3 M ETAMODELE DE COMPOSANTS A SERVICES
3.1 C OMPOSANTS A SERVICES PRIMITIFS
“O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã, é o mistério
de Deus em si mesmo, fonte de todos os outros mistérios da fé e a luz que os ilumina” (CIC 234).
Porém, este mistério central e basilar da fé cristã não aparece assim formalizado e designado na Sagrada Escritura. A palavra Trindade, que resume um dogma central da fé cristã, está ausente do Novo Testamento. Surgirá sensivelmente mais tarde, a meados do século II, no Oriente (trias – Teófilo de Antioquia) e no início do século III, no Ocidente (trinitas – Tertuliano)129
. Porém, a fé em Deus Uno-Trino não é um produto da fantasia nem uma especulação da mente humana, não é algo que o homem tenha imaginado ou pudesse imaginar por si mesmo: a fé trinitária assenta única e exclusivamente em Deus excelso, infinitamente superior a todo o pensamento e imaginação humanos, que se revela e comunica em absoluta liberdade como Pai, Filho e Espírito Santo, mistério de amor e comunhão130.
No Novo Testamento, a revelação operada em Jesus Cristo, apresenta os três nomes revelados, que estruturam em conjunto o acontecimento da salvação, como nomes divinos porque por aquilo que é dito em particular do Filho e do Espírito Santo, manifesta que pertencem à mesma ordem do Pai e à mesma esfera de realidade: a esfera divina131. Assim, a reflexão cristã teve necessidade de explicitar de que modo se pode conjugar a fé num Deus Único, que acontece e se realiza em Três Pessoas, sem cair no politeísmo.
O Antigo Testamento é claro em afirmar a unicidade de Deus, reforçada e formulada pelo Povo de YHWH na recitação do Shemáh (Dt 6,4-9). O Deus de Israel, YHWH Salvador, é um Deus zeloso e cioso da sua exclusividade (Ex 20,5; Dt 5,7). O monoteísmo não é para a Bíblia uma questão ideológica, mas o resultado da experiência religiosa e expressão da prática da fé, é no dizer de Walter Kasper um “monoteísmo prático”132. Por outro lado, o Deus dos cristãos não é um Deus “deísta”, isto é, um Deus que reina no seu trono como uma mónada solitária numa excelsa transcendência, alheado de toda a humanidade e acima de tudo aquilo que acontece. É um Deus que, desde o princípio, criou o homem para o fazer participante da Sua vida divina que é comunidade de amor e com o processo histórico da sua auto-manifestação quer introduzi-lo cada vez mais nessa comunidade de vida e amor. Por isso, a imagem veterotestamentária de
129
Cf. SESBOÜE – Pensar e Viver a Fé no Terceiro Milénio: Convite aos homens e mulheres do nosso tempo, p. 481-482. 130 Cf. GRESHAKE, Gisbert – Creer en el Dios Uno y Trino: una clave para entenderlo. Santander: Editorial Sal Terrae, 2002, p. 13.
131 Cf. SESBOÜE – Pensar e Viver a Fé no Terceiro Milénio: Convite aos homens e mulheres do nosso tempo, p. 486. 132
Deus não é uma imagem concluída e encerrada, mas apenas “sombra dos bens definitivos” (Heb 10,1), aberta à revelação definitiva de Deus, em Jesus Cristo133.
O ponto de partida que nos dá acesso à Santíssima Trindade do Único Deus é, como não podia deixar de ser, o próprio Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, Revelador e Revelação Única, definitiva e insuperável de Deus: “ninguém vai ao Pai, senão por Mim” (Jo 14,6); “ninguém conhece o Pai senão o Filho e Aquele a quem o Filho O quiser revelar” (Lc 10,22); “quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9)134
. Cristo, revelador definitivo do Pai, na força do Espírito, convida cada crente a entrar na vida divina e, por isso, toda a revelação neotestamentária é marcadamente trinitária e está presente nas várias tradições. A tradição sinóptica apresenta claramente este carácter trinitário da revelação no relato do baptismo de Jesus (Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22) e no mandato universal do baptismo como fonte de salvação (Mt 28,19). Jesus, sobre Quem repousa o Espírito Santo, o Filho amado do Pai, envia os discípulos a baptizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Também em toda a tradição paulina ressoam as fórmulas trinitárias e, assim, sempre que Paulo quer expressar a totalidade do acontecimento e da realidade soteriológica recorre a formulações trinitárias (Rm 1,3; Gl 4,4-6; 2 Cor 13,13 entre muitas outras).
A experiência trinitária de Jesus Cristo torna-se a experiência trinitária da Igreja. Esta consciência está já presente no Novo Testamento. A comunidade cristã primitiva tem consciência de que o Salvador é Filho de Deus (Rm 10,9; 1 Pe 3,18ss), vive na certeza de ser Igreja de Deus, animada e vivificada pela força do Espírito Santo, como testemunha o livro dos
Actos dos Apóstolos. Assim, a confissão trinitária é a estrutura básica e nuclear do testemunho
neotestamentário que sustenta toda a fé em Deus e em Jesus Cristo, na força do Espírito135. Deste modo, Jesus Cristo dá-se a conhecer e revela-se como Deus-Filho, o que implica necessariamente o reconhecimento de Deus como Pai, “abrindo subsequentemente o
reconhecimento da personalidade divina do Espírito Santo, escancarando a janela de Deus, a janela que dá acesso ao mistério último e íntimo de Deus, a Trindade Divina, fazendo estoirar por dentro o monoteísmo estrito de Israel”136. Jesus não nega ou desfaz o monoteísmo, mas supera-o, abre-o, revelando-o como um monoteísmo trinitário: há um só e único Deus, como afirma e acredita Israel, mas esse Deus de Israel, YHWH, é, em si mesmo, Pai, Filho e Espírito Santo. A afirmação da unicidade de Deus e simultaneamente da Sua Trindade caracteriza o
133
Cf. GRESHAKE – Creer en el Dios Uno y Trino, p. 23.
