2. Exemples
2.4. Cartes
No processo evolutivo normativo da responsabilidade social, a SA8000 (1997) já trazia a definição de partes interessadas e o incentivo à demonstração do atendimento dos requisitos da norma a suas partes. Na NBR16001 (ABNT, 2004), se aplica às organizações que desejem, dentre outros, apoiar o engajamento efetivo das partes interessadas; também define e exemplifica as partes e envolve no processo de comunicação. E, com a AA1000 – norma específica de relacionamento com as partes interessadas – há o fortalecimento desta relação com as partes na
orientação para as organizações realizarem o engajamento de suas partes. A norma internacional ISO 26000 (ABNT, 2010) de diretrizes sobre responsabilidade social traz como duas práticas fundamentais da responsabilidade social o reconhecimento da organização de sua responsabilidade social, e a identificação e o engajamento de suas partes interessadas.
Entre as práticas de processos da gestão por stakeholders destacam-se a identificação, a classificação, a priorização, o diálogo e o engajamento conforme será visto a seguir o detalhamento destas (ROCHA e GOLDSCHIMT, 2010; ABNT, 2010; MITCHEL, AGLE e WOOD, 1997; SAVAGE,1991; e GRI, 2007). E são estas práticas que serão verificadas na gestão praticada pelo objeto desta pesquisa.
2.2.1.1. Identificação dos stakeholders
Para identificar os seus stakeholders, a norma de diretrizes sobre responsabilidade social explicita a importância da “... compreensão de como indivíduos ou grupos são afetados pelas decisões e atividades da organização possibilitará a identificação dos interesses que estabelecem uma relação com a organização.”(ABNT, 2010, p.29).
Algumas questões são consideradas chaves para o reconhecimento do tipo de ligação que pode existir entre as partes, como podem ser observadas no Quadro 2.
Questões para identificação Stakeholder A
Stakeholder B
Stakeholder C... É vinculado por meio de obrigações
legais, financeiras ou operacionais. Pode ser positivamente ou negativamente afetado pelas atividades ou decisões da organização?
Envolveu-se no passado quando preocupações semelhantes precisaram ser tratadas?
Pode ajudar a organização a cuidar de impactos específicos?
Será desfavorecidos se for excluídos do engajamento?
É uma parte interessada da cadeia de valor que é afetada.
Quadro 2: Identificando os stakeholders. Fonte: Baseado na ABNT (2010).
A GRI (2007) leva em conta essas questões estruturando-as nos fatores de responsabilidade, influência, proximidade, dependência e representatividade.
AA1000 (2011) considera para identificação sistemática de stakeholders o escopo do trabalho e podendo ser guiado por atributos das partes interessadas. Assim como o GRI, a AA1000 considera como atributos a responsabilidade, influência e a dependência, e também os de tensão e de diversas perspectivas.
Os atributos dos stakeholders são respectivamente, quanto a grupos ou indivíduos que: são direta ou indiretamente dependentes da organização ou em quem a organização é dependente a fim de operar; a quem a organização tem ou poderá ter responsabilidades jurídica, comercial, operacional ou ético/moral; podem ter impacto sobre a organização ou interessados na tomada de decisão estratégica ou operacional; que precisa de atenção imediata da organização em relação a questões financeiras, econômicas, sociais ou ambientais; pontos de vista diferentes podem levar a uma nova compreensão da situação e da identificação de oportunidades de ação (AA1000, 2010).
2.2.1.2. Classificação e priorização dos stakeholders
Os stakeholders interferem direta ou indiretamente na sobrevivência das organizações. Os que interferem ou são afetados diretamente são chamados de
stakeholders primários; e os indiretamente, chamados de stakeholders secundários.
Estas intervenções ocorrem na manifestação, segundo Mitchel, Agle e Wood (1997, p.873-874), dos atributos de poder, legitimidade e urgência. Os tipos de atores emergem destes três atributos que combinados deram origem a sete tipos de atores, conhecidos como os stakeholders: adormecido, arbitrário, reivindicador, dominante, perigoso, dependente e definitivo conforme pode ser observado na Figura 2. Os autores também falam dos não-stakeholders que são os atores que não possuem nenhum destes três atributos e por isso não são considerados relevantes para as organizações.
