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A industrialização permitiu democratizar o valor do mobiliário flexível e apurar o seu conforto através de formas e funções mais ajustadas ao modo de vida das pessoas. Mesas extensíveis, camas de dobrar, malas armário, secretárias portáteis, cadeiras de empilhar, carrinhos de bébé, guarda roupas, são alguns exemplos de
objetos concebidos para serem fáceis de transportar, guardar, reutilizar e ajustar ao quotidiano de sociedades que valorizam a economia de meios, a versatilidade e a flexibilidade na compensação das suas necessidades. Os artistas seduzidos pela potencialidade destes objetos têm desenvolvido propostas que desenvolvem o conceito de mobiliário flexível para domínios não previstos. O conceito de abrigo desenvolvido em paraSite por Michael Rakowitz39 é um desses casos.
paraSite comunica sobre a urgência e a necessidade de abrigo que algumas
pessoas têm no espaço urbano. O desenvolvimento de soluções para colmatar a precariedade da habitação nas cidades das camadas sociais mais vulneráveis continua a ser uma problemática que sensibiliza artistas, arquitetos e designers no final do século XX.
Rakowitz deu início a paraSite (1998-) no âmbito de um projeto a decorrer no Programa de Mestrado em Cultura Visual, que realizou no Departamento de Arquitetura da Escola de Arquitetura e Planeamento do MIT, de 1996 a 1998. No âmbito dos seus estudos, Rakowitz viajou com um grupo de estudantes a Kerak, na Jordânia, com o objetivo de analisar vilas abandonadas a sudeste do Mar Morto. Durante esta estadia, o artista conta que ficou incumbido de recolher depoimentos dos habitantes sobre o abandono e precariedade do edificado na região (Rakowitz 1998). Foi no âmbito dessas conversas que o artista se interessou pelas comunidades Beduínas nómadas, que vivem nas zonas desertas do Iraque, Egito, Arábia Saudita e Síria, bem como nas estratégias de construção das suas habitações temporárias e flexíveis aos padrões do vento do deserto (Ko 2012).
No seu regresso a Cambridge, EUA, Rakowitz (1998) revela que o conceito de
paraSite nasce da associação entre as construções flexíveis dos Beduínos nómadas
39 Artista iraquiano-‐americano conceptual que opera dentro de espaços de arte e para além deles. Concluiu uma licenciatura em Artes Plásticas na Purchase College, SUNY em 1995, e um mestrado em Estudos Visuais no MIT, em 1998. Atualmente é Professor no Weinberg College of Arts and Sciences, Northwestern University, em Chicago, EUA.
e as estruturas improvisadas e temporárias dos sem-abrigo — como as lonas presas em bancos, colchões apoiados em edifícios, caixas de cartão presas umas às outras. Ao relacionar o modo de vida das comunidades Beduínas com as de sem-abrigo, Rakowitz, estabelece uma metáfora para descrever estes últimos como um “tipo de nomadismo diário” (Chang 2010, s/p.) que leva à sua “desterritorialização” (Rakowitz 1998, 16). Michael Rakowitz concebeu um refúgio que reúne duas premissas principais, ser transportável e ser colapsável: uma estrutura que permite simultaneamente acompanhar a imprevisibilidade das deslocações de pessoas desalojadas e transformar-se, através da compressão, num volume transportável.
Em Cambridge, tal como em várias outras cidades americanas e europeias, onde Rakowitz vivia na altura que deu início a esta obra, existia e continua a existir, mobiliário urbano “à prova de sem-abrigo” que tornam praticamente impossível repousar sobre determinados locais da cidade. “Disciplinary architecture”, “anti- homeless spikes”, “deterrence by design” (Taylor 2014; Quinn 2015) em inglês, ou “espigões de dissuasão” (Cardoso 2014) em português, são as designações mais comuns que agrupam os objetos instalados por responsáveis municipais ou proprietários em espaços que são (ou podem vir a ser) ocupados por pessoas desalojadas para descansar ou dormir. São objetos pequenos agregados às superfícies horizontais lisas do edificado que impedem a permanência prolongada de pessoas.40
40 Alguns dstes objetos que têm vindo a integrar coleções de arte e design de alguns museus. Em julho de 2014, os “espigões de dissuasão” desenhados pela empresa irlandesa Kent Stainless para impedir que pessoas se instalem na arquitetura existente foram adquiridos para a coleção do Victoria & Albert Museum (V&A), em Londres. Estes objetos abordam o mesmo problema social mas de forma distinta: paraSite evidencia a situação de pessoas na condição de sem-‐abrigo, devolvendo individualidade e visibilidade aos seus utilizadores; os espigões respondem agressivamente à existência de indivíduos sem-‐abrigo, explorando o seu anonimato e acentuando a sua marginalidade. A aquisição destes dois objetos por instituições museais, relembro que o Museum of Modern Art (MoMA), em Nova Iorque, adquiriu um paraSite protótipo em 2007, evidenciam um problema social com que se debatem as sociedades que remete-‐nos para o interesse de uma reflexão sobre o que são as políticas museais no século XXI (ver Ponte 2015a).
