• Aucun résultat trouvé

B. Summary of Important Risks

PART VI: SUMMARY OF THE RISK MANAGEMENT PLAN

II. B. Summary of Important Risks

Quando se dispõe a imaginar o corpo saudável, o que os especialistas-fontes do discurso midiático levam em conta, quais os valores (sociais) a considerar e aqueles a desprezar? Quando traduz para o público o saber desses especialistas, como as tecnologias do imaginário trabalham as informações próprias da imaginação das autoridades no assunto? Vimos que imaginar é a faculdade própria dos humanos. Todo e qualquer conhecimento, seja o leigo ou o especializado, se apropria das possibilidades de criar e de representar. E para pensar o corpo não é diferente.

Em nossa “forma” de investigar o reality show de reprogramação corporal, fomos em busca de perceber como a televisão, valendo-se do simulacro do espetáculo, ainda tenta oferecer uma única verdade acerca do corpo, na qual a saúde imaginária é uma realidade a ser alcançada com esforço, sacrifício, moderação e uma dose de prazer. Isto exige, por sua vez, a modelagem midiática dos corpos sem formas, a partir de dois instrumentos primordiais: a reeducação alimentar e a atividade física.

Em nosso entendimento, a reprogramação corporal em Medida Certa e Além do Peso é orientada pela lógica do risco que “não é apenas oposto ao acaso, por implicar um cálculo probabilístico do futuro; é também oposto ao fatalismo: o evento previsível pode ser evitado pela ação humana” (VAZ, 2014, p.172).

Nossa análise se volta para o papel simbólico dos exercícios físicos e da nutrição, bem como dos especialistas nestas áreas, como fatores que exercem, na sociedade contemporânea, uma função privilegiada e até “mística” associada aos efeitos de tais profissionais e suas recomendações à saúde das pessoas. Nesta perspectiva, partindo de uma relação linear de causa- efeito entre moderação alimentar, aptidão física e saúde, o reality opera a modelagem dos corpos sem considerar fatores mais complexos como as particularidades psicossociais, os hábitos pessoais, o estilo de vida e a própria obesidade de cada personagem.

Assim como os modelistas formam as peças (de roupa) de acordo com um modelo previamente definido, os corpos disformes passam pelas “mãos” dos modelistas midiáticos, a saber, dos profissionais especializados na (re)forma do corpo com base num incessante combate aos fatores de risco e na prevenção das doenças (ainda que virtuais). Estes profissionais, que estamos chamando de formadores da saúde imaginária, são, em geral, do campo da Nutrição e

da Educação Física, com experiência comprovada em formação/reprogramação de imagens. Mas os jornalistas e apresentadores também reivindicam este papel, tornando a mídia um espaço de medicalização da vida e os jornalistas porta-vozes de um dever da saúde. Nesta categoria vemos o reality show firmando-se como um formato biopolítico apto a corrigir as distorções (internas ou externas), a formatar os erros, eliminar as desordens e otimizar o funcionamento do corpo.

Enquanto na Modernidade imperou a associação entre imagem e farsa ou manipulação, hoje a aparência é a realidade mais próxima que se pode experimentar de cada indivíduo. Segundo Fernanda Bruno, estamos “mais próximos das subjetividades ‘pré-modernas’, cujas marcas de civilidade e sociabilidade residiam na aparência e no imediatamente visível. Neste sentido, o” culto contemporâneo, da aparência indicaria não tanto a exacerbação do narcisismo e do individualismo, mas da socialidade” (BRUNO, 2004, p.24). Por isso não queremos desprezar o que nos diz a sede de ser visto, realçada pelos modos de trabalhar o corpo, uma vez que, de alguma forma, ela indica um modo de estar-junto, de fazer sociedade, de constituir a si mesmo, de acentuar a ética da estética.

Diferentemente de uma consulta, na qual o paciente vai ao encontro do médico, o simples fato de aderir (ou assistir) ao reality show coloca o participante (e também o público) diante de uma equipe de especialistas, que já está à espera dos portadores do corpo sem formas. Este aspecto dos programas nos coloca em sintonia com o tribalismo pós-moderno: as pessoas decidem emagrecer juntas e, dispersando-se no grupo, se desprendem dos tormentos da escolha, ficam isentas da responsabilidade de trilhar sozinhas – e pesadas – os rumos da vida sedentária. Mais uma vez vemos o relativismo da pós-modernidade realçado pela seguinte contradição: o convite da reprogramação (modelagem) implica numa adesão, na formação de novos vínculos propiciados nas ambiências das tecnologias do imaginário; entretanto, esta adesão é apenas um efeito de realidade do imaginário midiático que insere os corpos numa fôrma, ou seja, numa medida-padrão, na qual todo desvio é condenado. Quem não atinge as metas é eliminado. Quem engorda é punido. Quem emagrece é premiado. Toda deformidade há de ser (in)formada, (re)formada, reprogramada.

A lógica da punição e do prêmio permeia essa categoria, justificada numa biopolítica voltada ao autocuidado e ao autocontrole, bem como às práticas que direcionam o indivíduo a combater todos os riscos que ameacem a vida. Nessa categoria, procuramos as pistas que sinalizem quais as formas da imaginação midiática relativa aos corpos e em que medida esta imaginação é criadora de sentidos e também de deslocamentos de significados. Isso indica que

a imagem, a forma, o adorno, a figura estão em ação para fazer sociedade. É nesse terreno que o imaginário social mostra suas aparições.

Os arquétipos e estereótipos são ricos em significado para um estudo baseado no imaginário, pois eles demonstram as formas que estruturam as aparências vigentes (MAFFESOLI, 2007). Nesta categoria, há um transbordamento de expressões negativas associadas ao gordo e de idealizações positivas vinculadas ao magro, indicando que a forma só existe porque se deixa ver através de modulações da aparência.

Nessa oficina de modelagem, os instrumentos manejados pelo saber midiático

transformam o corpo sem formas em um corpo da imaginação, provocando um deslocamento

de significados das diferenças nutricionais, psicológicos, sociais e estéticas (de cada pessoa) para uma política de reprogramação (coletiva) que trata o corpo como máquina: desconfigura e reconfigura com base na imaginação de um corpo ideal e de uma saúde imaginária que parece ter sido produzida em escala industrial.

Após a modelagem midiática, o corpo está docilizado e, por isso, apto ao consumo das tecnologias do imaginário. Chegamos, portanto, à terceira e última categoria de análise.

Documents relatifs