Figura 2: Tipologia Stakeholder: Um, dois ou três atributos presentes. Fonte: Mitchel, Agle e Wood (1997, p.874, tradução nossa).
Essa tipologia permite a classificação conforme os atributos e os tipos de atores, possibilitando uma melhor visibilidade das potencialidades dos atores que podem mais impactar ou serem impactados pelas organizações; podendo assim se estabelecer uma priorização destes.
Uma outra classificação é proposta por de Savage (1991) para o qual os
stakeholders estão estruturados em quatro classes, conforme o seu potencial de
ameaçar e o de colaborar com a organização. Para cada tipo definido - dispostos, marginais, não dispostos e ambíguos - vide Figura 3, é traçada uma estratégia de atuação diferenciada.
Figura 3: Potencial dos stakeholders
2.2.1.3. Diálogo e engajamento dos stakeholders
O reconhecimento das partes interessadas é fundamental para as organizações, mas, em si só não é tão significante se não for realizado um engajamento dos mesmos. E neste estágio inicial de identificação que muitas empresas acabam ficando. Conhecer a sua teia, mapear a sua cadeia de valor, é só o inicio desta jornada para quem tem como objetivo a adoção de uma gestão por stakeholders como um caminho de aprendizado e que enxerga as vantagens e possibilidades desta relação.
De acordo com AA 1000 (2011), as organizações passaram a usar o engajamento como uma medida preventiva, que ajudasse a resolver problemas na identificação de riscos e gestão, sem a adoção de um mecanismo reacionário. E descobriram que o melhor entendimento com as partes interessadas poderia trazer melhoria para o seu desempenho e contribuir para a sua licença de operar.
Fazer o levantamento das expectativas e interesses; bem como conhecer os conteúdos inerentes aos mesmos, são passos importantes para traçar o perfil de cada público e, dentro do papel das empresas, criar uma esfera de atuação conjunta, engajando para o atendimento de interesses coletivos e beneficio da sociedade como um todo.
A norma ISO 26000 (ABNT, 2010, p.16) conceitua o engajamento de partes interessadas como “atividade realizada para criar oportunidades de diálogo entre uma organização e uma ou mais de suas partes interessadas visando fornecer uma base sólida para as decisões da organização”. De acordo com Rocha e Goldschimt (2010, p.29) o adequado engajamento dos stakeholders pelas empresas pode trazer diversos benefícios como:
A identificação das demandas de públicos importantes; A antecipação e o gerenciamento de conflitos;
A melhoria da compreensão de impactos, de riscos e oportunidades, levando em consideração a opinião de pessoas externas à empresa;
A construção de consensos a partir de diferentes pontos de vista;
A obtenção de informações que ajudam a melhorar processos internos e de tomada de decisão;
A construção de laços de confiança entre o público engajado e a empresa; O aumento do conhecimento dos stakeholders sobre as ações e os resultados
da empresa.
A adoção de alguns instrumentos de gestão socioambiental contribui para o fortalecimento do relacionamento com as partes interessadas. É o caso do uso dos relatórios socioambientais ou balanços sociais cujo produto em si é uma ferramenta de diálogo e de transparência da gestão praticada para a suas partes, e cujo envolvimento dos mesmos no processo oportuniza a participação e aprendizagem social. Outro exemplo está na utilização de códigos de ética e de conduta, onde são estabelecidos os acordos da relação com base nos princípios e valores mútuos, devendo assim ser construídos em conjunto.
Para gerir o relacionamento com tantos públicos é imprescindível se pensar no como se lidar, na forma como a teia dos atores sociais será tecida. É preciso refletir numa forma de administrar a inserção, o dialogo e participação dos stakeholders de modo democrático, na práxis da cidadania individual e empresarial, para consolidação desta plataforma de multi-atores sociais. Assim, é que será discutido, a seguir, a gestão participativa.