• Aucun résultat trouvé

Chapitre VIII Conclusions et perspectives

Annexe 3 Calibration Andor + Tria

Palmer (1996) propõe uma lingüística cultural, resultado e síntese da Lingüística Boasiana, da Etnosemântica e da Etnografia da fala. Segundo ele, essas três aborda- gens são centrais para a Lingüística Antropológica e, articuladas, representam a Lin- güística Cognitiva.

Palmer assume a pré-existência de um mundo que independe do indivíduo e que pode ser representado pelo “Imaginário” (Imagery) como imagens mentais:

Este mundo imaginado às vezes representa aproximadamente o que apre- endemos de nossa experiência diária, mas não é confiável nesse aspecto; muitas das vezes ele nos apresenta realidades alternativas e mundos de fantasia baseados na mitologia ou teorias improváveis. (PALMER, 1996:3, tradução nossa2)

(...) a lingüística cultural não está preocupada em descrever como as pessoas falam sobre alguma realidade objetiva, mas em descrever como falam sobre o mundo que elas mesmas imaginam. Porém, até mesmo essa formulação levanta questões interessantes sobre como as pessoas representam as ex- periências e os significados abstratos. (PALMER, 1996:36, tradução nossa3)

Sua intenção é trazer à lingüística cognitiva formalista, na qual ele inclui o nome de Langacker (1987), uma aplicação direta à linguagem e à cultura. Segundo Palmer, o Imaginário, apesar de não explicar tudo sobre a linguagem, pode esclarecer muitos de seus usos e domínios por meio da consideração de seu papel. Seu argumento principal

2 This imagined world sometimes closely represents what we ap prehend from direct daily experience,

but it is not very reliable in that respect; much of the time it presents us with alternative realities and fantasy worlds based on mythology, or soap opera, or unproven theories.

3 Cultural linguistics is primarily concerned not with how people talk about some objective reality, but

with how people talk about some objective reality, but with how they talk about the world that they themselves imagine.

é o de que a semântica, a sintaxe e até mesmo a fonologia podem ser entendidas em termos de uma única teoria sobre um imaginário mental culturalmente definido.

Segundo ele, o conhecimento cultural sempre toma forma de modelos cognitivos ou esquemas que organizam conhecimentos de assuntos que são recorrentes. O mode- lo cognitivo ou esquema é culturalmente variável porque, segundo ele, o significado não existe em um vácuo. O significado é situado em um contexto cultural que o modifica.

Embora se centre na questão da interferência cultural na construção de modelos cognitivos, Palmer admite que “mesmo discursos situados lidam com símbolos lingüísticos convencionais”. Isso quer dizer que os símbolos, modelos cognitivos ou esquemas são convencionados entre pessoas de uma mesma comunidade lingüística. Existe, portanto, uma estabilidade de significados que é determinada consensualmente em uma cultura ou tradição. Essa estabilidade determina padrões, a que chama de significado situado.

E esses padrões contrapõem-se ao que Palmer denomina significado emergen- te, que “envolve a esquematização de experiências relativamente novas e desconheci- das e o seu framing ou interpretação em termos de categorias convencionais.” O paradigma do significado emergente, se levado ao extremo, pode, segundo ele, tornar- se insustentável porque os significados consensuais culturalmente estabelecidos seri- am inúteis e, na verdade, linguagem e cultura nunca existiriam.

Palmer propõe, então, a existência de instâncias representativas, que são o que ele chama indiscriminadamente de modelos cognitivos ou esquemas. Esses modelos são culturalmente convencionados, mas quando não são suficientes para tratarmos de eventos e experiências, entra em funcionamento a habilidade humana de construir significado no discurso: o significado emergente.

Algumas inconsistências podem aqui serem apontadas: se o propósito do mode- lo é trazer uma aplicação das teorias da lingüística cognitiva ao uso da linguagem e à cultura, o significado situado, pelo menos da forma como tratado em Palmer (1996), admite a possibilidade da construção de significado fora do discurso, uma vez que a habilidade humana de construir significado no discurso só entra em funcionamento quando construímos significados emergentes. Isso pressupõe, por exemplo, que os esquemas não são susceptíveis a variações situacionais. Se alguma alteração é feita nesses esquemas, ela se dá fora do discurso, ou “off-line”, se quisermos utilizar uma linguagem computacional.

Essa construção de significado fora do discurso apresenta-se na contra-mão do principal objetivo do autor porque desconsidera o sujeito e sua interação circunstancial

com o ambiente, componentes essenciais na consideração da linguagem em uso e dos aspectos culturais por ele proposta. O significado situado é, na verdade, um meio termo, em que significados convencionais consensuais (representados na forma de esquemas culturalmente definidos) interagem com situações convencionais que são tanto convencionais quanto relativas a situações específicas. O autor admite que exis- tem construções de sentido isentas de situações específicas.

Parece claro que a representação é ponto crucial para a Lingüística Antropológi- ca proposta por Palmer. Aliás, o autor aponta que as representações são importantes também para a Lingüística Cognitiva que ele toma como base para a construção de sua Lingüística Antropológica.

Essa noção de representação como modelo cognitivo ou esquema por ele pro- posta, se aplicada a uma análise de retextualização de textos orais para textos escri- tos, traz algumas implicações importantes.

Na situação de retextualização supracitada, teríamos que considerar que o signi- ficado situado e o significado emergente são concorrentes tanto na interpretação do texto oral quanto na produção do texto escrito. Assim, consideraríamos que, na interação dos interlocutores, haveria uma construção de um significado a partir da recuperação desses modelos cognitivos previamente convencionados culturalmente, e que essa construção dá-se fora do discurso, ou seja, sem a interferência da situação discursiva. Poderíamos dizer, então, que o aluno constrói o significado independentemente de sua interação discursiva com o professor. Essa pressuposição desconsidera o as- pecto interacional que acredito constituir-se um componente importante na construção do sentido.

Palmer, ao abordar imagens e esquemas, pressupõe a existência de uma mente em que são armazenadas essas informações convencionadas culturalmente e buscam uma relação entre os aspectos conceituais e os culturais na construção do discurso.