direitos humanos, a liberdade e a tolerância. Essas instituições surgem como formas de exorcismo dos males a serem superados e de reparação às vítimas.

11 Disponível em: https://www.ictj.org/es. Acesso em: 01 jul. 2017.

A criação dos primeiros museus e memoriais voltados às questões das arbitrariedades praticadas contra os direitos humanos, como comentado anteriormente, teve início logo após a II Guerra Mundial. Esses museus e memoriais foram desdobramentos especialmente do Holocausto e, na sequência, surgiram pela necessidade de discutir os problemas sociopolíticos do seu tempo. Alguns são implantados nos próprios lugares de memória, onde os fatos ocorreram, como, por exemplos, o Museu Memorial de Terezín (República Tcheca) – o local serviu de prisão, gueto judio e estação de trânsito dos judeus até os campos de extermínio da Gestapo – e, a Casa de Anne Frank (Holanda). Outros foram instalados em fortificações e presídios, como os museus que compõem a rede do Museu da Resistência Nacional na França (em várias cidades do país) ou as prisões da Alemanha, como o Memorial Bautzen (em Bautzen) e o Memorial Berlin-Hoenschönhausen (em Berlim). Ou ainda, estão em edifícios públicos e clandestinos, utilizados para detenção, tortura e desaparecimento, bastante comuns na América Latina, como é o caso do Parque por la Paz Villa Grimaldi (Chile) e do Memorial da Resistência de São Paulo (Brasil) (NEVES, 2011, p.47).

Podemos pontuar outros exemplos na América do Sul. Na Argentina, algumas experiências vinculadas à memória da ditadura pelo país, como o Museo de la Memoria de Rosario (que em muito inspirou o MCM de Medellín, segundo relatos e documentos institucionais consultados) e o Espacio Memoria y Derechos Humanos13, em Buenos Aires, esse último instalado no edifício da Escola de

Mecânica da Armada (ESMA), antigo reduto de violência e de violação dos direitos humanos no período da Ditadura argentina14.

Lugar de memória, condensadora de sentidos, a ESMA foi e é objeto de disputas tanto pelas diversas esferas de governo como pela própria memória social.

[...]

Em 24 de março de 2004, em um ato realizado na ESMA e carregado de um enorme peso simbólico e emotivo (de não menos controversas repercussões), o Poder Executivo Nacional e o Governo da cidade de Buenos Aires firmaram um convênio que estabelecia a desapropriação

13 Disponível em: http://www.espaciomemoria.ar/recuperacion.php. Acesso em: 01 ju. 2017. 14 A ESMA, localizada na zona norte de Buenos Aires, abrigou o Casino de Oficiales, um dos maiores centros clandestinos de detenção do Estado terrorista. Calcula-se que, entre 1976 e 1983, passaram por ali em torno de 5000 pessoas, entre prisões e desaparecimentos (CARNOVALE, 2006).

da ESMA por parte da Marinha e garantia a futura instalação no local, do Museo de la Memoria y de promoción de los Derechos Humanos (CARNOVALE, 2006, p. 13-14).

No Uruguai, foi constituído o Centro Cultural Museo de la Memoria15, em

Montevidéu, inaugurado em 2007, cuja missão é contribuir para a construção da memória sobre o terrorismo de Estado e a luta do povo uruguaio contra a Ditadura.

No Chile, foi criado o Museo de la Memoria y los Derechos Humanos16, em

Santiago, inaugurado em 2010, como parte das celebrações do Bicentenário da Independência. A instituição se define como um espaço que deve contribuir para que a cultura dos direitos humanos e dos valores democráticos se convertam em fundamento ético compartilhado.

No Peru, em 2015, foi inaugurado o Lugar de la Memoria, la Tolerancia e la Inclusión Social (LUM)17, em Lima. Tem como objetivo ser um espaço de

comemoração, educação e cultura que apresenta a história dos fatos ocorridos, durante o conflito entre os grupos terroristas internos, durante os anos de 1980 e 2000.

No Brasil, apesar do estabelecimento e da relatoria da Comissão da Verdade, não foram levadas a cabo iniciativas nacionais para a constituição de um museu de memória, que pudesse coroar o estabelecimento de novos elos institucionais entre a população e o Estado. Contudo, podemos mencionar ações significativas regionais ou de grupos da sociedade civil, tal como o Memorial da Resistência18,

em São Paulo – uma iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura. A instituição dedica-se à preservação de referências das memórias da resistência e da repressão políticas do Brasil republicano (1889 à atualidade), por meio da musealização de parte do edifício que foi sede, entre 1940 e 1983, do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS/SP)

15 Disponível em: http://mume.montevideo.gub.uy/museo/centro-cultural-museo-de-la-memoria. Acesso em: 01 ju. 2017.

16 Disponível em: https://ww3.museodelamemoria.cl/sobre-el-museo/. Acesso em: 01 ju. 2017. 17 Disponível em: http://lum.cultura.pe/el-lum/quienes-somos. Acesso em: 01 ju. 2017.

