PART VI: SUMMARY OF THE RISK MANAGEMENT PLAN
II. C.2. Other Studies in Post-authorisation Development Plan
O produto da imaginação é a imagem. Logo, o produto da modelagem midiática dos corpos (centrada na imaginação de saúde e corpo ideais) é a reprogramação corporal, representada em uma imagem de beleza, autoestima e felicidade: num corpo magro, representação maior e concreta da noção de saúde imaginária. Isto reforça a assertiva de Maffesoli (2007), para quem a imagem é uma das formas de modulação da estética, confirmando que “o homem é menos criador de imagens, que forjado por elas.” A terceira categoria estrutura-se em torno desta noção: a de que há imagens (de corpo) que resultam da imaginação social, forjando novas relações entre o homem e estas imagens.
Neste corpo formatado estão inseridos todos os aspectos da saúde trabalhados no decorrer dos reality shows. Histórias familiares, predisposições biológicas, estilo de vida, doenças, fatores psicológicos e sociais são agora resumidos a um corpo esteticamente adequado aos padrões midiáticos, pronto para ser apresentado e logo consumido. Assim, a complexidade da saúde se resume à apresentação de uma imagem corporal, centrando-se naquilo que pode ser visto, filmado (ou fotografado) e veiculado.
Para demonstrar isso, são analisados os programas que finalizam as temporadas dos quadros em estudo. Tais edições destinam-se a mostrar os pesos e as medidas finais dos
participantes, checando se as metas foram atingidas e premiando aqueles que mais perderam peso (o simples fato de “chegar à final” já é um prêmio, atestando gerenciamento de si e superação).
Nesses episódios, a ênfase está em mostrar o antes e o depois dos participantes, destacando os ganhos obtidos durante os três meses de reprogramação corporal. É o dia da prestação de contas, na qual o antigo corpo sem formas (em estado bruto), após ter sido inserido na conformidade da modelagem midiática, é apresentado como um produto inteiramente novo, por meio de imagens prontas ao consumo. Por isso, a noção de prêt-à-porter se encaixa bem na proposição desta categoria.
A expressão pret-a-porter51, cujo significado é pronto para vestir, remete à produção de roupa para um público indiferenciado, sem levar em conta aspectos específicos e exclusivos. Indicando uma produção industrializada, a ideia do prêt-à-porter se aplica como metáfora da terceira categoria da saúde imaginária. Retomando Simmel, Maffesoli (2010) destaca que a moda orienta-se em torno da conformidade, que quer dizer imitação.
Embora nosso foco seja o corpo humano, com a liberdade de fazer analogias que nos permite a razão sensível, propusemos um termo próprio do universo da moda, aplicando-o à nossa análise, por entender o seguinte: o que a mídia faz com os corpos dos participantes dos
reality shows de reprogramação corporal é semelhante ao que a moda faz com as roupas
produzidas nos moldes da indústria.
Após passarem pela modelagem midiática, os corpos adquirem uma conformidade (aqui no sentido de imitação) e, como símbolos de nosso tempo, veiculam por meio da imagem o desejo de reconhecimento pelo outro, a procura de um apoio ou de proteção social.
Atingida a conformidade corporal, os olimpianos (apresentados no Medida Certa) podem exibir uma figura ainda mais exemplar, com a imagem mais próxima dos olimpianos magros e, ao mesmo tempo, pela exposição que tiveram e batalhas que superaram, tornam-se heróis para as pessoas comuns. Já os grotescos (do Além do Peso), imitando os modelos de corpo que circulam no olimpo midiático, adquirem formas (físicas) mais compatíveis com estes ideais, ficando à imagem e semelhança de seus ídolos e, transformados (pela mídia) em
51“Expressão francesa originada do inglês ready-to-wear, que significa pronto para vestir. A expressão começou a
ser adotada ainda nos anos 50, mas se tornou internacionalmente conhecida a partir dos anos 60, quando os costureiros de alta-costura resolveram investir em linhas de roupas que não eram feitas sob medida e que se encontravam prontas e já disponíveis para compra nas butiques” (SABINO, 2010, p. 501). SABINO, Marcos. Dicionário da Moda. 1ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 2007
pequenos deuses, também passam a servir de referência para pessoas comuns - como eles eram antes de aparecer na televisão.
Transformada em objeto de desejo, a aparência desejável une e separa as pessoas em torno de suas aspirações. Na moda, a roupa tem uma função identificatória. É exatamente o que buscamos aqui, perceber como esse corpo pret-à- pôrter é signo de novas identificações veiculadas sob a forma de determinado padrão corporal. Assim, a aparência individual acentua o pertencer ao imaginário social, a uma coletividade; o corpo está vestido de uma forma que nasceu, antes, na imaginação.