Fig. 17 e Fig. 18 Dois exemplos de "espigões de dissuasão".
Para além da influência direta das estruturas de habitação das comunidades beduínas, é muito difícil não associar paraSite à cultura de invenções ligadas à tecnologia insuflável (Herzog 1977) e ao conceito de arquitetura utópica (Architecture for Humanity 2006) desenvolvidas por Bukminster Fuller (1895- 1983).41 Fuller contribuiu para desenvolver uma ideia de habitação — constituída por sistemas modulares, componentes standards, elementos pré-fabricados, estruturas e sistemas de construção — que permitia fabricar casas em massa. No entender de Fuller este seria o futuro da habitação e deveria ser tratado pelo design como uma área de atuação prioritária e de excelência, onde se podia explorar, desenvolver e construir modelos de habitação que permitissem melhorar as condições de vida das pessoas (Architecture for Humanity 2006, 35-40). A sua contribuição mais radical baseia-se na criação de uma unidade de abrigo suspensa, autónoma e autossustentável que utiliza materiais crus e exige pouca manutenção, a Geodesic Dome (1948-49). O impacto do design desta estrutura revolucionou o conceito de abrigo e o seu uso foi imediatamente disseminado, a ponto de a revista
Time, em 1964, lhe dedicar um vasto artigo com manchete na sua capa, em 1964.
41 O artista faz referência à história do desenvolvimento de estruturas pneumáticas desde a invenção do balão de ar quente dos irmãos Joseph-‐Michel (1740-‐1810) e Jacques-‐Étienne Montgolfier (1745-‐ 1799), à ideia da "Dome Over Midtown Manhattan" de Fuller na sua tese de mestrado paraSite (Rakowitz 1998, 27).
Fig. 19 Esq. Buckminster Fuller e a Geodesic Dome no Black Mountain College, em 1949. Foto Hazel Larsen Archer © H.L.Archer e Black Mountain College Museum and Arts Center.
Fig. 20 Dir. Capa da Time 10-‐01-‐1964. Capa de Boris Artzybasheff © Time Inc.
Segundo The Bukminster Fuller Institutite (s/d), a Geodesic Dome nasceu da necessidade de colmatar a escassez de habitações na américa. O seu sistema de manufatura ajustou-se à indústria existente de aviões militares e as caraterísticas autossustentáveis da estrutura permitiam que fosse instalada sem grandes dificuldades. Conforme The Bukminster Fuller Institutite (s/d), a Geodesic Dome foi construída com base na ideia de Fuller de “fazer mais com menos” e constitui-se por uma estrutura esférica criada a partir de um jogo de forças entre triângulos. O seu interior é considerado um dos ambientes interiores mais eficientes para habitações porque a cúpula que se forma permite que o ar e a energia circulem sem obstrução, o que por sua vez facilita que o aquecimento e o arrefecimento do seu interior aconteça naturalmente.
paraSite é um objeto portátil que se caracteriza por se poder dobrar e desmontar
facilmente, agilizando o seu transporte durante deslocações. Sofia Santos (2015) designa a este tipo de objetos flexíveis “economizadores de espaço” porque a sua forma permite ser alterada, frequentemente pela sua redução geométrica, “organizando de uma forma mais compacta a sua morfologia” (2015, 28) ou então pela sua multifuncionalidade “agrupando diferentes funções no mesmo elemento” (ibid.). Normalmente estes objetos flexíveis são objetos que foram reduzidos às suas componentes estruturais, o que torna a sua funcionalidade muito evidente.
São objetos que pressupõe uma utilização mais esporádica ou mais intensa — característica que se deve ao facto de se poderem dobrar, curvar, enrolar ou insuflar. Estas propriedades fazem com que objetos flexíveis tenham, no entanto, uma durabilidade mais limitada.
paraSite é feito de uma estrutura de membrana dupla insuflável improvisada a
partir de sacos de plástico e fita adesiva que aproveita o ar quente expulso pelas saídas de ventilação de ar instaladas nas fachadas dos edifícios. A ideia do projeto é o de fornecer um espaço provisório com as características de abrigo para ser temporariamente ocupado por pessoas desalojadas. A estrutura de plástico tem um tubo de entrada ajustável, também ele de plástico, que pode ser expandido ou apertado para se adequar à abertura do ventilador fixo a um prédio. Esta ligação é estabelecida através de um lábio ajustável, cordas elásticas e de ganchos que se prendem às grelhas metálicas para reforço dessa ligação. Para Rakowitz a junção da estrutura insuflável ao edifício é o momento crítico da sua obra porque assinala a relação de “parasita” (Rakowitz 1998) que este objeto estabelece com a arquitetura da cidade. O artista refere que explorou esta ligação tanto “do ponto de vista da poesia como do design” (Ponte 2014, s/p.) de forma a garantir que o utilizador dentro de um paraSite não estivesse em contato com o ar expelido pelo ventilador. Rakowitz desenvolveu igualmente elementos de segurança essenciais caso o abrigo se feche com a pessoa lá dentro evitando riscos de sufocação. No seu estado inativo, paraSite existe em pequenas embalagens com alças para o transporte à mão ou sobre os ombros. No seu estado ativo transforma-se numa forma insuflável que se enche de ar.
