L. POTOMS J DELVA
10) C Const., n° 67/2012 du 24 mai
Neste trabalho, considera-se importante a utilização dos preceitos do pensa- mento complexo, pois a adoção desse paradigma é fundamental para a compreen- são de alguns pontos aqui tratados e de sua inter-relação: (i) na caracterização do atual ecossistema da informação e comunicação; (ii) na constatação de que a utili-
zação de um modelo de dados, de maneira isolada, não atende às necessidades informacionais dos usuários; (iii) na justificativa de utilização de um modelo de dados baseado em grafos, em detrimento do convencional MER; e; (iv) no comportamento dos usuários na busca de informação musical.
O pensamento complexo leva a uma nova compreensão de mundo. Da mes- ma forma como visto por Nicolescu (1999b), Cordani (1995) já mencionava que:
Nossos padrões existenciais atuais não são sustentáveis, e nossas atitudes sócio-econômicas são perversas, se observarmos as diferenças de qualida- de de vida entre os países desenvolvidos e aqueles em desenvolvimento, que continuam aumentando. Parece evidente que acordos políticos e medi- das puramente econômicas têm pouca chance de sucesso neste mundo egoísta, em que nacionalismos, corporativismos, regionalismos, xenofobias acabam fazendo prevalecer interesses de minorias acima dos interesses públicos, comunitários, globais. Estamos vivendo numa época muito espe- cial da história das civilizações, quando nosso planeta está se aproximando de uma saturação.
Ainda segundo Cordani (1995, p. 16):
[...] uma sociedade global ideal, sustentável, apenas poderá ser alcançada se houver uma espécie de acordo social, baseado em princípios éticos, de solidariedade humana, intra e intergerações, incluindo-se aqui o planeja- mento cuidadoso para o bem-estar da humanidade, a longo prazo, para os próximos séculos.
Percebe-se aí os princípios do pensamento complexo de Morin (2003), que o define como “um modo de pensar, capaz de unir e solidarizar conhecimentos sepa- rados, capaz de se desdobrar em uma ética da união e da solidariedade entre hu- manos”.
Da mesma forma, Shirky (2011) não se serve de preceitos reducionistas ao perceber: (i) o surgimento de um novo modo de produção (a produção social); (ii) que, no atual ecossistema da informação e comunicação, as tecnologias, apesar de trazerem novas formas inovadoras de representação, não tiram o humano do centro do processo criativo; e (iii) que as pessoas gostam de compartilhar e colaborar uns com os outros. Assim partindo dessa compreensão, da inclusão do humano, de uma dimensão social, o atual ecossistema da informação e comunicação não poderia ser suficientemente compreendido pelo modelo mental cartesiano (MARIOTTI, 2000).
Como visto anteriormente (seção 2.3), um modelo de dados é um conjunto de ferramentas conceituais usadas para representar (modelar) entidades do mundo real
(SILBERSCHATZ et al., 1999). Da mesma forma, Chen (1976)85, ao propor o modelo
de dados do tipo entidade-relacionamento, já mencionava que “esse modelo incor- pora algumas das informações semânticas importantes sobre mundo real”. Caberia questionar aqui o que é “o mundo real”? Para o modelo cartesiano, “existe uma úni- ca realidade, que deve ser percebida da mesma forma por todos os homens. Hoje, porém, sabe-se que não existe percepção totalmente objetiva” (MARIOTTI, 2000). Nesse sentido, Maturana e Varela (apud MARIOTTI, 2000) afirmam que “a realidade é percebida por um dado indivíduo segundo a estrutura de seu organismo num dado momento. Essa estrutura muda sempre, de acordo com a interação do organismo com o meio”.
Se a realidade se mostra múltipla e é percebida de maneira diferente por dife- rentes indivíduos, sua melhor representação por modelos de dados se daria utilizan- do um modelo que permitisse maior flexibilidade. Viu-se (seção 2.3.1), no entanto, que a solução clássica para aumentar a flexibilidade do MER é computacionalmente custosa (MISHCRA e EICH,1992 apud RODRIGUEZ e NEUBAUER, 2010).
O processo de catalogação bibliográfica surgiu antes mesmo do aperfeiçoa- mento da imprensa86 e floresceu sob a égide do paradigma cartesiano, que se preo-
cupa em revelar a ordem do mundo e seu determinismo único e perfeito, onde, para a obtenção de conhecimento, havia uma necessidade de se ordenar os fenômenos, de selecionar, distinguir e diferenciar suas ambiguidades. Assim o ser humano vem organizando a informação: separando-a de seu contexto. Tal fato é corroborado por Coyle (2010), que identifica o isolamento do objeto informacional causado pelo pro- cesso tradicional de catalogação bibliográfica (via utilização do modelo FRBR por exemplo) , onde o objeto informacional, para ser catalogado, precisa ser “compreen- dido” em termos dos seus atributos; precisa ser “desmembrado” em um conjunto de características estruturadas.
85 Embora esse artigo tenha sido publicado há 30 anos, é tido como o 38º entre os artigos mais influ- entes na Ciência da Computação, de acordo com um levantamento feito entre 1.000 professores uni- versitários nessa área (LAPLANTE, 1996). É também, segundo o próprio autor (http://www.csc.lsu.edu/~chen/. Acesso em 30/10/2011.), o 35º artigo mais citado em Ciência da Computação e era, em janeiro de 2005, o 4º mais “baixado” da Biblioteca Digital da ACM.
