Observando mais atentamente os núcleos formados predominantemente por famílias oriundas do Japão, identificamos uma paisagem rural que pode ser considerada também, como uma paisagem cultural. Assim como nas comunidades de Curitibanos, Itajaí e Caçador, no Núcleo Sanga do Café encontramos uma classe subordinada aos interesses capitalistas, principalmente pela dependência da comercialização no mercado, “mas que, por sua vez, tem a propriedade da terra e dos meios de produção, e não depende de trabalho assalariado”256.
As famílias ali instaladas financiaram as respectivas propriedades, de dez hectares em média, com a renda originada nas suas próprias terras. Comercializavam parte das suas produções na feira de Criciúma, como recorda Ricardo Fukushima: “Eu acompanhava meus pais na Feira Livre de Criciúma, pois naquela época não haviam
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NETO, Wenceslau Gonçalves. “Estado e Agricultura no Brasil: política e modernização econômica brasileira 1960-1980”. São Paulo: editora Hucitec, 1997, p.140.
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creches”257. Criciúma foi impulsionada pela imigração japonesa, afirma o filho de camponeses “afinal fazíamos feira nos bairros da Prospera, no Rio Maína e no Centro da Cidade”258.
Buscando entender essa dinâmica de “abastecimento urbano”, comercialização nas feiras ou da venda dos produtos agrícolas (também chamados produtos coloniais) é necessário anteriormente, perceber a existência de um tratamento com o ambiente rural, em outras palavras, anterior ao consumo da cidade, existe a organização da produção no campo. Assim, nas relações do ser humano com o ambiente e no cotidiano das relações sociais, veremos a dinamização das paisagens das colônias japonesas, descritas parcialmente, por jornais de época, pelas Instituições que acompanharam a criação dos núcleos japoneses no Estado ou ainda presentes nas memórias dos próprios imigrantes.
Em quatorze de setembro de 1973, afirmava um jornal que na área em que está localizado o Núcleo Rio Novo “primitivamente coberta de florestas, foi desmatada pela municipalidade de Itajaí”259. Já em Curitibanos, quando os japoneses chegaram, “[...] a terra do Núcleo Celso Ramos era totalmente inexplorada, e tiveram que abri-la a machado, pois não tinham moto serra. Muitas vezes faziam calos nas mãos e precisavam enfaixá-las para continuar o árduo trabalho de desmatamento”260. O presidente do IRASC em julho de 1978, após inspecionar um núcleo de horticultura, descrevia a “paisagem dinamizando-se” com o “agente humano alterando a superfície da terra”: “[...] [o] presidente do IRASC revelou que o Núcleo Paiol Velho, de Caçador, estão sendo plantados 10 mil pés de pêssego, nectarina e maçãs. Na mesma região, uma família de japoneses está se dedicando ao cultivo de morangos e hortaliças, visando o abastecimento do mercado consumidor da cidade”261. O Jornal O’Estado de outubro de 1976, acreditava que os japoneses haviam descoberto que as terras do sul de Santa Catarina eram propícias à lavoura, além de terem avaliado que a terra “não era tão ruim”. A organização espacial dos imigrantes que recém chegavam para a criação do núcleo assim era descrita:
As primeiras famílias, em número de três, chegaram à região em março do ano passado e, com a aquisição de 10 hectares de terra, iniciaram as plantações das verduras. As
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Entrevista informal com Ricardo Fukushima a André Souza Martinello, em 12/06/2006, na Prefeitura Municipal de Forquilinha.
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Entrevista informal com Ricardo Fukushima a André Souza Martinello, em 12/06/2006, na Prefeitura Municipal de Forquilinha.
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Jornal O’Estado. Florianópolis, 2ºfeira, 05 de novembro de 1973. nº17.382, p.03. 260
BORGES, Rosangela de Fátima. “A imigração japonesa em Curitibanos”. Caçador (SC): Angelus, [2004?]. p.36.
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outras cinco, provenientes de São Paulo, onde trabalharam com granja de aves, somente chegaram em abril deste ano262.
