3.1 Calibration du banc-prototype
3.1.4 Caract´erisation du SLM
Esse foi um encontro que tinha como pretensão reunir jovens de várias ocupações nas quais as Brigadas Populares tinham atuação. Inicialmente, a tentativa era de trazer jovens do interior, das cidades de São João Del Rey e Timóteo, mas, ao final, participaram somente os jovens das Ocupações Dandara e Guarani Kaiowá32.
O encontro era uma ação pensada havia algum tempo e o ano de 2013 culminou com a possibilidade de sua ocorrência. O local escolhido foi um sítio na cidade de Rio Acima, de propriedade da família de um dos membros das Brigadas e que foi emprestado sem custo. A data foi entre os dias 30 de maio e 02 de junho do ano de 2013, de quinta a domingo. O transporte foi feito por meio de uma Kombi emprestada pelo tio de uma militante das Brigadas, bem como alguns carros de outros membros. O total de jovens girou em torno de 25, de ambas as comunidades. A organização do encontro teve que contar com a ajuda de todos os membros da Frente de Juventude, que fizeram festas para arrecadar dinheiro e mobilizaram mantimentos na comunidade para a alimentação.
Esse foi um encontro com o objetivo de promover uma formação política dos jovens que atuavam nas ocupações urbanas, por meio de discussões referentes às comunidades, trocas de experiências e também lazer. Como o sítio contava com piscina, sauna e quadra de esportes, um grande número de jovens se interessou em participar. Parte deles não tinha tido ainda nenhuma relação com a Frente de Juventude e o sítio era o maior mobilizador. Diante do número de interessados, houve uma reunião na Frente de Juventude para debater sobre a situação e partiu dos próprios jovens a decisão de qual era o critério para participar, ou seja, estar atuando na Frente, tendo em vista que, na opinião deles, as outras pessoas somente estavam se aproximando pelo sítio. Além disso, houve um outro problema, os jovens também decidiram que Dorothy não iria porque ela estava afastada havia algum tempo das atividades na Dandara. Isso gerou uma tensão grande, que
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Ocupação Guarani Kaiowá: Ocupação na cidade de Contagem (MG), próximo ao bairro Ressaca, na qual as Brigadas Populares também estavam atuando. No momento do Encontro, a comunidade estava com dois meses de tempo de ocupação.
envolveu até mesmo a mãe da jovem, que é membro de outra Frente, e que queria garantir a ida da filha. Mesmo assim foi mantida a decisão do grupo. Após o encontro as coisas voltaram ao normal e Dorothy retomou sua atuação mais próxima da Frente de Juventude da Dandara (Caderno de Campo – Maio de 2013).
Nos meses que antecederam ao encontro, a grande preocupação dos jovens mais velhos que estavam responsáveis pela organização era exatamente o que iria acontecer. Algumas reuniões foram feitas com esse objetivo e inúmeras questões foram levantadas. Uma coisa central nos debates era que não se conseguiria manter os jovens somente envolvidos em oficinas o dia inteiro, portanto, a diversão também teria seu momento, mesmo porque era o que eles mais esperavam.
No sítio, a chegada se deu na quinta-feira à tarde, quase noite, então não foi feito nada nesse dia. Somente a preparação dos quartos e as divisões dos alojamentos, meninos e meninas separados e sob os cuidados dos mais velhos. No dia da chegada teve somente o jantar, feito pela mãe de uma das jovens que tinha ido participar para ajudar na cozinha e foi também liberada a piscina. Até tarde da noite se ouvia pulos na piscina, muito barulho, brincadeira, zoação. Os jovens foram dormir bem tarde.
No outro dia pela manhã, as atividades se iniciaram às sete e trinta com o dejejum. Posteriormente, todos se dirigiram para o espaço das atividades e foi feita uma rodada de apresentações. Logo após foram feitos os combinados, sendo que todas as regras partiram das discussões com os próprios jovens. Em relação à organização do espaço, ficou decidido que cada um cuidaria das suas coisas, que nada ficaria jogado, que o lixo deveria ir para o lixo, que os pratos, copos e talheres que fossem usados deveriam ser lavados por quem os utilizasse. Nesse momento surgiram muitos risos, vários meninos foram zoados, pois disseram que não faziam isso em casa, mas o grupo disse que lá eles teriam que aprender. Além das questões de organização, foram acordadas também as regras para a boa convivência, o respeito ao outro, não fazer brincadeiras de mau gosto, falar palavrão, apelidos, entre outras coisas que os jovens definiram (Caderno de Campo – Maio de 2013). Essa é uma importante dimensão dessa experiência de encontro com os jovens de outras ocupações. Os jovens, ao ter que colocar em debate, coletivamente, os acordos e as regras, se comprometem com o evento, mas também
com o grupo. Acredito que tal situação tenha promovido a aproximação daqueles que inicialmente se mantinham afastados por ainda não se conhecerem.