86 “Historicamente, a primeira escrita a respeito da catalogação ou da relação de obras de uma cole- ção, apareceu na Biblioteca de Assurbanípal, em Assíria datando entre 668-626a.C. [...] Outra mani- festação digna de registro foi em Alexandria (260-240a.C.), onde Calímaco realizou, na Biblioteca de Alexandria, a primeira iniciativa para a organização de um catálogo metódico (BARBOSA, 1978).” - http://www8.fgv.br/bibliodata/geral/docs/2Hist%C3%B3ricodacataloga
Morin afirma:
Nossa civilização e, por conseguinte, nosso ensino privilegiaram a separa- ção em detrimento da ligação, e a análise em detrimento da síntese. Liga- ção e síntese continuam subdesenvolvidas. E isso, porque a separação e a acumulação sem ligar os conhecimentos são privilegiadas em detrimento da organização que liga os conhecimentos. Como nosso modo de conhecimen- to é pontilhado de heranças dos paradigmas anteriores, desune os objetos entre si. Precisamos conceber o que os une. Como ele isola os objetos de seu contexto natural e do conjunto do qual fazem parte, é uma necessidade cognitiva inserir um conhecimento particular em seu contexto e situá-lo em seu conjunto. De fato, a psicologia cognitiva demonstra que o conhecimento progride menos pela sofisticação, formalização e abstração dos conheci- mentos particulares do que, sobretudo, pela aptidão a integrar esses conhe- cimentos em seu contexto global. (MORIN, 2003, p.24)
Ou seja, para ele, esse processo de catalogação é somente parte do proces- so de organização do conhecimento e que é preciso conceber sistemas que unifi- quem e contextualizem a informação antes separada, e que este processo é circular e sem fim. Para Morin (2003, p. 24), a organização do conhecimento, realizada em função de princípios e regras:
[...] comporta operações de ligação (conjunção, inclusão, implicação) e de separação (diferenciação, oposição, seleção, exclusão). O processo é circu- lar, passando da separação à ligação, da ligação à separação, e, além dis- so, da análise à síntese, da síntese à análise. Ou seja: o conhecimento comporta, ao mesmo tempo, separação e ligação, análise e síntese [....] À luz do pensamento complexo, a organização do conhecimento implica em também expor objetos informacionais em um contexto mais amplo para que suas relações, entre o todo e suas partes, também sejam entendidas. O foco da cataloga- ção deve ser então tanto nas propriedades e atributos dos objetos informacionais quanto nas suas relações. A conversação entre os objetos é, assim, documentada e se torna relevante para os atuais usuários que, ao invés de uma pergunta pronta, desejam adquirir novos conhecimentos por meio de descoberta e exploração (COYLE, 2010).
Assim como o comportamento informacional dos usuários, as mais recentes tecnologias Web (como o Linked Data) estão se movimentando na direção de rela- cionar e conectar os “pedaços” de informação. Nesse sentido, tecnologias como Lin- ked Data e API Web seriam uma possível solução para, novamente, pela inserção de um conhecimento particular, “resituá-la em seu conjunto”.
De maneira análoga, é possível considerar que os elementos de ligação e sín- tese, mencionados por Morin, estariam reafirmados pelos resultados nos estudos de
usuário que demonstram que as melhores respostas às necessidades de informação musical são supridas por sistemas que consideram: (i) associações do usuário com as pessoas de seu relacionamento ou de sua confiança, (ii) situações vividas e (iii) informações extra-musicais (CRUZ, F. W., 2008), e naqueles outros estudos que sugerem que as relações sociais são essenciais para a busca por informações mu- sicais (CUNNINGHAM et al. 2007; LEE e DOWNIE, 2004; HYPEMACHINE, 2003; CRUZ, 2008).
Mesmo sendo o FRBR resultado de uma abordagem centrada no usuário, es- se modelo, isoladamente, não atende às necessidades de abrangência do conceito de objeto informacional musical e da visão complexa de organização do conheci- mento. A ideia aqui não é utilizar o modelo FRBR como o todo, mas sim como parte de um modelo de dados para uma BDM que integraria informações de contexto ori- undas de usuários das redes sociais, do projeto Linked Data e de API Web. Esta adaptação “remixagem” do modelo se aproximaria também da conceituação de co- mo se processa a organização do conhecimento à luz do pensamento complexo. O FRBR representaria as operações de separação (diferenciação, oposição, seleção, exclusão), e os estudos de Cunningham et al. (2007), Lee e Downie (2004), HYPEMACHINE (2003) e Cruz (2008), considerando ainda as observações de Coyle (2010), corroboram a necessidade das operações de ligação (conjunção, inclusão, implicação), constituindo assim o “processo circular, passando da separação à liga- ção, da ligação à separação, da análise à síntese, da síntese à análise”, conforme apresentado por Morin. Tais elementos se transformam, então, em requisitos fun- damentais para uma escolha correta de modelo de dados, pois qual melhor se ade- quaria à concepção de um modelo que distinga e ao mesmo tempo unifique a infor- mação? Tal modelo está inerentemente ligado à manipulação de dados de caracte- rísticas heterogêneas, considerados semi-estruturados, ou seja, dados que não são nem completamente não-estruturados nem estritamente tipados. Portanto, como a- firma Mello et al. (2000):
Modelos de dados para banco de dados tradicionais não são adequados a dados semi-estruturados, uma vez que todas as ocorrências de dados de- vem apresentar a mesma estrutura. Assim, modelos de dados para dados semi-estruturados devem ser flexíveis no sentido de suportar representa- ções heterogêneas de dados semanticamente iguais.
A forma mais usual de modelar dados semi-estruturados é através de grafos direcionados rotulados, onde os vértices representam objetos identificáveis e as arestas são arcos para outros objetos que fazem parte da sua estrutu-
ra, que é hierárquica.
Portanto, justifica-se a utilização de um modelo de dados baseado em grafos na construção de um experimento, conforme será detalhado no próximo capítulo, para responder a questão de pesquisa apresentada.