18 Disponível em: http://www.memorialdaresistenciasp.org.br/memorial/default.aspx?mn=4&c=83&s=0. Acesso em: 01 ju. 2017.

– uma das polícias políticas mais truculentas do país, principalmente durante o regime militar. Além disso, tem-se o Instituto Vladimir Herzog19, que desenvolve

ações e projetos especiais voltados à valorização dos direitos humanos, da democracia e da liberdade de expressão.

Com esses novos espaços, surgem também novas reflexões na museologia sobre esse patrimônio oriundo dos mais diferentes traumas, o que instaura um amplo campo semântico, designando-os ora como “patrimônio difícil”, “lugares de dor e vergonha”, “sítios de consciência”, “passados sensíveis”, “museus de memória”, ora como os mais conhecidos “memoriais” e “monumentos”, que agora homenageiam novos atores.

Para Dolff-Bonekämper (2002, p. 4), a preservação de sítios de referência de memórias traumáticas, doloridas suscitam três questões fundamentais:

Por que os lugares devem ser preservados se ofendem os sentimentos de pessoas que não desejam ser lembradas?

Que tipo de informação eles transmitem que não estão disponíveis em outras formas, como livros, testemunhos, ou filmes?

Por que e como esses locais devem ser tratados como patrimônio edificado a ser preservado?

A primeira questão apontada por Dolff-Bonekämper envolve o direito individual e familiar de superação do trauma pela negação dos lugares de sofrimento e a vontade dos perpetradores ou de uma comunidade culpada pela violência em serem esquecidos, o que impõe a esses lugares um espaço de constante disputa de versões e de legitimidade sobre essa memória. A segunda questão aponta para a especificidade do tridimensional, da experiência material como uma possibilidade de interação única com a memória da dor. Por fim, fica o limite dessa materialidade para sítios que não possuem uma expressão arquitetônica emblemática ou sintetizadora do patrimônio que lhe é atribuído e precisa contar com o testemunho e, em que medida, essa preservação se justifica. Em síntese, a autora nos provoca sobre os desafios em lidar com essa memória da dor, os limites que essa preservação encontra acerca da própria construção da narrativa

e, por fim, da ambição que o impulso preservacionista garanta um futuro em que esses males não se repitam (DOLFF-BONEKÄMPER, 2002, p. 4-10).

Da necessidade de discussão dessas questões, o novo campo de conhecimento constitui redes para troca de informações e experiências, como ocorreu no Conselho Internacional de Museus (ICOM). Desde 2001, o Conselho conta com o Comitê Internacional de Museus Memoriais para rememoração das vítimas de crimes públicos (International Committee of Memorial Museums in remembrance of the victims of public crimes – ICMEMO). O ICMEMO define que seus principais objetivos são promover uma memória responsável da história e motivar a cooperação cultural através da educação e do uso do conhecimento em prol da paz – o que também é um objetivo fundamental da UNESCO. Estabelece ainda que esses museus-memoriais celebram as vítimas de crimes estatais, ou motivados por vulnerabilidade social ou por divergências ideológicas. As instituições são frequentemente localizadas nos edifícios históricos originais, ou em locais escolhidos pelos sobreviventes de tais crimes para fins de rememoração. Eles procuram transmitir informações sobre eventos históricos de forma a preservar uma perspectiva histórica, ao mesmo tempo, que faz ligações fortes ao presente20.

Outra rede é a coalização internacional, intitulada Sites de Consciência21. Essa

rede apresenta-se como global, envolvendo locais históricos, museus e iniciativas memoriais, que ligam as lutas do passado com os movimentos de direitos humanos e justiça social de hoje. Esses lugares estão dispostos a transformar a memória em ação atual. São mais de 200 instituições, desde locais históricos já estabelecidos, até iniciativas de memória emergentes, que rememoram uma grande variedade de histórias e abordam uma ampla gama de questões. A rede qualifica como um grupo empenhado em ligar o passado ao presente e a memória à ação.

20 Disponível em: http://icom.museum/the-committees/international-committees/international- committee/international-committee-of-memorial-museums-in-remembrance-of-the-victims-of- public-crimes/. Acesso em: 01 jun. 2017.

Cabe também citar, a Rede de Sítios de Memoria Latinoamericanos e Caribenhos22, site criado para divulgar as atividades, compartilhar e compartilhar

documentos, materiais e outras produções realizadas pelos lugares de Memória da América Latina, buscando visibilizar toda informação acerca dessa temática. Esse site reúne 40 instituições de 12 países. A RESLAC desenvolve projetos, atua em capacitações conjuntas e busca fortalecer a integração entre as instituições membros, com perspectivas semelhantes.

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 84-97)

Documents relatifs