Os gerentes entrevistados relatam que utilizam suas competências interpessoais para desenvolver uma rede de relacionamento com as pessoas que o cargo o torna dependente. Essa rede é empregada para ajudá-las a criar e atualizar uma agenda organizacional, mobilizar recursos, pessoas e saberes dentro de um contexto profissional. Assim, fica claro que eles possuem competência social e empregam-nas no seu contexto prático-social, ao interagirem com seus pares, subordinados e demais stakeholders.
A competência social, inicialmente, envolve ter autonomia e assumir responsabilidades (ZARIFIAN, 2001, p.147). Verificou-se que Tavares, gerente de marketing e comunicação social, empreende esforços para desenvolver esses dois aspectos em sua equipe (trabalho em equipe), pois ele acredita que a responsabilidade dos resultados obtidos
pela área deve ser atribuída a todos os indivíduos que a compõe. Ademais, nota-se que, como gestor, busca envolver e orientar as pessoas para a consecução dos resultados a serem alcançados pela sua gerência, conforme pode ser evidenciado na seguinte fala:
[...] eu peço que assumam mais a responsabilidade de trazer o resultado, e não trazer o problema, de preferência duas ou três opções de resultado. Se trouxerem o problema, continuo sendo uma pessoa amarrada e digo-lhes que lugar bom é quando o chefe não está e ela [a empresa] funciona [...] Ganhamos mais autonomia [...] os outros superintendentes reconhecem o status da superintendência regional, reconhecem e acatam as nossas orientações. (TAVARES)
Essa percepção de que os gestores apresentam alguns dos elementos que compõem a competência social é confirmada por meio das entrevistas realizadas com os coordenadores. A maioria dos entrevistados concorda que seus gestores utilizam a competência social no desempenho de suas atividades.
O gerente [Nilson] tem suas principais competências para resolver quando é requerido: firmeza em suas decisões, conhecimento técnico daquilo que gerencia, dedicação àquilo que executa ou se compromete a executar, responsabilidade com a garantia da operação e segurança das atividades desempenhadas e, dentre outras, a capacidade de delegar atividades para a sua equipe. (CLÁUDIO)
Observa-se nos relatos que os gestores acreditam que o sucesso de um profissional está alicerçado mais na sua habilidade de estabelecer relacionamentos com as pessoas do que no seu conhecimento técnico. Ou seja, o desempenho não está atrelado necessariamente ao domínio da área de atuação, mas na sua capacidade de utilizar suas habilidades interpessoais para gerar resultados por meio da mobilização de pessoas e recursos.
[...] o relacionamento, no meu entendimento, é fundamental. Hoje, eu diria para você que o sucesso de alguém está na inteligência mediana, muita capacidade de comunicação e um pouco de sorte, mas muita comunicação. (TAVARES)
Essa idéia é confirmada por Rosângela, gerente de administração, que afirma categoricamente que o fator preponderante no seu desempenho como superintendente do Aeroporto de Paulo Afonso foram os relacionamentos que havia estabelecido com os gestores da Regional, da sede e com alguns empregados do aeroporto que a estavam recebendo. Ela reconhece que apesar de não dispor de todos os conhecimentos necessários para o desenvolvimento da função, utilizou-se da sua rede de relacionamento para desempenhar suas
atividades. Ela ainda destaca que suas habilidades de comunicação e de relacionamento com as pessoas são uma de suas principais características, ou seja, competência, conforme narra: “se não fosse o meu relacionamento com todas essas áreas, acredito que o meu desempenho lá não teria sido tão bom”.
Paulo, gerente de tecnologia da informação, por sua vez, reconhece que a maior dificuldade na função de gestor é gerenciar os conflitos interpessoais. Para ele, o gestor precisa utilizar sua habilidade interpessoal para envolver os indivíduos, de forma que eles se comprometam com os objetivos da empresa e prestem o melhor serviço para os clientes internos e externos. Nesse ponto, ele considera que consegue estabelecer um bom relacionamento com sua equipe: “Em termos de relacionamento e em termos de desempenho de atividades, estou muito satisfeito, nunca preciso me desgastar com ninguém, de ter de dar bronca, de chamar atenção”.
Noel (gerente de segurança) e Nilson (gerente de operações) enfatizam em seus relatos a importância do estabelecimento de um bom relacionamento com as demais áreas da empresa e com seus gestores, pois suas áreas estão necessitando constantemente de recursos ou serviços. Ademais, como lidam com situações de conflitos, problemas operacionais e situações de crise, eles destacam que a competência social — autonomia, assumir responsabilidade, comunicação, negociação e trabalho em equipe são fundamentais para resolver as questões com os vários stakeholders: empregados, lojistas, empresas aéreas, contratados e demais membros da comunidade aeroportuária, que ocorrem quase cotidianamente.
Até porque você trabalhar com relacionamento interpessoal é gerenciar crise. Mesmo que seja dentro da área, com empresários e por aí vai. Porque você saber gerenciar a crise, seja uma coisa pessoal, seja uma coisa profissional é muito interessante (NILSON)
Apesar de se evidenciar nos relatos que a maioria dos entrevistados apresenta competência social, por outro lado, verifica-se a existência de problemas envolvendo os relacionamentos entre as áreas. Essa questão é tratada de forma muito sutil por Tavares:
[...] as áreas não se comunicam, quem se comunica são as pessoas. Sendo assim, são elas que precisam ser mais humildes e se comportar como servidores, [...] não existe a cultura da humildade. Servir é ser humilde, mas não quer dizer que atender bem é fazer tudo que a pessoa quer. (TAVARES)
Por outro lado, no que concerne à utilização pelos gestores da competência de relacionamento, foi interessante constatar que, apesar de todos reconhecerem a relevância do estabelecimento de redes de relacionamentos com gestores, superiores, empregados, demais
stakeholders e de afirmarem a importância de pô-las em prática no cotidiano para a execução
de suas atividades, mobilização de recursos e de pessoas e resolução de problemas, esse parece ser um dos aspectos a ser melhorado entre esses gestores.
Portanto, fica claro nos relatos que os gestores podem servir-se da competência social para estabelecer redes que os ajudam no desempenho de suas funções. Isso nos leva a crer que o potencial da competência social é imensurável e se for utilizado com coerência, habilidade e maestria, torna-se um meio poderoso de obtenção de informações e resolução de problemas. Ademais, acredita-se que essa competência também pode ser desenvolvida por meio do processo de aprendizagem, mediante cursos específicos para o corpo gerencial da empresa.