O processo de incorporação de reservas é um processo lento, resultado do trabalho de exploração que, além dos altos custos para perfuração de poços e aquisições de dados geofísicos e geológicos, demanda o tempo de análise das oportunidades por parte das equipes técnicas. Ainda que o processo de exploração resulte na descoberta de um campo gigante de petróleo, a incorporação como reserva provada deve seguir protocolos internacionais definidos, como SPE e AAPG20. Esse fato guarnece ao MASM um certo grau de continuidade, uma vez que as pesquisas para as fases seguintes do desenvolvimento do campo consomem esses dados de modo continuado.
Por exemplo, a Rosneft cita em seu relatório anual de 2018 reservas de cerca de 140 bilhões de barris, porém, como reserva provada, apenas tem certificado 45 bilhões de barris. A estimativa para as reservas brutas da Petrobras é de cerca de 30 bilhões de barris, e da Exxon de mais de 40 bilhões, contudo as reservas provadas são de aproximadamente de 10 e 20 bilhões de barris, respectivamente. A informação sobre o valor bruto da reserva pode não ser confiável e por isso nossa análise será feita sobre os dados de reservas provadas.
A estratégia de certificação de reservas que se observa a partir da leitura dos relatórios anuais das principais CO&G, é a de realizar investimentos em exploração para manter a razão reserva/produção pelo menos constante, ou seja, a meta da exploração da empresa é manter a reposição de reservas provadas sobre produção igual ou acima da unidade. Nesse caso, à medida que a produção aumenta ou diminui, o esforço exploratório irá seguir o mesmo movimento. A lógica é gastar apenas o necessário, dado que os recursos para investimentos são sempre disputados entre os segmentos da cadeia. No Gráfico 3 e no Gráfico 4 pode-se ver os gráficos das reservas provadas por CO&G das dez maiores demandantes de ASM. A disposição dos dados no Gráfico 3 mostra a evolução das reservas por CO&G no período entre 2003 e 2018. No Gráfico 4, observa-se as reservas das dez companhias somadas, no período de 2004 a 2018. A reserva bruta muito acima da reserva provada pode ser uma vantagem para as empresas que as detêm, pois possibilita aumentar seu nível de produção no curto prazo sem elevar seu risco com relação a reposição das reservas.
20 Morse, L. Análise do crescimento do volume recuperável provado de campos de petróleo. 2006. Dissertação de Mestrado, UFRJ – COOPE.
Gráfico 3– Reservas em MBOE das dez CO&G com maior demanda de ASM entre 2003 e 2018.
Fonte: Elaboração própria a partir dos relatórios anuais das CO&G.
Essa relação entre reserva e produção é um dos fatores mais relevantes na distribuição dos investimentos dentro do segmento upstream. Para continuar no aprofundamento dessa análise, apresentaremos os dados sobre produção e retomamos avaliando o par reserva-produção.
Gráfico 4– Soma das reservas provadas das dez empresas analisadas no período de 2004 até 2018.
No Gráfico 5 e no Gráfico 6, aparecem informações de produção de petróleo em MBOE/dia em dois formatos distintos, semelhantes aos apresentados para as reservas. No Gráfico 6, constam os valores dos incrementos de reservas por parte das CO&G.
Gráfico 5– Produção diária em MBOE das dez maiores demandantes de ASM entre 2003 e 2018.
Fonte: Elaboração própria a partir dos relatórios anuais das CO&G.
Gráfico 6– Soma da produção diária das dez CO&G analisadas entre 2004 e 2018.
O aumento mais significativo observado é das Rosneft saindo de um nível de produção abaixo de 1 MBOE/dia, em 2003, para quase 6 MBOE/dia, em 2018. A queda de produção mais acentuada foi da Shell que em 2003 apresentava produção acima de 6 MBOE/dia e caiu para uma produção abaixo de 4 MBOE/dia, em 2018, com pico de queda em 2015, quando chegou próximo de 3 MBOE/dia. É nítido o processo de ocupação da Rosneft no “vácuo” deixado pela Shell, obviamente cada qual atuando em mercados regionais bastante distintos, não sendo uma substituição direta. Duas explicações possíveis para essa dinâmica no nível de produção das CO&G são: o custo de produção e o nível de reservas.
Gráfico 7– Incremento das reservas em MBOE provadas das dez empresas analisadas entre 2004 e 2018.
Fonte: Elaboração própria a partir dos relatórios anuais das CO&G.
A Rosneft vem incorporando reservas em uma taxa muito elevada, com o acumulado entre 2003 e 2018 de 40 BBOE de reservas provadas, enquanto a Shell incrementou apenas metade, cerca de 20 BBOE no mesmo período (Gráfico 7).Para sustentar um alto nível de produção é necessário um alto nível de reserva e de reposição das reservas, é o que mostram os dados na Tabela 2 (com exceção da CNOOC). As quatro primeiras empresas apresentam os maiores níveis de produção, maiores reservas e incremento das reservas ao longo do tempo.
Tabela 2– Resumo dos valores de reserva e produção das dez CO&G analisadas.
Fonte: Elaboração própria a partir dos relatórios anuais das CO&G.
Na próxima seção adentra-se no estudo dos componentes exógenos às companhias de óleo e gás, considerando dois fatores principais: o preço e a demanda por petróleo.