Data munging
6.1 Simple record-oriented data
6.1.4 Caching data
No objetivo de destacar um terceiro aspecto que aponte para a proximidade possível entre o que propõe a psicanálise e a religião quanto ao manejo da falta, pretendo fazer algumas considerações relacionadas com a noção de comunidade. Na medida em que nos dois aspectos anteriores foi apontado para a impossibilidade de compor com a Coisa ou de fazer corresponder meu desejo com o desejo do Outro; e para inexistência do grande Outro que poderia tomar a seu cargo a responsabilidade de responder pela minha falta, resta ao sujeito lançar-se em ato e,
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Veja o artigo de FRANCO FILHO, Odilon de Mello. O ec lipse do divino e a psicanálise. In:
descobrindo sua particularidade, com ela inscrever-se no campo do Outro, formando com os outros uma trama, uma tecitura que dá suporte à existência.
O que significa isso? Não quer dizer exatamente que o que resta ao humano desamparado é lançar-se à vida com os recursos que têm? Ouso aqui propor que também na perspectiva da religião os recursos que o sujeito têm, são os de seu desejo. São eles que determinam sua falta e são eles que o movem na criação de formas pelas quais expressa sua particularidade, sua incompletude.
Em seu livro Sobre ética e psicanálise342 Kehl interroga: “O que fazer do vazio que nos habita desde a origem, vazio significante para o qual aponta a tendência repetitiva da pulsão de morte?”343 E então descreve três alternativas:
Existe a possibilidade de recusá- lo, aderindo aos discursos das ciências médicas, por exemplo, ao preço de nesse discurso sem brechas perder-se o sujeito do desejo. Existe a possibilidade de um preenchimento religioso, no qual esse vazio é habitado pelo nome de Deus, em que o sujeito busca uma chance de se alienar inteiramente dos desígnios de um Outro imaginário. Nesse caso, o que se perde é a relativa autonomia conquistada pelos homens na modernidade, que concebe um lugar bem menos poderoso às religiões. Parece óbvio que a psicanálise aponte para uma terceira possibilidade: a dimensão criativa do gozo, que pressupõe o enfrentamento desse vazio para a seguir contorná- lo com uma palavra ou um objeto inventado.344
Em outro momento a autora também propõe: “Resta, então, ao sujeito a tarefa (ou a liberdade) de contornar o vazio com sua palavra, com alguma criação que o represente, que o inscreva no campo do Outro”345.
Embora concorde com a proposição da autora, vejo a necessidade de questionar se toda possibilidade de manejo frente ao vazio pela via do religioso implique na alienação frente a um Outro imaginário. Quando ela propõe contornar o vazio e
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KEHL, Maria Rita. Sobre ética e psicanálise.
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KEHL, Maria Rita. Sobre ética e psicanálise. p. 164.
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KEHL, Maria Rita. Sobre ética e psicanálise. p. 164.
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inscrever-se no campo do Outro, considero que esta possibilidade não exclui a experiência religiosa e comunitária. Por que não se pode entender uma comunidade religiosa como um modo pelo qual, pessoas com suas faltas, diferenças e estilos, constituem uma forma de contornar o vazio sem negá-lo ou tamponá- lo? Entendo que uma comunidade religiosa pode ser um “campo do Outro” no qual as diferenças se inscrevem e o vazio é contornado.
Quando Lutero diz que, já que não é possível não pecar, resta ao ser humano pecar com coragem, está também dizendo que resta ao ser humano não abrir mão do seu desejo, visto que sacrificá- lo para o gozo do Outro não trará benefício algum. É com esse seu desejo e com sua inevitável falta que comporta, que o cristão se move ao encontro do outro. Também este existindo na mesma condição faltante e com o qual estabelece um vínculo de fraternidade pela qual se constitui uma comunidade. É a falta que agrega os cristãos na construção de um corpo erotizado que é a comunidade.
Nesse sentido, parece- me possível compreender a formação de comunidades religiosas como alternativa possível frente à inexistência do grande Outro e o desamparo que isso implica. No lugar do grande Outro e da verticalidade que com ele se impõe, estabelece-se uma horizontalidade na qual a divindade, des- substancializada, se manifesta de forma semelhante à concepção lacaniana de inconsciente: não existe enquanto substância num lugar, nem tampouco está num ou outro sujeito, mas se manifesta como o significante que aparece e evanesce num mesmo instante nas inter-relações.
A des-substancialização implica na ausência de objeto e, por isso, vai ao cerne do erotismo. O erotismo é a força relacional desencadeada pela falta. No cristianismo comunidade é corpo, e corpo é erotismo. A proposta de Jesus foi de um amor fraterno, nos limites do erotismo. Eros, ou agregar eroticamente não pode ser
hierarquizado, pois Eros não tem forma, mas dá forma num processo continuo, impondo sempre uma abertura e um mistério.
Em vista do que apresentei acima, entendo que também nesse terceiro aspecto, a proposição da religião cristã é muito próxima do que propõe a psicanálise lacaniana quando afirma que o que resta ao ser humano é inscrever-se com sua particularidade no campo do Outro como uma forma de manejo da falta, de contornar o vazio. A religião cristã propõe a formação de comunidade onde o mais importante é a lei do amor. Com isso quero apontar para o fato de que com essa noção a religião já esta lá, muito antes, naquele lugar que Lacan definirá como o avesso no qual se encontra o analista, respectivamente onde se situa o saber da psicanálise.