8. Assemblage et packaging de capteurs
8.5. Capteur infrarouge pyroélectrique
Findo este percurso em torno da panóplia de cenários e soluções funerárias que o registo arqueológico tem permitido documentar, encaramos a variabilidade apreciada como um reflexo das diversas ascendências em palco e, naturalmente, também da imperfeita orga‑ nização do povoamento coevo, sobretudo no mundo rural. Disperso e efémero, acabaria por influir na natureza e nas características dos enterramentos: como se a volubilidade que envolvia os vivos acabasse por «contaminar» as formas de inumar os mortos, parecendo, por vezes, que algumas das opções detetadas configuravam como que simples adaptações à realidade concreta de um dado espaço.
De qualquer modo, há vetores essenciais a realçar para o período em estudo: por um lado, a progressiva aproximação dos dois mundos, o terreno e o das «sombras», consubs‑ tanciada na penetração das áreas funerárias em ambiências que, durante centúrias, lhes haviam sido vedadas; por outro, a evolução dos enterramentos, plasmada numa dinâmica que oscila entre uma linha de continuidade e a tensão suscitada pela introdução de renova‑ dos pressupostos, nem sempre isentos de contradições, mas que vão germinando e acom‑
902 GONZÁLEZ VILLAESCUSA, 2001: 91.
903 VIZCAÍNO SÁNCHEZ, 2007 [Ed. 2009]: 559.
904 GONZÁLEZ VILLAESCUSA, 2001: 91.
905 GONZÁLEZ VILLAESCUSA, 2001: 91.
906 A interpretação proposta por Isabel Fernandes acerca dos pregos recolhidos na necrópole da Herdade dos Pombais
(Marvão) apresenta ‑se em consonância com esta leitura: «[…] O aparecimento destes pregos pressupõe, sem dúvida, a utilização de caixões ou padiolas nos rituais funerários da época […]» (FERNANDES, 1985a: 105).
panhando as mudanças de perspetiva face à «incorporação» dos mortos no território da vivência quotidiana. Naturalmente que os moldes e ritmos despendidos por tais processos foram distintos e responderam a uma série de condicionantes, decorrentes, elas próprias, de múltiplas variáveis e, inclusive, das especificidades dos substratos previamente cristalizados. Na verdade, o que se nos afigura claro é que estamos longe de perspetivar um pano‑ rama homogéneo e linear. Ao longo dos séculos VI e VII, os domínios do familiar e do privado subsistiam fortes e preponderantes, deixando alguma margem de «liberdade» aos indivíduos para deliberarem e definirem os seus caminhos, os quais podiam resvalar, como dizíamos acima, em soluções casuais e adequadas a circunstâncias muito particulares. A Igreja, por seu turno, ocupada em conter ou limitar os costumes ditos pagãos, tardou a interferir nas dinâmicas mais «pessoais» da morte, mesmo que estas resultassem em «des‑ vios» à doutrina. Talvez por isso e se bem que condenando explícita e reiteradamente os banquetes funerários907 ou as canções fúnebres908, não tenha chegado a proibir a inclusão de adornos nos túmulos ou a deposição de oferendas votivas.
Provavelmente ciente das dificuldades em adotar posições mais exigentes, do ponto de vista da ortodoxia, a Igreja optou por restringir a sua «atuação» e os esforços de implemen‑ tação de interditos às situações em que, declaradamente, emergiam ameaças ao «monopólio espiritual» que pretendia alcançar. Assim sendo, foi concedendo primazia à anulação das tentativas de ingerência nas relações entre o mundo dos vivos e os poderes espirituais909, tardando até se aventurar a regular outras esferas.
907 Vejam ‑se as disposições veiculadas pelo cânone LXIX do II Concílio de Braga, celebrado em 572: «[…] No está permitido a
los cristianos llevar alimento a las tumbas de los difuntos, ni ofrecer a Dios sacrificios en honor de los muertos […]» (VIVES, 1963: 102). Acrescente ‑se, em paralelo, que também fora do âmbito peninsular, este mesma prática foi reprovada; assim o atesta, por exemplo, um dos artigos preconizados pelo Concílio de Tours, de 567: «[…] Quelques ‑uns continuant les anciens errements portent à manger aux morts pour la fête de Saint Pierre […] et mangent des légumes secs offerts aux démons. […]» (ROUCHE, 1989: 489).