Na parte da tarde foram feitas algumas discussões, em forma de oficinas e debates sobre temas como gênero, questões relacionadas às ocupações, às desigualdades sociais, entre outras. Percebia-se que a zoação, recorrente nas reuniões, foi potencializada com a presença de jovens que não se conheciam e se tornaram colegas. Outros, muito tímidos, se furtavam a falar, gaguejavam e escondiam os rostos com as mãos. Ao final da atividade a coisa já estava mais solta e a maioria dos jovens estava participando. Ao final do dia, ao conversar com Maria, Beatriz, Zilda e Milton, eles disseram que estavam muito cansados, que era muito difícil prender a atenção dos jovens e que esse tipo de atividade tomava muito de suas forças, mas que valia à pena.
À noite novamente piscina liberada, contando também com sauna. Uma grande diversão. A maioria dos jovens nunca tinha estado em uma sauna, não sabia nem do que se tratava. Alguns estavam querendo entrar de roupas, outros dizendo que aquilo ali estava muito quente e que podia fazer mal, alguns ficaram lá dentro muito pouco tempo e saíram dizendo que não conseguiam respirar. Quando dito para eles que era hábito sair da sauna e tomar uma ducha, um dos jovens disse que não faria isso porque tinha medo de ficar “todo torto”. Rapidamente, a novidade da sauna deu lugar à festa na piscina e todos foram nadar, novamente até tarde: mergulhos, saltos, brincadeiras etc.
No sábado pela manhã, estava marcada uma troca de experiências, uma conversa entre os jovens para discutir os problemas de suas comunidades. Percebi na conversa que os problemas eram similares nas ocupações: falta de água e saneamento, dificuldades no diálogo com o poder público, violência vivida pelos jovens. Nos depoimentos, os jovens da Dandara fizeram menção ao caso de violência policial que sofreram. Conforme vimos, alguns policiais começaram a perseguir e fazer revista diariamente em jovens que ficavam na porta da escola após levarem as namoradas para estudar. Ações violentas, abruptas, gritos e xingamentos caracterizavam a forma como os jovens eram abordados. Segundo os jovens, tal ocorrência era motivada por uma denúncia da diretora, que dizia aos policiais que eles estavam ali para roubar os carros dos professores e traficar drogas. Após algumas ameaças, os jovens, com auxílio dos advogados das
Brigadas Populares, denunciaram tais policiais na Corregedoria da Polícia e no Ministério Público. As batidas acabaram, mas alguns policiais ligaram para os jovens e para seus pais para que eles retirassem as denúncias. Ao final não houve uma resposta cabal em torno da questão por parte da Corregedoria ou do Ministério Público, mas as batidas na porta da escola não mais aconteceram, mesmo porque eles também começaram a evitar aquele lugar.
Um outro depoimento forte em relação à violência foi dado por um dos jovens da Guarani Kaiowá e prendeu a atenção de todos. O jovem relatou que a ocupação fica próxima a um local de venda de drogas e que diariamente os policiais davam batida e revistavam os jovens da ocupação, mesmo os que não se envolviam com drogas. Um dia ele estava andando de bicicleta e foi abordado pelos policiais, estava sem documentos e os policiais disseram que ele tinha ido buscar drogas, mas nada foi encontrado. Mesmo dizendo que isso não era verdade, os policiais o ameaçaram todo o tempo, colocaram-no na viatura policial e o levaram para um lugar ermo. Nesse lugar, bateram muito no jovem, torturaram, deram socos e chutes, até que o jovem desmaiou. Ao rememorar o caso, o jovem se emocionava, ficava com a voz embargada, quase chorava. A indignação maior era porque ele disse que era inocente e porque não aconteceu nada com os policiais depois. O jovem, inclusive, não teve coragem de denunciá-los.
