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Calage et analyse des incertitudes selon la méthode GLUE

É importante ainda destacar uma outra diferença quando se compara a alegoria do drama barroco com aquela construída nas histórias de super-herói: a presença de estereótipos. Dominique Chateau (2015)8 busca definir a palavra estereótipo a partir de sua ligação semântica com dois termos correlatos: protótipo e arquétipo. A palavra tipo, que serve de radical comum às três palavras tem duas acepções, a de “ideal” ou de “completo”. Nesta perspectiva, arquétipo e protótipo teriam, em linhas gerais, o mesmo sentido, de “tipo primeiro”. O arquétipo remete ao início de uma série de séries ou uma série proto-histórica (gênese). Já o protótipo é, como explica Chateau, “uma encenação do real que submete o real a certos parâmetros de esquematização que prefiguram a composição pictórica”. Na verdade, a composição da página de uma HQ acha protótipos em diferentes expressões artísticas como cinema, teatro, pintura e os próprios quadrinhos. O estereótipo, por sua vez, simplifica, fixa e repete protótipos, com o objetivo de integrar os elementos da cena num sistema regulador. É possível dizer que o estereótipo converte o protótipo num esquema invariante e persistente ao longo do tempo.

Com relação à potência arquetípica das HQs, pode aparecer por meio de imagens alusivas a “manifestações do inconsciente coletivo de que nos fala Jung (exemplo: a fecundidade como feminilidade, Gea, Cibele, a deusa-mãe e o eterno feminino em várias religiões).” (Eco, 2008, p. 227). Iuri Reblin (2011) retoma a reflexão de Christopher Knowles, para descrever os principais arquétipos mitológico-religiosos sobre os quais os super-heróis e as superaventuras são constituídos. Ele cita cinco destes arquétipos: o Mago, o Messias, o Golem (arquétipo do anti-herói), A Amazona e a Irmandade. Reblin (2012) aprofunda a discussão sobre o caráter arquetípico dos super- heróis.

Retornemos à imagem ilustrada pela figura 26. Nela podemos perceber a retomada do arquétipo da donzela guerreira, Diana, a deusa da Lua, na mitologia romana (Ártêmis, na grega). Trata-se, certamente, de um arquétipo com adaptações, tendo em vista que a arma da deusa deixa de ser o arco-e-flecha e passa a ser o laço da verdade. Porém, o dourado do laço e do elmo da guerreira não deixam de aludir ao contraponto de Diana, que é Phebo (Apolo), o deus-sol. Como já foi mencionado

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anteriormente, a presença da estrela, no elmo, remete à coroa de estrelas que o livro do Apocalipse atribui à Mulher Revestida de Sol, comumente associada à figura da Virgem Maria (que não deixa de estar relacionada a Diana, a guerreira virgem). Nesta perspectiva, tanto a imagem da Mulher-Maravilha quanto a da Mulher Revestida de Sol promovem uma conciliação entre as imagens arquetípicas opostas da Lua e do Sol e, por extensão, da emoção e da razão; do conhecimento lógico e dos saberes ocultos, da Masculinidade e da Feminilidade.

Toda a história LJA: Um por todos pode, como também já vimos, ser encarada, em função de sua composição simbólica, como uma versão estendida da gravura prototípica A Mulher vestida com o Sol e o dragão de sete cabeças, de Dürer e também como alusão ao Antigo e ao Novo Testamentos (em particular o Apocalipse). Certamente, existem outras influências prototípicas como a gestualidade dramática e grandiloquente das pinturas de Delacroix e Poussin e também a gestualidade das pinturas de santos martirizados.

No que diz respeito ao estereótipo, entendido por Chateau (2015) como algo indispensável para a identificação do cenário genérico, podemos destacar as marcas simbólicas do uniforme da personagem que refletem o nacionalismo norte-americano, a exemplo da águia estilizada estampada no peitoral e das cores e estrelas que aludem à bandeira dos Estados Unidos. O caráter estereotipado confirma-se pelo fato de os estereótipos serem comuns a histórias de diferentes super-heróis como o Capitão América e o Super-Homem. Também têm caráter estereotípico as alusões à estética pin-

up (tomando-se como referência o maiô da personagem) e ao repertório de poses da Femme Fatale. Mas, nesse caso é difícil definir a fronteira entre estereótipo e arquétipo,

tendo em vista que a Mulher Fatal encontra representações na mitologia (Ishtar, Lilith), na própria Bíblia (Dalila, Herodíades), no cinema (Marylin Monroe) e nos próprios quadrinhos em personagens criadas por Will Eisner nos anos 40. Mas, certamente, a própria Muher-Maravilha, desde sua primeira aparição, na década de 40, pode ser considerada um protótipo de Mulher-Fatal (imagem 35).

Imagem 35 – Primeira aparição da Mulher-Maravilha: Revista Sensation Comics,

número 1 (1942)

Perceba-se que, na composição simbólica da imagem, ora em análise, símbolos funcionam como portas abertas para diferentes temporalidades e valores contraditórios. Arquetipicamente, a Mulher-Maravilha alude à imagem da Virgem Amazona, prototipicamente à imagem da santa guerreira (Joana D’arc) e estereotipicamente a uma confusa mistura entre a imagem da Mulher Fatal e atos que refletem a busca por autonomia, típica de uma feminista: Eis a Super-Heroína9.

9 Sobre o conflito entre os ideários machista e feminista na figura da Mulher-Maravilha, vale a pena

Capítulo 3 – Figura e acontecimento: reflexões sobre a intepretação

figural em quadrinhos de super-herói

Antes de, à luz da teorização de Auerbach (1997), refletirmos sobre a noção de

Figura – noção que é também uma proposta metodológica de interpretação, como se

verá ao longo desta discussão –, é oportuno refletir sobre a ideia de semelhança ou, mais especificamente, de similitude. Para isso, nos reportaremos a Foucault (2000) em sua obra As Palavras e as Coisas. Como dirá o pensador francês, até o fim do século XVI, a semelhança desempenhou um papel construtor no saber da cultura ocidental, orientando a representação ou o “jogo dos símbolos” que “permitiu o conhecimento das coisas visíveis e invisíveis, guiou a arte de representá-las” (Foucault, 2000, p. 22). Foucault acrescenta que a semelhança ou similitude é um modo de “organizar as figuras do saber” (2000, p. 22) assim como, no período pós-renascimento, vão se desenvolver outros como o conhecimento taxonômico e o conhecimento codificado por repertórios disciplinares.