De fato, em todas as quatro colônias japonesas anteriormente abordas, encontramos em cada uma delas uma paisagem cultural particular, mas que possuem elementos comuns: paisagens que destacam a policultura e as pequenas propriedades, ambas dialogando com os seus respectivos meios físicos e sociais:
As terras cultivadas que aparecem tão marcantemente em muitas paisagens testemunham não apenas uma mudança radical da cobertura vegetal, mas também a presença de elementos claramente artificiais: pomares, jardins, campos arados, muros e cercas, caminhos e estradas, celeiros, estábulos, habitações e núcleos de povoamento inteiros, todos em disposição regular. Em qualquer paisagem cultural, a disposição, o estilo e os materiais desses aspectos tendem a refletir a presença de um modo de vida distinto, ougenre de vie, integrando com um determinado quadro natural263.
O trabalho de algumas famílias no Núcleo Colonial Celso Ramos, por exemplo, e o espaço rural, daquela vila em Curitibanos foi descrita após inspeção do presidente do IRASC, da seguinte maneira:
[...] esteve há dias, no local – e veio de lá contentíssimo, como se houvesse acertado os treze pontinhos da esquiva loteria de futebol. Conta o presidente do IRASC o que viu e não acha palavras para exatamente descrever a paisagem dos pomares carregados de frutos, aos quais o carinho paciente das mãos japonesas, felizes ante a evidência da boa sorte, dá permanente assistência, defendendo-as de possíveis pragas.
As mãos cheias de calos daqueles japoneses que chegaram e derrubaram a mata “totalmente inexplorada”, mãos que plantaram as árvores e que deram origem a pomares cheios de frutos, são também as mesmas “mãos japonesas” que acariciam pacientemente e defendem as frutas de “possíveis pragas”.
A criação do Núcleo Sanga do Café, assim como a Colônia Ramos, o Núcleo Rio Novo e a Colônia japonesa de Caçador, significou em última instância, um padrão agrícola de pequena propriedade familiar, comum no Litoral e Extremo-Oeste catarinense, mas relativamente peculiar em relação às outras regiões brasileiras. A organização e o trabalho dos pequenos lotes, nessas comunidades japonesas, inicialmente variaram entre seis e vinte e cinco hectares, e esteve ligado ao núcleo
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Jornal O’Estado. Florianópolis, 3ºfeira, 12 de outubro de 1976. nº18.512, p.09. 263
WAGNER, Philip L; MIKESELL, Marvin W. “Os Temas da Geografia Cultural”. In: CORRÊA, Roberto Lobato; RSENDAHL, Zeny (organizadores). “Introdução à Geografia Cultural”. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p.137.
familiar, em que a renda originava-se do uso da terra. Estamos abordando uma agricultura familiar que não foi predominante no Brasil, ao contrário, pois o nosso País caracterizou-se por impedir que os brasileiros tivessem acesso à propriedade privada da terra, concentrando, portanto, em “poucas mãos”. Inclusive em Santa Catarina – as grandes propriedades também presentes – há regiões, que reproduziram o sistema da agropecuária nacional, com padrões latifundiários de propriedade. Como veremos no próximo capítulo, no Planalto Norte e no Planalto Centro-Sul do Estado, os japoneses também se instalaram reproduzindo, em certa medida, o regime “empresarial” de grandes extensões de terra.
Assim, sobre os imigrantes japoneses e a pequena propriedade em Santa Catarina, concluímos com Giralda Seyferth:
O resultado mais significativo da colonização, contudo, está ligado à formação de uma sociedade rural diferente da sociedade rural brasileira tradicional, onde não havia lugar para o pequeno proprietário. De fato, o que ocorre [em parte] no Rio Grande do Sul, [em parte de] Santa Catarina, parte de São Paulo, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul, foi à formação e consolidação de uma sociedade camponesa, cuja base fundiária é a pequena propriedade policultura trabalhada pela família do proprietário; camponeses que mantém um estilo de vida próprio, um modo de produção específico, apesar das transformações ocorridas desde o século passado e das pressões do capitalismo264.
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