Os aspectos que compõem a natureza da pesquisa, sobre os quais versaremos nesta subseção, dizem respeito a fatores metodológicos como o paradigma em que se situa a análise, o método, o raciocínio e o tipo de estudo adotado, bem como a tipologia da pesquisa. Para tratar desses conceitos e relacioná-los à pesquisa que empreendemos, nos baseamos em autores como Kuhn (1998), Turato (2003), Liberali e Liberali (2011), Minayo (2012) e Minayo e Sanches (1993).
Tal como explicita Kuhn (1998), ao situarmos as características de uma pesquisa, é preciso atentarmos para o fato de que essas nunca se encontram “imunes” aos fatores ideológicos, nos quais o pesquisador está inevitavelmente imerso. Assim, consideramos que todo os passos metodologicamente trilhados na elaboração desta dissertação, desde a escolha de nosso tema de pesquisa à seleção de nosso corpus, foram, em certa medida, influenciados por nossas vivências pessoais de natureza acadêmica. Longe de invalidar ou enfraquecer o estudo, essa inegável influência é inerente ao fazer-científico, que, assim como os demais âmbitos do conhecimento humano, está sujeito a determinantes subjetivos na mesma medida em que se sujeita a determinantes objetivos (cf. TURATO, 2003)16.
Tal perspectiva acerca da subjetividade nas pesquisas está relacionada ao paradigma em que se situa nosso trabalho, o interpretativista. Designa-se como paradigma o “conjunto de regras implícitas que regulam aspectos da atividade científica” (LIBERALI; LIBERALI, 2011, p.18). No paradigma interpretativista, compreende-se que todo objeto de pesquisa é multifacetado e que toda pesquisa constitui-se como a investigação de um fenômeno sob determinado prisma. Essa perspectiva de investigação é basilar para a compreensão construída pelo pesquisador quanto ao fenômeno investigado. Compreendemos, dessa maneira, que nosso olhar analítico sobre às aulas e comentários que constituem nosso corpus foi “moldado” pela abordagem textual-discursiva dos CL que orienta teórico-
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Assumir a interferência de fatores subjetivos em uma pesquisa não significa que tais fatores determinem completamente suas conclusões. A descrição dos procedimentos metodológicos adotados, constitui uma maneira de manutenção do nível de objetividade necessário à pesquisa.
metodologicamente nossa trajetória acadêmica, assim como por nossas experiências profissionais, estudantis etc.
A opção por esse paradigma se reflete nas demais características que definem a natureza do presente trabalho, como o método, o raciocínio, o tipo de estudo e a tipologia da pesquisa. Em relação ao método, nossa investigação caracteriza-se como dialética, pois, apesar de apresentar aspectos predominantemente qualitativos – em que “interpretar” e “compreender” são as chaves da análise (cf. MINAYO, 2012) –, utiliza-se da quantificação para apresentar e tratar alguns aspectos relativos aos dados, como a relação entre o número de comentários e estrelas recebidos por uma aula e sua popularidade no Portal, por exemplo. Assim, no método dialético, qualificação e quantificação correspondem a procedimentos complementares (cf. MINAYO; SANCHES, 1993).
No que concerne ao tipo de raciocínio, nossa análise alinha-se predominantemente ao indutivo, pois dá-se a partir das particularidades do corpus selecionado. Como esclarece Liberali e Liberali (2011, p.20), esse tipo de raciocínio “começa com a detecção de padrões ou regularidades para as observações específicas coletadas; parte-se para a formulação de hipóteses que possam ser exploradas e, finalmente, chega-se ao desenvolvimento de conclusões gerais”. Apesar de adotarmos o raciocínio indutivo como predominante em nossa pesquisa, não pretendemos elaborar a partir de nossa análise nenhum tipo de generalização quanto ao trabalho com os CL nas escolas brasileiras, por entendermos a limitação de nosso corpus e acreditarmos que uma conclusão geral acerca desse tema demandaria uma análise muito mais extensa, distinta daquela a que nos propomos.
As características de nossa pesquisa permitem-nos dizer, ainda, que o tipo de estudo em que ela se enquadra é o explicativo de conteúdo (cf. LIBERALI; LIBERALI, 2011), pois a análise de nosso corpus é empreendida com o propósito de possibilitar a apreensão do entendimento dos docentes acerca da prática de AL. Para isso, relacionamos esses possíveis entendimentos às concepções de língua e gramática que emergem nas aulas e comentários analisados, o que nos permite avaliar em que medida a abordagem textual-discursiva dos CL tem contribuído em relação ao que os professores projetam para suas práticas.
Acerca da tipologia, nossa pesquisa é constituída por uma etapa bibliográfica, já que realizamos um estudo da literatura disponível sobre o trabalho com os CL nas
aulas de língua portuguesa, e uma etapa de campo, pois procedemos a coleta e a observação de nossos dados “diretamente no campo em que ocorreram os fenômenos” (LIBERALI; LIBERALI, 2011, p. 26).
Além dos procedimentos metodológicos que descrevemos até aqui, buscamos adotar, durante o desenvolvimento da presente pesquisa, o compartilhamento de etapas do seu desenvolvimento com a comunidade acadêmica, como medida para possibilitar, a partir dessa interação, reflexões sobre a pesquisa e suas possíveis contribuições. Assim agimos em razão de nossa concordância com Popper (1980) em relação ao fato de que toda pesquisa deve, ao longo de sua realização, ser submetida à avaliação, às contribuições e possíveis refutações da comunidade científica. Dessa maneira, apresentamos as primeiras análises de duas aulas que compõem nosso corpus na XXVI Jornada do Grupo de Estudos Linguísticos do Nordeste (GELNE), que ocorreu de 11 a 14 de outubro de 2016 no Recife, sob o título “O tratamento dos Conhecimentos Linguísticos na aula de Língua Portuguesa: uma análise de planos didáticos publicados no Portal do Professor”. Além de apresentado oralmente na Jornada do GELNE, esse trabalho foi também publicado nos anais do evento, em janeiro de 2017.
O caminho teórico-metodológico que trilhamos durante a realização da presente pesquisa, apresentado neste capítulo e no anterior, serviu de alicerce para a realização da análise de nossos dados, a que nos dedicaremos no capítulo seguinte.