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Minha tão bela esposa Maria

cinquentenária jovem isenta de frívolos aniversários. Minha mais amada por mim do que as frívolas raparigas de provocantes fémures desnudos.

(JOSÉ CRAVEIRINHA) De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento.

(VINICIUS DE MORAES)

Uma das figuras mais presentes na literatura de todos os tempos é a da mulher amada. Em José Craveirinha esta figura assume especial relevância dado que uma das suas obras consiste em duzentos poemos escritos para a sua mulher, Maria. Quer nesses poemas, quer noutros recolhidos noutras obras e que são dedicados à esposa, a quantidade de referências reais à vida e à figura de Maria obrigam-nos a fazer deles uma leitura biográfica.

A imagem da esposa irá aparecer com uma paisagem diferente da da mulher erotizada. Nas palavras de Žižek:

(…) o amor verdadeiro só pode emergir no interior de uma rede de “companheirismo” que esteja animada por um objectivo diferente, não sexual (vejam-se os romances de Marguerite Duras). O amor é uma resposta imprevisível do real: só acaba por (poder) emergir “do nada” quando renunciamos a todo o desígnio de dirigir e controlar o seu curso. (ŽIŽEK, 2006, p. 99)

Esta ideia de companheirismo está muito presente na relação de José Craveirinha e de Maria. Não que a relação não tivesse uma componente sexual (que aparece mencionada em alguns poemas, como veremos adiante), mas é visível que suplanta uma relação puramente física. A adoração de Craveirinha por Maria é a adoração de um homem pela sua esposa, pela mulher que cria a ideia de lar.

Simone de Beauvoir resume o papel da mulher enquanto esposa da seguinte forma:

No mundo humano, a mulher transpõe as funções de fêmea animal: ela alimenta a vida, reina sobre as regiões da imanência; ela transporta para o lar o calor e a intimidade da matriz; é ela quem guarda e anima a casa em que se deteve o passado, em que se prefigura o futuro; ela engendra a geração futura e alimenta os filhos já nascidos (…) quando à noite ele volta para casa, ei-lo ancorado à terra; pela mulher, a continuidade dos dias é assegurada; quaisquer que sejam os factos que enfrente no mundo exterior, ela garante a repetição das refeições, do sono; ela conserta tudo o que a actividade destrói ou desgasta; ela prepara os alimentos do trabalhador cansado, dele trata e se está doente, cose, lava. (BEAUVOIR, 1981, p. 253)

A autora consegue sintetizar nestas linhas o papel da esposa Maria para José Craveirinha. Ela é sempre sinónimo de estabilidade, aliada incondicional do guerreiro na luta político-ideológica que ele trava não só pelos dois, mas pelo seu país.

Em primeiro lugar, parece importante relembrar o poema «História de amor», em que o sujeito poético se dirige diretamente a Maria, usando o seu nome:

Maria de uma canção de amor liberta minha solidão secular

a salvo-condutos de ósculos da tua boca e enquanto minhas mãos procuram tua angústia e cerras outras vez as pálpebras sombreadas de volúpia ah, Maria, quantas vezes morremos?

(CRAVEIRINHA, 1999, p. 109)

Este poema ajuda-nos a perceber a dimensão sexual associada à imagem de Maria. Por muito que ela seja a mulher amada, o amor também se materializa de uma forma física. Figuras como as do ósculo, das pálpebras cerradas pela volúpia, ajudam- nos a criar a imagem de uma Maria carnal, humana, sensível aos estímulos sensuais. Esta associação acaba por ser bastante importante para a construção da figura da mulher: ainda hoje há em muitas culturas a separação da mulher e da amante, como se a esposa assim que se ganha este estatuto não pudesse mais ser alvo de atração sexual, por se ter tornado guardiã dos valores familiares.