134 Cf. PINTO, António Vaz – Revelação e Fé: fundamento e conteúdo da fé cristã para o homem de hoje. 2.ª Edição revista. Braga: Secretariado Nacional do Apostolado de Oração, 2001, p. 383.
135 Cf. KASPER – El Dios de Jesucristo, p. 279. 136
imenso esforço da Igreja Primitiva, entre lutas e influências, reflexão e proclamação que marcam os primeiros séculos cristãos pautados pelos grandes Concílios Ecuménicos e as suas grandes definições dogmáticas sobre a Cristologia e a Trindade, vincada também pela necessidade, natural e legítima, de traduzir o conteúdo mais fundamental da fé para os quadros filosóficos e culturais do mundo clássico greco-latino.
A liturgia tornou-se o lugar onde tomou forma e se consolidou a fé trinitária em Deus. Pai, Filho e Espírito Santo são mencionados em conjunto na praxis litúrgico-sacramental, na doxologia e na oração e, destes usos litúrgicos nasce, a necessidade de exprimir, de forma teologicamente adequada, a pertença a Deus e a divindade do Filho e do Espírito Santo137. As primeiras reflexões trinitárias surgem com os Padres Apostólicos e os Padres Apologistas, lançando as bases da reflexão teológica acerca da Trindade. No século III, a teologia trinitária conheceu um grande desenvolvimento, sobretudo com o contributo de Ireneu de Lião, Tertuliano e Orígenes138.
A progressiva compreensão da profissão de fé trinitária tem a sua razão essencial na vida de fé das comunidades, mas é também devido a factores exógenos provenientes de erros e heresias. As heresias, que intervêm no progresso da elaboração do dogma, por um lado, suscitaram a reafirmação da verdadeira fé em termos mais precisos e, por outro lado, evidenciam os erros latentes nas primeiras explicações, conduzindo os teólogos a desenvolverem a sua investigação e a encontrarem os instrumentos conceptuais necessários. Deste modo, no século IV, tem lugar, tanto no Ocidente como no Oriente, um grande desenvolvimento da doutrina trinitária, suscitado essencialmente pela defesa da ortodoxia, por grandes figuras como Atanásio de Alexandria ou os Padres Capadócios, e pela realização de dois grandes Concílios: Niceia (325) e Constantinopla (381). Destes Concílios, nasce o chamado Símbolo Niceno-Constantinopolitano (DS 150), no qual se afirma a Unidade e Trindade de Deus: Deus como unidade suprema que acontece em três Pessoas iguais e distintas. Em Niceia, contra o Arianismo, afirma-se a divindade do Filho (homousios) e, em Constantinopla, condenando os Macedonianos e Pneumatómacos, afirma-se a divindade do Espírito Santo139. Por isso, como considera Walter Kasper, o Símbolo Niceno- Constantinopolitano foi, por um lado, fruto de um longo e custoso debate, mas, por outro, constitui-se como o ponto de partida da reflexão teológica posterior140.
137
Cf. SAYÉS, José Antonio – La Trinidad: Misterio de Salvación. Madrid: Ediciones Palabra, 2000, p. 118. 138 Cf. LADARIA, Luis F. – El Dios Vivo e Verdadero: El Misterio de la Trinidad. Salamanca: Secretariado Trinitario, 1998, p. 145-176.
139 Cf. MATEO-SECO, Lucas F. – Dios Uno y Trino. Pamplona: Ediciones Universidad de Navarra, 1998, p. 211-243. 140
A unidade de Deus é uma unidade originária de relação amorosa que transcende toda a compreensão, na qual as três pessoas se comunicam mutuamente na única vida divina e neste intercâmbio mostram-se distintas mas também como sumamente una: unidade de relação e amor141. Gregório de Nazianzo fala “da unidade que se faz trindade e da trindade que por sua vez se faz unidade”142
. Esta comunhão mais tarde foi formulada com o termo teológico de “perichoresis” que pretende afirmar que Pai, Filho e Espírito Santo estão de tal modo unidos entre si que cada uma das Pessoas se encontra nas outras duas e nenhuma é nem pode ser concebida senão na relação às outras duas, compenetrando-se e compreendendo-se totalmente, não reservando nada, mas acolhendo e oferecendo reciprocamente aquilo que são. Tal como afirma Gisbert Greshake, perichoresis é uma palavra que tem a sua origem no mundo da dança e significa literalmente “dança ao redor”143. Aplicado à Trindade, isto significa, em linguagem
metafórica, que as três pessoas divinas estão numa comunidade tal que só se podem imaginar como aqueles que dançam juntos uma dança comum: o Filho está totalmente no Pai e com o Pai; o Pai totalmente no Filho e com o Filho; e ambos encontram a sua unidade mediante o vínculo do Espírito. Assim dançam a única dança comum da vida divina, a dança da comunhão e do amor.
Deste modo, dizer que Deus é Uno-Trino significa afirmar como Gisbert Greshake que “Deus é aquela comunhão na qual as três Pessoas divinas realizam, numa mútua relação
dialógica de amor, a única vida divina como mútua autocomunicação”144.