Um elemento importante em ambas as situações e que fomentou uma discussão no coletivo de jovens é o fato de os envolvidos serem todos negros. Tal fato nos coloca diante da violência policial cotidianamente vivida pela juventude negra e pobre em nossa sociedade. De acordo com Reis (2002), “a polícia termina por reproduzir políticas racial e socialmente discriminatórias, em nome de uma suposta ‘vontade geral’, apoiada por grande parte da sociedade” (p. 183), uma vontade geral de manter o pobre e negro sob controle, no seu gueto, à margem da sociedade. A mesma autora diz ainda que a maioria dos policiais pertence às classes urbanas pobres e marginalizadas, o que não impede que considerem os indivíduos como suspeitos a partir de sua cor, sua vestimenta, seus cabelos, seu linguajar, sua classe social. Isso faz com que bairros pobres sofram maiores intervenções policiais. “A segregação física dos bairros populares resulta numa discriminação social, segundo a qual dentro do bairro todos são marginais e fora
dele todos são suspeitos” (REIS, 2002, p. 185). Caminhando ainda nessa seara, a autora diz que:
Tecnicamente, uma abordagem policial, por si só, não pode ser considerada como um caso de discriminação racial ou social, a menos que seja seguida de uma injúria referente à cor da pele ou à posição social do abordado. O fato, entretanto, é que essa abordagem, quase sempre violenta, é baseada na aparência física e nos lugares considerados suspeitos. Refiro-me aqui, não apenas à violência física, mas também à violência simbólica, ou seja, o constrangimento de ter o corpo revistado em público, os documentos exigidos e, em muitos casos, ser conduzido até a delegacia de polícia. (REIS, 2002, p. 194).
Um elemento central na condição juvenil dos jovens dessas ocupações está explícito em sua pele. O fato de serem negros incide diretamente na possibilidade de sofrerem violência, sendo esses as maiores vítimas de mortes e assassinatos violentos de acordo com o Mapa da Violência (WAISELFSZ, 2015) no Brasil. O fato de esses jovens se encontrarem e perceberem que essa é uma condição não exclusiva de sua ocupação repercute diretamente na forma como ler e interpretar a realidade social em que estão inseridos. Nesse sentido, o encontro, para além de um espaço de socialização, foi também um espaço de trocas e discussões em torno da condição juvenil dos jovens moradores das ocupações urbanas.
O encontro entre os jovens das ocupações foi muito importante para a pesquisa, permitindo observar os jovens pesquisados na relação com outros jovens e estabelecer parâmetros de comparação entre experiências participativas diferentes. Os jovens ressaltaram a possibilidade de conhecer outras pessoas, de conhecer os problemas de outras comunidades e também a oportunidade de diversão e descontração. Uma outra coisa que percebi é que o fato de os jovens da Dandara já estarem há mais tempo envolvidos nas experiências participativas relacionadas às ocupações urbanas (a ocupação tinha na época quatro anos) incide diretamente na vivência do processo. Como os jovens da Guarani eram recém inseridos nesse tipo de atuação, eles tiveram um pouco mais de dificuldade de se adaptar, de respeitar os horários e as regras e de se envolver nas atividades. Várias vezes tiveram que ser alertados quanto ao cuidado com suas coisas, brincadeiras perigosas na piscina, limpeza dos talheres e utensílios usados por eles. Nas entrevistas, essas questões emergiram e alguns dos jovens disseram o que perceberam. De acordo com Beatriz:
Os jovens da Dandara já estão mais tempo acostumados a estarem em espaços como esse, já foram em mais espaços de formação, não todos mais a maioria dos meninos, do que os meninos da Guarani. Então, eles [os jovens da Dandara] já conseguem concentrar mais, a Frente já está mais consolidada, fazendo reunião todo sábado, então sabem que eles têm que subir lá de caderno ou não, tem que prestar atenção. Por mais que eles falem que está chato, eles participam, eles já estão acostumados com esses espaços. [...] Além do que, os meninos da Guarani, muitos deles nem estudaram né? Desistiram dos estudos muito cedo. Então isso dificulta [...]. E os da Dandara não, eles estão estudando ainda, eles são mais novos... Mas o principal, eu acho que é o tempo de militância, se você for medir dos dois [Dandara e Guarani] e o tanto que esse tempo de militância proporcionou para eles, ao acesso a momentos de formação e que expandiu a consciência deles também. Você vê o Paulo, ele é um menino novo, de 15 anos, que faz uns debate muito massa, ele é um dos que mais pauta as coisas.
A fala da jovem nos sinaliza um posicionamento importante em relação ao tempo de militância, as oportunidades experienciadas em função dessa vivência e a influência no processo de concentração e formação dos jovens. Outra questão mencionada se refere à escola. Por mais que a formação na Frente de Juventude assuma características bem diferentes da escola, o hábito e a experiência de ter passado pela escola é um fator que influencia, de acordo com a jovem. Em relação à questão do tempo acreditamos que os envolvidos têm tempos diferentes de militância e isso incide diretamente na militância, mas acreditamos que podem também ter tempos diferentes no próprio processo de apropriação, que vai variar de um para outro mediante suas experiências prévias, inclusive escolares, seus interesses, seus comprometimentos. Independentemente das diferenciações podemos dizer que tal encontro foi um espaço de formação e diversão recorrentemente lembrado nas conversas informais dos jovens da Dandara.