A contrastar fortemente com este poema, ao nível da imagem de Maria, temos o caso de «Carta para a mãe dos meus filhos». Apesar de nos surgir como uma carta, acaba por sugerir uma reza. O poema é composto por cinco estrofes, das quais quatro se iniciam com os versos «Santa / minha esposa Maria de Lurdes». Esta construção anafórica, associada ao significado dos versos repetidos, parece criar um ritmo de oração. A centralidade da palavra «santa» ajuda ainda a associar a Maria a ideia de uma figura honesta, bondosa, inocente, virtuosa, imaculada. Esta associação parece confirmar-se pela descrição que o sujeito poético faz da conduta de Maria, mãe e esposa incansável, marcada pelas «rugas do trabalho», pelo «prodígio das imprevisíveis refeições», «pelo sabão fluindo entre os dedos no lavadouro / à cabeça a lata cheia no chafariz da rua». O sujeito poético refere-se ainda à figura de Maria como «minha mulher companheira e mãe» e «minha irmã esposa e mãe», acentuando a ligação que os une. No fundo, para José Craveirinha, a imagem da esposa suplanta a figura da mulher convencional: ela cumpre vários papéis na sua vida, todos de uma forma que a tornam ainda mais completa enquanto mulher amada.

Outro aspeto que importa ressaltar acerca deste poema é a introdução do tema da infidelidade. Atentemos nos seguintes versos:

juro que te amo puro

no obsessivo amor contraditório dos homens na inocência voluntária de amar outras. (Idem, p. 197)

Esta questão da infidelidade constitui mais uma ligação real à vida de José Craveirinha. Mesmo na obra Maria, há várias referências a esta particularidade da relação de ambos. No poema «Os devaneios», o sujeito poético defende que os seus casos extraconjugais seriam apenas «fúteis paixões» (CRAVEIRINHA, 1998, p. 71), que não atraiçoariam a mulher amada, o seu «único amor / de sempre» (Ibidem). Em «Os impuros» temos um poema que parece acusar aqueles que não aceitavam esta situação de infidelidade (acusando-os de serem impuros, invejosos e pouco perspicazes), escudando-se o sujeito poético no facto de Maria ser cúmplice dessa situação:

o excelso amor de Maria fazia desculpáveis

puros devaneios de ocasião. (Idem, p. 89)

Não nos cabe aqui avaliar a legitimidade ou não da argumentação de José Craveirinha, mas a verdade é que esta construção da mulher amada acaba por ter alguns tiques um pouco machistas. Como sabemos, durante séculos, a infidelidade masculina foi aceite e até incentivada, ao mesmo tempo que a castidade era exigida às mulheres. Ainda hoje, em alguns países do mundo, os homens podem ter mais do que uma mulher e há molduras legais diferentes para casos de infidelidade masculina ou feminina. Nada na obra de José Craveirinha nos permite saber se a tolerância e flexibilidade que ele apresentava quanto aos seus casos de adultério se manteria se fosse Maria a infiel, mas a probabilidade de isso acontecer parece-nos nula, dado o contexto social e cultural em que este casal viveu a sua vida. A mulher amada construída por Craveirinha é, assim, uma mulher que aceita a infidelidade do seu companheiro, contribuindo para a perpetuação de um sistema machista e patriarcal.

Por último, não podíamos deixar de mencionar o poema que abre a obra Maria, constituído por 165 versos, divididos em 18 estrofes: «Maria. Salmo inteiro». Há mais uma vez apropriação de um modelo estilístico marcadamente religioso, como um hino sacro em que se enaltece a figura da mulher amada. Este poema funciona ainda como um resumo da obra, pois contém uma narrativa resumida da vida do casal, centrada na figura de Maria, que surge novamente como trabalhadora incansável, companheira leal do marido mesmo nas piores fases da sua vida (como quando ele esteve preso), mãe extremosa, lutadora («Mãe sósia moçambicana da Mãe de Máximo Gorki»), mulher autêntica. São resumidos os momentos mais críticos da sua vida (como a prisão do marido, as fases em que faltava comida em casa ou o início da sua doença).