Após a reprogramação, exibindo uma aparência mais desejável, os participantes enfatizam o corpo como lugar de novas subjetividades, atreladas a um padrão de beleza e de saúde. No que se refere à noção de beleza, procuramos compreendê-la a partir da ênfase nos cuidados com o corpo, tornados imperativos estéticos, recorrendo aos estudos de Umberto Eco (2014), que a considera a partir das construções sociais e históricas de cada contexto cultural. A forma é o instrumento metodológico que dá conta dessa empreitada, uma vez que,
A forma justifica, ao mesmo tempo, o geral e o particular, “o universal concreto”. O universal, no caso, sendo o ambiente geral no qual nos banhamos, enquanto massa, o particular, ou o concreto, sendo a maneira pela qual um grupo vai se “aninhar” nesse ambiente geral, a maneira pela qual ele vai se apropriar de um valor geral ou de um conjunto de valores. Trata-se do vaivém que já analisei: da massa à tribo, da conformidade ao conformismo (MAFFESOLI, 2010, p. 128).
Analisar como os participantes se apropriam de sentidos como estética, beleza e juventude ligando-os à definição de saúde, é o que está em jogo no método formista: compreender os fenômenos tal como se apresentam, sem remeter, necessariamente, a uma causa ou um sentido externo, proveniente de qualquer área, como a economia, a política ou até mesmo a moda. “Permitir que a realidade apareça como tal”, esta é, no entender de Maffesoli, a lógica da forma.
Reforçamos que nesta categoria o realce está sobre o corpo como imagem, pois, inserindo-o em uma “fôrma” midiática de reprogramação, dando-lhe conformidade, a televisão, enquanto tecnologia do imaginário, legitima uma época em que a saúde é traduzida em termos de imagens de uma gordura mais aceitável e preferencialmente de corpos “sarados”. Esta palavra, no entanto, nada tem a ver com a condição biológica e está mais vinculada à apresentação física, à exibição da aparência. Isto indica que a forma deixa ver a cultura, realça os aspectos que tecem o imaginário social.
Enquanto imagem, o corpo (agora reprogramado) se torna ícone da espécie humana e dos próprios meios de comunicação, sendo portador de todo um enraizamento de símbolos, mitos e imagens estruturantes da vida cotidiana e do imaginário midiático. Em conformidade
com as métricas próprias da modelagem midiática, esse corpo-imagem veicula o imaginário da saúde, da beleza, do bem-estar, da felicidade, produtos que despontam no mercado de valores da vida ordinária.
Voltada para os resultados da reprogramação corporal, esta categoria permite ver o biopoder midiático atrelado ao fetiche da mercadoria. Tal biopolítica não pretende domesticar pela força, mas seduzir pelo encanto das imagens que potencializam o produto mais disputado e glorificado na sociedade atual: o corpo.
Por meio das categorias, iremos perceber com mais claridade algumas expressões do imaginário da pós-modernidade. Será possível ainda destacar como a mostração dos olimpianos e dos grotescos define uma estética de corpo, como a saúde é inserida em suas relações com a formas físicas e as escolhas individuais, evidenciando o combate ao risco e a ênfase em viver o presente.
Embora tenham sido resultado de um vasto corpus de análise resultante de três temporadas de Medida Certa e três temporadas de Além do Peso, as categorias da saúde imaginária podem ser utilizadas para o estudo de objetos empíricos menores e inclusive de uma outra mídia, visto que mesmo as reportagens impressas ou digitais tratam, em geral, da saúde como resultado desse mesmo percurso: apresentação do corpo sem formas; modelagem midiática dos corpos (reprogramação) e corpos-pret-à-porter (transformação em ícone de saúde). Isto nos permite afirmar que a proposição das categorias de estudo da saúde imaginária é eficaz, a despeito dos diferentes objetos que abordam os sentidos do corpo sob o viés da produção simbólica e biopolítica da mídia. Defendemos esta ideia visto que as categorias abarcam aspectos semelhantes e comuns do biopoder dos meios de comunicação que, mesmo estando em diferentes objetos de pesquisa, têm como questão central a produção e a disseminação de uma dimensão imaginária da saúde, atrelada a um ideal de corpo.
Reforçamos que estamos diante de um “exercício da subjetividade”, expressão utilizada por Maffesoli para explicar a opção pela mostração e não pela demonstração dos fenômenos.
O corpo é vetor de aparência, de socialidade e também de imaginários, por isso partimos do pressuposto de que o corpo é imaginário (inserido em uma época), é imaginação (produz sentidos e deslocamentos) e imagem (representação). Veremos que o corpo funciona como um veículo que transporta ideais de beleza, saúde e estética que são acessíveis por causa da imaginação. E, a partir dela, passa a fazer sentido na “vida real” da pessoa comum; as imagens expandem a realidade. Tendo o imaginário sociológico e o biopoder foucaultiano como alavancas desse percurso, cabe, agora, mostrar as categorias em funcionamento, por meio da análise do corpus.