Fig. 21 Michael M. a instalar o seu paraSite, na 26th Street e a 9th Avenue,
Nova Iorque, em 1999. Foto Michael Rakowitz © M. Rakowitz e Lombard Freid Gallery.
A relação entre utilizador e espetador, tal como considerada por Claire Bishop (2012a), é materializada de várias formas em paraSite. Primeiro, Michael Rakowitz, entende que paraSite pode representar um dispositivo de proteção relacionado com tarefas de sobrevivência e salvamento, porque se constitui por elementos de invenção e de estratégia genuína de sobrevivência, mas sublinhando que paraSite deve ser considerado mais como um ato de desespero e uma abordagem questionável para a solução dos desalojados (ibid.). Para Rakowitz
paraSite “apresenta uma estratégia simbólica de sobrevivência para a existência de
pessoas sem-abrigo na cidade” (Rakowitz 2003) e simultaneamente “agrava a relação problemática entre os que têm casa e aqueles que não têm” (ibid.). No entender do artista na linha do que Bishop entende ser aquilo que as práticas relativas à Estética da Participação Social devem produzir, paraSite gera “um momento de conforto que cria desconforto na rua e em quem olha para ele”. Por isso o artista refere que “um dos equívocos deste projeto é supor-se que trata de benevolência” (Ponte 2014, s/p.).
Fig. 22 Michael M. a utilizar o seu paraSite na 26th Street e a 9th
Avenue, Nova Iorque, em 1999. Foto Michael Rakowitz © M. Rakowitz e Lombard Gallery.
A obra paraSite de Michael Rakowitz relaciona-se com várias áreas, do design à arquitetura, como valorizado por Bishop. A natureza híbrida e transdisciplinar de
paraSite possibilita que o mesmo seja apresentado em exposições dedicadas a
objetos de Design, de Arquitetura e de Arte. Em certas ocasiões, paraSite aparece exposto entre obras de arte, noutras entre maquetes de edifícios, e noutras ainda entre protótipos e objetos de design. Michael Rakowitz refere que interessa-lhe por vezes “escapar-se da sua formação e envolver-se com outros campos” (Rakowitz em entrevista a Ponte 2014, s/p) e, por isso, aprecia ver paraSite em diálogo com outras disciplinas (ibid.). Contudo o artista sublinha não ter “as responsabilidades que um arquiteto tem de ter” e de não estar a operar ao nível da “solução de problemas” (ibid.). Por isso não pretende ver paraSite ser produzido em massa nem ser considerado como uma solução permanente (ibid.). O artista considera que, apesar de paraSite “manter um diálogo com utilidade, isso não faz com que tenha necessariamente de se enquadrar nessa categoria” (ibid.). A sua atração para intervir numa ordem social é, no seu entender, claramente a de “alguém a trabalhar enquanto artista” (ibid.).
À semelhança de Krzysztof Wodiczko, a criação dos primeiros protótipos paraSite foi desenvolvida em interação com os primeiros utilizadores. Como revela, o artista propôs o seu conceito a Bill Stone, em abril de 1997, o qual considerou o projeto
uma resposta mordaz às várias iniciativas da Câmara Municipal de Cambridge para afastar a comunidade sem-abrigo do centro da cidade (Pollak 1999). Rakowitz refere que “de certa forma as pessoas da rua foram os designers dos seus próprios abrigos. Elas insistiram em plástico transparente e não em sacos de plástico preto. Estavam menos preocupadas com a segurança do que com a privacidade, queriam ver e ser vistas” (Rakowitz em entrevista a Pollak 1999).
A noção pósconceptual de Peter Osborne (2013), e em particularmente a de Arte Funcional, encontra-se nesta obra. Vejamos a dimensão conceptual. Michael Rakowitz desenvolve o conceito de paraSite a partir das condições de vida das pessoas sem-abrigo e como alternativa “às táticas agressivas desenvolvidas nas últimas décadas por diversos tipos de autoridades para removê-los do centro da cidade” (Rakowitz em conversa com Ponte 2014, s/p); fá-lo através de uma dimensão estética e de uma dimensão antiestética que lhe interessou explorar de modo a “subverter a condição convencional da escultura” (ibid.), “destruir as expetativas do espectador quanto à observação de obras de arte” (ibid.) e também desenvolver “a linguagem de equipamento de salvamento e sobrevivência, desafiando-a” (ibid.). É nesse ponto que Rakowitz sente que “a decisão artística precisa de ser mantida” (ibid.); A unidade distributiva e a dimensão histórica deste projeto, encontram-se a trabalhar em simultâneo os conceitos de “esfera pública e nomadismo” (Rakowitz 1998). O artista considera paraSite uma obra de arte porque “opera a partir da poesia” (ibid.) e do que “a ligação do abrigo ao edifício” (ibid.) metaforicamente representa. Deste modo o artista está a chamar atenção para esta questão social, como a implicar a sociedade na sua solução.