908 Em conformidade com a determinação XXII proclamada do III Concílio de Toledo, de 589: «[…] Los cuerpos de todos
los religiosos que llamados por Dios parten de esta vida, deben ser llevados hasta la sepultura entre salmos solamente […] y prohibimos terminantemente las canciones fúnebres que ordinariamente suelen cantarse a los difuntos y que los familiares y los siervos les acompañen entre golpes de pecho. Baste, pues, que en la esperanza de la resurrección de los cristianos, se tribute a los restos mortales el homenaje de los cánticos divinos, puesto que el apóstol nos prohíbe llorar a los difuntos […]» (VIVES, 1963: 132 ‑133).
tentação firme da inclusão de algumas delas acabou por impor o seu afastamento. Todavia, não poderíamos deixar de constatar que, por um lado, as necrópoles aqui apresentadas não se encontram isentas de informações ambíguas, daí que nem sempre tenhamos logrado deslindar todas as interrogações que o seu estudo nos suscitou; e que, por outro, não é de excluir que certas áreas funerárias, acerca das quais o conhecimento é, por ora, dema‑ siado parco ou frágil, venham afinal a evidenciar ‑se como seguramente consonantes com o âmbito que aqui nos ocupa.
Feita esta ressalva, fixemo ‑nos então nos critérios que justificaram a inserção ou o arredamento de determinadas necrópoles. A cronologia constituiu, naturalmente, o pri‑ meiro ponto de aproximação. Contudo, abordar a totalidade dos cemitérios datáveis do intervalo compreendido entre os alvores do século V e os do VIII seria assumir que a rea‑ lidade funerária do território atualmente português representa um cenário homogéneo e sempre relacionável com a chegada de grupos populacionais exógenos, presunção eviden‑ temente errónea. Por conseguinte e, ao progredir na leitura das descrições de contextos coadunados com diferentes universos cemiteriais, foi ‑nos possível alienar os que radicavam exclusivamente na tradição romana, fundamentalmente discerníveis através do tipo de ele‑ mentos contidos nos sepulcros.
Em paralelo, outra das «chaves» para a eliminação assentou na ausência total de mate‑ rial associado a enterramentos, fosse ele votivo ou de adorno, vocacionado para o atavio do corpo ou vestuário. Com efeito e, não raro, identificámos necrópoles cujos túmulos se pautavam por um completo vazio, eventualmente decorrente, nalguns casos e, em con‑ formidade com indicações recolhidas, da violação das câmaras. Noutras situações, porém e reconhecendo ‑se intactas as sepulturas, a penetração da ideologia cristã e, porventura, a necessidade de dar cumprimento a disposições conciliares, poderiam afirmar ‑se como hipóteses válidas para explicar a ausência de espólio. Não obstante, e ainda que não sendo forçosamente inverosímil que algumas dessas necrópoles pudessem, na verdade, ter pos‑ suído algum tipo de conexão com grupos exógenos, não há como prová ‑lo, atendendo à inexistência de testemunhos. E, de qualquer modo, o estabelecimento de propostas de data‑ ção para tais contextos reveste ‑se de complexos problemas, daí que, frequentemente, se lhes atribuam cronologias «indeterminadas» ou, em alternativa, inscritas entre balizas excessi‑ vamente latas e, como tal, passíveis de abarcar diversas possibilidades.
Assim, e crescentemente, foi ‑se delineando como incontornável a procura de um pata‑ mar em que se articulassem, de forma coerente, uma série de variáveis: a localização e orga‑ nização das áreas funerárias, as características construtivas e de implantação dos sepulcros, o eixo segundo o qual se orientavam e, acima de tudo, a presença de um determinado corpus de materiais depositado no seu interior. De facto, e por si só, os primeiros pontos enuncia‑
dos não garantiam a afinação desejável; apenas se conjugados com a ocorrência de certos artefactos se poderia então atingir algum grau de fiabilidade.
Foi na análise das conexões entre tais vetores que nos movimentámos. E, neste sentido, as necrópoles que resistiram ao exigente processo de triagem imposto ao arrolamento que, paulatinamente, havia sido elaborado, representam um conjunto cujas singularidades se mostraram substancialmente sólidas910.
Esclarecida a fundamentação que orientou os nossos procedimentos, cabe ‑nos expli‑ citar que os sítios a estudar em profundidade e que surgem dispersos pelo território por‑ tuguês, serão apresentados em função do seu posicionamento geográfico, em avanço pro‑ gressivo de norte para sul e de poente para nascente. Para clarificar a organização interna, subdividimos o território em três interflúvios: a norte do Douro, entre o Douro e o Tejo, e a sul do Tejo.